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sexta-feira, 19 de julho de 2013

Torah Regressa a Trancoso


O Rolo da Torah (Sefer Torah) regressa no domingo a Trancoso, mais de 500 anos após a expulsão dos judeus de Portugal, anunciou hoje a Câmara Municipal local.

Segundo a autarquia presidida por Júlio Sarmento, o Sefer Torah volta a existir em Trancoso "após a expulsão dos judeus decretada pelo rei D. Manuel I, em 1496, e posterior conversão forçada e a ação da Inquisição que dizimou a comunidade judaica trancosense de então".
O manuscrito será entregue, no domingo, pelas 10:00, durante uma cerimónia a realizar no âmbito do Seminário de Estudo e Reflexão Para Bnei Anusim "O Ciclo do Ano Judaico no Pensamento e na Lei Judaica", que hoje começa naquela cidade do distrito da Guarda.
A autarquia adianta que o Rolo da Lei Judaica será acolhido no espaço da Sinagoga Bet Mayim Hayim, localizado no Centro de Interpretação da Cultura Judaica Isaac Cardoso, no centro da antiga judiaria de Trancoso, construído por iniciativa da autarquia.

Fonte: Diário de Notícias online

sábado, 13 de julho de 2013

Os Judeus em Trancoso - Sefarad




Visto em : Por Terras de Sefarad

sábado, 25 de maio de 2013

Na Rota da Felicidade




A Bíblia diz, no capítulo dois do  livro de Eclesiastes, que "a sabedoria é mais excelente que a estultícia, quanto a luz é mais excelente que as trevas", diz também, no mesmo capítulo dois,  que "ao homem que é bom diante dEle dá Deus sabedoria, conhecimento e alegria".
 Mas afinal que homem é bom perante Deus, para que alcance a sabedoria e o conhecimento diante dEle ? Entende-se  como "bom", na leitura de Eclesiastes, não apenas aquele que alcança muito conhecimento, muito sucesso profissional, muita capacidade humana neste ou naquele sector da vida apenas porque estudou muito. Aliás, homens sábios e bons existiram, e existem em todas as culturas e geografias, em todos os tempos, sem que para isso tenha sido necessário atingirem qualquer patamar de sucesso social. Um homem, ou uma mulher, "bons" e "sábios", são aqueles que se conhecem a si próprios, à sua  natureza humana, aos seus anseios e  limites  e têm, dos seus semelhantes e do mundo dos homens e das coisas um conhecimento equivalente e proporcional ao que têm de si próprios sem que tenha sido necessário,  porventura,  aprender tudo isso numa qualquer universidade. 
Eclesiastes diz também que a alegria do homem está relacionada com a sabedoria e o conhecimento.
 Para sermos felizes temos que nos entender em todas as dimensões e, ao homem moderno, tem-lhe faltado olhar e perceber a sua dimensão e filiação divina; sem isso, por muito "bom" que se seja, nunca se está completo, nem nunca se pode perceber, por inteiro, o mundo dos homens e das coisas. Sem o espírito divino em nós nunca estaremos reconciliados com a autenticidade do projecto maior que nos está cometido, nem estaremos irmanados neste destino comum que nos juntou aqui à face da terra, homens de todas as cores, raças e culturas. Sabedoria e felicidade serão então, de acordo com a Palavra de Deus, um dom ao alcance apenas dos que realizam esta globalidade em si mesmos dentro de uma totalidade física e espiritual. Só isso nos pode trazer a felicidade, porque só isso nos voltará a integrar dentro dos planos de Deus e  porque só assim poderemos  perceber o mundo, os homens e as coisas que nos acontecem. 


Jacinto Lourenço

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Pousios da Vida




Às vezes precisamos de silêncio e de breves  isolamentos  para olharmos mais além, por cima do cercado dos problemas que se levantam à volta, para percebermos que tudo tem um propósito e de tudo se retiram lições de vida.  Hoje lembrei-me de Elias e do quanto ele aprendeu em solidão e isolamento visitado apenas por umas aves, conotadas normalmente com imagens pouco positivas, longe de tudo e de todos, mas contando com o olhar de Deus a repousar sobre si e a conduzir a sua vida. Sim, o silêncio e o breve isolamento que nos afaste dos contextos habituais  podem ser fundamentais para o nosso trajecto pessoal e cristão.

Jacinto Lourenço

quinta-feira, 21 de março de 2013

Somos um Sopro...


...Somos uma folha de papel, somos um sopro.
Aquelas merdices que nos dão voltas na cabeça, que nos consomem, não têm qualquer valor.
Haveremos de  arrepender-nos de cada uma delas . A derrapagem de um pneu na estrada ou qualquer outro acaso banal irá abrir-nos os olhos para uma realidade maior. Então, iremos surpreender-nos com aquilo que, afinal, sempre soubemos que iria ser assim. Já lemos em livros, vimos em filmes, ouvimos em canções, fomos avisados mil vezes e, no entanto, precisamos que aconteça. Mesmo. Já vem na nossa direcção. Quando esse instante chegar, haverá verdades que se tornarão únicas e talvez nos admiremos por termos sido capazes de as ignorar com tanta força.

José Luis Peixoto in Visão - 14/03/2013




Estava a ler  um texto do José Luis Peixoto, consagrado escritor português, por sinal alentejano, e retirei o trecho que aqui publico. Ao mesmo tempo vieram  à minha memória  várias passagens bíblicas. De entre elas, seleccionei esta: Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã; porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal. ( Mateus 6:34). Depois pensei que este versículo não nos incita ao desleixo com a nossa vida ou à ausência de  planeamento, mas sim a não deixarmos que os problemas nos dominem de tal maneira que percamos a noção sobre quão valiosa é a  vida para a desperdiçarmos em coisas menores, mesquinhas, na maioria dos casos. Encarar os problemas e aborrecimentos  não significa que eles tenham que nos esmagar a tal ponto que deixemos de poder olhar para Aquele que é tudo em nós e que tem a solução do que nos parece insolúvel. Sim, somos um sopro, e nisto José Luis Peixoto concorda com o Salmista: O homem é semelhante a um sopro; os seus dias são como a sombra que passa. ( Salmos 144:4 ).                                                                        
O desafio, como conclui aliás José Luis Peixoto, é vivermos a nossa vida sem que ela se constitua, diariamente, num fardo de difícil transporte. Não foi esse o projecto divino para nós. Não é isso que Deus deseja.

Jacinto Lourenço

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

As Lágrimas de Boabdil...





[ A rendição de  Granada ]

...O Al-Andalus desaparecia para sempre perante o olhar triste e inconformado do rei Abu Abd Allah Muhammad XII, conhecido por Boabdil (último rei de Granada), que ao tomar consciência de ter perdido a sua jóia, não se conteve, e terá derramado lágrimas na hora de sua partida para o exílio.
Três credos e um mesmo Deus coabitavam em Espanha desde há muitos séculos, cristãos, judeus e muçulmanos viviam nas mesmas povoações e cidades, fazendo o comércio, discutindo entre si textos clássicos sobre medicina, poesia ou literatura.
Porém, algo iria mudar radicalmente no quotidiano referente às duas minorias religiosas (principalmente em relação aos judeus), exemplo disso mesmo foram os massacres ocorridos contra muitas das comunas judaicas no verão de 1391, como Sevilha, Córdoba, Toledo, Valência, Palma de Maiorca ou em regiões de Aragão e Catalunha, onde centenas de milhares de pessoas foram assassinadas ou convertidas à força, consequência de uma crise política interna, ampliada pelos discursos inflamados de pregadores locais, entre eles o famoso dominicano Vicente Ferrer.[...]

( Matança de judeus em Barcelona - ano de 1391 )

Se porventura o ano de 1492 é considerado como um ano de "glória" da antiga Hispânia, já numa perspectiva mais critica podemos considerar que foi o ano em que a Espanha deu um passo atrás. Sefarad e todo o seu legado deixou de existir, envolvido incomensuravelmente pelas nuvens sombrias da intolerância, do medo, da repressão e do empobrecimento de toda uma nação (a nível cultural e económico), algo que se vai passar de forma semelhante no reino de Portugal quatro anos depois. [...]

Ler texto integral AQUI no blogue Por Terras de Sefarad

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Salomão e as Equações dos Dias




A vida é feita de intermitências, qual Código Morse não obedece a um projecto rígido ao contrário daquilo que tantas vezes se imagina. Não é uma coisa plana, a vida, e pode até ser feita de íngremes e complicadas subidas e, antes que cheguemos ao topo, descambar numa repentina, perigosa e acidentada descida. Por muito bem que a desenhemos e projectemos, tais projectos podem  acabar no cesto dos papéis, rasgados e amarfanhados. A melhor ciência que possamos escolher para delinear os dias da nossa vida, nada pode face à  imponderabilidade em que ela sempre se moverá. A vida é afinal uma equação com muitas incógnitas, e nem nós sabemos quantas pois uma sucede a outra e  ao valor do "x"  ou do "y"  acrescem potências, radicais e tudo o mais que desafia a nossa inteligência e capacidade de adaptação e superação. Talvez porque a vida é assim, e sempre foi assim em todos os séculos que já foram vividos por pessoas, como nós, mas  com outras visões, culturas e contextos históricos e sociológicos, é que o nosso pedido a Deus,  para podermos viver esta vida, a vida que nos foi oferecida, devia ser como o pedido que Salomão fez: sabedoria, Senhor, sabedoria é o que eu quero Senhor. Sabedoria para poder discernir o coração dos homens e de Deus, e as coisas complicadas que a equação dos dias nos põe à frente e perante as quais nos sentimos meninos incapazes de encontrar o valor das incógnitas que se ocultam de nós.

E de que serviria  saber  o resultado final da equação da vida se não tivéssemos  sabedoria para descobrir os caminhos  por onde se chegasse  lá ?  É por isso pertinente e relevante o pedido de Salomão: sabedoria para viver e descobrir os caminhos com que as equações  da vida o confrontavam.

Tanta coisa para pedir e o novo rei pediu apenas  sabedoria. E foi sábio, Salomão, enquanto viveu dessa sabedoria que lhe deu Deus. Resolveu equações de grau elevado de dificuldade a contento do seu reino e da sua vida. E nunca deixou de ter sabedoria, Salomão, enquanto teve a sabedoria que pedira a Deus.                                                                                                                                    

Um dia Salomão descobriu que tinha perdido a sabedoria e  não mais foi capaz de resolver equações. Já não tinha ciência para tanto. O seu reino, a sua vida, tornaram-se-lhe  um labirinto onde já não encontrava saída. A descida, no seu percurso pessoal, foi acidentada, vertiginosa, penosa e dolorosa. Sem a sabedoria que pedira a Deus, o projecto de vida de Salomão, foi parar ao cesto dos papéis amarfanhados e rasgados da história.

Jacinto Lourenço 

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013




Português nascido em Lisboa.
Judeu por linhagem. Por coragem.
Estadista e Financeiro. Comentador Bíblico e Filósofo.



Na belíssima exposição organizada, em 2009, pelo Museu de Arte Antiga à volta do tema “Portugal e o Mundo no séc. XVI e XVII”, em lugar de destaque, “ Os Painéis do Infante”.  Nuno Gonçalves, seu presumível autor, pintor régio de D. Afonso V, deve ter falecido no fim do séc. XV, talvez em 1492. Pouco conhecemos da sua vida e os Painéis encerram muitos mistérios. De certo, sabemos que o Rei o nomeia para esse cargo, em 1450, e que em 1470 é distinguido com a honra de Cavaleiro da Casa Real.   Ainda por provar que seja ele o autor da referida obra. Ainda por identificar as pessoas nela representadas.Ajoelhado está o Rei D. Afonso V ou D. João II? O adolescente será o Príncipe D. João, futuro D. João II ou o seu filho bastardo, D. Jorge?

Na sexta tábua, no Painel da Relíquia quem retrata o vulto austero e majestoso de negro vestido? Um Judeu? Provavelmente, se tivermos em conta “o sinal vermelho de seis pernas, no peito acima do estômago”, sinal identificador desta minoria, cujo uso a Lei Joanina de 1429 [1] tornara uma vez mais obrigatório, bem como os caracteres que se assemelham à escrita hebraica “comentários que correm ao longo das margens parecendo sugerir a prática talmúdica da interpretação e comentário da Escritura”[2]. De acordo com o parecer de Nuno Guerreiro, a chave para decifrar o Judaísmo desta figura que nos Painéis representa a alegoria do Rigor, está na forma como o livro que tem nas mãos está a ser manuseado: aberto da esquerda para a direita. Com efeito os livros hebraicos são abertos desta forma e lidos em ordem inversa.                   
A conotação judaica desta figura de ar severo é também afirmada por Joaquim de Vasconcelos que no Comércio do Porto de 28 de Julho de 1892, a ela se refere: “aponta com gesto arrogante, todo ele vaidoso, enfatuado na sua sabedoria de Rabino para um livro de confusos caracteres fantasiados. É bem o tipo de Sinagoga militante”.[1] Se os Painéis atribuídos ao pintor régio, Nuno Gonçalves, realmente lhe pertencem, se o Rei retratado é D. Afonso V, se a figura majestosa e severa representando a alegoria do Rigor é um Judeu, esse Judeu pode efectivamente ser Isaac Abravanel. “Os historiadores brasileiros, Guilherme Faiguenboim, Paulo Valadares e Anna Rosa, (…) no Dicionário Sefaradi dos Sobrenomes (Frahia, São Paulo 2003) (…) afirmam que este judeu nos Painéis de Nuno Gonçalves pode muito bem ser D. Isaac Abravanel um dos mais ilustres judeus portugueses do séc. XV, estadista, líder da comunidade judaica ibérica, filósofo e rabino cabalista nascido em Lisboa, cujos escritos são ainda hoje estudados”[1]
Alguém que usufruía da completa confiança do Rei: “quanto me era deleitoso viver à sombra dele. (…) Enquanto viveu pude sempre entrar no palácio real e sair à vontade”.[2]

Falando de si próprio dizia Isaac Abravanel: 

“Contente vivia eu em Lisboa, minha pátria e capital formosa do Reino de Portugal na posse de bens da rica herança paterna, em casa cheia de bênçãos de Deus. 
Tinha-me o Senhor concedido felicidade, riqueza e amigos. 
Mandei construir casas para a minha habitação e sumptuosas galerias. A elas concorriam os sábios e de lá se espalhava a ciência e o temor a Deus. 
Então era eu querido no palácio do Rei D. Afonso, aquele poderoso soberano cujos domínios se estendiam por dois mares, feliz em todas as suas empresas, justo, benigno, temente a Deus que evitava o mal e promovia o bem do seu povo e dispensava em seu governo liberdade e protecção aos Judeus”.[3]

Neste excerto, creio podermos destacar quatro pontos essenciais: 
- A importância da sua própria casa como núcleo de cultura e de fé (“de lá se espalhava a ciência e o temor a Deus”). 
- O reconhecimento da fé de D. Afonso V (“temente a Deus”). 
- O seu sentimento de pertença a uma cidade, Lisboa, (“minha pátria”). 
- A benignidade com que o Rei tratava o seu Povo (“dispensava em seu governo liberdade e protecção aos Judeus”). Segundo afirmava descendia do Rei David. Não é possível recuar tanto na sua genealogia mas encontrámos referências a Joseph Abravanel, colector de impostos de D. Afonso X de Castela e Leão, (1252-1284), Rei que em Toledo, reuniu à sua volta tradutores cristãos, judeus e muçulmanos incumbidos de verter para o Latim e para o Romance, obras da Antiguidade guardadas pelos sábios do Islão. Textos desta Escola de Tradutores vieram a ser objecto de estudo em universidades medievais como Bolonha, Oxford, Paris, Salamanca, Coimbra. “Este monarcha pelo seu dedicado amor às ciências e às letras, que cultivou com singular aptidão, mereceu que a posteridade o cognominasse de “Sábio”. Dadas as suas tendências não é de extranhar vê-lo estender a mão protectora aos judeus, que tanto se haviam assignalado em mais de um ramo do saber humano. A nação proscripta encontrou nele um verdadeiro Mecenas. Chamando para junto de si os mais notáveis, o Rei artista veiu a ter nelles poderosos auxiliares para os seus trabalhos (…) Toledo tornou-se o foco dos estudos; abriram-se de novo as synagogas, onde os rabbinos explicavam tranquillamente ao povo a lettra da lei: erigiram-se cadeiras de hebreu; construíram-se judiarias; Platão e Aristóteles, Avicena e Euclides foram vulgarizados graças a esta effervescencia de estudos, que D. Afonso X animava corajosamente. Philosofhos e astrónomos, gramáticos e historiadores assignaláram distincta e notavelmente este período da sua história”.[1] [...]


Fonte: Por Terras de Sefarad

Ler texto integral AQUI

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Quantos pobres são Necessários para se Produzir um Rico?



«E eu pergunto aos economistas, políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico?»

Almeida Garret

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

O Fim de Um Mundo na Visão de José Mattoso


...Para os primeiros cristãos, esta exclamação ["Ora vem Senhor Jesus"] pressupunha que a segunda vinda de Jesus Cristo, depois da sua morte e ressurreição, estava já próxima. O que se pedia então não era um encontro espiritual com Jesus, mas a sua vinda efectiva, visível, como juiz supremo da humanidade, para separar os bons dos maus e instaurar no mundo o Reino de Deus. A sua vinda cósmica encerraria o tempo do mundo. Seria precedida ou acompanhada de acontecimentos catastróficos que abalariam todo o Universo e permitiriam o triunfo definitivo dos justos sobre os pecadores. O "Vem Senhor Jesus" não é, portanto, na sua origem, um chamamento místico, mas um clamor apocalíptico. É um grito de apelo, da parte de quem não receia o fim do mundo, antes o deseja ardentemente. Nesse contexto, o fim do mundo invoca-se, chama-se, se possível apressa-se, mesmo que traga o sofrimento e a morte, porque a situação que faz soltar esse grito se considera pior que tudo. Contém um sentimento de que a injustiça, a crueldade e a violência que invadiram o mundo inteiro são insuportáveis. Deseja-se que o tempo da iniquidade e do terror acabe de vez e para sempre.

Mas para os cristãos de há quarenta anos os pressupostos eram bem diferentes. Como recordam, decerto, os mais velhos aqui presentes, eram anos cheios de esperança ( os mais cépticos dirão: cheios de ilusões ). Muitos de nós julgávamos, com toda a sinceridade, que tínhamos chegado ao limiar de um mundo mais justo e mais fraterno. Esperávamos também, simbolicamente, os que éramos cristãos, a vinda próxima do Reino de Deus, mas queríamo-lo na terra, para nela instaurar uma era liberta da opressão e da injustiça. 

Começo as minhas considerações de hoje a dois momentos históricos tão distantes entre si - o do princípio da era cristã e o dos anos sessenta deste século - para mostrar que, na passagem do segundo para o terceiro milénio, em que hoje nos encontramos, se perderam as ilusões acerca da proximidade de um mundo melhor ou até de ele algum dia se poder implantar na terra. Hoje ninguém mais deseja a vinda do Reino de Deus. Perdemos a esperança. Não esperamos coisa alguma depois da catástrofe irreparável que parece aproximar-se da humanidade. Os cristãos construiram uma das religiões mais espalhadas sobre a terra. O seu sentimento optimista perante o fim do mundo resultava da convicção profunda de que os males da humanidade tinham conduzido os homens a uma perversidade tal que só podia provocar a intervenção divina para eliminar o mal e purificar a terra por meio da destruição. Mas depois viria o Reino de Deus. 

Depois das esperanças de liberdade, de justiça, de democracia, de vitória sobre a exploração do homem sobre o homem que nos animaram nos anos sessenta, e que nos nossos dias se dissiparam, voltou para muitos o sentimento da proximidade do fim dos tempos, mas não a esperança de um mundo melhor. Assiste-se a uma proliferação de catástrofes naturais e à dissolução dos fundamentos da sociedade. Não sabemos mais como restaurar a ordem e a segurança. Não desapareceu o espectro da bomba atómica que aterrorizou tanta gente depois da Segunda Guerra Mundial, e agravou-se a ameaça, a médio ou a longo prazo, de um imenso desastre ecológico. Penetram por toda a parte, até, por vezes, no nosso espaço doméstico, dois espectro não menos pavorosos - o da Sida e o da Toxicodepedência - com o seu cortejo de  miséria e humilhação. De consequências ainda mais vastas é o agravamento do fosso que separa os pobres dos ricos, por causa da globalização da economia e da irresponsabilidade da alta finança.  Afastou-se da nossa mente a imagem  do fim do mundo como destruição física da terra pelo fogo, mas vemos acumularem-se os riscos do caos social e do descontrolo global da natureza. [...] Não podemos imaginar nenhum milénio que arranque o poder discricionário aos senhores deste mundo, como pensavam outrora os milenaristas que punham nele as suas esperanças , porque sabemos pela TV e os jornais que o peso dos terramotos, tsunamis e tornados recai sobre os indefesos, os oprimidos, os excluídos e os pobres, e não sobre os ricos. O que desejamos é estar do lado destes e não daqueles. O que perguntamos é se podemos continuar a ter o nosso carro e os nossos electrodomésticos. O futuro milénio não traz a esperança, mas o medo de uma luta implacável por bens escassos ou mal repartidos: por agora o dinheiro; dentro em breve, provavelmente, a gasolina, a energia eléctrica, a água, o ar despoluído, os lugares menos ameaçados pelas cheias, a carne dos animais sem vírus, os legumes sem pesticidas, os alimentos conservados sem aditivos, as árvores poupadas pelos incêndios[...].

Tal como o Apocalipse de outrora, também este resulta , em última análise, de uma crise de valores. Pedimos a segurança garantida pela polícia, a qualidade dos produtos vigiada pelos inspectores económicos, a disciplina dos alunos nas escolas, mas esquecemos que o recurso à polícia, aos inspectores e aos professores resulta de se ter  generalizado o desprezo pelos valores fundamentais em que se baseia a ordem social e pelos ditames da consciência. As convicções morais são impotentes para combater os interesses das empresas destruidoras dos recursos naturais e os fabricantes de produtos industriais cuja nocividade ninguém pode controlar. Ninguém quer renunciar ao conforto e ao consumo. Nenhuma empresa que limitar os seus lucros[...]. Secularizada a moral, apela-se à ética e à cidadania, mas não se consegue restaurar o carácter absoluto dos ditames  da consciência que era garantido pelo carácter sagrado dos seus preceitos. Não falámos ainda da dissolução da família. Há um novo conceito de família, mas os antigos modelos não foram substituídos por novas células capazes de enquadrar adultos e crianças com a mesma eficácia que a família de outrora; da ausência de critérios morais na experimentação e utilização das novas tecnologias, nomeadamente na genética; do fim da moral sexual; do terrorismo urbano; da corrupção das ditaduras africanas; dos genocídios; da inoperância das deontologias profissionais; do uso alienante do marketing económico e político; das distorções do sistema educativo; da lentidão do sistema judicial; da fraude política e económica; da programação televisiva reduzida aos mais baixos patamares da vulgaridade. A lista é quase infindável.

O rosário das perversões tem, nos nossos dias, algo de peculiar por comparação com crises análogas de outros tempos. Nestas podia haver infracções generalizadas dos valores morais mas não a dúvida ou o desprezo pelos valores em si mesmos; houve lutas entre sistemas de valores opostos, mas não descrença na sua necessidade. Num mundo compartimentado, com poucos contactos entre povos e nações, as crises eram limitadas. Não há memória de uma crise universal. Mas a globalização não multiplicou a prosperidade. Propagou a violência implacável da oposição de interesses. Com ela, generalizou-se também o desprezo pelos códigos e referências morais socialmente aceites. Desaparecidas as doutrinas que as sustentavam, surgiu a dúvida acerca dos seus fundamentos. Quem fala, hoje, em bem, beleza, justiça, solidariedade, bem comum, autoridade, humanismo ? E se alguém fala de tais valores, quem se deixa persuadir por tais discursos ? Muito pelo contrário: julga-se que quem maios invoca esses ideais é quem menos acredita neles.

Prof. José Mattoso

Do livro Levantar o Céu - os Labirintos da Sabedoria, págs. 26-31, edição Círculo de Leitores.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Radicalismo Islâmico Continua a Matar


A Nigéria divide-se, grosso modo, em duas grandes facções religiosas: Islâmicos a norte, cristãos a sul. Porém, tanto a norte como a sul existem  comunidades de uma e outra fé que estão incrustadas em território  "hostil". Não sei se alguns ditos "cristãos" já atacaram  grupos islâmicos minoritários mas,  se atacaram,  isso não teve eco nos meios de comunicação social ocidentais. O que sei, leio e ouço é que na Nigéria, quase todos os meses, senão mesmo  quase todas as semanas, islâmicos atacam os cristãos e as suas igrejas e lugares de culto provocando dezenas ou centenas de mortos entre estes últimos, como aconteceu, por estes dias, em que morreram cerca de trinta cristãos em ataques de grupos de radicais islâmicos.

Sou cristão, mas isso não quer dizer que seja anti-muçulmano. Julgo que a fé é alguma coisa que tem que ser vivida intimamente e, se alguma contestação deve merecer, deverá sê-lo apenas ao nível dos questionamentos espirituais, eclesiais, teológicos e doutrinários  intrínsecos. Não discutos religiões no plano dos dogmatismos fanáticos irrevogáveis. De resto, estou disposto a questionar e discutir qualquer religião que se tenha construido à volta de uma fé questionável. É por isso que acho que qualquer religião que se afaste do paradigma da religião que se ergue dos relacionamentos biunívocos entre o homem e Deus, deve ser seriamente questionada e posta em causa, mais do que qualquer outra. Uma "religião", como a que os radicais islâmicos advogam e praticam, escapa a todos os silogismos de qualquer fé, porque parte de uma premissa menor em que a morte violenta e criminosa é assumida como se fosse fundamental requisito de Alá para o desenvolvimento ou imposição do islamismo nas sociedades. Deus, que criou a vida, e  "viu que isso era bom", criou o homem e "viu que isso era muito bom". Nenhuma fé, nenhuma religião que cresça do tronco Divino, pode invocar o nome  de Deus para validar as matanças que esteja a realizar. Deus, não só não o deseja como o reprova e condena.

Ao que tudo indica, as últimas dezenas de mortes de cristãos  na Nigéria foram cometidas por um grupo de radicais islâmicos intitulados "Boko Haram" que, em tradução livre, quer dizer mais ou menos: "educação islâmica não é pecado". Mas matar seres humanos, seja em nome de que religião for, isso sim, é pecado grave porque atenta contra os homens e Deus e fere de indignidade qualquer ser humano que o faça ou governo que o permita ou não tente, pelo menos,  impedir.

Jacinto Lourenço

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Gregos e Judeus - Uma Herança Universal de Génio, Sabedoria e Fé


Ontem, os telejornais da noite mostraram uma cena de pancadaria ocorrida no interior de um estúdio de uma televisão grega a meio de um debate político em directo e entre  representantes de alguns partidos de esquerda e direita. Ocorreu-me então este texto das Memórias da Segunda Guerra Mundial, de  Winston Churchill, que acabei de ler. Já passaram umas décadas desde que o antigo primeiro-ministro britânico o escreveu, mas parece ter sido redigido  agora:

Os gregos rivalizam com os judeus como a raça mais política que existe no mundo. Por mais desesperadas que sejam as circunstâncias ou por mais grave que seja o perigo que o país corre, isso não os impede de se manterem divididos numa pletora de partidos, com muitos líderes a lutarem entre si com vigor desesperado.

Diz-se, e muito bem, que onde quer que haja três judeus, encontrar-se-á sempre dois primeiro-ministros e um líder da oposição. O mesmo é verdade para aqueloutra famosa e antiga raça, cuja tempestuosa e interminável luta pela vida já vem desde os princípios do pensamento humano. Não há outras duas raças que tenham deixado marca mais profunda no mundo. Ambas mostraram uma capacidade de sobrevivência, apesar dos incontáveis perigos e sofrimentos causados por opressores externos, só igualada pelos seus próprios  intermináveis feudos, querelas e convulsões internas.


A passagem de vários milhares de anos não alterou de modo algum as características de cada um destes povos nem diminuiu as suas provações ou vitalidade.
Sobreviveram, apesar de tudo o que o mundo fez contra eles, e o que eles fizeram contra si próprios.  Cada um à sua maneira tão diferente deixou-nos a herança do seu génio e sabedoria. Nenhuma outra cidade foi tão importante para a humanidade como o foram Atenas e Jerusalém. As mensagens que nos transmitiram em termos de religião, filosofia e arte têm sido as principais luzes que guiam a fé e a cultura modernas. Séculos de domínio estrangeiro e indescritível e interminável opressão não os aniquilaram nem os transformaram; no mundo moderno, continuam a ser forças vivas, comunidades activas, onde as querelas internas perduram com vivacidade insaciável. Pessoalmente, sempre estive do lado de ambos e sempre acreditei na indestrutibilidade daquelas duas raças que,  penso,  sobreviverão sempre às lutas internas que as caracterizam e às forças do mundo que ameaçam a sua extinção. [...]

Winston Churchill

in Memórias da Segunda Guerra Mundial, pág. 931. Ed. Texto 

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Portugueses no Holocausto



Lançamento do Livro "Portugueses no Holocausto - Histórias das vítimas dos campos de concentração, dos cônsules que salvaram vidas e dos resistentes que lutaram contra o nazismo", de Esther Mucznik. (Esfera dos Livros)


Sinopse:
Baruch Leão Lopes de Laguna, um dos grandes pintores da escola holandesa do século XIX, judeu de origem portuguesa, morreu em 1943 no campo de concentração de Auschwitz. Não foi o único, com ele desapareceram 4 mil judeus de origem portuguesa na Holanda, que acabaram nas câmaras de gás. No memorial do campo de Bergen-Belsen consta o nome de 21 portugueses deportados de Salónica, entre estes Porper Colomar e Richard Lopes que não sobreviveram. Em França, José Brito Mendes arrisca a sua vida, escondendo a pequena Cecile, cujos pais judeus são deportados para os campos da morte. Uma história de coragem e humanismo no meio da atrocidade. Em Viena, a infanta Maria Adelaide de Bragança também não ficou indiferente ao sofrimento, e não hesitou em ajudar a resistência nomeadamente no cuidado dos feridos, no transporte de armas e mantimentos, tendo sido presa pela Gestapo. Esther Mucznik traz-nos um livro absolutamente original, baseado numa investigação profunda e cuidada em que nos conta a história que faltava contar sobre a posição de Portugal durante a Segunda Guerra Mundial.

Autora:
Esther Mucznik viveu em Israel e em Paris onde estudou, respectivamente, Língua e Cultura Hebraicas e Sociologia na Sorbonne. É membro da direcção da Comunidade Israelita de Lisboa (CIL) e sua vice-presidente desde 2000. Fundadora da Associação Portuguesa de Estudos Judaicos e membro dos seus corpos dirigentes, é ainda redactora da Revista de Estudos Judaicos. Coordenadora da Comissão Instaladora do Museu Judaico e membro da coordenação do Itinerário Europeu do Património Judaico, sendo cofundadora da Associação Universos, Associação para o Diálogo Inter-Religioso e do Fórum Abraâmico de Portugal.


Via Eterna Sefarad

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Ser Conduzido pela Fé




...Podemos ter uma atitude política, tentar intervir na realidade. Mas, se não formos conduzidos pela fé, o realismo leva-nos a desistir. O cristão tem possibilidade de se livrar dessa fatalidade na sua relação com o céu. Na metáfora que utilizo, levantar o céu, é trazer a terra ao encontro do céu. 
Aí, não estamos sós. Temos a intervenção de Deus, temos a fé na redenção, no perdão dos pecados, no valor do sofrimento, na abnegação, na bondade... Temos também a fé na cultura, na inspiração extraordinária dos grandes artistas, que alcançam níveis fantásticos de captação da bondade, da beleza do mundo. E temos a renovação constante da vida: se há um incêndio numa mata, vemos daí a pouco aparecerem as flores, as ervas. A vida não desiste de se reproduzir, de envolver a realidade.[...]


José Mattoso in Jornal Público

quinta-feira, 19 de abril de 2012

O Massacre de Lisboa - 19 de Abril de 1506



Lisboa, Convento de S. Domingos, 19 de Abril de 1506, domingo de Pascoela cristã, três horas da tarde. A peste assolava a capital desde Outubro do ano anterior, situação dramaticamente ampliada pela seca e pela fome. O rei D. Manuel I refugiara-se em Abrantes. As ruas exibiam os horrores da tragédia. O convento estava repleto de desesperados cristãos – velhos e novos – esperando um sinal divino que acudisse àqueles que não tinham posses ou condições de fuga. Constava que um milagre se manifestara no dia 15 desse mês naquele templo dominicano. A vontade de crer era demasiado forte para descrer em qualquer sinal, por pequeno ou inacreditável que fosse.

O sinal implorado com toda a convicção repetiu-se. Uma luz brilhou, incandescente, no crucifixo da capela da Igreja. Todos viram. Todos rejubilaram. Todos se sentiram recompensados pela crença profunda e sincera. Todos? Não. Na verdade, houve um que ousou duvidar da natureza divina da luz. Segundo ele, a luz provinha de uma das muitas candeias acesas naquele convento. Era um cristão-novo: heresia!
A situação criada com o baptismo forçado, em 1497, era explosiva. Qualquer sinal de hipotético judaísmo poderia gerar a animosidade cristã. Na verdade, cristão-novo – converso convicto ou não – permanecia eternamente judeu aos olhos da população maioritariamente cristã. Foi nesta conjuntura, favorável ao anti-judaísmo, que o citado cristão-novo cometeu a imprevidência. Mal proferiu a contraproducente «blasfémia», o povo caiu sobre ele, arrastou-o para a rua e agrediu-o barbaramente até cair inanimado. Prostrado no Largo de S. Domingos, foi identificado pelo irmão, que se debruçou sobre o seu cadáver e gritou lancinantemente: «Quem matou meu irmão?!». Acto contínuo, foi igualmente executado pela turba, que, de pronto, acendeu uma fogueira e queimou os dois infelizes cristãos-novos. Num clima de intolerância crescente, surgiu um frade que proferiu um inflamado sermão anti-judaico, enquanto o povo se aglomerava em torno da «redentora» fogueira, aos quais se juntariam mais dois frades dominicanos, Frei João Mocho e Frei Bernardo, exibindo o crucifixo «milagreiro» e fazendo apelos sanguinários contra os judeus: «Heresia! Heresia! Destruam o povo abominável!…».

E assim se espalhou o povo pelas ruas de Lisboa, procurando cristãos-novos que passavam desprevenidos, forçando a entrada nas suas casas, capturando aqueles que se haviam recolhido nas igrejas, carregando mortos e vivos para as fogueiras que se acendiam na capital. Foram três dias de terror, pilhagem e carnificina, de que resultariam, de acordo com os cronistas coevos, entre dois e quatro mil mortos.
O cronista Damião de Góis relatou assim este horroroso episódio:

“A esta turma de maus homens e dos frades, que sem temor de Deus andavam pelas ruas, concitando o povo a esta tamanha crueldade, se ajuntaram mais de mil homens da terra, da qualidade dos outros, que todos juntos a segunda-feira continuaram nesta maldade com mor crueza e, por já nas ruas não acharem nenhuns cristãos-novos, foram cometer, com vaivéns e escadas, as casas em que viviam, ou onde sabiam que estavam e, tirando-os delas a rasto pelas ruas, com seus filhos, mulheres e filhos, os lançavam, de mistura vivos e mortos nas fogueiras, sem nenhuma piedade e era tamanha a crueza que até nos meninos e nas crianças que estavam no berço a executavam, tomando-os pelas pernas fendendo-os em pedaços e esborrachando-os de arremesso nas paredes”.


Embora tardiamente, o rei castigou duramente o povo de Lisboa: sentenciou os responsáveis pela chacina a penas corporais e à perda dos seus bens a favor da Coroa; mesmo os que não tivessem participado no massacre e no saque perderiam um quinto dos seus bens; suspendeu a eleição dos representantes da Casa dos Vinte Quatro e dos seus quatro representantes à vereação municipal lisboeta; retirou as honrarias da cidade; mandou executar cerca de meia centena de amotinados e os dois frades dominicanos, frei João Mocho e frei Bernardo, verdadeiros instigadores do massacre.

Jorge Martins

Historiador


Fonte: Por Terras de Sefarad

terça-feira, 17 de abril de 2012

Secularização e Fé


A pergunta era se sabia "o que se festejava na Páscoa" ?  As respostas obtidas na rua, aos passantes, por uma repórter ao serviço de um programa de entretenimento de um canal privado de televisão, eram, invariavelmente, de completo desconhecimento sobre o tema ou então absolutamente pleonásticas.

Não é novidade o desconhecimento genérico, nas grandes cidades, sobre temas de festividades  religiosas. O que foi novidade para mim foram as respostas que ouvi na tal curta reportagem de rua e que vinham de pessoas já com idades a roçar os quarenta e os cinquenta anos de idade, gente que, supostamente, ainda vem de um tempo em que se dava a doutrina católica  romana na instrução primária ou a religião e moral no ciclo preparatório. Era quase impossível escapar a estas disciplinas mesmo que a nossa confissão religiosa não fosse católica romana. Daí até à suposição de que não serve de nada obrigar as pessoas a frequentar uma religião ou ter aulas sobre doutrina religiosa, seja ela católica romana ou outra, vai  um pequeno passo. O apóstolo Pedro recomendava: "Apascentai o rebanho de Deus, que está entre vós, não por força, mas espontaneamente segundo a vontade de Deus; nem por torpe ganância, mas de boa vontade".

Lembro um episódio com o meu filho Pedro, o mais novo, que tem agora 21 anos, e que foi literalmente  "escorraçado" da sala de uma determinada professora primária porque esta insistia na prática ( não obrigatória ao tempo ) de  ensinar a doutrina católica romana às crianças da sua sala, matéria que, como é bom de ver, não fazia parte do currículo escolar normal nessa altura. Ao tomar conhecimento fui falar com a dita professora explicando-lhe, muito educadamente, que não pretendia que o meu filho recebesse aulas de doutrina católica romana uma vez que essa não era a nossa confissão religiosa e, para além do mais, a criança já frequentava a Escola Dominical na igreja evangélica onde toda a nossa família se congregava. Quanto a manter o meu filho na sua sala,  uma vez que ele não deveria receber a doutrina católica romana, a resposta da senhora foi de completa e estúpida inflexibilidade, como de quem fosse dona e arauto da "verdadeira e boa religião" e ainda por cima ciente de ter os poderes civis formais e informais, latentes na sociedade, do seu lado. O Pedro, então com seis anos de idade, saiu em definitivo da sala daquela professora,  para outra, que não fazia questão de qualquer prática religiosa obrigatória na sua turma,  não sem que antes de consumada a transferência, por uma ou duas vezes, a anterior professora o  tivesse ainda retirado da aula, muito "pedagogicamente", ( e acredito que maldosamente ) no momento em que lecionava a doutrina católica, e o tivesse colocado ao cuidado de uma auxiliar, fora do convívio dos colegas. Dizia-se que a senhora era uma boa técnica, enquanto professora; em minha opinião, ser professor/a vai  muito para além da técnica...  Poderíamos ter apresentado queixa ao ministério da educação ou às entidades competentes, não o fizémos visando não prejudicar  a criança e porque também não pretendíamos prejudicar a professora, que vivia ainda num registo antigo, em que o professor primário, o padre, o regedor ou o cabo da guarda eram as autoridades nas povoações mais pequenas, embora já tivessem passado dezasseis anos após a Revolução de Abril. O problema fora resolvido a nosso contento, dentro da mesma escola. Claro que sublinhámos bem a nossa posição e indignação pelo facto ocorrido, à directora da escola, que, por acaso, era a mesma senhora professora em causa...


Esta ocorrência é singularmente demonstrativa de que a simples  tentativa de impôr uma qualquer doutrina religiosa, pode ter, e tem quase sempre, resultados contrários ao esperado.  À medida que as pessoas vão amadurecendo as suas convicções, vão também rejeitando o que lhe quiseram inculcar à força.

Fala-se hoje de secularização da sociedade e da descida estatística do número de católicos e da subida do número de protestantes em Portugal. Aduzem-se várias explicações para o facto, algumas válidas e outras nem por isso. Não tenho dúvidas de que Portugal continua a estar sobre uma forte influência cultural de cariz católica romana e de que isso se estende até ao exercício do poder e à forma manifestamente tendenciosa como este olha para as diferentes confissões religiosas versus a católica romana e como, face a essa visão distorcida, beneficia esta última, em vários aspectos, de forma escandalosa, especialmente num suposto regime formal  de separação da igreja e do estado. Estivessem os protestantes em pé de igualdade com o catolicismo romano, na ausência de preferências do poder político por uma confissão,   e os números agora publicados pelos media seriam ainda menos favoráveis para a igreja católica. Julgo que, muito mais do que a secularização da sociedade, sublinha-se a rejeição de uma confissão religiosa que durante as últimas décadas e no correr dos séculos se pretendeu impôr mais do que se propôr ao povo. Por mim, continuo a pensar que a liberdade de escolha e opção deve presidir na forma como nos relacionamos e organizamos, mas penso também que, se a igreja católica romana tem algo de que se queixar em Portugal e na europa, é apenas de si própria e da forma como pretende transmitir  uma doutrina que sobrepõe um poder religioso ao próprio poder de escolha individual do ser humano em matéria de fé e de como continua a omitir importantes e significativas verdades bíblicas na prática religiosa .

Não admira pois que o secularismo avance  ao mesmo tempo  que muitos milhares de pessoas compreendem, finalmente, que uma religião, seja ela mais ou menos anquilosada,  não salva ninguém; só Cristo tem uma resposta para a humanidade e para cada ser em particular, sendo nessa relação particular com Ele que temos acesso ao Amor de Deus e à compreensão da fé. E isto não se decora mentalmente, não se recita à exaustão; experimenta-se, sente-se, vive-se.




Jacinto Lourenço

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Robinson Cavalcanti - Uma luz que Não deixará de Alumiar





“A missão da Igreja é manifestar aqui e agora a maior densidade possível do Reino de Deus que será consumado ali e além”




Há pouca gente, no panorama cristão-evangélico que fala português, da dimensão ética, cultural e intelectual de Robinson Calvancanti. Infelizmente o bispo da igreja Anglicana do Recife, no Brasil, foi brutalmente assassinado, tal como a sua esposa, ontem,  por volta das 22h-00 locais, dentro da sua própria casa. E assim se perdeu um grande pensador da igreja e do cristianismo em geral. Robinson Cavalcanti era um daqueles homens de Deus que sabia rasgar caminhos novos na vida espiritual vivida neste difícil mundo contemporâneo. Independentemente da denominação, todos o respeitavam; respeito que extravasava muito para além do mero  panorama eclesial em que se movia. Era um vulto no Brasil,  que soube, pela sua voz sensata e pelo seu pensamento sereno e esclarecido,  ultrapassar as fronteiras do seu país em vários domínios. Os cristãos-evangélicos perdem uma das suas melhores  referências. O Céu recebeu um servo dedicado e fiel que soube fazer a diferença entre os homens no tempo em que  permaneceu entre eles.


Jacinto Lourenço   

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

A Herança Judaica em Portugal



Muito já se escreveu sobre a herança de judeus na Península Ibérica. Depois de uma visita a 15 cidades portuguesas, incluindo as sinagogas e museus de Lisboa, Belmonte, Castelo de Vide e Tomar, pode-se concluir que a herança judaica foi muito forte e altamente representativa.

Expulsos da Espanha em 1496, os judeus encontraram abrigo no país vizinho, a que chegaram das mais diversas formas, incluindo caminhadas a pé e a utilização de carros de bois, sempre somente com a roupa do corpo. Diz a história que os primeiros judeus foram para Castelo de Vide ainda no período romano. A situação começou a se complicar a partir de 1497, quando o rei D. Manuel I determinou a conversão forçada que deu origem aos cristãos-novos e aos criptos judeus, estes com a característica de manter os postulados da sua crença de forma oculta. [...]


Ler texto integral AQUI no blogue Eterna Sefarad

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Ensino Talmúdico



Quem é sábio ?
Aquele que aprende com todos.

Quem é poderoso ?
Aquele que se conquista a si mesmo.

Quem é rico?
Aquele que se contenta com o que tem.

Quem é honrado ?
Aquele que trata a todos honradamente.





( Shimon ben Zoma (século II), Talmude, Pirkei Avot ) 

Fonte: Por Terras de Sefarad



segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

A Sabedoria é Mais Excelente que a Estultícia


A Bíblia diz, no capítulo dois do  livro de Eclesiastes, que "a sabedoria é mais excelente que a estultícia, quanto a luz é mais excelente que as trevas", diz também, no mesmo capítulo dois,  que "ao homem que é bom diante dEle dá Deus sabedoria, conhecimento e alegria".

Que a sabedoria é realmente um desiderato de todos os homens e mulheres, é um facto, como também é um facto que, embora desejem,  poucos  alcançam a medida de sabedoria percebida em Eclesiastes. É que sabedoria requer conhecimento e este implica esforço e dedicação à compreensão de tudo o que enforma o mundo em que vivemos.

Percebemos com isto que o mundo dos homens seria ainda hoje um penoso calvário de luta pela sobrevivência humana se muitos dos que nos antecederam em vida não se tivessem aplicado ao conhecimento aturado no sentido de alcançarem a sabedoria. Mas há uma outra variavel que Eclesiastes introduz e que têm a ver com o facto de que a sabedoria é um dom de Deus para  os homens bons. Mas afinal que homem é bom perante Deus, para que alcance a sabedoria e o conhecimento diante dEle ? Entende-se  como "bom", na leitura de Eclesiastes, não apenas aquele que alcança muito conhecimento, muito sucesso profissional, muita capacidade humana neste ou naquele sector da vida apenas porque estudou muito. Aliás, homens sábios e bons existiram, e existem em todas as culturas e geografias, em todos os tempos, sem que para isso tenha sido necessário atingirem qualquer patamar de sucesso social. Um homem, ou uma mulher, "bons" e "sábios", são aqueles que se conhecem a si próprios, à sua  natureza humana, aos seus anseios e  limites  e têm, dos seus semelhantes e do mundo dos homens e das coisas um conhecimento equivalente e proporcional ao que têm de si próprios sem que tenha sido necessário,  porventura,  aprender tudo isso numa qualquer universidade. 

Eclesiastes diz também que a alegria do homem está relacionada com a sabedoria e o conhecimento.

O homem sábio conhece-se em todas as suas dimensões. Nos tempos que correm os meios de comunicação enchem-se de palavras, frases, estudos, textos, comunicações  de homens e mulheres, pretensamente sábios, que se deitam a adivinhar e a debitar o futuro da humanidade como se fossem donos de uma bola de cristal. As suas análises fazem-se em todas as vertentes. O conhecimento acumulado e explanado é muito. Era suposto então que todos nós, com tantos "sábios" a dizerem-nos o que vai ser da humanidade, fossemos, no mínimo, muito mais felizes por sabermos tanta coisa que vemos, ouvimos e lemos.

Contrariamente ao expectável não é assim. E Porquê ?!

O homem moderno tem acumulado conhecimento sobre conhecimento mas isso não lhe tem permitido coroar de sabedoria a sua vida por aí além. Qualquer animal do campo, doméstico ou selvagem é capaz de dar lições de sabedoria ao homem moderno. É só olharmos para a forma como se conduzem e procuram viver, numa boa parte dos casos, as suas curtas vidas. 

É que, para sermos felizes temos que nos entender em todas as dimensões e, ao homem moderno, tem-lhe faltado olhar e perceber a sua dimensão e filiação divina; sem isso, por muito "bom" que se seja, nunca se está completo, nem nunca se pode perceber, por inteiro, o mundo dos homens e das coisas. Sem o espírito divino em nós nunca estaremos reconciliados com a autenticidade do projecto maior que nos está cometido, nem estaremos irmanados neste destino comum que nos juntou aqui à face da terra, homens de todas as cores, raças e culturas. Sabedoria e felicidade serão então, de acordo com a Palavra de Deus, um dom ao alcance apenas dos que realizam esta globalidade em si mesmos dentro de uma totalidade física e espiritual. Só isso nos pode trazer a felicidade, porque só isso nos voltará a integrar dentro dos planos de Deus e  porque só assim poderemos  perceber o mundo, os homens e as coisas que nos acontecem. 


Jacinto Lourenço