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sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Pois Claro meu caro Eça, sempre a Espreitar o Futuro, não é ?!



...Hoje, que tanto se fala em crise, quem não vê que, por toda a Europa, uma crise financeira está minando as nacionalidades ? É disso que há-de vir a dissolução. Quando os meios faltarem e um dia se perderem as fortunas nacionais, o regime estabelecido cairá para deixar o campo livre aao novo mundo económico.

Esta crise que Portugal sente na sua fortuna, sente-a igualmente a Espanha, a Itália, a Áustria, etc.
O que virá, não se sabe; que há-de vir alguma coisa é verdade; se a felicidade social, se apenas o elemento duma nova dissolução, se a grandeza e a justiça, se o desalento e a decadência, isso quem o sabe ? [...]


Eça de Queiroz, textos do Distrito de Évora, 1867

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Estes homens são o Povo !


Há no mundo uma raça de homens com instintos sagrados e luminosos, com divinas bondades do coração, com uma inteligência serena e lúcida, com dedicações profundas, cheias de amor pelo trabalho e de adoração pelo bem, que sofrem, que se lamentam em vão.
Estes homens são o povo.

Estes homens estão sob o peso do calor e do sol, transidos pelas chuvas, roídos do frio, descalços, mal nutridos; lavram a terra, revolvem-na, gastam a sua vida, a sua força, para criar o pão, o alimento de todos.
Estes são o povo, e são os que nos alimentam.
Estes homens vivem nas fábricas, pálidos, doentes, sem família, sem doces noites, sem um olhar amigo que os console, sem ter repouso do corpo e a expansão da alma, e fabricam o linho, o pano, a seda, os estofos.
Estes homens são o povo, e são os que nos vestem.

Estes homens vivem debaixo das minas, sem o sol e as doçuras consoladoras da natureza, respirando mal, comendo pouco, sempre na véspera da morte, rotos, sujos, curvados, e extraem o metal, o minério, o cobre, o ferro, e toda a matéria das indústrias.
Estes homens são o povo, e são os que nos enriquecem.

Estes homens, nos tempos de lutas e de crises, tomam as velhas armas da Pátria, e vão, dormindo mal, com marchas terríveis, à neve, à chuva, ao frio, nos calores pesados, combater e morrer longe dos filhos e das mães, sem ventura, esquecidos, para que nós conservemos o nosso descanso opulento.
Estes homens são o povo, e são os que nos defendem. Estes homens formam as equipagens dos navios, são lenhadores, guardadores de gado, servos mal retribuidos e desprezados.
Estes homens são os que nos servem.

E o mundo oficial, opulento, soberano, o que faz a estes que o vestem, que o alimentam, que o enriquecem, que o defendem, que o servem ?
Primeiro, despreza-os; não pensa neles, não vela por eles, trata-os como se tratam os bois; deixa-lhes apenas uma pequena porção dos seus trabalhos dolorosos; não lhes melhora a sorte, cerca-os de obstáculos e de dificuldades; forma-lhes em redor uma servidão que os prende e uma miséria que os esmaga; não lhes dá protecção; e, terrível coisa, não os instrui: deixa-lhes morrer a alma.
É por isso que os que têm coração e alma, e amam a justiça, devem lutar e combater pelo povo. E ainda que não sejam escutados, têm na amizade dele uma consolação suprema.


Eça de Queiroz, Textos do Distrito de Évora, 1876

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Alves Redol nasceu em Vila Franca de Xira faz Hoje Cem Anos



O centenário do nascimento do escritor Alves Redol, um dos mais importantes nomes do Neorrealismo português, é hoje assinalado em Vila-Franca de Xira com uma sessão evocativa, pelas 18:30, no Museu do Neo-Realismo.

A efeméride tem vindo a ser celebrada ao longo do ano pelo museu com exposições, exibição de filmes e leituras encenadas, e irá prolongar-se até Janeiro de 2012 com a atribuição de um prémio com o nome do autor e com a realização de um congresso internacional em Lisboa.
Hoje, dia em que se completam cem anos do nascimento, o Ateneu Artístico Vilafranquense organiza uma arruada pela cidade até ao local onde de encontra a estátua de Alves Redol, com a actuação da Banda do Ateneu.
Nascido em Vila Franca de Xira a 29 de dezembro de 1911, António Alves Redol viria a falecer a 29 de Novembro de 1969, aos 58 anos, deixando uma vasta obra publicada, com contos, romances, teatro e histórias para a infância, num total de 34 títulos, entre eles "Gaibéus" (1939) e "Fanga" (1943).
O Museu do Neo-Realismo inaugurou em outubro a exposição "Alves Redol -- Centenário" e ainda as mostras "Alves Redol, a Fotografia e o Documento" e "Alves Redol em BD: projetos de banda desenhada em torno da narrativa redoliana".
As comemorações prosseguem em 2012 com a entrega do Prémio Literário Alves Redol -- Romance e Conto, numa data ainda a anunciar, e a realização, de 19 a 21 de Janeiro, do Congresso Internacional "Centenário de Alves Redol", organizado em conjunto com o Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
No encontro vão participar, entre outros, Carlos Reis, que irá proferir a conferência de abertura, Ana Cristina Gil, Ana Isabel Ribeiro, Anabela de Oliveira Figueiredo e Ana Paula Ferreira.
Também o Museu do Douro assinala a data com uma exposição dedicada ao escritor, que viveu alguns anos na região do Douro, onde escreveu quatro livros dedicados às suas gentes: "Porto Manso" (1946) e a trilogia do "Ciclo Porto Wine" (1949-1953).
No início de Dezembro, o PCP realizou uma cerimónia evocativa de Alves Redol, recordando a actividade enquanto resistente antifascista e militante comunista a partir de 1940, tendo sido preso por duas vezes pela PIDE, a polícia política do Estado Novo.


quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Finalmente uma Boa Notícia vinda de Bruxelas...



UE cria o maior programa de sempre de financiamento para a cultura



A União Europeia aponta a cultura como fulcral no desenvolvimento económico dos países
Creative Europe” (Europa Criativa) é o novo programa de financiamento apresentado pela União Europeia (UE) e que vê na cultura, neste momento de recessão económica generalizada, um importante motor para o desenvolvimento de cada país. Entre 2014 e 2020, a UE vai disponibilizar 1,8 mil milhões de euros.
Numa altura em que os agentes artísticos têm sofrido duros cortes nos seus orçamentos, cenário que não tem acontecido apenas em Portugal mas um pouco por toda a Europa, a UE deu a conhecer o maior apoio financeiro de sempre para a cultura, que abrangerá todos os países da UE, e todas as áreas culturais. Com este novo programa, serão milhares os profissionais do cinema, da televisão, da música ou do património cultural que beneficiarão deste impulso económico.
Segundo um comunicado da União Europeia, é fulcral que num momento de crise se aposte na cultura, que “desempenha um dos principais papéis na economia da Europa dos 27”. Neste sentido, a UE recorreu a vários estudos que mostram que a cultura é um dos poucos sectores em crescimento e com potencial para gerar emprego e retorno económico.
“Os estudos europeus revelam que as indústrias culturais e criativas são responsáveis por cerca de 4,5% do Produto Interno Bruto da UE e 3,8% do emprego”, de acordo com o comunicado, onde é explicado que entre 2000 e 2007 o emprego neste sector registou um crescimento de 3,5% por ano, em comparação com 1% na economia da UE em geral.[...]

Ler artigo integral AQUI no jornal Público

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Cante Alentejano a Património Imaterial da Humanidade

Depois do Fado, eis que se posiciona o Cante alentejano para ser reconhecido como património imaterial da humanidade. A mim parece-me bem. Mesmo sem nunca ter feito qualquer investigação sobre a matéria e não ter um conhecimento muito vasto sobre esta forma de expressão cultural tão característica do povo alentejano, é-me fácil, como a qualquer pessoa, reconhecer que o Cante alentejano afunda as suas raízes num vasto campo etiológico comum a outros povos mediterrânicos o que revela  bem a sua vetusta tradição e também inserção rigorosamente popular. Ao contrário do Fado ou da Canção de Coimbra, que são expressões musicais e culturais exclusivamente urbanas, bem delimitadas geografica e socialmente, embora com origens e ambiências diferentes entre si, o Cante alentejano é a expressão de um povo e da sua vivência global e as suas origens têm muito a falar sobre outros tempos e outras realidades sociais.

A candidatura do Cante, será apresentada em Março de 2012  e eu estarei a torcer para que tenha sucesso.


Jacinto Lourenço


segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Gostos ( dizem ) não se Discutem


Não sou confessadamente um adepto de fado, mesmo que tolere alguma coisa de Amália ou Ana Moura. Considero este tipo de canção demasiado triste, taciturno ou mesmo algo deprimente em muitos casos. Mas não contrario o facto admitido agora pela Unesco de que este tipo de canção faz parte de uma certa identidade portuguesa, que ganhou projecção internacional e mundial, especialmente desde Amália Rodrigues. Surpreende-me igualmente que a melodia do fado "toque" de forma peculiar muita gente estrangeira que a ouve mesmo não percebendo a língua que dá corpo às letras cantadas nas melopeias fadistas.  Chego a pensar que estarei errado e eles certos. Paciência, resta-me refugiar-me no velho lugar-comum de que "gostos não se discutem"... e continuar a deliciar-me com a sonoridade da guitarra portuguesa tangida por um pequeno conjunto de  guitarristas de excelência ou mesmo com muita da poesia de poetas portugueses adaptada ao fado. Esse é o "meu património" concessionado ao fado. 

Mas não gostar, genericamente, de fado, não significa que não me congratule por verificar que uma organização como a Unesco reconhece o fado como Património Imaterial da humanidade. Antes assim. É pelo menos um património português, mesmo que não se enquadre no mosaico dos meus gostos musicais. Parabéns aos muitos portugueses que gostam de fado e também à equipa que preparou a candidatura ganhadora. Quando querem, os portugueses sabem fazer bem as coisas.


Jacinto Lourenço    

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Como a TVE mostra Portugal em Espanha

Não será tempo perdido ver este documentário sobre Portugal produzido e realizado pela TVE e apresentado aos tele-espectadores espanhóis. Talvez ajude a sublimar muitos preconceitos na mentalidade lusa. Não vi até hoje a RTP fazer algo semelhante em relação a Espanha. Nos tempos que correm nesta europa confusa, não seria má ideia procurarmos identificar nos nossos vizinhos ibéricos aquilo que nos aproxima e depois analisar o que nos afasta. Uma maior, mais ampla, franca e  concertada aproximação dos dois países ibéricos seria uma boa forma de resistir ao eixo franco-alemão e seus associados da europa central que, com o seu potente vórtice, quer engulir e liquidar as economias mais frágeis da periferia europeia. Afinal, ao longo da história da Ibéria, quem mais nos prejudicou nem sequer foi Castela; com os castelhanos, as lutas e batalhas foram, à semelhança do que se passava um pouco por toda a europa, territoriais e de afirmação da nacionalidade e das fronteiras. Mas o   nosso principal  "inimigo", o que nos sugou o que de melhor tivémos em termos de recursos económicos, esteve sempre para lá da Mancha, embora nos queiram fazer digerir o contrário com a estória da "mais velha aliança do mundo", que é , como dizia um conhecido meu, "conversa para boi dormir". Quando vinham até cá  os  exércitos ingleses não era para nos defenderem a nós; o que  os ingleses defendiam era o seu lucrativo negócio e o muito ouro brasileiro que rumou a Inglaterra e só por isso lhes convinha Portugal longe de Espanha e de França, mesmo sendo certo que isso contribuiu para a nossa independência, o preço foi demasiado alto e ainda hoje o estamos a pagar.


Jacinto Lourenço



Portugal na TVE from Nuno Costa on Vimeo.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Na Rota dos Judeus por Terras Brigantinas


É inegável o contributo do povo judeu na construção da Europa e da cultura ocidental. Reconhecendo este facto, o Conselho Europeu de Cultura decidiu inscrever nos seus roteiros de turismo cultural uma Rota dos judeus. E esta rota tem-se revelado bem atractiva e capaz de cativar um nicho de mercado bem definido, de grande capacidade económica e elevado interesse cultural.

Por toda a Europa, muitas cidades e vilas procederam à elaboração de estudos de arqueologia e urbanismo judaico, com vista à definição das suas próprias rotas dos judeus.

Também em Portugal isso vem acontecendo e podem referir-se os casos de Coimbra, Viseu, Castelo de Vide, Belmonte…

Bragança é, sem qualquer dúvida, uma das terras portuguesas onde sobreleva o património judaico. A começar pelos homens que de Bragança partiram e foram em chãos estranhos fazer obras valorosas e erguer-se entre aqueles em quem poder não teve a morte – para usarmos a linguagem do autor de Os Lusíadas.

Mas há também monumentos de arquitectura que em Bragança nos falam da gente da nação hebreia que importa assinalar. E há gestos banais, usos e costumes… uma culinária que deles recebemos como herança.

E certamente que as dezenas de homens e mulheres que morreram nas cadeias da Inquisição e as centenas de outros que nelas sofreram a fé mosaica bem merecem ser recordadas em monumento a construir pela actual geração. Sim, as terras, tal como as pessoas, não podem perder a memória, porque a perda da memória é a mais terrível das doenças.[...]


Ler texto completo  no blogue Por Terras de Sefarad

quarta-feira, 22 de junho de 2011

A Vida segundo Saramago


Já escrevi noutras ocasiões sobre este tema, e expressei a minha opinião sobre Saramago, o seu carácter e os seus livros. Sinto-me honrado, enquanto português, por Saramago ter recebido o único Nobel da literatura  que premiou um escritor português. Ficaria igualmente honrado se outro qualquer escritor português ( e temos felizmente alguns que o mereceram e  merecem ainda na actualidade ) o tivesse conquistado. Entre mim e o autor existe, a separar-nos e unir-nos, um livro ( "Levantado do Chão" ) onde é romanceada a história de vida do meu tio-avô João Serra e sobre isso julgo não ter mais nada a acrescentar ao que já disse em anteriores textos que se encontram nos arquivos deste blogue. Respeito em Saramago a sua obra literária, a sua força interior e a sua coerência política e social, tal como respeito e admiro, mesmo se algumas vezes contraditória, a sua visão do mundo. Respeito também a sua opção ateísta, mesmo se esta me parece consolidada sobre as ruínas de uma negação do divino e uma luta permanente com Deus sempre mal explicadas pelo autor. Reside aqui uma das suas poucas fragilidades intelectuais; julgo que ninguém se envolve em tão grande luta de negação de algo ou de alguém que "sabe" não existir. Se Deus, não existe, como pretendia Saramago, porquê uma "guerra" tão encarniçada contra uma entidade inexistente !?  O escritor deu explicações públicas sobre esta matéria, mas nunca explicou cabalmente o que estava na origem íntima da sua  luta com e contra  Deus. Não se decide, como o ouvi  repetir várias vezes, ser ateu quando se tem apenas seis ou sete anos de idade. Nessa altura da vida há muita coisa que não está claramente presente na nossa estrutura de pensamento, na nossa personalidade ou na nossa intimidade  espiritual, seja para a manifestação de uma atitude ateia ou de afirmação de fé definida e vinculativa para o resto da  vida. As excepções, eventualmente, só confirmam a regra.

Dito isto, vou então esclarecer  ao que venho hoje.

Vi esta semana na SIC o documentário, por sinal muito bem realizado, sobre Saramago e Pilar. Gostaria mais se este tivesse esmiuçado  profundamente as origens de Saramago, pois julgo que talvez se clarificasse uma certa  "antipatia", relativamente a Azinhaga, a sua terra, manifestada  pelo Nobel no próprio documentário. É certo que Saramago nunca negou as suas origens humildes e isso, quanto a mim, é um ponto relevante a seu favor, mas não entendo a sua "má vontade" em regressar a Azinhaga para que lhe fosse prestada uma homenagem. Percebo muito bem a sua mágoa e a sua revanche contra Portugal que o levaram a refugiar-se em Lanzarote.  Saramago foi apenas mais um intelectual a quem o país desprezou.  Só tardiamente emendou a mão e isso também não reverte em dignidade para o estado português. José Saramago foi reconhecido, honrado, glorificado pela sua obra em praticamente todo o mundo menos em Portugal e isso traduz muito do espírito mesquinho e personalidade reles que ainda povoa a identidade do poder em Portugal e de quem o ocupa. José Socrates, valha a verdade, teve pelo menos a decência ( que outros nunca tiveram antes dele ) de honrar a obra e o seu autor, mas tarde demais, quando Saramago já não precisava disso para ser reconhecido mundialmente, mostrando-se o escritor, aliás, vagamente incomodado ( quiçá desconfiado )  das honras que o estado lhe prestava, e não seria caso para menos face ao tratamento que até então lhe tinha sido dispensado.

No documentário que vi, surgiu aos meus olhos um homem que perdeu vitalidade física mas não intelectual. Tinha urgência, pela partida adivinhada,  em dizer ao mundo o que pensava dele e das pessoas que o habitavam. Gritou até ao fim da sua vida  a sua revolta contra o Deus em quem dizia não crer. Notou-se sempre no seu discurso a necessidade de afirmação do não receio da morte mas também a incerteza sobre o que estava para além dela. O Nobel ansiava por preparar o melhor possível a  viagem que achava ser final.  Fez-me lembrar, no documentário, uma pessoa, como qualquer de nós, que indo viajar, prepara a sua bagagem sem saber que tempo vai  fazer no destino e que por isso enche a sua mala de coisas desnecessárias. Foi isso que Saramago transportou da vida, uma mala carregada de coisas desnecesárias que podia ter deixado resolvidas antes da partida.

De resto, não deixarei de gostar de ler Saramago, mesmo que isso possa não agradar a muitos cristãos, ou não cristãos, que me lêm a mim. Ser cristão é tambem, e fundamentalmente, um exercício de tolerância e gratidão. Estou grato a Saramago por ser português e por ter construido uma obra literária de que gosto e por essa obra e o seu autor terem ganho o único Nobel da literatura para Portugal. Deploro a atitude de Portugal e de alguns "eminentes" portugueses que movidos sabe-se lá porque obscuros interesses preferem ignorar e desprezar um prémio Nobel que todos os anos leva os países do mundo a envolverem-se na promoção dos seus autores visando a projecção e prestígio que isso acrescenta à  dimensão cultural e humana dos respectivos povos e à univesalidade das suas literaturas.



Jacinto Lourenço

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Bandarra, o Sapateiro de Trancoso



"Tudo tenho na moleira

O passado e o futuro.

E quem for homem maduro

Há-de me dar fé inteira."




O sapateiro Gonçalo Anes Bandarra viveu em Trancoso na primeira metade do século XVI. Tinha veia para fazer trovas e era um homem de enorme memória. Durante anos, foi lendo e fixando trechos de uma Bíblia que lhe emprestaram e que estava escrita à mão e em português. A partir do que lia e ia ruminando na cabeça, fez uma grande quantidade de versos em forma de profecias, inspiradas no Antigo Testamento, que culminavam com o aparecimento de um rei justo e salvador. A tudo o que lhe perguntavam, respondia sempre "por termos e razões tão grandes e elegantes que não pareciam ser ditas de quem as dizia, senão dalgum grandíssimo teólogo e se achavam na boca de um homem que parecia mais ser ovelheiro que para falar palavra alguma de razão natural."
As famosas trovas de Bandarra foram lidas e ouvidas por todo o reino, cativando cristãos-velhos, mas sobretudo os cristãos-novos, gente sabedora e ignorantes, ricos e pobres.
Estas trovas acabaram por chegar também às mãos de um desembargador, e Gonçalo Bandarra foi preso e conduzido a Lisboa, em 23 de Outubro de 1541, poucos anos após o estabelecimento do Tribunal do Santo Ofício em Portugal, fez-se um auto de fé em que o sapateiro foi obrigado a renegar em público o que dizia e escrevia. Mas se o Bandarra ficou calado logo ali, a conversa nacional sobre o rei Encoberto e sobre o "Desejado" estava só a começar.



Texto de André Belo e de Rui Tavares




( Nota: Há quem defenda que Bandarra tinha ascendência judaica, devido ao seu profundo conhecimento das escrituras do Antigo Testamento. )







quinta-feira, 5 de maio de 2011

Astérix a Falar Português há 50 Anos

Astérix, o irredutível guerreiro gaulês, apareceu pela primeira vez em Portugal nas páginas da revista Foguetão a dia 4 de Maio de 1961, cumprem-se hoje 50 anos, "por tutatis!".



Portugal foi o primeiro país não francófono a publicar as aventuras do pequeno gaulês e do seu amigo Obélix na defesa da irredutível aldeia contra as tropas romanas de Júlio César com a ajuda de uma poção secreta.
René Goscinny e Albert Uderzo deram a conhecer o universo de Astérix a 29 de Outubro de 1959, nas páginas da revista francesa Pilote, e dois anos depois aparecia traduzido e publicado em português.
Além de Astérix e Obelix, entre as personagens que povoam o imaginário criado por Uderzo e Goscinny contam-se ainda o druída Panoramix, o bardo Cacofonix ou o pequeno cão Ideiafix.
Além da Foguetão, as histórias foram ainda publicadas nas páginas do Cavaleiro Andante, do Zorro e do Tintin.
A primeira história de Astérix foi publicada depois em álbum em Portugal em 1967: "Astérix, o Gaulês".
A parceria entre Goschinny e Uderzo durou até 1977, quando morreu o argumentista.
Uderzo decidiu continuar as histórias de BD assumindo a escrita e o desenho, mantendo na capa o nome do parceiro de sempre nesta aventura literária.
Actualmente, Astérix ainda é uma das personagens de banda desenhada de maior sucesso com mais de 300 milhões de exemplares vendidos em todo o mundo e disponíveis em mais de uma centena de línguas e dialetos, incluindo o mirandês, além de várias adaptações para cinema.



sexta-feira, 25 de março de 2011

O meu Grito do Ipiranga...

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Não tenho particular afeição por pessoas ou coisas que procurem cercear a liberdade individual de cada um. Este meu Blogue, o Ab Integro nasceu precisamente desse sentimento e dessa necessidade de dizer e escrever o que penso e sinto sem o exame prévio de ninguém ou mesmo de qualquer auto-censura empacotada em pressões externas. Hoje não aguentei mais a falta de liberdade que o anterior template que utilizava na edição do Ab Integro me tentava impor e mandei-o às urtigas. Escolhi um novo, que não me desconfigurasse os textos que edito, especialmente os poéticos, e que tantas vezes me inibi de publicar, não porque não goste de poesia - bem pelo contrário - mas porque a respeito demasiado e aos poetas. É por isso que o meu Blogue tem agora um aspecto gráfico diferente e, afinal, mais a ver comigo, que gosto de me ver rodeado de livros. Dei o meu Grito do Ipiranga; proclamo que, a partir de agora, mesmo não sendo um Blogue de poesia, esta terá o lugar de destaque que merece, por direito próprio, sem que eu passe horas a inventar artimanhas para contrariar as "maldades" do template. Os pormenores irão agora ser corrigidos gradualmente, sem pressas.
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Nada melhor do que Pessoa para celebrar a minha liberdade de editar o que quero, como quero e quando quero.
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Nada melhor do que Fernando Pessoa para celebrar a Liberdade, que pertence aos portugueses, de tomarem os destinos do seu próprio país entre mãos e partirem rumo à descoberta de novas soluções e novos rumos. Desfraldar as velas e reinventar portugal e os portugueses, dando de novo uma lição a quem, por esse mundo fora, nos quer tomar por imbecis .
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J.Lourenço
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O INFANTE
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Deus quere, o homem sonha, a obra nasce.

. Deus quiz que a terra fosse toda uma,

. Que o mar unisse, já não separasse.

. Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,

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. E a orla branca foi de ilha em continente,

. Clareou, correndo, até ao fim do mundo,

. E viu-se a terra inteira, de repente,

. Surgir, redonda, do azul profundo.

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. Quem te sagrou creou-te portuguez.

. Do mar e nós em ti nos deu signal.

. Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.

. Senhor, falta cumprir-se Portugal!

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Fernando Pessoa in Mensagem

Valeu a Pena ?

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Ó mar salgado, quanto do teu sal
. São lágrimas de Portugal!
. Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
. Quantos filhos em vão rezaram!
. Quantas noivas ficaram por casar
. Para que fosses nosso, ó mar!
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Valeu a pena? Tudo vale a pena
. Se a alma não é pequena.
. Quem quer passar além do Bojador
. Tem que passar além da dor.
. Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
. Mas nele é que espelhou o céu.
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Fernando Pessoa in Mensagem