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terça-feira, 29 de janeiro de 2013

A Religião, a Mulher, a Moral e a Sexualidade revisitadas no Século XII na Europa Ocidental.



...Sob a influência de S. Jerónimo e de uma tradição patrística hostil à mulher, esta é apresentada sobretudo como a filha de Eva , origem de todos os males e principal protagonista do pecado. Aos olhos dos autores eclesiásticos, ela só se torna digna de interesse e estima  se possuir qualidades viris. Daí os elogios proclamados a rainhas ou imperatrizes que souberam fazer esquecer, pela firmeza do seu comportamento, a fraqueza própria do seu sexo. Existem, certamente, formas de vida religiosa para uso das mulheres: a par de algumas reclusas, fechadas nas suas celas, numerosas monjas levavam uma vida comunitária  e piedosa, orientada pela regra de São Bento. Mas na maioria das vezes a entrada nos mosteiros era subordinada ao pagamento de um dote, o que efectivamente instituía um numerus clausus. Por outro lado, se as virgens consagradas e as viúvas beneficiavam de uma certa consideração, o mesmo não se passava com as casadas. As que pertenciam à alta aristocracia podiam desempenhar um certo papel na vida religiosa do seu tempo, concedendo favores à igreja e multiplicando as fundações monásticas. Mas tal privilégio encontrava-se reservado a um pequeno número de damas notáveis. A totalidade das mulheres casadas não tinha quaisquer perspectivas religiosas, e o casamento apresentava-se, sobretudo, como um obstáculo no plano da salvação. De facto, aos olhos do clero, a vida sexual é uma consequência do pecado e as relações conjugais,  toleráveis unicamente tendo em vista a reprodução, constituem sempre um pecado, pelo menos venial, na medida em que se fazem acompanhar de prazer. Para não ser fonte de pecado, o acto carnal só deverá ser realizado a contragosto e São Pedro Damião não faz mais do que dar um exemplo impressionante desse generalizado estado de espírito quando apresenta aos leigos o exemplo do elefante que, levado ao acto de propagação, volta a cabeça, mostrando assim que actua constrangido pela natureza, contra a sua vontade, e que tem vergonha e desgosto por aquilo que faz. Por isso, os esposos raramente deviam comungar e, em qualquer caso, deviam abster-se de toda a relação carnal antes de receberem o sacramento. Se pretendessem verdadeiramente obter a salvação, ser-lhes-ia necessário viver na continência.[...]


André Vauchez - A Espiritualidade da Idade Média Ocidental, Séc. VIII a XIII, páginas 113,114 - Editorial Estampa

terça-feira, 17 de julho de 2012

Expansão Portuguesa no Séc. XV - O Despertar da Violência

      © British Library


Impulsionados pelo estímulo do corso e do comércio  as navegações atlânticas do século XV deslocaram para Ocidente  os circuitos comerciais e inauguraram um espaço promissor para as actividades predatórias.
Inicialmente, a violência provocada por piratas e corsários expandiu-se ao longo das costas de Marrocos e na zona dos arquipélagos das Canárias, Madeira e  Açores.
À medida que as navegações progrediram para Sul e logo que a América  a Ásia e as ilhas do Pacífico passaram a figurar no atlas dos navegadores europeus  o cenário onde os assaltos marítimos e as surtidas terrestres podiam conciliar-se – como se viu - com o proveito dilatou-se extraordinariamente.
Certas zonas costeiras, alguns arquipélagos e, em especial, os estreitos que balizavam as rotas do comércio exótico, converteram-se em lugares privilegiados para o exercício de actos violentos e pilhagens.
A profunda mutação das coordenadas geopolíticas e comerciais segregou rivalidades entre os “estados”, depredações e conquistas. Para piratas e corsários, a instabilidade das relações internacionais, conjugada com os avultados fluxos de tráfico, proporcionava-lhes um mundo de oportunidades que não hesitaram em explorar. Investir em actividades de piratas e corsários, tornou-se, por conseguinte, um risco aliciante.
Contudo, devido ao aumento das distâncias nas viagens e à navegação no mar alto, a estrutura dos armamentos, quer no plano técnico, quer no financeiro, sofreu alterações. Exigiam-se, para o futuro, elevadas somas de capital, para organizar uma expedição de longo curso.
Adquirir barcos e equipá-los, dispor de instrumentos náuticos actualizados, obter mapas secretos ou raros, contratar pilotos competentes e outras técnicas de navegação, tudo isto implicava avultadas despesas e capacidade para mover influências.
Por fim, era indispensável reunir homens audaciosos, capazes de enfrentar os perigos do mar e a sua permanência, e ainda prontos para arriscarem a vida em combates incertos e inesperados. Uma empresa de corso, ao demandar os mares distantes, assemelhava-se, frequentemente, a uma viagem de exploração geográfica. Alguns piratas distinguiram-se como excelentes navegadores.
Nos confrontos que marcaram a disputa pela hegemonia do novo mundo, piratas e corsários ao serviço de grupos sociais poderosos, e até de alguns “estados” (Portugal, França, Espanha, Inglaterra e Países Baixos), protagonizaram várias acções de autêntica guerra marítima. Os mais experientes e afortunados venceram batalhas, fundaram colónias e criaram condições para a implantação de impérios marítimos da época moderna. Se a violência marítima e terrestre sofreu um rápido incremento com a extensão dos limites do mundo conhecido, o próprio corso esteve intimamente associado aos projectos exploratórios da fase de arranque das viagens de descoberta e expansionistas.[...]

João Silva de Sousa in O Portal da História

quarta-feira, 11 de julho de 2012

A Vilafrancada - 27 Maio de 1823






Os liberais por não estarem unidos e devido a algumas medidas tomadas contra a nobreza e o clero, bem como a independência do Brasil, precipitaram o pais num clima de instabilidade que provocou muito descontentamento. Por tudo isto foi fácil aos absolutistas pegar em armas e proclamar a restauração do Absolutismo, em Vila Franca de Xira. Foi a Vilafrancada em 27 de Maio de 1823. Na proclamação de D. Miguel, que a seguir se transcreve, podem encontrar-se todos os motivos que o levavam a assumir a liderança do movimento: o rei ultrajado, transformado num «fantasma» sem poder efectivo, os membros da nobreza e clero atacados nos seus direitos e regalias, etc.
"A força dos males nacionais, já sem limites, não me deixou escolher: a honra não me permitiu ver por mais tempo em vergonhosa inércia a majestade real, ultrajada e feita ludíbrio dos facciosos, todas as classes da nação com diabólico estudo deprimidas, e todos nós o desprezo da Europa e do mundo, por um sofrimento que passaria a cobardia; e em lugar dos primitivos direitos nacionais que vos prometeram recobrar em 24 de Agosto de 1820, deram-vos a sua ruína, o rei reduzido a um mero fantasma; a magistratura diáriamente despojada e ultrajada; a nobreza, à qual se agregaram sucessivamente os cidadãos beneméritos e à qual deveis vossa glória nas terras de África e nos mares da Ásia, reduzida ao abatimento, despojada do lustre que outrora obtivera do reconhecimento real; a religião e seus ministros objecto de mofa e escárnio.

Que é uma nação quando sofre ver-se assim aviltada? Eia, portugueses, uma mais longa prudência seria infâmia. Já os generosos transmontanos nos precederam na luta; vinde juntar-vos ao estandarte real que levo em minhas mãos; libertemos o rei e Sua Majestade livre dê uma Constituição a seus povos; fiemo-nos em seus paternais sentimentos; e ela será tão alheia do despotismo como da licença; assim reconciliará a nação consigo mesmo e com a Europa civilizada.

Acho-me no meio de valentes e briosos portugueses, decididos como eu a morrer ou a restituir Sua Majestade à sua liberdade e autoridade, e a todas as classes seus direitos. Não hesiteis, eclesiásticos e cidadãos de todas as classes, vinde auxiliar a causa da religião, da realeza e de vós todos: e juremos não tornar a beijar a real mão senão depois de Sua Majestade estar restituído à sua autoridade.

Não acrediteis que queremos restaurar o despotismo, operar reacções ou tomar vinganças; juremos pela religião e pela honra que só queremos a união de todos os portugueses e um total esquecimento das opiniões passadas."
Informado pelos seus conselheiros do que se estava a passar, D. João VI foi ter com seu filho e embora submetendo-o à sua autoridade, fá-lo comandante do exército, restitui os poderes retirados à rainha, manda libertar os presos políticos e nomeia outro governo. O entusiasmo provocado por estas medidas foi tão grande entre os absolutistas e a população descontente que ao chegar a Lisboa o coche real, foi abordado por cerca de 40 militares que desatrelaram os cavalos e puxaram eles mesmo o coche. Um jornal da época, a Gazeta de Lisboa, publicou até uma lista com os seus nomes. Dias mais tarde foi publicado no mesmo jornal, um anúncio anedótico em que se indicava que «... no dia 24 do corrente mês se há-de arrematar em hasta pública umas parelhas de bestas que puxaram o carrinho de el-rei quando mudou de bestas a Arroios.». Esse número do jornal foi retirado da circulação e o seu redactor demitido, mas a partir de então os ultra realistas foram denominados de burros, pelos liberais.


Fonte: História Aberta

terça-feira, 10 de julho de 2012

Judeus na Península - Isaac Abravanel, um Caso Paradigmático




Isaac Abravanel nasceu em Lisboa no ano de 1437  e morreu em Veneza, no dia 27 de Outubro de 1508. Era oriundo de uma das famílias sefarditas mais famosas – diz-se que descendia do próprio rei David – Isaac Abravanel foi um grande comentador da Bíblia e financiador do rei Afonso V nas suas conquistas africanas.

Depois da morte de Afonso V, Abravanel teve de fugir para Castela porque D. João II pensava que este havia conspirado com o duque de Bragança. A sua grande fortuna foi toda ela confiscada por decreto real. Instalado em Toledo, rapidamente Abravanel penetrou no círculo da família real  tornando-se  financiador dos reis católicos.

Apesar dos favores aos reis, teve de sair de Espanha por causa do Decreto de Alhambra, que expulsava os judeus que não se convertessem [ ao cristianismo ], tendo ainda oferecido 30.000 ducados pela revogação do decreto. Em vão. O decreto não foi revogado e Abravanel fugiu para Nápoles. Depois de passar por mais algumas cidades italianas, instalou-se em Veneza, onde colaborou na negociação de um tratado comercial entre Portugal e a Sereníssima República.
Morreu em Veneza, sendo enterrado em Pádua.

Fonte: Por Terras de Sefarad

terça-feira, 12 de junho de 2012

A Reconstrução Económica em Portugal, após a Revolta de 1640




A importância dos cristãos-novos neste processo



Ao terminar a primeira metade do século XVII, o panorama da economia portuguesa era bastante desolador.
Na agricultura, o contínuo mau aproveitamento dos solos e a má distribuição das culturas agrícolas, o latifúndio, a sul do Tejo, mal explorado.
A nossa indústria mantinha os velhos hábitos dos regulamentos de trabalho, organizações rígidas e  por isso estagnadas, as "corporações" não permitiam a livre expansão de produtos e mercados, (a iniciativa e o empreendedorismo  há muito tinha desaparecido com a expulsão dos judeus em 1497).
Já o comércio sofria com a instabilidade do tráfego marítimo, devido aos assaltos e respectivas pilhagens em alto mar dos navios mercantes pelos corsários e piratas.
A Europa está também ela envolvida em guerra, (Guerras dos Trinta Anos).

A este estado  de decadência, juntam-se ainda outras circunstâncias: em 1640, nobres portugueses organizam uma revolta contra o ocupante espanhol, e declaram a independência do país. Este conflito prolongar-se-à até ao ano de 1668.
Com a "Guerra da Restauração", a mão-de-obra tão necessária para os diversos sectores da economia nacional, torna-se escassa, devido ao alistamento de homens nas fileiras do renascido exército português.
Em territórios ultramarinos, a defesa dos mesmos é uma constante contra os ataques traiçoeiros levados a cabo por holandeses, ingleses e franceses, que aumentam de intensidade nesta altura, exigindo ao estado um suporte de despesas permanentes em homens e dinheiro, o que consequentemente implicou um agravamento tremendo nas contas da fazenda nacional.
Portugal precisava urgentemente de reconstruir, e de imediato, a sua economia. O padre António Vieira, homem "esclarecido da época", foca isso mesmo ao defender a necessidade de recorrer aos cristãos-novos como auxílio. Vejamos uma carta do mesmo:


"Enfim, Senhor, Portugal não se pode conservar sem muito dinheiro, e para o haver, não há meio mais eficaz que o comércio, e para o comércio não há outros homens de igual cabedal e indústria que os da nação [...]  Por falta de comércio se reduziu a grandeza e opulência de Portugal ao miserável estado e ao que Vossa Majestade o achou, e a Restauração do comércio é o caminho mais pronto de a restituir ao antigo e ainda feliz estado."


Efectivamente, para erguer a economia, Portugal  tenta inicialmente renovar o seu comércio marítimo, e com esse objectivo primordial, organiza-se o tráfego com o Brasil, na altura  o maior produtor de açúcar.
Na sequência deste renovar de objectivos, em 1649, cria-se a "Companhia do Brasil", cuja exploração em regime de monopólio é então entregue a comerciantes portugueses, (sobretudo cristãos-novos).
O principal objectivo destes comerciantes foi incrementar a recuperação açucareira e assegurar o transporte do açúcar em condições de segurança para a Europa.


Via Por Terras de Sefarad

quarta-feira, 6 de junho de 2012

06 de Junho de 1944 - dia D - Normandia, França. 2ª Guerra Mundial - Operação Overlord. Início do Fim do Pesadelo Alemão na Europa


...Às 4 da madrugada de 5 de Junho, os dados foram irrevogavelmente lançados: a invasão seria desencadeada a 6 de Junho.[...]
Durante todo o dia 5 de Junho, os comboios de navios que transportavam as tropas pontas de lança da invasão convergiram no rendez-vous a sul da ilha de Wight. Dali, numa corrente infindável encabeçada por uma vasta frente de draga-minas e protegida em todos os lados pelas marinhas e forças  aérea aliadas, partiu a maior armada da história de Inglaterra para a costa de França. A bravura do mar encapelado provou ser um duro teste para as tropas na véspera da batalha, particularmente para aquelas que seguiam no desconforto das embarcações mais pequenas. No entanto, apesar de tudo isso, aquele vasto movimento decorreu quase com a precisão de uma parada e, embora sofrêssemos algumas perdas na travessia, a maior parte nas pequenas embarcações a reboque, não tiveram um efeito apreciável nos acontecimentos.[...]

Winston Churchill in Memórias da Segunda Guerra Mundial, pág. 838 -  Ed. Texto


   

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

A Noite de Cristal - Efeméride


A Noite de Cristal, no alemão Kristallnacht, é a designação mais conhecida para os terríveis e violentos actos anti-semitas levados a cabo no Reich hitleriano, ocorridos na noite de 9 de Novembro de 1938, e já em menor escala na noite de 10.



Elie Wiesel chamou à Kristallnacht: “Uma bofetada no rosto da Humanidade”. E o mundo voltou a face uma vez mais !!!


quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Aramaico: o Idioma Falado por Cristo


Aramaico é a designação que recebem os diferentes dialetos de um idioma com alfabeto próprio e com uma história de mais de três mil anos, utilizado por povos que habitavam o Oriente Médio. Foi a língua administrativa e religiosa de diversos impérios da Antiguidade, além de ser o idioma original de muitas partes dos livros bíblicos de Daniel e Esdras, assim como do Talmude.

Pertencendo à família de línguas afro-asiáticas, é classificada no subgrupo das línguas semíticas, à qual também pertencem o árabe e o hebraico.

O aramaico foi, possivelmente, a língua falada por Jesus e ainda hoje é a língua materna de algumas pequenas comunidades no Oriente Médio, especialmente no interior da Síria; e sua longevidade se deve ao fato de ser escrito e falado pelos aldeões cristãos que durante milênios habitavam as cidades ao norte de Damasco, capital da Síria, entre elas reconhecidamente os vilarejos de Maalula e Yabrud, esse último "onde Jesus Cristo hospedou-se por 3 dias" além dessas outras aldeias da Mesopotâmia reconhecidamente católicas por onde Cristo passou, como Tur'Abdin ao sul da Turquia, fizeram com que o aramaico chegasse intacto até os dias de hoje.

No início do século passado, devido a perseguições políticas e religiosas, milhares desses cristãos fugiram para o ocidente onde ainda hoje restam poucas centenas, vivendo nos Estados Unidos da América, na Europa e na América do Sul e que curiosamente falam e escrevem fluentemente o idioma falado por Jesus Cristo.[...]


Ler texto integral AQUI no blogue Cultura Hebraica

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Breve história de Luis de Carvalhal/Carvajal, Cristão-Novo que passou de Perseguidor a Perseguido...


Nas antigas colónias espanholas da América latina, também por lá se fez notar o engenho e arte da presença dos cristãos-novos portugueses, seja no Peru, em Cartagena das Índias (Colômbia), ou no México. Portugueses, forçados na sua maioria ao terrível exílio em territórios também eles hostis, neste caso sob influência de uma Inquisição implacável.

Hoje, dedico este texto a um famoso e prestigiado cristão-novo nascido em Mogadouro - Trás-os-Montes, no ano de 1539 e de seu nome Luís de Carvalhal (O Velho), que em Espanha adoptou o nome de Luís de Carvajal y de La Cueva.

Cedo foi marcado pela tragédia pessoal, ficando órfão aos oito anos de idade, é então criado por um familiar próximo. Entre os 18 e os 20 anos, Luís de Carvalhal terá ido para o arquipélago de Cabo Verde, servindo a coroa portuguesa como tesoureiro durante treze anos, onde saiu depois para Espanha.

Lá se casou em 1564 em Sevilha. Já mais tarde com problemas financeiros e pessoais, ele é obrigado a investir num barco próprio, fez amigos e notabilizou-se o suficiente para que tenha sido notado, ao ponto de lhe confiarem o comando como adjunto de uma frota, que conduziu o novo Vice-rei ao México.

Durante a atribulada viagem entram em combate com piratas, ganhando a contenda aos mesmos. No espólio do barco capturado, encontraram um tesouro a que remeteram ao rei Filipe II de Espanha, I de Portugal.

Já em terras mexicanas, o Vice-rei nomeou-o comandante do porto de Tampico, saindo em 1568 vencedor de vários ataques levados a efeito por piratas ingleses e holandeses. Luís de Carvalhal ou Carvajal, não era um menino de coro, quando este fazia prisioneiros protestantes era impiedoso, remetendo-os de seguida à Inquisição local.

Entre 1568 e 1578, este homem de armas e aventureiro, ajudou ao povoamento de longas e várias extensões de território da América Central, protegendo os colonos espanhóis e subjugando as populações índias.[...]


Ler texto integral AQUI no blogue Por Terras de Sefarad

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Montemor-o-Novo: Epicentro de Viragem no Portugal Quatrocentista


Montemor-o-Novo representou no século XV não apenas um importante ponto de passagem obrigatório na estrada que ligava Lisboa e Santarém a Évora, povoações de primeira grandeza medieval no reino e particularmente na zona sul do país; a vila acabaria por se tornar, por inegável consequência disso, em relevante ponto de paragem e estadia mais ou menos prolongada para reis, fidalgos, senhores para além de outra gente que gravitava em torno da corte e da nobreza. Mesmo não revelando uma grandeza urbanística significativa nem uma dimensão comparável às da vizinha Évora, por exemplo, quer em termos populacionais ou das habitações construídas intra-muros, o posicionamento geográfico de Montemor-o-Novo acabaria por se mostrar determinante no papel que a história lhe reservou antes, e durante o século XV. Como é evidente, e apesar de uma notada tendência de desertificação populacional da Cerca da vila, cujos moradores eram aliciados por um Termo que prometia actividade económica muito mais pródiga e lucrativa, particularmente no capítulo da agricultura, Montemor-o-Novo continuou a fazer sempre parte integrante, ao longo de todo o século XV, da vida política nacional e de todos os jogos político-sociais que nesse âmbito iam marcando o pulsar do reino.

Durante todo o século XV a história de Montemor-o-Novo é marcada e pautada por cinco importantes reinados saídos da geração de Avis: D.João I, D. Duarte, D. Afonso V, D. João II bem como ainda os primeiros anos de reinado de D. Manuel I, sem esquecer, é claro, a regência do Infante D. Pedro, no período abrangido pela menoridade de D. Afonso V.
Teve Montemor-o-Novo, como outros municípios, momentos de maior relevância e/ou apagamento. De um ponto de vista lato pode dizer-se que Montemor-o-Novo não estando  no “olho do furacão” esteve porém extremamente envolvido no turbilhão da história Portuguesa no século que encerrou a época medieval portuguesa.

Se tivéssemos que isolar um facto marcante, em definitivo, para a vida do concelho de Montemor-o-Novo, e até de Portugal, no período em estudo, escolheríamos o acontecimento mais dramático representado no degredo e posterior fuga para Castela do donatário e Marquês de Montemor, D.João, irmão de D. Fernando Duque de Bragança, bem como a morte deste último, ambos os factos ordenados por D.João II que pretendia com isto “dizer ao que vinha” e inaugurar uma nova época de retoma política e administrativa do reino por parte da coroa e que estava a ser contestada pelos grandes senhores de Portugal. Este facto representa, uma viragem dramática na orientação do reino muito desejada por D. João II e que ao desferir rude golpe no Duque de Bragança, na sua família e no seu vastíssimo património económico, militar e territorial, dava assim um sinal importante para o reino e os seus mais importantes senhores sobre qual era o seu projecto político para Portugal. Montemor-o-Novo foi palco privilegiado dessa exibição da visão e esperteza política de D.João II e da sua aplicação prática  que levariam  Portugal  ao fausto dos descobrimentos e do grande incremento de  todas as ciências a estes ligadas bem como a alcandorar-se como grande potêncial mundial dos mares e do comércio ultramarino. Uma grande gesta para um pequeno povo. 

Mesmo que não se goste de homens providenciais, há-de reconhecer-se esse papel em D. João II na afirmação do reino de Portugal feita em parte com o combate feroz ao até então domínio senhorial do país pela grande nobreza senhorial e pelo poder esmagador da Casa de Bragança.  A Montemor-o-Novo há-de creditar-se o facto de ter sido palco de uma das maiores viragens positivas da história de um país.  


Jacinto Lourenço

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Julho 1099 - Sete Semanas de Cerco


Na primeira Cruzada, que foi a única vitoriosa para as hostes cristãs, cavaleiros de toda da Europa capturam Jerusalém após sete semanas de cerco. Sedentos de sangue e imbuídos de um feroz fanatismo religioso, após a tomada da cidade, eles iniciam o massacre de judeus e muçulmanos que habitavam a cidade sagrada. Até cristãos de rito oriental são chacinados.



Fonte: Por Terras de Sefarad

terça-feira, 12 de julho de 2011

" A tentativa de reintegração do Brasil (1823-1824) "


( D. Pedro de Souza & Holstein, Duque de Palmella, (gravura de Richard James Lane, sl.: s.n., ca. 1850 )


Na sequência do golpe de estado Vila francada, levado a cabo pelo infante D. Miguel nos dias 27 de maio a 3 de junho de 1823, foi nomeado um novo governo, conhecido como o governo dos inauferíveis direitos, na medida em que restituía ao rei D. João VI os direitos reais abolidos pela Constituição de 1822. Nesse governo estava o conde de Palmela na pasta dos Negócios Estrangeiros, que nas suas memórias descreve como sendo um dos objectivos primordiais do governo o regresso do Brasil ao domínio da monarquia portuguesa, objectivo. Só pela via diplomática Portugal poderia obter alguma vantagem nesse negócio, devido à situação económica e política débil e ao nítido favorecimento inglês à independência brasileira, condicionalismos que dificultavam a via militar como solução.

Descreve-nos o Duque de Palmela nas memórias: «A primeira tentativa, que naturalmente lembrou, foi a de solicitar a intervenção do Imperador da Áustria. Este, na qualidade de sogro do príncipe D. Pedro, interessado por isso na sua fortuna e bom nome, assim como pela sua condição de Soberano Legítimo, também devia influir na sustentação dos direitos da Coroa Portuguesa e parecia mais que ninguém indigitado para intervir nesta questão de um modo eficaz. O Gabinete austríaco, porém, contra a expectação de Portugal, recusou-se à intervenção solicitada, e conhecendo eu que esta recusa provinha do receio de ciúmes no Gabinete inglês, resolvi alterar o primeiro pedido e solicitar a mediação da Áustria conjuntamente com a Inglaterra, na esperança de neutralizar por este meio a parcialidade do Ministério inglês. Aceita esta proposta, entabulou-se em Londres uma negociação entre plenipotenciários portugueses e brasileiros debaixo da mediação do ministro britânico e do ministro austríaco. [...].


Ler Texto integral AQUI no Blogue de História e Estórias

quinta-feira, 10 de março de 2011

A Declaração de Guerra da Alemanha a Portugal

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Em Fevereiro de 1916, um decreto do governo português autorizava a requisição dos navios mercantes alemães fundeados no Tejo. Foi a "gota de água" que levou Guilherme II, a instruir Von Rosen a apresentar a nota de Declaração de Guerra ao Governo Português, em 9 de Março de 1916, formalizando um conflito que já há algum tempo Portugueses e Alemães vinham travando no sul de Angola e norte de Moçambique.
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Iniciava-se assim, a participação formal de Portugal na 1ª Guerra Mundial que muito em breve arrastaria o Corpo Expedicionário Português para as trincheiras da Flandres.
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«Senhor Ministro. Estou encarregado pelo meu alto Governo de fazer a V. Ex.a a declaração seguinte:
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O Governo português apoiou, desde o começo da guerra. os inimigos do império Alemão por actos contrários á neu­tralidade. Em quatro casos foi permitida a passagem de tropas inglesas por Moçambique. Foi proibido abastecer de carvão os navios alemães. Aos navios de guerra ingleses foi permitida uma larga permanência em portos portugueses, contrária à neutralidade, bem como ainda foi consentido que a Inglaterra utilizasse a Madeira como base naval. Canhões e material de guerra de diferentes espécies foram vendidos ás Potências da Entente, e, além disso, á Inglaterra um destruidor de torpedeiros. O arquivo do vice-consulado imperial em Moçâmedes foi apreendido.
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Além disso, foram enviadas expedições á África, e foi dito então abertamente que estas eram dirigidas contra a Alemanha.
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O governador alemão do distrito. Dr. Schultz-Jena, bem corno dois oficiais e algumas praças, em 19 de Outubro de 1914, na fronteira do Sudoeste Africano alemão e Angola. foram atraídos, por meio de convite, a Naulila, e ali decla­rados presos sem motivo justificado, e, como procurassem subtrair-se à prisão, foram, em parte, mortos a tiro enquanto os sobreviventes foram à força feitos prisioneiros.
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Seguiram-se medidas de retorção da tropa colonial. A tropa colonial, isolada da Alemanha, precedeu na su­posição, originada pelo acto português, de que Portugal se achava em estado de guerra com o Império Alemão. O Governo português fez representações por motivo das últimas ocorrências, sem, todavia, se referir ás primeiras. Nem sequer respondeu ao pedido que apresentámos de ser intermediário numa livre troca de telegramas em cifra com os nossos funcionários coloniais, para esclarecimento do estado da questão.
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A imprensa e o Parlamento, durante todo o decurso da guerra, entregaram-se a grosseiras ofensas ao povo alemão, com a complacência, mais ou menos notória, do Governo português. O chefe de Partido dos Evolucionistas pronunciou na sessão do Congresso, de 23 de Novembro de 1914, na presença dos ministros portugueses, assim como na de diplomatas estrangeiros, graves insultos contra o imperador da Alemanha, sem que por parte do presidente da Câmara, ou dalgum dos ministros presentes, se seguisse um protesto. Às suas representações, o enviado imperial recebeu apenas a resposta que no boletim oficial das sessões não se en­contrava a passagem em questão.
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Contra estas ocorrências protestámos em cada um dos casos em especial, assim como por várias vezes apresenta­mos as mais sérias representações e tornámos o Governo português responsável por todas as consequências. Não se deu, porém, nenhum remédio. Contudo, o Governo Imperial, considerando com longanimidade a difícil situação de Portugal, evitou então tirar mais sérias consequências da atitude do Governo português.
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Por último, a 23 de Fevereiro de 1916, fundada num decreto do mesmo dia, sem que antes tivesse havido negociações, seguiu-se a apreensão dos navios alemães. sendo estes ocupados militarmente e as tripulações mandadas sair de bordo. Contra esta flagrante violação de direito protestou o Governo Imperial e pediu que fosse levantada a apreensão dos navios.
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O Governo português não atendeu este pedido e procurou fundamentar o seu acto violento em considerações jurídicas. Delas tira a conclusão que os nossos navios imobilizados por motivo da guerra nos portos portugueses, em consequência desta imobilização, não estão sujeitos ao artigo 2.0 do tratado de comércio e navegação luso-alemão, mas sim à ilimitada soberania de Portugal, e, portanto, ao ilimitado direito de apropriação do Governo português, da mesma forma que qualquer outra propriedade existente no pais. Além disso, opina o Governo português ter procedido adentro dos limites desse artigo, visto a requisição dos navios corresponder a uma urgente necessidade económica, e também no decreto de apropriação estar prevista uma indemnização cujo total deveria mais tarda ser fixado.
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Estas considerações aparecem como vazios subterfúgios. O artigo 2.0 do tratado do comércio e navegação refere-se a qualquer requisição de propriedade alemã em território português. Pode ainda assim haver dúvidas sobre se a circunstância de os navios alemães se encontrarem pretendidamente imobilizados em portos portugueses modificou a sua situação de direito. O Governo português violou, porém, o citado artigo em dois sentidos, primeiramente não se mantém na requisição dentro dos limites traçados no tratado, pois que o artigo 2.0 pressupõe a satisfação duma necessi­dade do Estado, enquanto que a apreensão, como é notório, estendeu-se a um número de navios alemães em desproporção com o que era necessário a Portugal para suprir a falta de tonelagem. Mas, além disso, o mencionado artigo torna a apreensão dos navios dependente dum prévio acordo com os interessados sobre a indemnização a conceder-lhes. enquanto que o Governo português nem sequer fez a tentativa de se entender, quer directamente, quer por intermédio do Governo alemão, com as companhias de navegação. Desta forma apresenta-se todo o procedimento do Governo português como uma grave violação do Direito e do Tratado.
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Por este procedimento o Governo português deu a conhecer que se considera como vassalo da Inglaterra, que subordina todas as outras considerações aos interesses e desejos ingleses. Finalmente a apreensão dos navios realizou-se sob formas em que deve ver-se uma intencional provocação à Alemanha. A bandeira alemã foi arriada dos navios alemães e em seu lugar foi posta a bandeira portuguesa com a flâmula de guerra. O navio almirante salvou por esta ocasião.
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O Governo Imperial vê-se forçado a tirar as necessárias consequências do procedimento do Governo português. Considera-se de agora em diante como achando-se em estado de guerra com o Governo português.
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Ao levar o que precede, segundo me foi determinado, ao conhecimento de V. Ex.a tenho a honra de exprimir a V. Ex.a a minha distinta consideração.»
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(Tradução do texto alemão entregue por Friedrich Von Rosen a Augusto Soares, Ministro Português dos Negócios Estrangeiros)
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Fonte : História Aberta

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

O Real Hospital de Todos os Santos: do Terramoto à Demolição (1755 - 1775)

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O Hospital Real de Todos os Santos (HRTS) cuja edificação se iniciou em 1492, sofreu, tal como outros edifícios de Lisboa, graves danos causados pelo terramoto de 1755 e subsequente incêndio, tão ou mais destrutivo que o próprio terramoto. Ocupava toda a actual área da praça D. João I (Praça da Figueira), tendo por limites o Convento de S. Domingos a norte, a rua da Betesga a sul, rua do Borratém a nascente e a praça do Rossio a poente. Possivelmente no dia 1 de Novembro de 1755 não estaria a funcionar em pleno, em virtude de um outro grande incêndio ocorrido em Agosto de 1750, que lhe destruiu 11 enfermarias e quase todas as áreas adjacentes [1]. O terramoto e o incêndio foram arrasadores para a maioria dos edifícios de Lisboa, deixando-os numa espécie de “grau zero”. Os poucos testemunhos existentes sobre o HRTS sugerem que ficou bastante danificado. Ainda assim não se justifica falar em destruição total, porque através das escavações arqueológicas dirigidas pela Dr.ª Irisalva Moita em 1960 é perceptível a sobrevivência de algumas secções do hospital anteriores ao terramoto de 1755. Os trabalhos arqueológicos, na zona noroeste da praça do Rossio, identificaram parte da famosa arcaria da fachada principal. Puseram igualmente a descoberto o claustro noroeste e toda a área do piso térreo sob a enfermaria de Santa Clara, bem como a Ermida de Nossa Senhora do Amparo, a enfermaria dos entrevados e incuráveis e mais alguns compartimentos não identificados [2].
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quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Os custos da História...

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"Por um preço terrível, Portugal abriu as portas para um mundo mais vasto, que não podia dominar, nem controlar; com a habitual malícia da história, foi ultrapassado e deixaram-no moribundo, como um reformado excluído das paradas do mundo, possuindo o suficiente para sobreviver, mas demasiado pouco para atingir a glória. (...) Ainda assim, o seu nome está indelevelmente escrito na história mundial: um feito extraordinário para um país tão pequeno e tão pobre."
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( J. H. Plumb, na introdução de "O império marítimo português (1415-1825)", de C. R. Boxer )

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Cristóvão Colombo e o Passaporte Espanhol

( Imagem jornal El Mundo )

Quem não ficou muito contente com a estória foram os nuestros hermanos gallegos da vila de Baiona. Não percebem porque é que estando todos os anos a festejar, no primeiro fim de semana de Março, a "Festa da Arribada" da nau Pinta que trouxe em primeiro lugar, para terras de Espanha, a novidade da descoberta da América por Cristóvão Colombo, vêm agora estampado, na contracapa dos passaportes espanhóis, um mapa que dá claramente uma rota de chegada diferente para o regresso de Colombo após a descoberta do novo mundo. E o problema dos nossos confrades ibéricos é que a bolsa de todos os viajantes carrega agora esse mapa exibindo mundo fora a viagem de regresso da Niña, com Colombo ao comando depois de se ter afundado a Santa Maria, que era efectivamente a nau almirante, a aportar primeiramente em Lisboa, ainda que o tenha feito quatro dias após a Pinta ter aportado em Baiona na Galiza.
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O jornal El Mundo não desarma, nem os de Baiona tão pouco. Chamam ao mapa um "erro histórico", e dizem até, em tom de brincadeira, que terá sido desenhado por um português.
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Claro que esta polémica assume foros de "escândalo" em Espanha, e não é porque não se saiba por lá que o mapa traduz efectivamente a realidade histórica de que a Niña atracou realmente em Portugal antes de rumar a território espanhol; não, para nuestros hermanos o problema tem a ver com o seu grande ego que fica "ferido" por esta pequena traição de Colombo, de ter fundeado em Portugal antes de rumar a Espanha. Depois, bem, depois de passados 517 anos vem ainda por cima um distraido qualquer e estampa com esse facto num passaporte espanhol. É demais! Como se já não bastasse a quase certeza absoluta de que Cristóvão Colombo, para além de não ser castelhano nem genovês, era português, regressa a história, qual fantasma, a acenar com o adágio de que "o bom filho à casa torna"... Para um bom espanhol, pior que isso é ver traçada no seu passaporte a rota da Niña em direcção a um porto português e não a um porto espanhol em primeiro lugar. Claro que apesar de não termos um ego tão grande quanto o espanhol, embora isso nos possa prejudicar mais do que nos benificiar em muitas ocasiões em que deveríamos afirmar-nos como povo, não podemos deixar de perceber o desgosto que vai pelo lado de lá da fronteira...
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Mas talvez aqui se aplique um outro adágio que diz que "Deus escreve direito por linhas tortas", mesmo que Deus não tenha nada a ver com esta polémica e muito menos com as bafientas rivalidades históricas entre vizinhos ibéricos.
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Jacinto Lourenço
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terça-feira, 8 de junho de 2010

Os Tapetes também têm História, ou a história de um Tesouro Perdido no Museu de Arte Antiga...

Há muitos e variados mistérios na história das relações entre Portugal e Espanha. Conta-se, por exemplo, que Felipe II terá ficado deslumbrado com Lisboa e que pretendeu fixar a capital do reino naquele lugar junto ao mar, onde o céu é mais pálido e o Tejo se engrandece. Supersticioso como era, acabou por não o fazer porque o seu astrólogo não gostou das energias que pairavam sobre a cidade a que Ulisses deu nome. Era tudo demasiado negativo e pouco aconselhável à saúde do monarca espanhol que já de si manifestava uma certa tendência para a depressão. Felipe II acabou assim por colocar de lado a ideia e retirou-se para o Escorial, perto de Madrid, onde se encerrou com mais de mil amuletos espalhados por aquele gigantesco, sóbrio e frio mosteiro, longe do mar e da nostalgia tão tipicamente portuguesa. Não se sabe se, na sua passagem por Lisboa, Felipe II tinha consciência da existência de uns magníficos tapetes que Afonso V de Portugal encomendara um século antes aos mais prestigiados artesãos de Tournai, na Flandres, com base num desenho do pintor Nuno Gonçalves, para celebrar as conquistas de Tanger e de Arzila, em 1471, e que valeram a este nosso rei da dinastia de Avis o cognome do Africano. A verdade é que pouco se sabe sobre a origem e o percurso destas quatro telas, com quatro metros de altura e onze de comprimento, tecidas a seda e lã no atelier dos mestres Passchier Grenier, e que estão classificadas como a melhor colecção do mundo em estilo gótico. O que se sabe, sim, é que foram localizadas em 1628 no palácio dos Duques do Infantado, em Guadalajara, e que em 1664 foram doadas à Colegiata de Pastrana pela família Mendonza, grandes de Espanha com nobre origem portuguesa, onde têm permanecido. O mistério à volta destes tapetes é denso. Há historiadores que aventam a hipótese de terem ido parar a Castela pela mão de Felipe, o Belo, duque da Flandres e Borgonha, que veio a casar-se com Joana, a Louca, filha dos reis católicos, consolidando assim a ideia de que as tapeçarias nunca terão chegado a solo pátrio; ou que foram parte de um saque na Batalha de Toro em que portugueses e castelhanos se enfrentaram por pretensões do rei de Portugal à coroa do reino vizinho; ou ainda que pudessem ter sido um presente de Afonso V ao grande cardeal Mendonça como gesto de gratidão pela forma como foram tratados os prisioneiros portugueses após Toro. O que hoje se sabe é que estes exemplares perdidos, que falam do poder e da glória de Portugal, vão estar à vista de todos no Museu Nacional de Arte Antiga, a partir do próximo sábado. Depois, voltarão para o lugar onde foram achados.
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Maria de Lurdes Vale in Diário de Notícias Online

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

"Espiritualidade fora da Moldura"

"Parecido com o Chico Buarque, posso dizer que meu pai era paulista, minha mãe cearense, meu avô paterno, cafeicultor do interior de São Paulo e o materno, comunista de Fortaleza. Papai era professor de história e agnóstico; mamãe, artista plástica e levemente cristã - temendo a morte, ela se converteu ao cristianismo em seus últimos meses de vida. Cresci católico, emigrei para a Presbiteriana e acabei pentecostal. Eu também “vou na estrada há muitos anos”.

(...) Passei a questionar certas lógicas da religião que aceitava desde a adolescência. A princípio, inquietei-me com os valores éticos que percebia embutidos em diversas empreitadas missionárias. Depois, revoltei-me com a prepotência estadunidense na cosmovisão e colonialismo religiosos. De repente, os simplismos dos sermões me aborreceram. Mas o caldo entornou mesmo com as "Marchas para Jesus", com os teleevangelistas oferecendo milagre a granel e com falta de escrúpulos dos mercadejadores da fé de usarem os desvalidos para se autopromoverem.

Embora nenhuma dessas razões isoladamente fosse capaz de me fazer abandonar o barco do movimento evangélico, o sofrimento universal me esbofeteou, pedindo explicações que eu não conseguia dar.

Tudo começou quando caminhei pelas ruas de Mumbai (antiga Bombaim) e vi um mendigo, totalmente nu, deitado numa sarjeta. O pobre dormia na lama, mal respirando. Aquela cena me roubou o sono à noite, perturbou-me por meses depois que retornei ao Brasil, e ainda permanece na retina do meu espírito. O que as minhas lógicas diziam sobre a sorte daquele “outcast” não foram suficientes para acalmar a angústia que nascia em mim.

O primeiro pressuposto teológico que ruiu foi o da Providência. De acordo com esse alicerce calvinista, Deus determinou, na eternidade passada, todos os eventos, todos os detalhes do andamento do universo que ele criou. Com plena sabedoria, Deus não só estabeleceu, como preserva o que existe para que a sua vontade sempre se cumpra.

Foi aí que pensei: se todos os mínimos eventos foram predeterminados por Deus, aquele mendigo jaz na imundície porque esse foi o quinhão divino para ele. Continuei e levei às últimas conseqüências meu raciocínio: Aushwitz, Ruanda e todos os genocídios, também fazem parte da engrenagem providencial, e vão trazer maior glória a Deus na eternidade. A partir desse evento, passei a duvidar se o que resta à humanidade é repetir pela fé que “Deus sabe o que faz". Algo dentro de mim diz que não, mil vezes não.

Comecei a estudar a Teodicéia - Teodicéia é um termo inventado no século XVII para lidar com o impasse do sofrimento humano diante da onipotência de Deus. A palavra é composta por duas raízes gregas: theos, que significa Deus e dikaios, que significa justiça. Teodicéia, portanto, é uma disciplina da filosofia que procura entender como Deus pode ser ao mesmo tempo justo e bom frente a tanto sofrimento, num mundo que ele criou e do qual é soberano.

A Teodicéia tem como marco o tratado que Gottfried Wilhelm Leibniz escreveu para conciliar três afirmações distintas:

Deus é Onipotente. Deus é amor – Ele ama com perfeição. O sofrimento do mundo criado por Deus é pavoroso.

Há um paradoxo irreconciliável nestas três afirmações. Elas não podem ser simultaneamente verdadeiras. Se Deus é Onipotente, portanto, livre para fazer o que desejar, é capaz de encontrar meios de acabar com todo o sofrimento. Se Deus é perfeitamente amoroso, então não pode tolerar tanta crueldade, tanto horror, no universo. Ele é poderoso e bom, contudo, milhões padecem. Qual a solução?

Qual a explicação para o que aconteceu no Camboja? Por que Deus não interveio quando o regime de Pol Pot chacinava dois milhões de pessoas? Alguns morreram só porque usavam óculos. O regime considerava que pessoas que precisassem de óculos, também gostavam de estudar e eram intelectualizadas. Esses deviam ser eliminados porque podiam representar um perigo para a revolução.

Qual a lógica divina para permitir um disparate dessa magnitude, que destruiu tantas vidas? Por que Deus não mandou um mega desastre da natureza para impedir o avanço desse comunista maluco?

Conversei com um homem que recebeu a notícia de que o filho vai nascer com uma grave deformidade genética. Ele não entende porque Deus faz aquilo. Perguntou-me onde tinha pecado para merecer tamanho castigo e repetiu várias vezes que, se Deus tem tudo sob o seu controle, não consegue imaginar que tenha um propósito tão pesado para a sua família.

Nas articulações clássicas da teologia, esse menino virá ao mundo para cumprir um propósito (usa-se bastante um texto poético do Salmo 139 para afirmar que Deus tece cada detalhe do código genético das pessoas, inclusive as deformações graves). No instante em que escutei o relato desse pai, perguntei-me: Por que Deus, na eternidade passada, predestinaria uma criança a sofrer com uma deficiência tão profunda? Deus realmente pune a humanidade com tanta severidade só porque Adão e Eva morderam a fruta proibida? Será que Deus realmente “precisa” de uma deformidade genética para produzir maturidade em um casal?

Mas o que dizer de mais de um bilhão de pessoas no planeta que não tem comida suficiente? Será que a maldição de Deus alcança prioritariamente os pobres? Por que a cada cinco segundos uma criança morre desnutrida no Terceiro Mundo? O que Deus tem para ensinar aos brasileiros com o desprezo que produz mortes desnecessárias nos imundos hospitais públicos da periferia do Rio de Janeiro? - Devido à falta de remédios básicos, médicos são forçados a escolher quem vai ser tratado e quem vai morrer à míngua.

Já estou até esperando as ferroadas. Esses questionamentos mexem com vespeiros. “O problema do Gondim é que ele desconsidera a soberania de Deus”, dirão os calvinistas. Os pentecostais repetirão que ouso minar os atributos divinos. Alguns me considerarão um tonto por afirmar que a doutrina da Providência conduz inexoravelmente ao fatalismo.

Deixei de acreditar que Deus seja um tapeceiro que trabalha às escondidas, no lado do avesso do tapete. Também abandonei que o sofrimento universal veio como castigo pelo "pecado original". Não acho que o andamento da história tenha que ser do jeito que é por alguma razão ainda obscura. Creio que a história descarrilhou. Que a vontade de Deus não se cumpriu como ele desejava. Que a injustiça, a má distribuição da riqueza, a dilapidação dos recursos naturais, o abuso do poder econômico e o egoismo que se alastrou, não representam a vontade de Deus. A desgraça daquele mendigo não aconteceu por uma "vontade permissiva", mas por fatores conjunturais perversos que produzem dor no coração paterno de Deus.

Diante dos desmantelos da história, acredito que o Altíssimo interpela homens e mulheres para se tornarem seus parceiros, agentes transformadores da história, construtores do futuro e antecipadores do Reino.

Comecei a repensar o meu edifício teológico sem o determinismo ou fatalismo da teologia clássica - que acredito mais grega que judaica - e agora vou até o fim.

Penso, inclusive, que se teólogos não fizerem o dever de casa, não reverem os pressupostos de seus discursos, o dilema do sofrimento humano continuará esbofeteando o movimento evangélico. Pior, as explicações dadas vão deformar o que se entende como bondade de Deus. Enquanto isso, muitos semelhantes a mim, terão de construir uma espiritualidade fora da moldura.

Soli Deo Gloria."

Por Pr. Ricardo Gondim

In Blogue de Ricardo Gondim