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sexta-feira, 3 de junho de 2011

Reflectir Sobre o Quê !?!



Faltarão cerca de seis horas, quando escrevo esta nota, para que se encerre oficialmente aquilo a que se convenciona designar "Campanha Eleitoral". Durante duas semanas os partidos políticos tiveram a oportunidade de fazer passar a sua mensagem e explicar ao que vinham, era isso que se esperava que fizessem; mas não, acharam que não valia a pena. Cada um entreteve-se a lançar acusações sobre os restantes  e a dizer cobras e lagartos dos adversários. Ora, num momento delicado em que todos queríamos saber como é que os responsáveis partidários se propunham conduzir o país interpretando uma pauta que não é da sua autoria e cujos autores não admitem desvios, ficámos exactamente no ponto em que estávamos no primeiro dia da campanha eleitoral, isto é: com um grau de esclarecimento zero. A única coisa de que ficámos francamente esclarecidos é de que, no futuro, não necessitamos de campanhas eleitorais. Basta que passem as fotografias dos líderes partidários nos meios de comunicação apropriados para isso e o povo pode assim escolher qual o que lhe parece mais simpático ou sorridente. Não fora o velho adágio popular dizer que "as aparências iludem", e parecia-me um bom critério para escrutinar a vontade do povo, até porque, assim como assim, mesmo que não tivéssemos o primeiro-ministro mais competente e capaz, sempre  havia a possibilidade de termos o mais simpático ou o mais bonito, podia ser que ajudasse. Embora, nesse caso, eu preferisse à frente do governo uma cara-laroca feminina; coisas minhas...

Falando mais a sério, o que me ocorre é que amanhã posso ir para a praia e aproveitar o bom tempo, já que,  pelo menos,  os partidos pouparam-nos a necessidade de "reflectir" sobre aquilo que  disseram nos últimos dias. Não me ocorre que tenham dito alguma coisa relevante sobre a qual eu precise meditar para poder votar mais esclarecidamente. Bem pelo contrário. A vacuidade de ideias para o país foi total em duas semanas, da esquerda à direita. Não sei que caminhos mostraram, para além do caminho por onde nos leva a crise e a dependência externa. Mas para isso não eram precisos partidos nem campanhas eleitorais, nem políticos  a consumirem mais ainda os dinheiros públicos e privados. Contratavam-se administradores e consultores estrangeiros para resolver os problemas, como se faz nas empresas; sempre poupávamos o turpor e o desgaste que o sistema nos impôs por estes dias. 

Por mim, esta campanha eleitoral só esclareceu o seguinte: a política nacional fede e quem com ela ganha a vida devia arranjar uma maneira mais séria  de contribuir para o bem de Portugal e do dos portugueses. Ao fim de 37 anos já percebemos que com os partidos que temos e os políticos que por lá enxameiam, Portugal, a mudar, só se for para pior. Portanto, a partir de segunda-feira, venha quem vier, preparem-se para mais do mesmo, mau como sempre, ou pior ainda, como será fácil adivinhar.


Jacinto Lourenço 

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Gatos, Ratos e Eleições, ou uma estória Séria contada a Brincar.





Colaboração recebida de Manuel Soares

terça-feira, 31 de maio de 2011

A Crise e as contas de Cavaco Silva...


45 mil euros por dia para a Presidência da República.
[ Olha para o que eu digo, mas não olhes para o que eu faço ]


O DN descobriu que a Presidência da República custa 16 milhões de euros por ano (163 vezes mais do que custava Ramalho Eanes), ou seja, 1,5 euros a cada português. Dinheiro que, para além de pagar o salário de Cavaco, sustenta ainda os seus 12 assessores e 24 consultores, bem como o restante pessoal que garante o funcionamento da Presidência da República.

A juntar a estas despesas, há ainda cerca de um milhão de euros de dinheiro dos contribuintes que todos os anos serve para pagar pensões e benefícios aos antigos presidentes.

Os 16 milhões de euros que são gastos anualmente pela Presidência da República colocam Cavaco Silva entre os chefes de Estado que mais gastam em toda a Europa, gastando o dobro do Rei Juan Carlos de Espanha (oito milhões de euros) sendo apenas ultrapassado pelo presidente francês, Nicolas Sarkozy (112 milhões de euros) e pela Rainha de Inglaterra, Isabel II, que 'custa' 46,6 milhões de euros anuais.

E tem o senhor Aníbal Cavaco Silva, a desfaçatez de nos vir dizer que - "os sacrifícios são para ser 'distribuídos' por todos os portugueses"[...]


(...? E não se pode 'privatizar' a Presidência da República ?...)


[ Texto a circular na Internet ]

O que Importa Saber sobre Portugal antes de Votar em 5 de Junho - II


Distraídos com a campanha eleitoral, muitos de nós (incluindo a maior parte da nossa imprensa) não deu conta de mais uma avaliação muito cáustica que o FMI fez da nossa situação económica, atribuindo implicitamente as responsabilidades a este governo por termos chegado a esta situação. Assim, num comunicado à imprensa da autoria do FMI, lê-se não só que as "melhorias" orçamentais em 2010 foram meramente "marginais" (no código diplomático do FMI marginal significa péssimo ou insuficiente) e que as políticas de combate a estes problemas foram "adiadas". O FMI diz ainda que tínhamos um "enquadramento orçamental frágil".

O press release do FMI confirma ainda aquilo que também já sabíamos: que a crise orçamental e a crise da dívida soberana portuguesa quase deram azo a crise bancária sem precendentes na nossa história recente. Porquê? Porque a subida dos juros da dívida pública nacional e as sucessivas quedas de "rating" da República Portuguesa afectaram o financiamento dos bancos nos mercados financeiros internacionais, o que lhes causou um grave problema de liquidez. Sem fontes de financiamento (com a excepção do BCE), os bancos nacionais responderam restringindo o crédito às famílias e às empresas, o que provocou grandes restrições de crédito no território nacional. Quando há menos crédito, há menos consumo e menos investimento, o que afectou ainda mais a economia nacional.
Porém, os problemas dos bancos não ficaram por aqui. Como foram "convencidos" a colaborar com a estratégia do governo de tentar por todos os meios evitar aquilo que era inevitável (isto é, o pedido de ajuda externa), nos últimos meses os bancos nacionais foram dos principais compradores da nossa dívida pública, o que aumentou em muito a sua exposição à dívida soberana portuguesa. Com todos os riscos que isso acarreta para os nossos bancos se Portugal for forçado a fazer uma reestruturação da dívida... (Obviamente, a mesma lógica se aplica à utilização do Fundo de Estabilização da Segurança Social para comprar a dívida nacional. Descapitaliza-se a Segurança Social em prol da sobrevivência de um governo medíocre. Uma vergonha, no mínimo).

O FMI considera ainda que a crise nacional é estrutural, devido à acumulação de desequilíbrios internos e externos ao longo dos últimos anos. Ou seja, o FMI confirma que a fábula que os problemas nacionais começaram com a crise internacional é um mito. Nas palavras do FMI: “A economia portuguesa enfrenta uma grave crise em consequência da acumulação de desequilíbrios internos e externos e de profundos problemas estruturais, que produziram uma situação de estagnação económica, falta de competitividade e altas taxas de desemprego."


Fonte: Desmitos

domingo, 29 de maio de 2011

O Problema dos Portugueses: Inércia e Passividade !


A revista "Notícias Sábado", que acompanhava o Diário de Notícias e o Jornal de Notícias deste passado sábado, publicou algumas entrevistas com estrangeiros que se encontram a trabalhar à mais ou menos tempo em Portugal e em que estes revelam as suas opiniões sobre o país e os portugueses. Curioso é que as suas respostas são quase coincidentes, mesmo não se conhecendo uns aos outros ou trabalhando muito distantes uns dos outros.

De vez em quando já tenho lido outras entrevistas ou reportagens semelhantes e constato que os resultados não são diferentes destes agora publicados. Dou atenção às opiniões, porque são desapaixonadas e partem de pessoas cuja capacidade de observação não foi contaminada pelos vícios portugueses e porque  são feitas a partir do distanciamento que lhes é facultado por uma cultura e realidade algo diferente da nossa.

Judith Bauer é alemã e está em Portugal há cerca de onze anos a trabalhar na construção e reparação de violinos, violoncelos e outros instrumento de cordas: "Em Portugal o pior é a burocracia. As pessoas tratam-se por senhor doutor e por senhor engenheiro e não pelo nome próprio e depois como há muitas leis tudo se complica.[...] Não tenho nenhum português a trabalhar comigo[...]. Na Alemanha, uma pessoa que entra às 08h-00 está no trabalho às  07h-50 e às 08h-00 já está a trabalhar. Aqui, às 08h-00 toma-se o café, depois fala-se com o colega e talvez às 09h-00 se comece a trabalhar. Claro que antes do almoço ainda há uma pausa para o café.[...] Em Portugal as coisas não funcionam porque as pessoas fazem quase tudo a fingir. Na cabeça de muita gente não está presente a ideia de que é preciso trabalhar bem e com eficácia. O que é preciso é ser visto."[...]

Sanna Niyyssölä é mestre em musicologia e está em Portugal à procura de trabalho. Apaixonou-se pelo país após ter feito a sua tese de mestrado sobre o fado vadio durante 10 meses. Foi apresentá-la a Helsínquia e voltou. " Temos de trabalhar, cá é tudo mais relax e às vezes precisamos de perguntar as mesmas coisas muitas vezes para conseguirmos uma resposta.[...] Os portugueses também precisam de ser persistentes. Quando querem uma coisa devem lutar por ela."

Rhune Matthiesen e a mulher, portuguesa, decidiram  vir viver para o Porto. " A maioria dos portugueses são pobres ou muito pobres. Recebem salários muito baixos, o salário mínimo é quase nada. Mas depois há outros que recebem muito, muito dinheiro, que têm muitas casas e vários carros. Na Dinamarca não há uma diferença tão grande entre o ordenado de uma empregada  de limpeza ou de um mecânico e o de um professor ou médico, e isso choca-me.[...] Em Copenhaga, a praça da universidade está cheia de bicicletas, no Porto as pessoas  circulam de carro. Até os estudantes vêm para as aulas no seu próprio carro. Não percebo.[...] A maior parte das pessoas passa muito tempo no local de trabalho mas tem uma atitude muito relaxada. Fazem muitas pausas para o café, demoram muito tempo a almoçar e a conversar com os colegas. Em geral penso que a produtividade é fraca porque o esforço também é pouco.[...] A informação não é clara, há muita corrupção, os políticos não gastam bem o dinheiro público. Mas os portugueses toleram, são passivos. São capazes de se zangar numa fila de trânsito mas não agem contra a corrupção. Isto eu não compreendo"

Richard Zimler, americano. Vive em Portugal à vinte anos e já tem nacionalidade portuguesa. " Os portugueses não têm dinamismo. Ficam paralisados, à espera que os problemas desapareçam. Às vezes apetece abaná-los e dizer-lhe: mexam-se, façam alguma coisa pela vossa vida e pelo vosso país.[...] Os portugueses até trabalham muitas horas, mas são pouco eficientes"

Pascal Chesnot, francês. Montou um restaurante de cozinha francesa em Lisboa. Trabalha com pessoas de diferentes nacionalidades. " Portugal viveu sempre em crise. Agora há mais desemprego e as pessoas  sentem maior frustração, mas continuam resignadas. É o fatalismo do país. Pode ser difícil de compreender para um estrangeiro.[...]. Já tive uma cozinheira portuguesa mas não resultou. Queria folgar ao sábado, ao domingo e feriados, indiferente à especificidade deste projecto"

Kristina Joahnsson, sueca, directora-geral do Ikea em Portugal. " É importante que as organizações ofereçam condições para as pessoas se desenvolverem.[...] É preciso ter vontade de mudar e para isso tem de se apostar nas pessoas, são elas que fazem a diferença na vida das organizações e do país.[...] O sol, o bom tempo e o mar são fantásticos, mas só por si não bastam"



Extraído de Notícias Sábado de 28 de Maio de 2011

sexta-feira, 27 de maio de 2011

A Democracia segundo Antero de Quental



"A DEMOCRACIA não é uma palavra vã … é a Igualdade Social e Económica, tendo por instrumento a Liberdade Política. É a partilha justa, entre todos os membros da sociedade, dos bens materiais, como garantia duma igual distribuição dos bens morais entre todos. É a ponderação das forças sociais, feita pela lei e pelo pacto livre, em vez de ser feita pelo acaso cego, pela luta fratricida, pelo equilíbrio, a cada momento instável, da concorrência. É o trabalho considerado, definitivamente e realmente, a única base do Estado. É a lei feita, enfim, por todos, em serviço de todos. É o povo chamado ao banquete olímpico da Instrução, da Prosperidade e da Moralidade …

Em duas palavras: o povo pede que o deixem ser homem …"



in DEMOCRACIA, por Antero de Quental, Almanak para a Democracia Portuguesa, 1870 - sublinhados nossos.

J.M.M.



Fonte: Almanaque Republicano

quinta-feira, 26 de maio de 2011

O Deserto de Ideias Português


Admito que estou muito preocupado. Não estou preocupado com a capacidade, vontade e determinação que os portugueses em geral possam demonstrar para sair da situação sócio-económica em que a classe política e os três principais partidos com assento parlamentar lançaram o país. Não me lembro de nada igual e alguns economistas confirmam que na última centúria, mais coisa menos coisa, Portugal nunca  roçou um grau tão elevado de degradação de todos os indicadores económico-sociais. É por isso que eu não compreendo as sondagens que vão aparecendo e que me parecem configurar uma tendência muito lusa de "estar à beira do abismo e dar o passo em frente", bem como uma falta de senso comum confrangedor.

Independentemente dos discursos políticos, que nada mais têm feito do que balançar entre ataques e acusações mútuas sobre quem é e quem não é culpado da crise, o que interessa saber é quais as propostas dos partidos para atacar a situação em que nos meteram, e isso, como é óbvio, eles não sabem dizer porque não têm ideias. Não basta acusações nem vir dizer o óbvio de que temos que sair desta situação. Isso todos sabemos. O que gostávamos que nos dissessem é como vão aplicar, ponto a ponto, todos os pontos do acordo celebrado com a União europeia, Banco Central Europeu e FMI; esse é o aspecto verdadeiramente relevante, porque o programa do próximo governo nada mais será do que isso. Sim, isso é que gostávamos de saber, mas parece que para os partidos que se vincularam com a troica, explicar e esclarecer isso, é demasiado difícil e complexo. A mim parecia-me a única maneira de desfazer este imbróglio de bi-partidarização em que a generalidade dos portugueses nos estão a meter outra vez, a avaliar pelas sondagens, e que nos vai empurrar para os braços dos mesmos que em três décadas devastaram o país.


Jacinto Lourenço 

terça-feira, 24 de maio de 2011

sábado, 21 de maio de 2011

Caçar Borboletas e Tiranos




"Depois de caçar tiranos

Vamos caças borboletas!" [G. Junqueiro]



“A sociedade portuguesa está organizada para o mal. Não é já o mal esporádico e fortuito, em casos isolados que rapidamente se combatem. Não; é o mal colectivo, o mal em norma de vida, o mal em sistema de governo. Os poderes funcionam deliberadamente, com um fim: produzir o mal. Porquê e para quê? Porque o mal são eles e querem conservar-se. Um regímen corrupto só na corrupção subsiste. Mantém-se na corrupção, como alguns bacilos na porcaria. O seu ódio ao bem é fundamental e orgânico.

A filosofia da vida dum tal regime é a filosofia do porco: devorar” [ibidem]

"Então o povo que deixa prostituir a consciência, roubar os direitos, vilipendiar a história, o povo cobarde que não defende a honra, quer defender a camisa?

Que lha levem, com o último pão, os últimos andrajos! Que ruja de frio, que estoire de fome! A fome é como o fogo: abrasa e depura. Os que aviltam gozando, só se regeneram sofrendo. Não venham libras, venham desastres. Sobre a nossa infâmia chovam calamidades e tormentos" [ibidem]

"Já cai de podre o mundo velho e um mundo novo se elabora: Já surgem profetas e se martelam cruzes em calvários. Ciclones de dor e de infinito varrem, troando, o negro mar da humanidade.

Pão! Venha pão! – ululam bocas formidandas.

Ideal! Ideal! Ideal! – gritam as almas às estrelas.

Porque as bocas têm direito ao pão e as almas têm direito à luz.

Se acaso nós, revolucionários, nós que clamamos por direito e que bradamos por justiça, aqui um dia implantarmos uma nova forma de governo, que ela seja, antes de tudo, o caminho aberto para uma nova forma de civilização ..." [ibidem]



Guerra Junqueiro, in Horas de Luta (Livraria Lello) e Horas de Combate (Livraria Chardron)



J.M.M.
 
 
 
























sexta-feira, 20 de maio de 2011

O que Importa Saber sobre Portugal antes de Votar em 5 de Junho


Nos últimos dias, a "campanha" eleitoral tem sido constituída por um rol de "factos" que só servem para distrair os(as) portugueses(as) daquilo que realmente é essencial. E o que é essencial são os factos. E os factos são indesmentíveis. Não há argumentos que resistam aos arrasadores factos que este governos nos lega. E para quem não sabe, e como demonstro no meu novo livro, os factos que realmente interessam são os seguintes:
1) Na última década, Portugal teve o pior crescimento económico dos últimos 90 anos.

2) Temos a pior dívida pública (em % do PIB) dos últimos 160 anos. A dívida pública este ano vai rondar os 100% do PIB.

3) Esta dívida pública histórica não inclui as dívidas das empresas públicas (mais 25% do PIB nacional).

4)  Esta dívida pública sem precedentes não inclui os 60 mil milhões de euros das PPPs (35% do PIB adicionais), que foram utilizadas pelos nossos governantes para fazer obra (auto-estradas, hospitais, etc.) enquanto se adiavao seu pagamento para os próximos governos e as gerações futuras. As escolas também foram construídas a crédito.

5) Temos a pior taxa de desemprego dos últimos 90 anos (desde que há registos). Em 2005, a taxa de desemprego era de 6,6%. Em 2011, a taxa de desemprego chegou aos 11,1% e continua a aumentar.

6) Temos 620 mil desempregados, dos quais mais de 300 mil estão desempregados há mais de 12 meses.

7) Temos a maior dívida externa dos últimos 120 anos.

8) A nossa dívida externa bruta é quase 8 vezes maior do que as nossas exportações.

9) Estamos no top 10 dos países mais endividados do mundo em praticamente todos os indicadores possíveis.

10) A nossa dívida externa bruta em 1995 era inferior a 40% do PIB. Hoje é de 230% do PIB.

11) A nossa dívida externa líquida em 1995 era de 10% do PIB. Hoje é de quase 110% do PIB.

12) As dívidas das famílias são cerca de 100% do PIB e 135% do rendimento disponível.

13) As dívidas das empresas são equivalentes a 150% do PIB.

14) Cerca de 50% de todo endividamento nacional deve-se, directa ou indirectamente, ao nosso Estado.

15) Temos a segunda maior vaga de emigração dos últimos 160 anos.

16) Temos a segunda maior fuga de cérebros de toda a OCDE.

17) Temos a pior taxa de poupança dos últimos 50 anos.

18) Nos últimos 10 anos, tivemos défices da balança corrente que rondaram entre os 8% e os 10% do PIB.

19) Há 1,6 milhões de casos pendentes nos tribunais civis. Em 1995, havia 630 mil. Portugal é ainda um dos países que mais gasta com os tribunais por habitante na Europa.

 20) Temos a terceira pior taxa de abandono escolar de toda a OCDE (só melhor do que o México e a Turquia).

21) Temos um Estado desproporcionado para o nosso país, um Estado cujo peso já ultrapassa os 50% do PIB.

22) As entidades e organismos públicos contam-se aos milhares. Há 349 Institutos Públicos, 87 Direcções Regionais, 68 Direcções-Gerais, 25 Estruturas de Missões, 100 Estruturas Atípicas, 10 Entidades Administrativas Independentes, 2 Forças de Segurança, 8 entidades e sub-entidades das Forças Armadas, 3 Entidades Empresariais regionais, 6 Gabinetes, 1 Gabinete do Primeiro Ministro, 16 Gabinetes de Ministros, 38 Gabinetes de Secretários de Estado, 15 Gabinetes dos Secretários Regionais, 2 Gabinetes do Presidente Regional, 2 Gabinetes da Vice-Presidência dos Governos Regionais, 18 Governos Civis, 2 Áreas Metropolitanas, 9 Inspecções Regionais, 16 Inspecções-Gerais, 31 Órgãos Consultivos, 350 Órgãos Independentes (tribunais e afins), 17 Secretarias-Gerais, 17 Serviços de Apoio, 2 Gabinetes dos Representantes da República nas regiões autónomas, e ainda 308 Câmaras Municipais, 4260 Juntas de Freguesias. Há ainda as Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional, e as Comunidades Inter-Municipais.

23) Nos últimos anos, nada foi feito para cortar neste Estado omnipresente e despesista, embora já se cortaram salários, já se subiram impostos, já se reduziram pensões e já se impuseram vários pacotes de austeridade aos portugueses.
O Estado tem ficado imune à austeridade. Isto não é política. São factos. Factos que andámos a negar durante anos até chegarmos a esta lamentável situação. Ora, se tomarmos em linha de conta estes factos, interessa perguntar: como é que foi possível chegar a esta situação? O que é que aconteceu entre 1995 e 2011 para termos passado termos de "bom aluno" da UE a um exemplo que toda a gente quer evitar? O que é que ocorreu entre 1995 e 2011 para termos transformado tanto o nosso país? Quem conduziu o país quase à insolvência? Quem nada fez para contrariar o excessivo endividamento do país? Quem contribuiu de sobremaneira para o mesmo endividamento com obras públicas de rentabilidade muito duvidosa? Quem fomentou o endividamento com um despesismo atroz? Quem tentou (e tenta) encobrir a triste realidade económica do país com manobras de propaganda e com manipulações de factos? As respostas a questas questões são fáceis de dar, ou, pelo menos, deviam ser. Só não vê quem não quer mesmo ver. A verdade é que estes factos são obviamente arrasadores e indesmentíveis. Factos irrefutáveis. Factos que, por isso, deviam ser repetidos até à exaustão até que todos nós nos consciencializássemos da gravidade da situação actual. Estes é que deviam ser os verdadeiros factos da campanha eleitoral. As distracções dos últimos dias só servem para desviar as atenções daquilo que é realmente importante.


Álvaro Santos Pereira



Álvaro Santos Pereira é docente da Simon Fraser University (Vancouver, Canadá), onde lecciona as disciplinas de Desenvolvimento Económico e Política Económica. É professor na University of British Columbia, onde ensina Macroeconomia. Já leccionou nos departamentos de Economia da Universidade de York (2005-2007) e da Universidade da British Columbia (2000-2004). Doutorou-se em Economia em 2003 na Simon Fraser University. Licenciou-se pela Universidade de Coimbra. É colunista do jornal PÚBLICO. Desde 2001, colabora no Diário de Notícias e no Diário Económico, e tem escrito para a revista EXAME, o Expresso e o Jornal de Notícias Nasceu em Viseu em 1972. É autor do blogue Desmitos (desmitos.blogspot.com)”




Nota: Texto a circular na Internet - recebido de Manuel Soares.






quinta-feira, 19 de maio de 2011

Somos todos uns Calaceiros...


Não tenho grandes dúvidas, nem nunca tive,  aliás, de que em Portugal pulula a classe empresarial mais retrógrada, reaccionária, menos preparada e mais sub-desenvolvida do chamado mundo dos países desenvolvidos. Senão veja-se: bastou que a nova  "dona" da europa, a srª. Merkel, dissesse do alto da sua cátedra em  Berlim  que os Portugueses, Gregos e Espanhóis, calaceiros por natureza, segundo ela, têm férias demais, trabalham de menos e reformam-se muito mais cedo que os alemães ( só não percebo é porque é que ela não falou nos Franceses... que até estavam ali mais perto e tudo, e ainda por cima têm mais dias de férias que dois dos países referidos - Grécia excluida -, e menos horas de trabalho,  para além de se reformarem  mais cedo  ...?! ) para que uma das principais confederações patronais portuguesas viesse de imediato a terreiro defender a redução dos dias de férias e a retirada do despedimento por justa causa da constituição.  Espantoso, quando para mais, aqui ao lado, o governo espanhol reagiu logo e mandou a Merkel  bugiar com a conversa da treta. Coisa que a oposição alemã também já havia  feito quando ouviu as declarações da sua chanceler. Ridícula e mal intencionada, esta senhora. Ridículos, oportunistas e imbecis, os senhores  da tal confederação.

Os trabalhadores portugueses pouco terão para provar à senhora alemã, que até fez mal as contas quanto às matérias   que referiu,  e menos ainda aos empresários portugueses, esses sim, com muito para provar ( os que se escrevem com "e" pequeno, - e que são muitos - porque ainda existem alguns, felizmente, que dá para escrever com "E" Grande ). A sua qualidade geral, competência, capacidade de integração e qualidade do trabalho realizados e produtividade, estão provados um pouco por todo o mundo. Estejam eles bem enquadrados por organizações e empresas capazmente dirigidas e geridas e são tão bons ou melhores que os outros, e isso é válido também no interior de Portugal e nas empresas nacionais ou estrangeiras aqui instaladas. 

Sim, os trabalhadores portugueses têm um problema grave que consiste em  não estarem enquadrados por líderes políticos e empresários e empresas que saibam aproveitar o seu potencial e desenvolver mais as suas competências técnico-profissionais. Quando isso acontecer, quando os empresários portugueses apostarem nas competências, séria e honestamente,  dos seus colaboradores em lugar de fingirem que dão formação e meterem o dinheiro dos subsídios  ao bolso para investirem em viaturas topo de gama, montes no alentejo ou férias à grande em lugares paradisíacos, então  estaremos em condições de mandar calar,  de imediato,  quem,  como a srª Merckel,  proferir, apenas por má fé ou chantagem político-financeira, declarações desprovidas de sentido ou ofensivas para os portugueses.

Existimos como nação há mais de 900 anos, feito incomum e único para um povo razoavelmente pouco numeroso, integrados  nesta actual  europa feita de retalhos e ambições nada claras de "líderes" políticos e "empresários"  intelectual e politicamente desonestos e, como se prova, com zero de competência para ocuparem lugares de relevo ou estarem à frente de empresas. Aliás, eles vão circulando, em circuito fechado, da política para as empresas e destas para aquela, levando consigo as clientelas habituais que vão ocupando os espaços que pessoas capazes, competentes e honestas deviam ocupar, idependente das suas opções políticas.

Não precisamos que ninguém nos diga quando temos que trabalhar ou quando devemos descansar. Sabemos, podemos e queremos continuar a tomar conta de nós; não precisamos que  alemães, franceses, ingleses ou outros quaisquer nos digam qual o caminho a seguir; o que precisamos, sim, é não nos deixarmos enganar na hora de escolher quem irá para o leme do país. E se os actuais candidatos que a isso se propõem não servirem, digamos isso mesmo, que não prestam para nada, e muito menos para dirigir uma nação que tem orgulho de si própria e do lugar que soube, pelo seu labor, inteligência e valor intrínseco, e sózinha, conquistar o seu lugar no mundo, ombreando com  nações muito mais numerosas e poderosas.



Jacinto Lourenço

segunda-feira, 16 de maio de 2011

A Mentalidade do Criado



[...] Os dois traços terríveis dos portugueses são o províncianismo, de que os cosmopolitas Eça ( sobretudo Fradique Mendes ) e Pessoa desgostavam, e a subserviência. Esta subserviência é o parente pobre da província da soberba. Numa sociedade com graves desigualdades, e herdeira de uma sociedade salazarista e colonial de senhores e servos, de relações de potestade  assentes sobre a escravidão e a ignorância, a subserviência interiorizou-se e ficou um traço de carácter.

As conferências do Estoril são um palco ideal onde se representam alguns desses traços. Gente como Francis Fukuyama, ou Mohamed El Baradei, comportam-se com modos e civilidade, respeito pelos outros, dom que certos portugueses de meia tigela ( grande expressão ) que arrotam postas de pescada ( uma das mais singulares expressões da nossa língua, digna de figurar no vídeo - [ o da mensagem à Finlândia que circulou na internet ] - ) não têm nem terão. Vou contar um episódio.

Num dos dias entrei no perímetro do Centro de Congressos do Estoril dentro de um belo carro, um Mercedes descapotável último modelo. Antes de tentar entrar na faixa de rodagem destinada ao parque de estacionamento reservado, precipitaram-se sobre mim  e o carro vários polícias com sorriso e postura amável que indicaram a direcção com grande espírito de serviço e boa educação. Em seguida, vários jovens de fatinho ofereceram-me o dístico de parque que me incluia no grupo dos eleitos, e instruções, sorrisos, senhora doutora para aqui e para ali, ocupando-se de me arranjar um lugar e de me ajudar a estacionar ao lado dos outros Mercedes e BMW. E nem era eu que guiava. Ninguém me perguntou o que ia fazer ali ou se tinha direito a parque reservado. No dia seguinte entrei  no mesmo perímetro reservado ao volante de um velho Twingo com o dístico dos "eleitos" bem à vista. Os polícias madaram-me logo parar com ar carrancudo quando tentei avançar para o parque, apesar de ter o dístico bem colocado. "Onde é que pensa que vai ?" Disse onde é que pensava que ia. Um jovem carrancudo olhando o dístico do carro com reservas, foi buscar uma lista e perguntou-me se estava ligada a alguma instituição. Consultou a lista, olhou para o carro, consultou o colega, e comecei a passar-me. Já tinha mostrado uma identificação, um cartão com uma fita a atestar que era speaker, ele continuava a procurar um modo de me expulsar do reservado. Disse que ia apresentar o último orador, Mohamed  El Baradei. Não se deixou impressionar. Aí, subitamente um dos outros baixou a cara para me olhar bem e reconheceu-me. Tudo mudou. Disse-me logo para passar. Outro polícia carrancudo olhava para aquilo com desconfiança. Lá entrei no parque. Ninguém me ajudou ou arranjou um lugar de estacionamento.

Este pequeno filme português também podia e devia ser apresentado não aos finlandeses mas a todos os portugueses. É o traço comum do nosso subdesenvolvimento. Os pobres curvando a espinha e tirando respeitosamente o chapéu perante os fidalgos da casa mourisca. E, para ser rico, neste país, basta ter um carro bom. É o símbolo do status. Não admira que não haja empresário pato bravo que não queira ter um Ferrari Testarossa. Se eu entrasse de Aston Martin, não era eu que apresentava o Baradei, era ele que me apresentava a mim, segundo a ontologia dos jovens de fatinho que pululavam. O fato de Francis Fukuyama, por acaso, era dos mais amachucados. Se entrasse com ele no Twingo punham-nos fora.

A desigualdade que nos é imposta por factores externos é interiorizada nestes termos. Deixarmos que nos considerem inferiores é um modo de sermos inferiores. E nisto somos inexcedíveis. Pessoalmente, sempre me estive nas tintas para o que pensam de mim. Porque não deixo que ninguém me intimide. É mais simples do que parece.



Texto de Clara Ferreira Alves, in Revista Única, Semanário Expresso de 14 de Maio de 2011


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Subscrevo integralmente o texto de Clara Ferreira Alves aqui reproduzido . Eu próprio, de uma outra forma, também já aqui postei um texto que realça esta disformidade do carácter  e da idiossincrasia  de um povo que não aprende nem com os seus próprios erros. E é pena. Bastava que cada português  olhasse para o seu semelhante e lhe dispensasse   a probidade e respeito que  requer para si próprio. Assim, Portugal seria um lugar muito mais feliz e capaz de se respeitar como país no plano interno e externo.

J L

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Eça de Queiroz : Portugal atirado como Carne aos Cães...



Desgraçados daqueles países que ainda se preocupam do seu tesouro, que velam pela sua felicidade, que se adiantam, que enriquecem, que se tornam os dominadores no concílio político da europa; desgraçados, esses países. Não sentem o prazer de se arruinar folgando, de caminhar para a morte entre cantos joviais: são positivamente desgraçados.

Não têm, como Portugal, a glória de perderem a sua nacionalidade por desleixo e por ignorância, de atirarem, num delírio galhofeiro, a sua liberdade às outras nações, como um caçador atira um bocado de carne aos cães que a despedaçam!


Eça de Queiroz - in Distrito de Évora


( Eça de Queiroz, Citações e Pensamentos, Casa das Letras )

terça-feira, 10 de maio de 2011

Eça de Queiroz e a Janela que dava para o Futuro do País...



O sentimento que hoje domina os espíritos perante a política é sobretudo a desconfiança. Sente-se um vago receio. O governo está trémulo, a oposição inquieta, os homens dos pequenos partidos sem saber onde ir buscar a sua força e o seu apoio - o povo, descontente.
Presente-se que se vão passar os grandes factos que resolvem as crises políticas com as crises da doença. Mas o quê ?  Hoje não há no país nenhuma ideia predominante, nenhum princípio querido, nenhum grande sistema surdamente combinado, nenhum vasto plano de organização social. Os homens políticos têm-se ocupado naquele embate de ambições, de intrigas, de transacções, de regulamentos, de reformas imperceptíveis, em todo aquele movimento que ondeia lentamente de S. Bento às secretarias e das secretarias ao conselho de estado. Fora desse movimento nada sabem, nada aceitam.
Quando vier o momento do perigo, a que se há-de recorrer, a que ideia, a que sistema, a que método de governar ? Vai-se procurar aos partidos políticos e encontra-se lá um vazio; eles tinham-se só movido - não tinham pensado. As nossas finanças estão perdidas, a nossa instrução esquecida, o nosso exército desorganizado, o nosso funcionalismo corrupto, as nossas leis dispersas, o nosso comércio enfraquecido, a nossa autoridade moral perdida. De quem é a culpa ? Não é destes nem daqueles, é da fatalidade das decadências. Se amanhã o país se encontrar na hora da agonia, e se  perguntar aos que pensam, aos que governam, aos que andam com o cérebro alumiando a marcha - se se perguntar :  que havemos de fazer ?, é possível que eles respondam, e com justiça, sucumbir !



Eça de Queiroz - in Distrito de Évora



( Eça de Queiroz, Citações e Pensamentos, Casa das Letras )

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Colunista do Finantial Times afirma: "Não se pode Gerir uma União Monetária com governantes como Sócrates"




...Para o comentador, a actuação do primeiro-ministro português ajuda a perceber os problemas da Europa na resolução da crise da moeda única. “A razão política pela qual esta crise vai de mal a pior é um problema de actuação colectiva que continua por resolver. Ambos os lados têm falhado. O deputado avarento e economicamente iletrado do Norte da Europa é tão responsável como o primeiro-ministro do Sul da Europa que só se preocupa com o seu quintalinho. O governo grego comportou-se de forma relativamente correcta, mas a forma como Portugal tem gerido, e continua a gerir, a crise é assustadora”  [...]


Ler artigo AQUI no  Jornal de Negócios

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Talvez não fosse Má Ideia Olhar para o Exemplo dos Islandeses...



Estamos [ em Portugal ] neste estado lamentável por causa da corrupção interna - pública e privada com incidência no sector bancário - e pelos juros usurários que a Banca Europeia nos cobra.
Sócrates foi dizer à Sra. Merkle - a chanceler do Euro - que já tínhamos tapado os buracos das fraudes e que, se fosse preciso, nos punha a pão e água para pagar os juros ao valor que ela quisesse.

Por isso, acho que era altura de falar na Islândia, na forma como este país deu a volta à bancarrota, e porque não interessa a certa gente que se fale dele.
Não é impunemente que não se fala da Islândia (o primeiro país a ir à bancarrota com a crise financeira) e na forma como este pequeno país, perdido no meio do mar, deu a volta à crise.

Ao poder económico mundial, e especialmente o Europeu, tão proteccionista do sector bancário, não interessa dar notícias de quem lhes bateu o pé e não alinhou nas imposições usurárias que o FMI lhe impôs para a ajudar.
Em 2007 a Islândia entrou na bancarrota por causa do seu endividamento excessivo e pela falência do seu maior Banco que, como todos os outros, se afogou num oceano de crédito mal-parado. Exactamente os mesmo motivos que tombaram  a Grécia, a Irlanda e Portugal.

A Islândia é uma ilha isolada com cerca de 320 mil habitantes e que durante muitos anos viveu acima das suas possibilidades graças a estas "macaquices" bancárias que a guindaram falaciosamente ao 13º no ranking dos países com melhor nível de vida (numa altura em que Portugal detinha o 40º lugar).
País novo, ainda não integrado na UE, independente desde 1944, foi desde então governado pelo Partido Progressista (PP), que se perpetuou no Poder até levar o país à miséria.

Aflito pelas consequências da corrupção com que durante muitos anos conviveu, o PP tratou de correr ao FMI em busca de ajuda. Claro que a usura deste organismo não teve comiseração, e a tal "ajuda" ir-se-ia traduzir em empréstimos a juros elevadíssimos (começariam nos 5,5% e daí para cima) que, feitas as contas por alto, se traduziam num empenhamento das famílias islandesas por 30 anos, durante os quais teriam de pagar uma média de 350 Euros / mês ao FMI. Parte desta ajuda seria para "tapar" o buraco do principal Banco islandês.
Perante tal situação, o país mexeu-se, apareceram movimentos cívicos despojados dos velhos políticos corruptos, com uma ideia base muito simples: os custos das falências bancárias não poderiam ser pagos pelos cidadãos, mas sim pelos accionistas dos Bancos e seus credores. E todos aqueles que assumiram investimentos financeiros de risco, deviam agora aguentar com os seus próprios prejuízos.

O descontentamento foi tal que o Governo foi obrigado a efectuar um referendo, tendo os islandeses, com uma maioria de 93%, recusado a assumir os custos da má gestão bancária e a pactuar com as imposições avaras do FMI.
Num instante, os movimentos cívicos forçaram a queda do Governo e a realização de novas eleições.

Foi assim que em 25 de Abril (esta data tem mística dupla) de 2009, a Islândia foi a eleições e recusou votar em partidos que albergassem a velha, caduca e corrupta classe política que os tinha levado àquele estado de penúria. Um partido renovado (Aliança Social Democrata) ganhou as eleições, e conjuntamente com o Movimento Verde de Esquerda, formaram uma coligação que lhes garantiu 34 dos 63 deputados da Assembleia). O partido do poder (PP) perdeu em toda a linha.
Daqui saiu um Governo totalmente renovado, com um programa muito objectivo: aprovar uma nova Constituição, acabar com a economia especulativa em favor de outra produtiva e exportadora, e tratar de ingressar na UE e no Euro logo que o país estivesse em condições de o fazer, pois numa fase daquelas, ter moeda própria (coroa finlandesa) e ter o poder de a desvalorizar para implementar as exportações, era fundamental.
Foi assim que se iniciaram as reformas de fundo no país, com o inevitável aumento de impostos, amparado por uma reforma fiscal severa. Os cortes na despesa foram inevitáveis, mas houve o cuidado de não "estragar" os serviços públicos tendo-se o cuidado de separar o que o era de facto importante, de outro tipo de serviços que haviam sido criados ao longo dos anos apenas para serem amamentados pelo Estado.

As negociações com o FMI foram duras, mas os islandeses não cederam, e conseguiram os tais empréstimos que necessitavam a um juro máximo de 3,3% a pagar nos tais 30 anos. O FMI não tugiu nem mugiu. Sabia que teria de ser assim, ou então a Islândia seguiria sózinha e, atendendo às suas características, poderia transformar-se num exemplo mundial de como sair da crise sem estender a mão à Banca internacional. Um exemplo perigoso demais.
Graças a esta política de não pactuar com os interesses descabidos do neo-liberalismo instalado na Banca, e de não pactuar com o formato do actual capitalismo (estado de selvajaria pura) a Islândia conseguiu, aliada a uma política interna onde os islandeses faziam sacrifícios, mas sabiam porque os faziam e onde ia parar o dinheiro dos seus sacrifícios, sair da recessão já no 3º Trimestre de 2010.

O Governo islandês (comandado por uma senhora de 66 anos) prossegue a sua caminhada, tendo conseguido sair da bancarrota e preparando-se para dias melhores. Os cidadãos estão com o Governo porque este não lhes mentiu, cumpriu com o que o referendo dos 93% lhe tinha ordenado, e os islandeses hoje sabem que não estão a sustentar os corruptos banqueiros do seu país nem a cobrir as fraudes com que durante anos acumularam fortunas monstruosas. Sabem também que deram uma lição à máfia bancária europeia e mundial, pagando-lhes o juro justo pelo que pediram, e não alinhando em especulações. Sabem ainda que o Governo está a trabalhar para eles, cidadãos, e aquilo que é sector público necessário à manutenção de uma assistência e segurança social básica, não foi tocado.

Os islandeses sabem para onde vai cada cêntimo dos seus impostos.
Não tardarão meia dúzia de anos, que a Islândia retome o seu lugar nos países mais desenvolvidos do mundo.

O actual Governo Islandês, não faz jogadas nas costas dos seus cidadãos. Está a cumprir, de A a Z, com as promessas que fez.
Se isto servir para esclarecer uma única pessoa que seja deste pobre país aqui plantado no fundo da Europa, que por cá anda sem eira nem beira ao sabor dos acordos milionários que os seus governantes acertam com o capital internacional, e onde os seus cidadãos passam fome para que as contas dos corruptos se encham até abarrotar, já posso dar por bem empregue o tempo que levei a escrever este artigo.



Francisco Gouveia

[ Nota: texto a circular na internet ]
 
 
 
Entretanto, em Portugal, a designada troika mais o governo e partidos do costume,  preparam-se para entregar de bandeja cerca de 12 mil milhões de euros à banca nacional  ( saídos do tal bolo de 78 mil milhões que vão chegar para o resgate )  para esta supostamente injectar na economia ( talvez devessemos ler :  "para entregar aos amigos mais chegados dos banqueiros" ). Claro que já todos sabemos quem vai pagar este valor que a banca vai receber...
 
Enquanto isto, e  a acreditar nas sondagens que vão sendo apresentadas nos media, os portugueses preparam-se para eleger a 05 de Junho próximo,  maioritariamente, os mesmo partidos e responsáveis partidários que, em gerações sucessivas nos têm atirado recorrentemente, nos 37 anos que levamos após o 25 de Abril, para situações como a que vivemos actualmente. Talvez não fosse má ideia olhar para o exemplo dos Islandeses...
 
 
Jacinto Lourenço  

sexta-feira, 15 de abril de 2011

"Se Portugal quer Ser um País livre, tem de Sair da zona Euro"



Markus Kerber é professor de Economia Política na Universidade Técnica de Berlim. Conhecido pelas suas opiniões controversas no que diz respeito à resolução da crise na zona euro, Kerber faz parte do grupo de 52 economistas e juristas alemães pertencentes ao grupo de pressão Europolis que apresentou uma providência cautelar no Tribunal Constitucional da Alemanha para travar a participação alemã no empréstimo a Portugal. O grupo já tentou o mesmo com a Grécia e a Irlanda.



Se esta acção tiver sucesso, não exercerá mais pressão sobre Portugal?

Não ser resgatado não criará mais pressão sobre Portugal. Esta acção não é contra Portugal. Se Lisboa não receber o resgate, será livre para abandonar a zona euro e conduzir a sua própria política. Se forem resgatados, receberão dinheiro da União Europeia e do FMI (Fundo Monetário Internacional), o que tornará Portugal um protectorado.



A única solução para Portugal é sair do euro?

É óbvio que Portugal não conseguirá restabelecer o seu crescimento económico e a sua competitividade no quadro da zona euro. As taxas de juro e a paridade do euro são simplesmente demasiado elevadas para Portugal. As medidas de austeridade com que diferentes governos corajosamente avançaram vão criar mais recessão e não vão trazer Portugal para um caminho de crescimento. Estão a conduzir uma política económica pró-ciclíca, o que é um absurdo. Como querem voltar a crescer sem um sector público que gaste ou que, pelo menos, não corte tão severamente como tem feito? Portugal precisa de uma desvalorização competitiva e, como não o consegue fazer na zona euro, deve abandoná-la.[...]




Ler Texto Integral AQUI no jornal   i online

No País das Auto-Estradas...


Assisti ontem à noite à entrevista de Fátima Campos Ferreira a Belmiro de Azevedo. Por razões que não vêm para o caso, Belmiro de Azevedo não colhe a minha particular simpatia, embora não deixe de reconhecer o seu potencial empresarial.

O patrão da Sonae, ninguém o pode negar, possui a visão,  razoavelmente correcta, sobre aquilo de que Portugal precisaria neste momento, e no futuro, para o seu desenvolvimento e nisso recebe o apoio de pessoas a quem basta o senso-comum para chegar às mesmas conclusões.

As adesões de Portugal e Espanha à então CEE deram-se ao mesmo tempo em 1986 e foi interessante ver como os dois países evoluiram genericamente, desde então, nos sectores primários da economia.

Portugal recebeu dinheiro para reformular a sua agricultura e este foi entregue aos grandes e médios agricultores que trataram de o aplicar em  belos  montes e propriedades rústicas, especialmente no centro e sul do país, a que juntaram  jeeps de última geração. Entretanto as terras ficaram ao abandono ou rodeadas de cercas para onde se soltaram umas manadas de gado que apresentavam uma rentabilidade económica muito mais rápida do que a agricultura, um risco muito menor do investimento,  e custos infinitamente mais reduzidos com mão de obra quando comparados com os aplicados à  produção agrícola.

A Espanha recebeu dinheiro para desenvover a agricultura e transformou-se num dos maiores produtores mundiais de fruto-hortícolas, desistindo das culturas cerealíferas de sequeiro em extensão muito mais viáveis estas noutros países da europa central.

Portugal recebeu dinheiro para aplicar na modernização da sua indústria e o que fez foi distribui-lo pelos grandes empresários para que estes fechassem fábricas umas atrás das outras em lugar de as reconverterem como era suposto. PEDIP's e Fundos Sociais Europeus foram autênticos sacos azuis para onde o dinheiro da CEE foi desviado. Pintavam-se umas paredes de fresco, compravam-se uns computadores,  faziam-se umas formações de fachada, e assim se  justificaram,  durante anos, os fundos entregues aos industriais. Na verdade  as fábricas fechavam pouco  e as formações profissionais dadas às pessoas em doses "para cavalo" para pouco ou nada serviam para a melhoria dos seus desempenhos uma vez que os meios de produção continuavam obsoletos e a gestão das empresas tinha sempre como obectivo último as contas bancárias dos administradores ou accionistas maioritários. Os industriais e os seus amigos próximos, bem como outros quadros dirigentes, salvo raras excepções, passeavam-se  em automóveis de gama alta e jogavam golfe uns com os outros, enquanto o dinheiro continuava a escorrer placidamente para os seus bolsos. O rasto das fraudes cometidas com os fundos comunitários são ainda hoje uma herança  chocante e vergonhosa de  anos relativamente recentes.

Espanha recebeu fundos comunitários para a reconversão da sua indústria e tornou-se numa das principais potências industriais na europa e no mundo.

Portugal recebeu dinheiro comunitário para reconverter a sua frota pesqueira e este foi entregue aos armadores para abaterem os barcos existentes não os fazendo substituir por outros mais adequados ao tipo de pesca que havia para praticar e as pescas são aquilo que são em Portugal, para prejuízo evidente do país e dos pescadores que mal conseguem sustentar-se e às suas famílias.

Espanha recebeu igualmente fundos comunitários para a reconversão das suas pescas e construiu, quiçá, uma das principais frotas pesqueiras mundiais. Muito do peixe que hoje consumimos em Portugal é pescado por espanhóis, eventualmente em águas portuguesas.

O que é que ficou afinal, o que é que Portugal fez com os biliões que recebeu de fundos estruturais para recuperar do seu histórico e endémico atraso face aos parceiros europeus mais desenvolvidos, sim, porque era para isso que o dinheiro era enviado de Bruxelas para Lisboa ?! Há sim, pois, construimos as auto-estradas que iremos andar eternamente a pagar com língua de palmo enquanto o mundo for mundo... Mas aqui ao lado, em Espanha, também os construiram, para além de terem feito tudo o resto que nós fomos incapazes de fazer. Talvez porque achávamos que a partir da adesão à CEE íamos andar o resto da vida a ser sustentados pelos mesmos que agora se fartaram de nós e vêm, qual cobrador do fraque dizer que chegou o momento de pagar a factura da incompetência, corrupção  e indolência nacional alimentadas por gerações de políticos falaciosos, amigos dos seus amigos,  e empresários corruptos ou, no mínimo, demasiado espertos em artes de prestidigitação no que concerne a fazer desaparecer os fundos comunitários de forma a deixarem poucas marcas da sua trajectória; mas claro que tudo isso só podia ter sido  feito com a cumplicidade camuflada dos dirigentes políticos. 
Perante isto, eu só posso concordar que os tecnocratas da União Europeia têm razão  para exigirem condições rígidas na hora de colocar mais uns biliões na mão dos políticos portugueses; eles não são confiáveis e, para além do mais, até para a paciência há limites.
Qual é a solução para Portugal ? Simples, no meu entender: reconstruir tudo aquilo que se destruiu em 37 anos de demência colectiva. Indústria, Agricultura, Pescas. Quantos anos é que isso vai demorar ? Provavelmente muitos, mas pelo menos teremos ousado reconhecer que os "almoços nunca são grátis" e que se quisermos atingir alguma coisa teremos que lutar por ela,  e quanto mais cedo pusermos mão à obra melhor, não esquecendo de varrer dos orgãos de poder todos aqueles, partidos e políticos ( muitos ainda circulam por aí ) que nos conduziram a esta situação.


Jacinto Lourenço 

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Os Homens e as Suas Circunstâncias...


Ouvi ontem Otelo Saraiva de Carvalho dizer na televisão que, se soubesse o que sabe hoje, não tinha feito o 25 de Abril.

Eu compreendo o estratega do 25 de Abril  na sua mágoa. No fundo, todos nós, uns mais que outros,  conseguimos que uma ideia bonita e uma lufada de esperança e liberdade se tornasse naquilo que é hoje Portugal e que, em muitos aspectos, não nos dignifica.

Otelo Saraiva de Carvalho não deve no entanto esquecer que ele próprio tem grandes responsabilidades, no pós 25 de Abril, por aquilo em que se transformou este Portugal amargo que hoje temos. O homem, é ele próprio mais as suas circunstâncias. Se houve gente que não soube estar à altura das suas circunstâncias, Otelo estará seguramente nesse grupo em períodos distintos nos primeiros anos a seguir à Revolução dos Cravos. Mas mesmo assim, não deixo de lhe louvar, e a tantos outros militares de Abril, a coragem e ousadia que tiveram que encontrar para derrubar um regime político indigno. Não partilho  da mesma visão que Otelo faz passar sobre a oportunidade e importância do 25 de Abril para Portugal. Valeu a pena sim ! Contudo será bom que não esqueçamos algo que está sintetizado na mensagem que um dos principais operacionais da revolução que implantou a república em Portugal, o oficial da armada  Carlos da Maia, enviou por carta a João Chagas por essa altura :  "Uma revolução pode mudar as instituições, mas em nada alterou o carácter dos homens. Eles continuarão a ser o que eram: perversos e imbecis."


Pois é, e isso é uma coisa que só Deus pode mudar, assim cada um de nós lhe faculte a oportunidade para tal. O problema é que há muita gente que insiste e persiste em não querer fazer como Zaqueu, um cobrador de impostos que roubava o povo e os romanos e que por isso tinha enriquecido ilicitamente.

Tendo Jesus entrado em Jericó, ia atravessando a cidade. Havia ali um homem chamado Zaqueu, o qual era chefe de publicanos e era rico. Este procurava ver quem era Jesus, e não podia, por causa da multidão, porque era de pequena estatura. E Correndo adiante, subiu a um sicômoro a fim de vê-lo, porque havia de passar por ali. Quando Jesus chegou àquele lugar, olhou para cima e disse-lhe: Zaqueu, desce depressa; porque importa que eu fique hoje em tua casa. Desceu, pois, a toda a pressa, e o recebeu com alegria.
Ao verem isso, todos murmuravam, dizendo: Entrou para ser hóspede de um homem pecador. Zaqueu, porém, levantando-se, disse ao Senhor: Eis aqui, Senhor, dou aos pobres metade dos meus bens; e se em alguma coisa tenho defraudado alguém, eu lho restituo quadruplicado. Disse-lhe Jesus: Hoje veio a salvação a esta casa, porquanto também este é filho de Abraão. Porque o Filho do homem veio buscar e salvar o que se havia perdido.

( Evang. Lucas Cap. XIX )





Jacinto Lourenço



New York Times: "Portugal não precisava de ajuda"


Difícil é entendê-los...


Afinal, ao que parece Portugal não precisava assim tanto de ajuda. Pelo menos, no «mar da inevitabilidade» da ajuda externa, defendido por um sem número de especialistas, surge uma «ilha» vinda dos EUA. O artigo do New York Times recupera a tese de que Portugal foi vítima dos mercados, lembra que há quem esteja bem pior que nós e ainda tem o «desplante» de afirmar que nos anos 90, Portugal teve uma «performance económica forte».

Robert M. Fishman, professor de sociologia na Universidade de Notre Dame, nos EUA, escreveu aquilo que Mário Soares já tinha dito. A pressão dos mercados deve ser um aviso às democracias. O professor afirma que a crise que começou com os pedidos de ajudada da Grécia e da Irlanda e seguiu um «caminho feio».

O pedido de ajuda de Portugal nada tem a ver com o seu défice. «Portugal teve uma performance económica forte nos anos 90 e estava a gerir a recuperação da recessão global melhor do que muitos países da Europa», escreveu.

Como foi dito há alguns meses, e silenciado cada vez mais com o aperto crescente dos mercados, Portugal ficou «sob pressão injusta e arbitrária de negociantes de obrigações, especuladores e analistas de crédito que, por miopia ou razões ideológicas, já conseguiram expulsar um governo democraticamente eleito e, potencialmente, amarrar as mãos do próximo».

Mercados que são um perigo, uma vez que deixados sem regulamentação estas «forças» ameaçam eclipsar a capacidade democrática dos governos (quem sabe mesmo dos EUA) de tomar as suas próprias decisões sobre os impostos.

Para Fishman, a crise em Portugal é completamente diferente da instalada na Grécia e na Irlanda. «Não há uma crise subjacente», defende, salientando que as instituições económicas e políticas não falharam e conseguiram importantes vitórias, antes de sermos submetidos às ondas de ataques dos especuladores.

O resgate que aí vem não irá resgatar Portugal, mas sim empurrá-lo para uma política de austeridade impopular que atinge quem mais precisa. São as bolsas estudantis, as reformas, o combate à pobreza e os salários de funcionários públicos que vão sentir na pele o «resgate».

Para o professor, não é Portugal que está a fazer a crise, até porque a dívida portuguesa está bem abaixo de países como a Itália e o défice tem diminuído «rapidamente» com os esforços do Governo. Fishman aponta ainda que no primeiro trimestre de 2010, Portugal teve uma das melhores taxas de recuperação económica, acompanhando ou mesmo ultrapassando os vizinhos do Sul e até mesmo a Europa Ocidental.

Aliás, se há alguém que não deve ser culpado do estado do país é o primeiro-ministro e os políticos portugueses. A recente crise política nada tem a ver com incompetência portuguesa, mas decorre da normal actividade política democrática, já que a oposição considerou que podia fazer melhor levando o país a eleições.

As razões do ataque a Portugal são então duas. Por um lado, um cepticismo no modelo de economia mista de Portugal. «Os fundamentalistas do mercado detestam as intervenções keynesianas, nas áreas da política de habitação em Portugal - o que evitou uma bolha imobiliária e preservou a disponibilidade de baixo custo de rendas urbanas - a assistência de renda para os pobres. Por outro lado, a falta de perspectiva histórica é outra explicação. O crescimento do país nos anos 90 levou a uma melhoria nos padrões de vida e a uma taxa de desemprego das mais baixas da Europa.

Para Fishman, os ataques dos mercados condicionam não só a recuperação económica de Portugal, mas também a sua liberdade política. Se o 25 de Abril foi um ponto de partida para uma «onda democratização que varreu o mundo», para o autor, a entrada do FMI em Portugal, em 2011, pode ser o início de uma onda de invasão da democracia, sendo que as próximas vítimas poderão ser a Espanha, a Itália, ou a Bélgica.