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quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Uma Rádio com 78 Anos de Idade



Cresci  já com a televisão a operar em Portugal  há alguns anos.  A emissão começava às sete da tarde e terminava às onze da noite. Pelo meio haviam ainda dois ou três interlúdios musicais onde só se via uma imagem qualquer, fixa, acompanhada por uma música de fundo. Nunca percebi muito bem o porquê desses interlúdios mas presumo que a programação devia ser muito diminuta e não dava para as quatro horas de emissão diárias.  Ou seja, tudo resumido, aquilo daria para aí umas duas horas de emissão com programação normal.

Estávamos no tempo em que os telejornais só duravam meia hora... O tempo do Super-Rato e de mais dois ou três personagens de desenhos animados que ainda hoje fazem parte do meu imaginário infantil. Festa, mesmo, eram as transmissões de corridas de touros ou os jogos da selecção nacional de futebol assim como os dos clubes grandes de então, quando jogavam para as competições europeias. De resto, tirando os dias de semana, havia televisão aos sábados à noite e ao domingo à tarde. Ficaram na história da televisão desse tempo personalidades como Sousa Veloso e a sua  TV Rural, ou Vitorino Nemésio com o seu programa cultural em jeito de conversa informal com os tele-espectadores; como esquecer  a sua célebre frase: "Se bem me lembro..." . Ficou na história das nossas memórias. Mais tarde apareceram as "Conversas em família",  com Marcelo Caetano, e onde ele se explicava e à sua governação e tentava explicar um país  inexplicável no contexto da europa daquele tempo. Claro que, pouco a pouco, a televisão  lá foi  evoluindo, ou (in)voluindo, para aquilo que é hoje. 

Nessa altura, lembro-me bem, o que pontuava nem sequer era a televisão com a sua frágil programação de que se salvavam o Bonanza aos sábados e os desenhos animados dos domingos à tarde. O que pontuava a vida do povo, pelo menos na província,  era a rádio. Era a rádio que as pessoas  ouviam, já que, com excepção de uma ou outra família mais rica e de alguns cafés, mais ninguém possuía televisão privada em  casa. Era um luxo ainda incomportável para a época e  só o 25 de Abril de 1974 modificaria esse estatuto.  Telefonia, sim, muita gente tinha, embora um trabalhador assalariado tivesse que amealhar durante algum tempo para comprar uma telefonia ou, em alternativa, pagá-la a letras durante um ou dois anos.

 Foi a rádio que mais marcou a minha geração. Era a rádio que dava sempre os relatos da bola e que concitava as atenções dos homens e rapazes ao domingo à tarde ( sim, os jogos realizavam-se todos, e sempre, ao domingo à tarde ). Para os mais velhos, e mais ou menos politizados, era também a rádio que trazia as notícias que não passavam no crivo da censura em Portugal. Nas ondas curtas sintonizavam-se a Rádio-Moscovo e a Rádio-Portugal livre. Tudo muito em surdina, tudo muito baixinho, que as paredes, nesse tempo, tinham mesmo ouvidos e muitas pessoas foram delatados à GNR local, por vizinhos ou "amigos" ( Portugal foi sempre, afinal, mais do que se pensa ou diz, um país de "bufos" )  por escutarem esses programas clandestinamente sendo depois sujeitos ao respectivo interrogatório no Posto e, provavelmente, se ficasse só por aí,  a uns "afagos" dos guardas...

A rádio passava alguns programas que ninguém perdia nesse tempo. O Serão para Trabalhadores, da FNAT, os Parodiantes de Lisboa, ou a primeira rádio-novela em Portugal: "Simplesmente Maria", que deu brado.

Em minha casa, a casa dos meus avós, nunca houve televisão, até porque a energia eléctrica só chegou à povoação no final da década de 60, mas houve, tanto quanto me lembro, sempre uma telefonia que era o centro de todas as nossas atenções. Era ela   a nossa ligação ao pequenino mundo português que se fechava sobre si próprio nas fronteiras com Espanha. Talvez por tudo isto me tornei um indefectível ouvinte de rádio. Ainda hoje, em qualquer divisão da casa onde eu esteja, salvo alguma ocupação que o não permita,  há sempre um rádio ligado para eu ouvir. Normalmente ligado na Antena 1.  Regra geral, e com uma honrosa excepção de grande qualidade ( para o meu gosto claro ), não me agradam  estações de rádio sem gente dentro, que só passam música durante horas a fio, bem sei que poupam em recursos humanos mas para isso, para ouvir apenas música tenho outros suportes mais modernos. Rádio é outra coisa diferente.

 Gosto de uma rádio atenta a tudo o que se passa à nossa volta, uma rádio que me traga o mundo sem me ocupar a visão com imagens de arquivo que nos adormecem ao cabo de alguns minutos de bombardeio noticioso. Uma rádio que não faz das notícias um repetitivo "enchimento de chouriços". Uma rádio que diz o que tem a dizer sem grandes delongas ou "floreados" bacocos.  Gosto de rádio com cultura, com entretenimento inteligente, com uma boa selecção musical, com diversidade de rubricas, actuais e interessantes, e pluralidade de programação que chegue aos vários  estratos populacionais. Depois é só escolher  o que mais me gosto.  Outras vezes ouço rádio sem estar a ouvir, apenas como companhia. Não gosto da solidão pela solidão. Nunca gostei de estudar em silêncio. Isolo-me mais facilmente,  para ler ou estudar,  num ambiente ruidoso do que numa sala onde esteja sozinho. Outras vezes posso simplesmente colocar uma música do meu agrado em fundo e assim vou embalado pelo som.

Quando o meu despertador toca, pela manhã, a primeira coisa que faço é ligar um pequeno rádio que tenho na cabeceira e ouvir o que se passou no mundo enquanto eu dormia, a situação do trânsito, o tempo que vai fazer, etc.  É raro, mas às vezes tenho insónias; então ligo o rádio e ponho uns auriculares. Ao fim de algum tempo "desligo-me" sem dar por isso e os auriculares  saltam-me das orelhas e vão à sua vida sem eu dar  conta. 

Sem rádio por perto, a minha vida seria  um pouco mais insonsa.   Entre a televisão, onde praticamente só vejo um ou outro telejornal e programação que coloco previamente a gravar, e a rádio, sem dúvida que prefiro a rádio, salvo quando a imagem se me impõe inevitavelmente.

Porque é que eu me decidi hoje a reflectir sobre este tema ?  Em primeiro lugar porque tendo sido  radialista amador  e tendo também  trabalhado durante muitos anos num programa de rádio cristã-evangélica  ( "Novas de Alegria" ) a escrever e a fazer locução   de programas, e mais recentemente na rádio Transmundial,  conheço muito bem qual o poder de penetração da rádio e a sua capacidade para poder chegar a lugares, impenetráveis para outros meios, com a mensagem do Evangelho. Depois, bom, depois porque talvez os mais distraídos não se tivessem apercebido que a Antena 1 ( herdeira da antiga Emissora Nacional ) completou, precisamente hoje, 78 anos de existência.  Um marco importante, e de todo o relevo, e que, por isso, deve ser celebrado; por todas as razões, e mais ainda porque nos tempos que correm a rádio pública sofre ataques despudorados e inusitados da parte de quem ocupa o aparelho de estado e nos (des)governa. Mesmo correndo o risco, que os meios públicos de comunicação correm por tenderem a ser manipulados pelas forças partidárias que,  à vez, vão ocupando o aparelho de estado, eu bater-me-ei, sempre, por uma rádio e uma televisão pública. Felizmente, hoje, a Antena 1 é um referencial nos meios radiofónicos que, mesmo tendo a obrigação de prestar um serviço público, continua a manter uma identidade profissional de grande qualidade e rigor. Para além do mais, genericamente, está recheada de bons profissionais e é lá que quase todas as rádios privadas têm ido buscar  gente para se poderem lançar, com alguma segurança, no Éter.

Há outras estações de rádio de que eu gosto: a TSF, a Rádio Smooth ou a RFM, mas é sempre à Antena 1 que volto. E é por isso que  a minha homenagem vai para os 78 anos de existência da Antena 1 e para todos os seus profissionais que no passado e no presente deram e dão o melhor do seu saber para dignificar a rádio que se faz em Portugal. Muito obrigado por tantos  bons momentos que a Antena 1 me proporciona ao longo de muitos dias. 

Jacinto Lourenço

terça-feira, 23 de julho de 2013

Portugal - A culpa não é do Espelho...


Não está a ser fácil escrever sobre o meu país. Quando somos miúdos pensamos que um país é assim como que uma coisa tão grande, tão avassaladora, tão resistente, tão organizada e tão forte que nada ou ninguém o pode abater ou derrotar. Lemos os primeiros livros de história e ficamos esclarecidos acerca da nossa utopia. Afinal , os países, mesmo sendo grandes, poderosos e resistentes,  são constituídos por pessoas. Umas são boas, outras más, umas inteligentes, outras nem por isso, algumas patriotas e outras anti-patriotas, umas capazes outras medíocres. Muitas trabalhadoras e esforçadas e outras que preferem viver à sombra destas. Um país, vamos aprendendo na história passada e presente, e à nossa custa, é tão só e afinal um macro-cosmos onde toda esta gente se move e se organiza ou desorganiza, social e economicamente, onde projecta os seus anseios de felicidade e realização pessoais e colectivos. Um país, na conclusão das coisas, é afinal um espelho de todos nós, do que fomos, do que somos e do que esperamos vir a ser.

O meu país, o nosso país, Portugal, é no conjunto dos países ocidentais um pouco menos que um anão geográfico, mesmo sabendo que não é isso, no fundamental, que faz um país . Pese embora o seu passado, que gostamos de dizer grandioso, marcante no mundo, foi quase sempre mais anão do que gigante. Condenou, também quase sempre, quem nele vive, muito mais à miséria, ao sofrimento e infelicidade do que o contrário. Entregue ao que erradamente chamamos "elites", o seu papel no concerto internacional de antanho foi, grosso modo, o da subserviência, do logro, da artimanha, do "chico-espertismo" e da dependência externa.

Após a aventura liberal, a primeira república e a ditadura de 1926-1974, pensámos que tínhamos finalmente condições para nos olharmos ao espelho e gostarmos mais da imagem que lá víamos reflectida. Sim, pensámos que 1974 podia ser o ano de uma viragem que contrariasse o amargo de boca que a história nos deixou continuamente em herança. Ao princípio, e passado o conturbado período do PREC, até achámos que já éramos meio europeus, daqueles europeus que olhávamos, com inveja contida, mais a norte. A nossa demanda por felicidade pessoal e nacional não tinha limites. Diziam-nos que estávamos no bom caminho e nós acreditámos de boa-fé.

De tão distraídos que andávamos com a nova aventura europeia  nem sequer nos apercebemos que as velhas "elites", as mesmas que tinham feito de Portugal um estado semi-feudal em pleno século XX e que tinham devorado o seu povo, após um breve interregno,  regressavam de novo, chegavam de mansinho, aboletavam-se com os milhares de milhões que por cá aportavam, todos os dias, todas as semanas, todos os meses, vindos  da europa. Compraram bancos ao desbarato, fábricas, jornais, jeeps, ferraris, mansões, montes alentejanos, herdades, propriedades, grandes empresas de serviços, seguradoras, indústrias. Construíram hospitais, pontes e auto-estradas, com créditos baratos obtidos externamente e  deixaram  ao estado, a juros criminosos,  a conta para pagar durante as próximas dezenas de anos.  Dominam nas energias, nas comunicações, na televisão pública que agora é TDT, mas que ninguém vê por problemas técnicos que só têm explicações esotéricas e porque foi projectada para isso mesmo, para ninguém ver e assim cair nos braços das empresas do cabo. Não descuram nem mesmo os lixos. Querem controlar a saúde e, se possível, as forças armadas ou  mesmo as águas. Os seus mentores são fortes, vão dando instruções e conselhos a partir de luxuosos gabinetes em  torres altas de  cidades importantes da europa central onde se fala quase sempre em alemão. O estado, em Portugal e noutros países periféricos, e a sua organização, vão sendo desmantelados: sistema bancário, Serviço Nacional de Saúde, Segurança Social, educação, etc. Fazem leis por medida para dar cobertura a tudo o que querem e aprovam-nas numa Assembleia ao seu serviço. Pagam principescamente a escritórios ditos de grandes advogados mas de moral pequena e ética na mesma medida para que lhe produzam pareceres incontestáveis e incontornáveis.  Respiram confiança impante, sabem que, em  Belém, as suas leis passam sempre e que os ventos e cores lhes são favoráveis. Transformaram as polícias na sua guarda pretoriana, e os polícias, esses, batem forte no povo alegando que estão a fazer o seu trabalho e que é para isso que lhes pagam.

Criam desemprego, sub-emprego, não-emprego. Fecham empresas sem dó nem piedade de quem delas subsistia ou retirava o sustendo pobre da família. Esmagam com impostos, taxas, sobre-taxas e ainda mais impostos e novas taxas.  Negam direitos e não sentem nenhuns deveres nem remorsos. Afinal, o país, o champanhe, os carros de gama alta, os privilégios as prebendas, não lhes custam nada, nem nunca lhes  custaram, sempre os tiveram de mão-beijada. Os seus tribunos vão organizando o circo mediático que traz notícias da  caridade, do pão e do circo que vão distribuindo. Fica-lhes barata a festa. Não são eles que a pagam.

Sim, pensávamos que íamos ser finalmente europeus...

Em 2013, quando nos  olhamos ao espelho da história, a imagem que lá vimos entra-nos pelos olhos e fere-nos a alma. É a mesma imagem de sempre, desfocada  com breves hiatos de ilusão.

Olhamos em volta, em busca de responsabilidades de quem  fabrica espelhos tão maus... Disparamos em todas as direcções menos na nossa. Mas afinal somos nós que "fabricamos" os espelhos onde projectamos a imagem da nossa história.  As tais "elites", parasitárias e oportunistas, só aproveitam as boleias que lhes damos no nosso dorso, seja pelo nosso  sufragar das suas acções, seja pela nossa falta de catarse colectiva, seja pelo nosso imobilismo ou amorfismo enquanto povo e nação. Quando neste Portugal coevo não sabemos aproveitar as janelas de oportunidade que a história nos abre, não podemos pedir responsabilidades a outros pela nossa incapacidade de o fazer. Abril já lá vai e nós por cá ficamos a ver-nos ao espelho numa imagem baça e desfocada. Dá raiva esta atitude complacente e contemplativa de uma portugalidade que só sabe pedir que a deixem existir nas mais velhas fronteiras europeias sem um rasgo ou esgar de assertividade. Sem um falar grosso. Sim, porque há gente que só ouve quando falamos grosso ou damos um murro na mesa.

Não existem caminhos para quem não sabe em que direcção quer ou deve ir .


Jacinto Lourenço

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Portugal - Um país Catatónico...


Portugal é, definitivamente, um país construído catatonicamente à volta dos mesmos residuais estados de alma. Nem mesmo uma quimérica "patuleia" nos livra disto....



Extrato de entrevista a um marinheiro da República em 1911:

" - A maior alegria que eu tive  foi a da proclamação disso que p'ra aí está e que eu julguei, então, que seria a República. Mas c'os diabos!... Ainda espero ter outra alegria maior... a da proclamação da verdadeira República.
- Mas esta república, que lhe parece ?
- Qual república ? Nós não temos República...São os mesmos... Só mudaram a bandeira..."


Fonte: Entrevista a um marinheiro revolucionário ( Manuel Joaquim - o França ) em 1911 in  Fermosa Estrevaria - 1912

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Há Gente Pior que Mosquitos...


Estive afastado daqui uns tempos. Casei a minha filha e fui dar uma volta por aí para não ter que perceber o vazio, assim, de repente, quando ficasse sem ela em casa. Andei pelo Alentejo, de alto a baixo, que é onde regresso sempre que preciso encher a alma e respirar o ar que me cura da nostalgia que hei-de carregar para sempre,  enquanto conseguir conjugar o verbo "respirar". Parei e percorri cidades e vilas perseguido por uma vaga de mosquitos que teimavam em não respeitar repelentes, nem que fossem comprados na farmácia. Eram iguais no alto e no baixo alentejo. Picavam da mesma maneira e deixaram marcas  que me estão a levar um ror de dias a passar. Dizem os mais velhos, os alentejanos que nunca deixaram de respirar o ar alentejano, que é sempre igual, todos os anos por esta altura lá voltam essas criaturas, escuras, pequeníssimas. A verdade é que nunca dei por eles. Ou então andámos sempre desencontrados nas últimas décadas. Também pode ocorrer eu  já não me lembrar como é viver todos os dias no alentejo.

Aflito com os mosquitos que me deixaram, e à minha mulher, o corpo numa lástima, pensei que há pragas que não se afastam de nós com facilidade e nem tão pouco  temem repelentes. Insistem em picar-nos constantemente deixando depois marcas que perduram no tempo.

Acho que certo tipo de gente, como a que ocupa hoje o aparelho de estado, são deste género. Do género  dos mosquitos. Como os mosquitos que me picaram, são gente minúscula, sem dimensão humana,  sem outras causas que não sejam as de picar e chatear  os desprevenidos, sugar-lhes o sangue ou depositar um qualquer verme ou bactéria microscópicos de que só percebemos a existência quando já estamos infectados. Sim são gente infecta que se habituou aos repelentes e até aprendeu a contorná-los, a fintá-los. Enquanto não  conseguirmos proteger-nos vão continuar a sua saga infecciosa. Na verdade, quando damos conta de que nos atingiram já não há muito a fazer. É esperar que passe ou então fazer uma desinfestação geral que os elimine de uma vez por todas dos locais e condições que lhes são propícios; e todos os locais onde há vida lhes são propícios...                                                                                

Como os mosquitos, esta gente sem dimensão humana conta com a nossa passividade para fazer estragos, habituou-se a isso e  irá  voltar sempre: eles, os seus filhos, os seus netos, bisnetos, padrinhos, afilhados ou amigos, se os ventos não lhes forem contrários, irão voltar sempre, como uma praga,  para picar muita gente e deixar o seu veneno a fazer ferida. Reproduzem-se aos milhares. Sendo gente sem dimensão, são especialistas a ocupar o espaço de actuação, formando nuvens de interesses e alvos que lhes são vitais à sobrevivência e propagação.

Desinfestação geral, sim, é o que precisamos.


Jacinto Lourenço

quinta-feira, 23 de maio de 2013

O Boneco Gaspar...



problema é antigo, está-nos no sangue, parece-me. Dizem-nos que o herdámos do tempo do "botas" , que nos obrigou ao servilismo. Não acredito. A coisa vem mais de trás, do princípio da nossa história enquanto nação, com Egas Moniz a confundir honra com servilismo ( numa "interpretação" muito minha, e livre, da história...) quando foi pedir perdão e oferecer a sua vida e da sua família em resgate  a Afonso VII por D. Afonso Henriques se ter recusado a prestar vassalagem ao primo, conforme lhe prometera Egas Moniz, se este levantasse o cerco a Guimarães.  Sempre tivemos esta tendência para o servilismo, para a obediência cega e parva, sem questionamentos. Somos assim; desenvolvemos, como nenhum outro povo da Ibéria,  a arte de "engolir sapos", mesmo se eles são de difícil digestão, mostrando um sorriso,  por mais amarelo que seja.

Se vamos ao senhor doutor para tratar das maleitas que nos afligem, lá vem a promessa de, pela páscoa, lhe fazermos chegar um borreguinho ou um cabritinho desmamado, tenrinho, ainda a saber a leite, sim,  claro, porque  o médico nos vai aliviar das dores que carregamos. Os mais pobres podem sempre ofertar um queijinho ou um chouriço lá da terrinha. O físico, impante na sua cátedra inquestionável e impenetrável, a olhar-nos por cima dos óculos, diz que sim, que gosta e, na volta de uns comprimidos milagrosos, ou de umas gotas,  lá mais para a frente poderá seguir também, para o consultório,  um perú pelo natal. Ainda hoje, mesmo acedendo a um Serviço Nacional de Saúde que pagamos com impostos, não ousamos deixar de olhar para o médico como alguém a venerar servilmente, em lugar de o vermos como profissional que é, pago para tratar da nossa saúde. A esta imagem, talvez mais diluída nos meios urbanos, juntam-se outras que têm a ver com o sacerdote católico, o pastor protestante,  o advogado, com o cabo da guarda, com o presidente da câmara, etc, a quem dedicamos ridículos e servis  encómios numa atitude borrega, sem paralelo conhecido a não ser o da  nossa triste vocação para desistirmos com facilidade de exibir a dignidade que reside no simples facto de sermos seres humanos e cidadãos na  plenitude da igualdade de direitos e deveres que independe da posição social que ocupamos . Somos, quiçá, dos únicos países do mundo chamado desenvolvido a achar que títulos académicos fazem parte, ou devem  usar-se em lugar dos nomes de registo ou baptismo. Um país de doutores e engenheiros em que, mesmo aqueles que o não são exigem tratamento deferente como se o fossem. Doutor para aqui, doutor para ali, senhor engenheiro para isto senhor engenheiro para aquilo... É cultural, dizem-nos. Sim, até pode ser, mas não passa de uma cultura de penacho que assenta num servilismo a raiar a falta de coluna vertebral que se liga com a facilidade com que a vergamos por tudo e nada.

Clara Ferreira Alves constatava há tempos, numa das suas habituais  crónicas no Expresso, que "outros países estão a conseguir atravessar a crise da dívida com a dignidade intacta" e só "Portugal resolveu transformar-se num país habitado por bonecos das Caldas". Dizia ainda  que "o nosso desejo de agradar, de servir, perde-nos. Faz-nos perder o respeito por nós próprios". Também, num outro registo, a mesma Clara Ferreira Alves, em reportagem sobre os estragos provocados pelo furacão Sandy, nos Estados Unidos da América, e para o mesmo semanário, constatava que os milionários de Manhattan, a deslizarem nos seus carros de luxo como se fossem os donos do planeta, não fazem a menor ideia de como vivem os pobres. "Usam-nos como serviçais, e proporcionam-lhes empregos com estatuto de invisibilidade. Os portugueses, uma comunidade em Newark, são famosos pela sua honestidade e por serem criados, governantes  e mulheres da limpeza de confiança. Gente que se pode meter dentro de casa. Simples, discretos, invisíveis. Sem nome nem história".

Também é certo, por aquilo que diz Clara Ferreira Alves, que pudemos, e devemos,  interpretar essa atitude dos trabalhadores portugueses nos E.U. da América, por exemplo, como francamente profissional: fazem o seu trabalho com correcção, executam as suas tarefas com profissionalismo e não se metem, mais do que devem, na vida dos outros, especialmente dos seus patrões. Mas também pode igualmente ser que o servilismo cultural dos portugueses os ajude a isso tudo.

Quando Portugal esteve sob dominação espanhola, esta cultura de servilismo era levada ao extremo para com a corte Filipina: relata-nos a História de Portugal coordenada por José Mattoso, no volume 5.3,  que "na corte de Filipe III [de Portugal], em Valladolid, os Castelhanos zombavam da soberba e vaidade dos portugueses: «não cuida um fidalgo português se não em que entrando na Corte, a hão-de assombrar, com os seus lacaios mais rica e custosamente vestidos do que nunca seus bisavós o fizeram nas suas vodas". Claro que o objectivo destes fidalgotes que se deslocavam a Valladolid,  emproados, empoados e seguidos pelo seu séquito de serviçais, era essencialmente  o de bajular o rei  e assim conseguir prebendas e favores políticos. Verificamos que, afinal, o servilismo é transversal na sociedade portuguesa e já vem de antanho.

O que sabemos hoje é que dignidade não rima com servilismo e que este não deve ser confundido com capacidade de realização e disponibilidade para correcção no nosso relacionamento com tudo e com todos, bem como exigência em sermos tratados com a mesma correcção com que tratamos com que connosco trata. Ver o psicopata social Vitor Gaspar, a vergar-se até ao chão, à frente do seu "colega e amigo" alemão, Wolfgang Schäuble, em nome  de Portugal, causou-me um frémito e um espasmo que me levaram ao vómito. Não teria nada contra se ele o tivesse feito em nome pessoal e no âmbito da "amizade" que o une a  Schäuble, cada um lá sabe as linhas com que se cose. Agora fazê-lo em meu nome e em nome de todos os portugueses, não aceito nem admito.  Se Gaspar quer ser um boneco das Caldas, como disse  Clara Ferreira Alves, é problema dele e de todos os que são como ele, mas comigo não conta para o ser também. Nada justifica, sejam  a crise ou as nossas presentes dificuldades, que um (des)governante português vá "lamber os sapatos" a um Schäuble qualquer em nome de um país que é tão ou mais digno quanto a Alemanha. Tenham dó, respeito por nós e pela nossa história de novecentos anos.

Jacinto Lourenço

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Os Cravos Morreram com Salgueiro Maia...




O despertador tocou, como habitualmente, às oito e meia da manhã de uma quinta-feira normal de uma semana qualquer. A D.Ilda entrou esbaforida no meu quarto a dizer que tinha havido uma revolução. Lavei-me à pressa, enfiei a roupa e fui, como habitualmente, a pé, do Alto do Pina até à rua Zaire, ali para o pé dos anjos, para a empresa onde trabalhava. Pelo caminho fui observando os rostos das pessoas e as suas reacções. Percebi um misto de esperança e receio. Na Paiva Couceiro alguns  grupos de homens mais velhos conversavam meio em surdina; adivinhei o tema das conversas e continuei a andar. Nunca antes tinha chegado tão rápido ao emprego. No escritório os meus colegas seguiam interessados a emissão da rádio. Ninguém estava a trabalhar. Fomos percebendo, pelas notícias, a realidade do que se estava a passar nas ruas de Lisboa e a intenção dos militares que se tinham sublevado.

Vivi o 25 de Abril de 1974 com muita intensidade. Tinha vinte anos acabados de fazer em Março. Apresentara-me  já  à   inspecção militar e sabia que, como qualquer jovem português de então, o meu destino seria cumprir cerca de quatro  anos de tropa obrigatória sendo dois deles  no então designado Ultramar. Quatro anos na vida de um jovem na casa dos vinte, a cumprir serviço militar obrigatório, eram sem dúvida um tempo de interregno que comprometia  aspirações e punha em causa a própria vida. Muitos fugiam para o estrangeiro para não obedecerem a esse chamamento do regime a uma guerra injusta  que não fazia qualquer sentido. França era o destino mais corrente dos mais politizados, dos que tinham família emigrada ou dos que possuiam suporte financeiro familiar para por lá ficarem o tempo necessário. Eu não me enquadrava em nenhum destes perfis pelo que,  era mais do que certo, iria para o ultramar. Sem dúvida um cenário que apavorava.

Trinta e nove anos depois, os portugueses já não exibem o sorriso daquele dia vinte e cinco de Abril de 1974. O que sobra é apreensão e tristeza. Interrogam-se como é que deixaram que lhes retirassem coisas importantes que Abril lhes deu, que os amesquinhassem, que voltassem a espezinhá-los como no tempo do Salazarismo o Marcelismo. Desconfiam de si próprios e da sua capacidade para se voltarem a erguer e a lutar por liberdade, direitos e dignidade. Desconfiam que não conseguirão readquirir  o sorriso e a alegria que lhes roubaram neste percurso de quase quatro décadas de liberdade . Sabem que Salgueiro Maia já partiu e que em Portugal existem cada vez menos homens e mulheres com coluna vertebral e verticalidade suficientes para se erguerem em prol do que deixámos que se esboroasse às mãos de inimigos e falsos amigos do povo português. Os cravos perderam a sua cor quando o capitão partiu.


Jacinto Lourenço

sábado, 13 de abril de 2013

A Vendetta em Portugal



É necessário que diga uma coisa antes de continuar: não sou, nunca fui e nunca serei uma pessoa que possa perfilhar valores sociais e económicos  de direita tal como eles se inscrevem desde há muitas décadas na europa, incluindo Portugal.  Fui sempre, desde que me lembro e tenho consciência política, uma pessoa com valores de esquerda, mas de uma esquerda não conotada partidariamente, uma esquerda humanista e com valores cristãos.

As minhas origens sociais, o meu passado, a minha formação humana e cultural, a minha família, a minha visão do mundo e da sociedade não se coadunam  nem quadram com cosmovisões de direita. Já o disse noutro fórum: vivi 20 anos da minha vida sob uma ditadura de direita nacionalista que muitos designavam fascista, mesmo se este epíteto era exagerado até do ponto de vista do próprio regime que nunca incorporou plenamente essa ideologia ainda que lhe tenha aproveitado algumas ideias peregrinas que colocou em prática. Parte da minha família também viveu e sofreu debaixo do poder descricionário e bestial que o regime delegava na  PIDE para combater os que se lhe opunham. Assisti, como observador de tenra idade, à luta dos trabalhadores do alentejo pela jornada diária de oito horas de trabalho, que é hoje uma coisa banal e um direito que muitos poucos contestam, ignorando, todavia, que custou aos assalariados do sul do país muito suor, sangue e lágrimas. A verdade, para os mais esquecidos, é que  até praticamente aos alvores da década de 70 do século XX, a jornada de trabalho diária era de sol a sol, isto é: começava-se a trabalhar quando o sol nascia e só se parava quando o sol se punha. Parafraseando um conhecido político, é só fazer as contas ao total de número de horas trabalhadas diariamente e somar-lhe  ainda as horas de caminho, normalmente a pé, ou de bicicleta a pedais para os mais afortunados,  de casa até às herdades onde se trabalhava, a quilómetros, mais as horas gastas no percurso inverso. Percebi como  o sistema de "bufos" implantado pela PIDE, e que visava a denúncia anónima de pretensas actividades  contra o regime, obrigava os portugueses a falarem em surdina mesmo quando estavam dentro de casa ou a olharem por cima do ombro quando circulavam na rua. Tenho perfeita consciência do mal  que a ditadura do Estado Novo fez a Portugal e dos atrasos de toda a ordem fomentados num  país  à margem de uma europa que fervilhava de desenvolvimento económico, social e cultural. Vi jovens partirem para uma guerra ultramarina estúpida, em territórios que nãos nos pertenciam, e observei como muitos regressavam estropiados, mas também quando não regressavam. Ouvia, de milhares de homens, mulheres e crianças, de todas as idades, de todas as regiões, de norte a sul, portugueses como eu, que eram obrigados a sair para o estrangeiro mais próximo ou mais longínquo, semeando lágrimas e dor pelo caminho, para escaparem da fome e da miséria que grassava nos anos 50 e 60 e outros ainda fugindo da guerra, da prisão, da tortura de um regime que nos impedia de viver. Olho hoje para a direita ultra-revanchista que ocupa o poder e vejo mais do que a ausência de qualquer sensibilidade social, vejo a falta de pudor, a ligeireza  e a falta de vergonha com que  indicam aos portugueses, a porta de saída, o mesmo caminho penoso e doloroso da emigração.

Rompeu o ano de 1971 e eu dei lugar a Cristo na minha vida passando a sentir e experienciar de outra maneira, inteiramente nova, a  minha espiritualidade, a minha fé que se tornou viva e plena de significado e que se afastou radicalmente da que tinha experimentado em criança  e na qual se plasmava essencialmente uma religiosidade desenhada à medida do Estado Novo e dos seus interesses políticos. Igreja e estado, estado e igreja católica romana, duas faces de uma mesma moeda que consignavam os interesses dos poderosos e rastreavam eficazmente comportamentos mais divergentes em matéria de fé no regime ou no catolicismo.
Constatei a forma como o estado, em conluio com o clero católico, tratava as religiões minoritárias e como perseguia, muitas vezes,  alguns dos  crentes protestantes. 

Enfim, muito havia para dizer do que foi Portugal antes de 25 de Abril de 1974, e de como o vivi. Quase tudo mau; quase nada de bom há para contar.                                                         

Em Abril soltámos o coração e desatámos a falar de nós, das nossas esperanças e dos nossos anseios, como cidadãos e como povo. Projectámos sonhos e desenhámos futuros. Demos asas à liberdade e metemos pernas ao caminho. Era preciso construir um país e todos tínhamos urgência nesse propósito. Mas cedo começaram as clivagens: esquerda, direita, centro, extrema-esquerda, extrema direita, reacção, reaccionário, fascismo, fascista, etc, foram palavras que enriqueceram o nosso léxico comum e que disparávamos, quais armas de arremesso, sem preocupação de acertar no tempo ou no modo. Começámos cedo a perceber quem era o quê e o que queria. 

Chegados aqui, a 2013, não temos dúvidas sobre quem é o quê e o que quer  alcançar com a sua militância ideológica  conquistado que foi o poder através de um sufrágio que de universal tem cada vez menos e de uma democracia cada vez mais formal. Anteriormente já sofrêramos  com um partido socialista que se especializou  no fabrico de  clientes do poder que depois irão viver dos seus favores. Social Democracia ou Democracia Cristã não passam de metáforas mal construídas que escondem pavorosas agendas ideológicas que nos atiram para o elenco de um filme de terror de terceira categoria. Arrostamos com partidos de direita que se transformaram na direita mais revanchista, perigosa  e malévola  desde que existe direita organizada de forma partidária após Abril e que, a cada passagem pelo poder, deixa o país infinitamente mais pobre e amargo do que o encontrou. De permeio coloca o estado ao serviço dos poderosos transformando-o numa mera agência de venda de títulos do tesouro que vencem sempre a taxas altíssimas a favor dos grandes grupos económicos que têm por detrás, sempre ou quase sempre, os bancos e os banqueiros cujas famílias e seus ascendentes se tornaram adictos em agir como as rémulas coladas aos tubarões ou como os carraceiros  à volta dos bois no campo, mas com uma diferença: ao contrário destes animais, não prestam nenhum serviço ao estado, só o aliviam do dinheiro dos contribuintes. Por outro lado, os partidos de matriz marxista que ocupam as cadeiras de São Bento ainda não perceberam realmente o seu lugar no país real, o do povo que dizem defender, e continuam a gravitar um umbigo maior do que  a sua própria dimensão ou das  suas  ideias para o país.

Estamos em Abril de 2013. 25 é a data que viveremos dentro de dias, uma data histórica em que, há 39 anos atrás, aprendemos a dizer Liberdade, Esperança, Futuro e a entender perfeitamente o significado dessas palavras. Perguntam-me se o 25 de Abril em Portugal valeu a pena ? Valeu, claro que valeu. O problema que hoje nos afecta não é culpa do 25 de Abril. O problema que nos afecta tem uma outra dimensão. Tem a dimensão daquilo a que prefiro chamar "Vendetta". Uma "Vendetta" levada a cabo contra Portugal e o seu povo pelas forças obscuras que sempre operaram a partir do  seu interior e  que foram carcomendo por dentro os seus recursos, a sua  vitalidade, a sua capacidade de reacção séria e objectiva contra a actual situação que afunda raízes nos últimos 39 anos da nossa vivência colectiva. Mas se antes operavam escondidos, usando processos aprendidos dos melhores scripts mafiosos, hoje operam às claras: ocupam o aparelho do estado, estão no governo, em Belém, em S. Bento, pavoneiam-se nos corredores das babéis europeias, sentam-se nas cadeiras da democracia mas congeminam contra ela, todos percebemos as suas manobras e vemos que objectivos querem atingir. Vendem os recursos do país e o seu povo nas bancas de todos os  mercados, não interessa o preço, o lucro é total para quem o embolsa. Hipotecam a nossa dignidade, a dignidade de um povo velho de novecentos anos, submetem-no a novos impérios. Semeiam a fome e a miséria. liquidam toda a esperança. E um povo sem esperança, que não tenha muito mais para perder, pode tornar-se uma arma de arremesso para novos actores no teatro da demagogia político-partidária.

Jacinto Lourenço


segunda-feira, 25 de março de 2013

Workshop de Alemão - Ignorância ou Convicção...?

(Foto jornal Público )
Há poucos dias, fui informada por professores de uma escola pública, em Portugal, de que no passado ano lectivo fora colocado um cartaz (ver abaixo) na entrada do edifício, nas paredes dos corredores e na sala de professores, apelando à inscrição dos alunos num “workshop de alemão”, como forma de “sobrevivência linguística”. Nada disto seria digno de nota se não fosse o facto de o apelo à inscrição invocar a submissão ao “Chefe”, neste caso o Führer em pessoa, retratado numa imagem a fazer a saudação nazi … O cartaz acabou por ser retirado, não por iniciativa da direcção da escola ou de um repúdio generalizado, mas pelo protesto de um único professor, que, para além de exprimir a sua indignação junto da docente que autorizou tal cartaz, exigiu da direcção da escola que o mesmo fosse retirado. O que veio efectivamente a acontecer, juntamente com um pedido de desculpas da professora em questão, afirmando que "não fazia ideia de que o mesmo iria provocar tanta susceptibilidade”.   Doce inocência, tranquila ignorância…Na verdade, não sabemos se é de ignorância que se trata ou de convicções ideológicas. Mas inclino-me mais para a primeira hipótese: no estado da educação em Portugal consequência das inúmeras e sempre mais “inovadoras” reformas do sistema educativo desde o 25 de Abril, do baixo nível de cultura geral de grande parte dos professores – com honrosas e importantes excepções –, da subalternização durante décadas das disciplinas de Ciências Humanas, em nome da “eficácia” e do “sucesso” das carreiras profissionais, a ignorância é certamente a hipótese mais plausível – mas totalmente inadmissível.                                       

É absolutamente inadmissível que alunos do 12.º ano, depois de terem estudado a Segunda Guerra Mundial nos currículos de História, elaborem um cartaz destes; é absolutamente inadmissível que professores de uma escola pública supostamente responsável por ensinar e educar permitam a colocação de um cartaz deste tipo; é absolutamente inadmissível que a direcção da escola não tenha, ela própria, tomado a iniciativa de o retirar imediatamente. Só que, na realidade, esta ignorância ou ainda mais provavelmente esta indiferença é apenas o reflexo de algo muito mais profundo, muito mais atávico em Portugal e que não data nem de hoje nem do 25 de Abril. É aquilo que nós gostamos de chamar “tolerância” e que mais não é, na maior parte das vezes, indiferença, falta de princípios, desprezo pelas ideias e pelas convicções.                                                                  

Em nome de uma liberdade de expressão, tão instrumentalizada quanto pervertida, não se entende que sem ética nem moral esta não passa de um relativismo esvaziado de sentido. Sob a cómoda e aparentemente tão tolerante expressão “cada qual é livre de dizer o que quiser” esconde-se na maior parte das vezes a indefinição ética, a recusa tacticista de tomar partido, a indiferença e a contemporização com o inadmissível. É este encolher de ombros que levou o historiador Ian Kershaw a escrever que “a estrada de Auschwitz foi construída pelo  ódio, mas o seu pavimento foi a indiferença”. [...]


 ESTHER MUCZNIK               LER TEXTO INTEGRAL AQUI NO JORNAL PÚBLICO

segunda-feira, 18 de março de 2013

Bater no Fundo...



Bater no fundo é uma expressão que ouvimos frequentemente quando se pretende concluir que já não existe mais espaço para se ir mais além, para que  alguma coisa ou acontecimento possa piorar ainda mais. Temos escutado isso mais vezes do que gostaríamos, em Portugal, quando alguém se quer referir ao estado do país e ao seu ambiente económico e social, mas a verdade é que descobrimos que, afinal, o fundo não passa de um fundo falso a que se seguem sucessivamente novos  fundos falsos. Ou seja: quando esperamos que, depois de bater no fundo, venha o tempo de começar de novo, eis que alguém nos vem dizer: "surpresa, afinal ainda há mais fundos falsos"...

Dia após dia, semana após semana, mês após mês e, já podemos dizer, ano após ano, tem sido assim em Portugal e na europa. Até há algum tempo atrás ainda estávamos (pouco) esperançados de que o país iria recuperar porque, afinal, estávamos integrados numa união europeia que não tinha qualquer interesse na nossa desgraça que, a acontecer,  só poderia traduzir-se num efeito de dominó para outros países da europa. Começámos cedo a descobrir que as coisas não funcionam bem assim. Percebemos, com a crise grega, que a europa não só não se interessa pelos problemas dos outros estados europeus, como, quando  esses problemas acontecem, só tem uma preocupação: libertar-se dos problemas, ou livrar-se dos estados com problemas. Arranjou a europa, e quando falo de europa estou a falar da "europa alemã", um processo eficaz para fazer isso: "esmagamento económico-social" dos estados que já estão esmagados pela crise económica. Foi assim com a Grécia, foi assim com a Irlanda, foi assim com Portugal,  tentam que seja assim com Espanha e Itália, mais logo será a França  e agora está a ser assim com Chipre.

A europa não tem nenhuma estratégia para a europa a não ser a da "europa alemã" e esta encontra, pelos vistos,  bons aliados políticos dispostos a aplicar as receitas merkelianas nos países com problemas ou já sob intervenção. E essa estratégia é a  da pilhagem e destruição levando à  exaustão económica e social dos povos dominados.

A história ensina-nos muita coisa. Estou a lembrar-me, por exemplo, de como as tribos germanas derrotaram por dentro o império romano sem necessitarem de fazer uma invasão militar avassaladora e clássica. Foram-se estabelecendo a pouco e pouco, com autorização até de alguns dos últimos imperadores, ocuparam territórios. Depois espalhavam o terror  desencadeando  operações e incursões  de pilhagem à volta dos seus assentamentos. Pelo meio aceitaram   a religião vigente no império e prestaram vassalagem ao imperador. Essa estratégia foi-se dilatando gradualmente. Os exércitos imperiais foram integrando germanos e, quando o imperador se deu conta, mais de cinquenta por cento dos seus legionários  já eram bárbaros, esmagadoramente germanos. Foi fácil, como vimos, para os povos germanos, minarem por dentro o Império Romano. Com a fragilização total do domínio imperial no ocidente, o caminho ficou aberto a posteriores invasões de mais larga escala, nomeadamente , ( além de outros ) por Visigodos, Hunos e Vândalos em todo o território a que chamamos hoje europa. 

Odoacro deu o golpe de misericórdia no Império Romano ocidental submetendo o último imperador, Rómulo Augusto, em 476 a.D.  Não se proclamou imperador mas apenas rei de Itália, submetendo-se ao imperador em Bisâncio que, a bem dizer, nunca se preocupou muito com o que se passava do lado de cá, mas esse momento passou a ser entendido como o que marcou, daí para a frente, o começo da idade média e, na idade média, como hoje, as estratégias políticas de domínio e expansão territorial na europa fizeram-se quase sempre à base da pilhagem esmagamento e destruição dos povos... 

Hoje, a Alemanha moderna também  não precisa de um exército para dominar a europa, como tentou fazer na primeira e segunda guerras mundiais ou como fizeram os seus ancestrais  no dealbar do Império Romano. Ela "instalou-se na europa", através de quase todos os governos da união europeia. As políticas destes governos e destes países, como se vê facilmente no exemplo de Portugal, ou são aquilo que a Alemanha impõe ou não são. E, não sendo isso, os alemães começam logo a dizer, como disseram aos gregos, e como é recorrente ouvir-se à boca pequena, que a "porta da rua é a serventia da casa". Mas o que mais impressiona, o que mais escandaliza, o que mais indigna, o que mais revolta, para poupar no verbo, é que se tenha instalado, como na idade média sob o domínio das tribos e dinastias germanas, uma política merkeliana, que recorre frequentemente ao esbulho, à pilhagem fiscal, como se verificou  agora, mais uma vez, o exemplo do Chipre com o roubo às contas bancárias dos Cipriotas, para impor a vontade germânica aos povos europeus,  exercida por governos fantoches debaixo de um poder mandatado a partir de Berlim, sabendo-se, como se sabe, que essa política se exerce gananciosamente em favor dos interesses imediatos alemães e do  bem estar do povo alemão e de alguns dos seus mais íntimos países satélites, enquanto os outros, os países que sofrem na carne e na alma esta miserável e maléfica política germânica de recorte tentacular, definham e morrem lentamente. O xerife de Nottingham, nos tempos de Robin Hood,  não seria capaz de idealizar melhor estratégia...

Levantam-se agora algumas vozes a dizer que a europa pisa terrenos perigosos, e até o nosso presidente-amorfo da república já tem umas tiradas provavelmente aconselhadas por algum assessor mais atento ao que se passa fora de Belém. Eu precisaria melhor: a Alemanha pisa terrenos Muito Perigosos e arrasta consigo a europa.

A Alemanha não deveria ter esquecido tão rapidamente a sua história, e de que massa é feita a  sua nação, e também não deveria ter esquecido tão rapidamente  que alguns dos  países que agora são alvo da sua rapina económica e social  fazem parte do número daqueles que perdoaram voluntariamente ou que foram obrigados e coagidos a perdoar os milhares de milhões de euros de indemnizações e reparações de guerra pelos prejuízos que os germânicos provocaram  na segunda guerra mundial. Entre esses países estão alguns dos chamados intervencionados economicamente pela "europa alemã".

Sim, Portugal não sabe ainda em que fundo bateu, ou quantos fundos falsos existem antes de que se bata no fundo verdadeiro, porém, a europa, essa, dominada pela "europa alemã", acredito, está já a roçar o seu verdadeiro fundo de degradação e decrepitude com todos os riscos e perigos que isso comporta e arrasta. Ingredientes para uma real implosão económico-social são-lhe todos os dias acrescentados por um bando de loucos que estão à frente dos seus destinos. Vista do ponto de observação de um simples cidadão europeu, como eu, a europa parece um enorme paiol de pólvora controlado por pirómanos doentios que gostam de atear fogos e provocar explosões para depois se deleitarem com a visão das  portas do inferno.  Com o mal que Alemanha tem feito à europa, confesso que às vezes me assalta o pensamento de que  a reunificação alemã possa ter sido um erro...  Mas a história é mesmo assim: tem o seu tempo e o seu caminho,  e essa coisa fantástica de ser feita por  homens e mulheres, nem todos bem intencionados e muitos pouco competentes ou capazes de pensarem ou verem algo além do seu próprio umbigo.


Jacinto Lourenço

quarta-feira, 6 de março de 2013

Pacíficos Indignados...




É um fenómeno curioso:

o país ergue-se indignado,
moureja o dia indignado,
come, bebe e diverte-se indignado,
mas não passa disto.
Falta-lhe o romantismo cívico da agressão.
Somos, socialmente,
uma sociedade pacífica de indignados.


Miguel Torga

Diário 17-09-1961


Via A Rês Pública












terça-feira, 5 de março de 2013

Frau Merkel segundo Maquiavel...


Muitos vêem em Angela Merkel a rainha não coroada da Europa. Se perguntarmos qual a origem exacta do poder da chanceler alemã, descobriremos uma marca característica da sua acção: a sua tendência para não agir, não agir ainda, agir  mais tarde, para hesitar. Merkel hesitou desde o início da crise da Europa e continua a hesitar até hoje. Ao início, nem sequer queria colocar a tragédia do endividamento grego na agenda política da Europa. Depois recusou-se, primeiro a salvar a Grécia, mais tarde  resistiu quando era necessário ajudar a Espanha e a Itália. O verdadeiro interesse de Angela Merkel não está em salvar em primeiro lugar os países devedores, mas sim em ganhar as eleições na Alemanha. E, para tal, como escreve a revista Der Spiegel, tem de "proteger o dinheiro alemão para preservar a competitividade da Alemanha nos mercados mundiais e, além disso, eventualmente, salvar a Europa". Ela faz uma política interna europeia que serve sobretudo à preservação do poder nacional.

Uma outra característica típica da chanceler alemã consiste na sua agilidade que se poderia considerar maquiavélica.  Segundo Maquiavel, o príncipe só deverá cumprir a palavra política da véspera se tal lhe trouxer vantagens no dia seguinte. Se aplicarmos esta regra à situação actual, o princípio é o seguinte: as pessoas podem fazer hoje precisamente o contrário daquilo que anunciaram ontem, se isso aumentar as suas hipóteses nas próximas eleições. [...]

Hesitação enquanto táctica de dominação - é este o método "Merkievel". O meio coercivo utilizado não é a entrada agressiva do dinheiro alemão, mas sim o contrário: a ameaça de saída, a protelação e a recusa de créditos. Se a Alemanha recusar a sua aprovação, a ruína dos países endividados é inevitável. Portanto, só existe uma coisa pior do que ser esmagado pelo dinheiro alemão: não ser esmagado pelo dinheiro alemão.

Entretanto, Angela Merkel aperfeiçoou esta forma de domínio relutante, legitimado como o cântico dos cânticos da poupança. Aquilo que parece algo absolutamente apolítico, nomeadamente não fazer algo, altera a estrutura de poder na Europa. A transformação da Alemanha na potência hegemónica na Europa é, assim, levada por diante e, simultaneamente, disfarçada. Este é o artifício que Merkel domina. Maquiavel podia, de facto, ser o autor do argumento.[...]

Ulrich Beck


Do livro "A Europa alemã"- de Maquiavel a "Merkievel" : estratégias de poder na crise do euro, Ulricch Beck, Edições 70, páginas 70 - 73

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Do Futebol e da Vida...


Primeiro íamos ( quem ia ) ao futebol em família, pais, mães, filhos, ou então em grupos de amigos, e era uma festa, um convívio. Não se escolhiam lugares em função das cores clubísticas, salvo nas bancadas dedicadas aos indefectíveis sócios, sentáva-nos onde nos parecia termos a melhor perspectiva do jogo ou então onde havia lugares disponíveis em dia de enchente. Ao nosso lado até podia estar um adepto da equipa adversária que isso não era problema nenhum; ele puxava pela equipa dele e entusiasmava-se com os jogadores dele e nós puxávamos pelos nossos. Acontecia  trocarem-se comentários  ou estabelecerem-se  mini-debates, mais ou menos acalorados, sobre o que se via no campo, de bom ou de mau, de uma e de outra cor.  Mas um jogo de futebol era sempre uma festa. Lá havia um ou outro mais exaltado e aguerrido que levava as coisas  a peito e isso dava às vezes lugar a pequenos "tsunamis" de agitação na bancada que tratavam de ser acalmados por quem estava perto ou, caso disso, o que era raro, pelos agentes da autoridade de serviço que  conduziam o exaltado adepto ao exterior para "apanhar um pouco de ar fresco" longe de quem gostava do futebol apenas porque era uma festa e não um ringue de box. Claro que o futebol movia ( e move ) paixões e, por isso, promovia  eventualmente comportamentos  mais desbragados de um ou outro espectador menos controlado emocionalmente. Mas, genericamente, quando se ia ao futebol, era ir a uma festa de gente de todas as idades, cheia de colorido, de alegria, de diversidade, de vozes soltas e vibrantes. Contudo, logo que o árbitro fazia soar o apito para começar o jogo todos os olhares  se concentravam no que acontecia dentro das quatro linhas,  e pouco mais, e era só isso que fazia sofrer, saltar, sorrir ou explodir de alegria pelo golo. Sim , era  assim o futebol, no seu estado mais puro e onde a vítima de quem perdia, regra geral, era   a mãe do árbitro, mesmo se ninguém conhecia a senhora. Claro, no fim queríamos sempre que a nossa equipa ganhasse, mas  não era um caso de vida ou de morte, e nem sequer chegava a tirar-nos o apetite do jantar se acontecesse o contrário. 

De há uns anos para cá apareceram no futebol uns senhores meio mal engravatados, lustrosos, com verbo tosco e gestos largos, desejosos de protagonismo que, não conseguindo alcançar nas suas comunidades, por manifesta incapacidade pessoal ou falta de mérito;  subitamente enriquecidos por negócios especulativos feitos, quase sempre, na área da construção civil; beneficiários da tal bolha imobiliária, de que tanto se falou já, ou portadores de uma pérfida  capacidade de ludibriar e manipular os clubes e os seus sócios, para se instalaram nas direcções com a promessa de  conseguirem os objectivos desportivos ansiados pelos sócios e adeptos. Esta estirpe de gente fomentou, dentro do campo, onde era suposto o futebol jogado com os pés ser a coisa estritamente exibida, e fora do campo, um ambiente que foi e é propício mais  a eles do que  ao clube que tinham tomado. Os sócios e adeptos, sedentos de títulos e cegados pela paixão clubística, deixaram-se invadir por esta praga de dirigentes.  A meio deste processo, os tais putativos dirigentes foram gerando condições objectivas ou subjectivas para o aparecimento das conhecidas claques que pululam por aí e onde, na generalidade, se arrebanharam um conjunto de arruaceiros que, para além de causarem distúrbios e trazerem o ódio para os campos de futebol, nada mais fazem do que dar trabalho à polícia e denegrirem e prejudicarem a imagem do desporto, afastando em definitivo  as famílias para longe dos estádios e outras pessoas que, de um jogo de futebol,  queriam colher um momento de pura descontração, ambiente festivo e convívio salutar.  A cultura das claques é a da violência pela violência. É o do quanto pior melhor. E se não puder ser dentro dos estádios há-de ser fora deles, independendo  se a sua equipa ganha, perde ou empata. Não é isso que os move.  Os dirigentes, esses, claro,    seguem em frente na sua acção devastadora do desporto dito rei, e das instituições, assobiando para o lado e fingindo ignorar a criatura e as malfeitorias  do pequeno monstro que incubaram dentro do futebol.      

A verdade é que é fácil ver  que, quando estas tais claques "organizadas", como lhe chamam, entram nos estádios onde se vai realizar um qualquer jogo, passam a maior parte do tempo viradas de costas para ele.  A sua  única preocupação é a desestabilização do ambiente desportivo e festivo que no estádio devia ser gerado pela festa do futebol jogado. O principal objectivo, a sua grande motivação nos noventa minutos ou mais que dure a peleja no relvado, é ofender, seja por palavras ou gestos, e arremessar objectos mais ou menos contundentes sobre  tudo o que mexe à  sua volta. É impossível que gente desta goste de futebol ou do desporto pelo desporto. Os seus valores são outros e não têm a ver com um jogo de bola, tal como os dos seus mentores. Mas será que tudo aquilo que de mau demanda o futebol através das claques preocupa seriamente os ditos dirigentes dos clubes e mentores das acirradas claques?  Claro que não. Se preocupasse já tinham acabado com elas. Parece óbvio ser do interesse dos dirigentes terem cães acirrados que façam algum trabalho sujo que eles não querem fazer; depois, bem, depois quando as coisas acontecem  podem sempre demarcar-se, hipocritamente, dos desmandos provocados por aqueles que açularam com as suas palavras de ódio e incitações maldosas dirigidas aos clubes rivais.

Estes dirigentes que tomaram o futebol como se fora um negócio seu, têm passado, nas últimas décadas, todo o tempo, a semear ódios e ventos. Ora, como bem sabemos,  ódio gera  ódio e quem semeia ventos só pode esperar colher tempestades.   Estas pessoas usam os clubes como instrumentos de ataques pessoais e institucionais e transformam os atletas que representam os clubes em joguetes das suas políticas, ditas "desportivas", aproveitando-se muitas vezes da instabilidade emocional destes, da avidez dos seus empresários, e do seu desejo por, ganhos, brilho e glória rápida, de uns e de outros, capazes de os guindarem a mais altos voos. Há um chicote psicológico nas mãos de cada dirigente de clube pronto a cair em cima de quem não apresente resultados imediatos que alimente a sua sede de protagonismo e lhes promova e afague o ego. Nessa demanda  promovem uma política de "eucalipto" secando tudo à sua volta e devastando clubes e instituições que expostos à mercê das suas megalomanias. Envolvem governos, bancos, cidadãos, empresários, câmaras municipais, juntas de freguesia e, se necessário, gente da mais baixa ralé nas suas "guerras" contra hipotéticos "sistemas".  Querem ser donos da cidade.  O seu ego é enorme e insaciável por cada vez mais protagonismo e exibição. As suas atoardas nos meios de comunicação são setas envenenadas, mas vistas como garantia de facturação pelas  empresas de media que, como bem sabemos, produzem uma informação que raia muitas vezes o asco. Poucos dirigentes, muito poucos, têm feito bem ao futebol e ao desporto em geral no país;  pelo contrário: os resultados da sua maléfica acção estão  à vista, todas as semanas, nas bancadas dos estádios, nos orgãos de comunicação,  nos tribunais.  

Tenho pena que o futebol se tenha deixado conquistar por esta gente, até porque  sou de uma geração que cresceu em Portugal tendo praticamente como únicas referências capazes de sustentar algum orgulho nacional  a nossa história passada e o futebol que,  lá fora,  e às vezes, se agigantava e ganhava, volta e meia, um jogo ou  um troféu que nos deixava a pensar que também  éramos gente e que nos chegava a dar a ideia de que, afinal, podíamos ombrear com os grandes da europa em alguma coisa, mesmo que isso não passasse de uma ilusão...

É assim, a nossa vida, em Portugal. Parece-me bem que um dos nossos principais defeitos, enquanto povo, é não estarmos dispostos a escrutinar, convenientemente,  as competências e interesses de quem se propõe dirigir-nos, seja na política, no desporto ou até noutros sectores da vida. Normalmente vamos na cantiga de embalo fácil de homens e mulheres, sacos de vento,  que não passam afinal de maus pagadores de promessas.  E,  promessas, como bem sabemos, leva-as o vento.

Não é muita a diferença entre a realidade do futebol e a realidade do país.
                                                                                                           
Talvez por isso mesmo, as consequências acabam sempre por vir bater à nossa porta, mais cedo que tarde, e são-nos servidas a frio, como se de uma vingança se tratasse. Uma vingança do tempo e do modo como fazemos as nossas escolhas, ou deixamos que outros as façam por nós.

Jacinto Lourenço

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Portugal a Papel Químico 39 Anos Depois...

Quase três décadas já passaram sobre o momento desta entrevista de Zeca Afonso. Diferenças em relação à sensibilidade de José Afonso quanto aos problemas do seu tempo versus o momento actual são poucas. Semelhanças são assustadoras. Não há mantos diáfonos que possam encobrir a brutal realidade.




quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Intolerância de Ponto...


Pela primeira vez tenho que concordar com o (des)governo instalado em Portugal quanto a uma medida radical tomada: a eliminação da tolerância de ponto no Carnaval . Não, não é pela razão de eu gostar pouco do Carnaval que concordo com o (des)governo, aliás, diga-se em favor da verdade que, eu, não gostando particularmente do Carnaval ou da celebração que ele evoca, gosto sempre de ficar em casa a usufruir de um dia de descanso extra; é que esses dias  já são tão poucos que ninguém se pode dar ao luxo de enjeitar um descansozinho suplementar, muito menos eu. Mas a razão pela qual tenho que vir aqui dar a mão à palmatória e concordar com o (des)governo do país tem a ver com o facto de eu achar que não é necessário que os portugueses se preocupem em produzir ou celebrar Carnaval nenhum pois o (des)governo já anda a fazer isso por eles há mais de um ano. A (des)governação tem sido um Carnaval permanente e, se ao princípio o povo ainda alimentava a esperança  de que Passos Coelho viesse dizer que podiam ficar descansados que afinal era tudo a brincar e de que era como no Carnaval que ninguém levava a mal, depressa percebeu que não senhor, era mesmo a sério,  e que o (des)governo tinha convocado um Carnaval só para os ministros, os secretários de estado, o presidente da república, os membros do partido da maioria e os seus clientes habituais, mais os banqueiros e os representantes do ultra-capitalismo com os seus pontas de lança que dão pelo nome de Troica. Claro que a oposição não gostou nada disso e o PS não se ficou nas encolhas e  tratou logo de arranjar também um Carnaval alternativo com os cabeçudos Seguro e Costa a darem  espectáculo na praça pública para diversão do pagode à hora dos telejornais.

O problema, meus amigos, é que, não senhor, nós não precisávamos realmente do Carnaval para nada. Com tanta maldade que o (des)governo  produz e com tanta diversão que a oposição nos oferece, Passos Coelho, achou que não era necessário que a malta deixasse o conforto dos ares condicionados, quentinhos, dos open spaces do trabalho e fosse para a rua apanhar frio e chuva e, quem sabe, alguma constipação ou gripe que desse para o torto e ainda servisse para aumentar o défice com consultas, medicamentos e ausências ao serviço. Mas  claro que todos sabemos que isso é uma desculpa um bocado esfarrapada, e vai daí, o (des)governo não deu tolerância de ponto . Mas a verdadeira razão para nos retirar o feriado é que o (des)governo, invejoso e incapaz de se sujeitar à livre-concorrência da trapalhada, dos momos, dos cabeçudos, das matrafonas e dos disfarces, não resistiu e cortou  asas às veleidades de quem lhe pudesse fazer frente nos arremedos carnavalescos onde quer continuar a pontuar enquanto a proverbial mansidão dos portugueses o deixar. É isso: o (des)governo não quis concorrência de ninguém, acha que o carnaval que nos tem oferecido chega e sobra e,  aí, eu concordo.

Jacinto Lourenço