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sábado, 9 de fevereiro de 2013

Crise...




De um momento para o outro, as acções caíram. Não era possível entender: até há uns dias eram só recordes de alta, uns atrás dos outros. Dinheiro fácil para qualquer pessoa que entrasse no jogo. Agora não. O dinheiro tinha desaparecido. Tanta gente tinha perdido tanto no mercado financeiro que já nem os bancos emprestavam – uns por medo de que os clientes que pediam empréstimos estivessem tão falidos que não iriam pagar nunca; outros porque estavam com as calças na mão.
Sem poderem contrair empréstimos para pagarem as suas dívidas, as empresas faliam umas atrás das outras. O desemprego aumentou, e quem continuava a trabalhar não tinha nenhuma certeza de que continuaria a ter trabalho. Por precaução, as pessoas começaram a economizar, comprando apenas o essencial.
Aí é que as coisas foram para o buraco de vez: as empresas, que já não tinham crédito no mercado, ficaram sem clientes. Falência geral: 72 companhias em 100 fecharam as portas. As que não morreram acabaram gravemente feridas. Até as acções da maior empresa do mundo caíram 80%, depois de terem atingido o seu maior valor de mercado na história. O governo precisava de agir para evitar o desastre completo. Primeiro agiu com a boca, apontando o grande culpado pela crise: a ganância dos investidores, que estavam a transformar a economia num casino. «Vamos restringir as práticas perniciosas dos negociantes de acções», disse o presidente da Câmara. Um analista financeiro resumiu bem o espírito de indignação: «qualquer pessoa poderia ter previsto que a alta das acções a um preço tão superior ao que elas valem teria uma consequência fatal».
Esta história serviria para narrar com alguma precisão o desenrolar da crise de 2008, mas aconteceu em 1697, no Reino Unido.

In Alexandre Versignassi, Crash


Fonte: Pó dos Livros

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

A Poesia e as Sombras na Europa




Quando daqui a muitos anos alguém fizer a história da crise europeia, um dos registos que sobreviverá à erosão do tempo será o livro de poemas de Hélia Correia, A Terceira Miséria (Relógio D'Água, 2012). Os poetas dizem as coisas improváveis, mas essenciais. Conheci este livro pela mão de Maria de Sousa, uma cientista com quem o País contraiu uma dívida que jamais poderá saldar. Como tudo o que é fundamental, o verdadeiro conhecimento, seja científico ou poético, está para além da "esfera de transacções". Hélia Correia fala-nos da Grécia e da Alemanha. Do país onde amanheceu o Ocidente. E do país que, no último século, parece condenado à maldição de conduzir a Europa à sucessiva encenação do seu crepúsculo. A poetisa convoca Hölderlin, Nietzsche, a II Guerra Mundial, mas canta-nos sobretudo a espessa vitória do esquecimento sobre essa memória que é a nossa única linha de defesa contra a repetição da barbárie. Era contra o esquecimento que os cadetes de West Point aprendiam de cor a Ilíada de Homero. No gutural grego arcaico. Pois, a verdade da guerra não é estratégica, mas moral. Uma mistura de fúria, desmesura, piedade e coragem. Dentro de anos, talvez ninguém se lembre de um só dos nomes dos líderes que, embriagados por amnésia, conduzem a Europa para o colapso. Em janeiro de 1939, quando os políticos ainda festejavam a Paz de Munique, o poeta W. H. Auden escrevia: "No pesadelo da escuridão/ Todos os cães da Europa ladram/ E todas as nações vivas esperam/ Sequestradas no seu ódio." Em dezembro de 2012, esperamos, presos num labirinto de dívida, arrogância e medo. Sem saber se ainda haverá um fio de Ariadne que nos salve desse Minotauro, que deixámos irromper no lugar onde deveríamos proteger a esperança.


Viriato Soromenho Marques

in Diário de Notícias 

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Devem Pensar que Somos Todos Estúpidos...


Depois das manifestações de sábado passado em todo o país ( as maiores desde o 25 de Abril de 1974 ), sucederam-se as opiniões, por parte de gente dos partidos do governo, particularmente do maior partido que o integra, tentando explicar a insatisfação e revolta dos portugueses, ruidosa e numerosamente manifestada nas ruas, com um problema de deficiente comunicação, por parte do governo, das medidas de austeridade anunciadas, ou ainda pelo facto de as medidas não estarem a ser  "moduladas" ou "balanceadas". A questão que se coloca, no fundamental, é a seguinte: será que estes doutos panegiristas ao serviço do desgovernação de Passos acham que nós, o povo, somos todos estúpidos ou irracionais ? Se não acham então é o que realmente parece. 

Eu gostava de dizer a esses senhores, aos do governo e aos panegiristas que fazem coro para branquear a sua governação criminosa, que nós, o povo, não somos estúpidos nem irracionais; nós percebemos muito bem o que nos estão a fazer e o que estão a fazer ao país. Não há nenhuma confusão no nosso espírito nem nenhuma dúvida sobre aquilo que se passa. E, já agora, deixem-me que vos diga que o problema não é só com a TSU, é com tudo, e especialmente com vocês, os que governam e os que glorificam os que governam, por causa do que estão a fazer em Portugal. Vão-se embora, desapareçam, não provoquem mais desgraça e miséria. As empresas, os empresários, as pessoas responsáveis, os trabalhadores do privado e do público, os reformados, as crianças, os jovens, os velhos, ninguém vos quer mais à frente dos destinos do país. Nós percebemos muito bem o que estão a fazer. Pelos vistos, se há alguém que não percebe o que tem que fazer são vocês, os que acham que foi para isto que os vossos votantes vos mandataram. Podem ficar descansados, o governo comunica muito bem, tão bem que o povo já percebeu há muito o que é que tem que fazer convosco: correr-vos à vassourada, para poupar no verbo.
Lembro-me que após o 25 de Abril de 1974, o povo, livre ainda desta tirania partidária, veio para a rua manifestar-se por um futuro que pretendia melhor após 48 anos de ditadura de um regime corporativista e de influência fascista. A diferença para as manifestações de sábado passado são mais  no número do que na substância: o povo continua disposto a lutar por um futuro digno para todas as gerações presentes e futuras e não há-de ser um governo ultra-liberal e correia de transmissão dos grandes interesses económicos, que o há-de vergar. Foi isso que foi dito nas ruas. Os espertos do costume, fingem que não entenderam a mensagem, e querem tomar-nos por parvos mais uma vez. Veremos.

Jacinto Lourenço

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Os Lutos Portugueses...



..."Apetece cantar e ninguém canta / Apetece gritar e ninguém grita..." Escreveu Miguel Torga. O desespero era semelhante ao de agora porque a mão do medo entravava a condição de todos. Os acasos da fortuna, os equívocos da época e as ambiguidades de carácter de muitos homens embrulharam-nos neste sudário. Repete-se a história dos lutos portugueses. Os espanhóis Unamuno e Ortega falaram do nosso infortúnio. O primeiro com terna simpatia; o segundo com displicente desprezo. Unamuno tentou compreender-nos. Ortega observou-nos com azeda desconsideração.
Olhamos em volta. Talvez mereçamos ambas as perspectivas. A qualidade da existência colectiva, acaso possa medir-se nessa dualidade. Elegemos quem nos faz mal por excesso de incoerência e vocação para o infausto. A História está repleta desse mal-entendido vital. Mas poucas vezes, como agora, estivemos no interior do círculo concêntrico da angústia sem saída.
O projecto de empobrecimento de Pedro Passos Coelho enfraqueceu, sobretudo, a nossa alma. Mas a diminuição projectada para os outros diminuiu quem a executou. Ou, melhor: quem a executou está desprovido da grandeza exigida aos que dirigem e decidem. Observemos os rostos desta gente: reflectem a génese dos que não possuem força natural, e mais não são do que expressões servis e inconsistentes. Gil Vicente narrou-os e ao espírito que os anima, antes de qualquer outro. Camilo e Eça remataram o retrato. São filhos, netos e bisnetos dos que se julgam sacramentados pelo direito divino, e não têm de dar satisfações pelos seus actos. Quando alguém se ergue, através do trabalho, do talento e da vontade, para tentar modificar as coisas, logo ressuscitam os velhos e malditos poderes. "O país é pequeno, e não maior a gente que o habita." A frase é atribuída a Herculano, que desistiu com um parágrafo terrível: "Isto dá vontade de morrer!"[...]

Baptista Bastos in Diário de Notícias Online

quinta-feira, 12 de julho de 2012

À Espera do Vulcão...


... Os principais dirigentes políticos da Zona Euro tornaram-se uma espécie de vulcanologistas sociais e económicos, que se limitam a aguardar a grande erupção europeia. Os sensores dão sinal de que o impacto será gigantesco, mas os políticos abdicaram do seu dever de liderar, com lucidez e coragem. Calam-se ou repetem rosários de impotência. Externalizam responsabilidades, trocam acusações mútuas, até ao dia em que, efectivamente, a margem de liberdade para construir o destino comum seja totalmente devorada pela força nua e crua das coisas.


Viriato Soromenho Marques in Diário de Notícias Online

quarta-feira, 27 de junho de 2012

"Nein" ! Só por Cima do meu Cadáver !!


Nein !  Só por cima do meu cadáver, terá dito a senhora Merkel, embora por outras palavras,  numa reunião com deputados de um dos partidos que apoiam o seu governo, quanto à hipótese de  mutualização da dívida pública europeia. Já o disse, e volto a afirmar: a chanceler alemã tem duas agendas políticas. Numa delas, a que é do domínio público, finge que está interessada na recuperação da europa e da zona euro, na outra agenda,  a que está escondida dos europeus, e em que  só a espaços se consegue perceber a sua real orientação,  Merkel inscreveu a morte da União Europeia a prazo. Julgo que  a senhora conclui que  esta europa já não lhe serve; a Alemanha já a espurgou  daquilo que pretendia, instrumentalmente,  para concretizar os seus intentos máximos: reunificação alemã - que toda a europa andou a pagar durante anos,  projecção internacional da sua economia  no que às volumosas  exportações para fora do espaço europeu diz respeito, impor-se aos mercados financeiros como porto seguro do dinheiro destes que assim não fica à disposição de outros estados a não ser a juros que têm mais a ver com agiotismo puro e duro, e tudo isto complementado com medidas que impedem o banco central europeu de intervir com eficácia nos problemas das dívidas dos países com problemas a esse nível. Ou seja: para o ideal alemão, a U.E. já é um peso e o euro está a tornar-se cada vez menos instrumental e cada vez mais insustentável para o desiderato alemão de sujeitar a europa à sua ditadura económica e social. O que não conseguiu pela via da guerra e das regras democráticas, está a conseguir pelo estrangulamento económico. 

Tenho a impressão, neste momento, por aquilo que observo, que a chanceler, se for muito "apertada" pelos seus parceiros europeus das economias mais fortes mas em francas dificuldades com a crise,  tenderá a efectuar uma fuga para a frente e ameaçará com a sua saída do euro. Os alemães têm as contas feitas e, para eles, uma saída controlada do euro, seja lá isso o que for, é uma tentação que se insinua  cada vez mais forte, veremos até onde resistem.

Enquanto não se entender que esta crise europeia, com uma forte e marcada tendência para se globalizar rapidamente, não tem exclusivamente  uma raíz técnico-económica pura, mas acima de tudo radica num sério problema  problema ético e moral no que diz respeito à forma como se lida com o dinheiro no mundo capitalista em que nos movemos, nada será resolvido e Merkel será a última a querer contribuir para  ajudar a resolver os problemas europeus. Aliás, a história  diz-nos que a Alemanha foi sempre mais uma fonte de problemas do que uma fonte de soluções para os outros povos europeus, mesmo que isso possa não ser suficientemente claro ou facilmente aceite por todos é transversalmente verdade para todos. 

Já  percebemos que em termos de  ética e moral, a chanceler só entende a dos cifrões e a dos interesses particulares e imediatos de um país que começa a estar  isolado no concerto das nações, dentro e fora da U.E., que temem os riscos do jogo perigoso que ela joga.                      


Ao que nos dizem, Merkel é oriunda da antiga Alemanha do leste e filha de um pastor protestante. Ora se há coisa que distinga os protestantes, e os evangélicos, em qualquer parte do mundo, em geral,  é um elevado padrão ético-moral  aplicado à  vida, aos negócios e à inter-ajuda mútua. Vejo com bons olhos o rigor que os  alemães colocam no trabalho e nas organizações. Só não percebo porque é que  acham sempre que são os únicos sérios e rigorosos naquilo que fazem, até porque, também aí, a história está contra eles.  Entendo por isso que a "ética protestante" da senhora Merkel se encontra penetrada por uma moral  farisaica de recorte  contemporâneo, que despreza os menos ricos só porque não são ricos e porque,  não sendo ricos,  insistem em partilhar  e reconciliar desigualdades ao estilo das primeiras comunidades de cristãos da judeia que mereciam, aliás, o desprezo e perseguição dos fariseus fanáticos e religiosamente cegos. 

Não sei se o pai de Merkel era ou não pastor protestante como dizem mas, se era, a filha não terá aprendido nada com ele; se considerarmos que também, ele próprio, terá ensinado valores cristãos à filha. No limite, e políticas à parte, aceito que a chanceler seja uma "ovelha" fora do redil  evangélico e que esteja mais concentrada no dinheiro do que no unguento. Provavelmente deve ter esquecido que toda a atitude ética tanto  pode encontrar-se no uso de um quanto do outro, dependendo da ocasião e da necessidade e do objectivo último a atingir.


Jacinto Lourenço

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Enquanto Portugal perde...



A jornalista Fernanda Câncio "queixava-se" ontem, na sua habitual crónica num matutino de Lisboa, de ter recebido indicações para que as suas crónicas andassem à volta da bola que rola no euro, enquanto esta rolar.

Não sou de trazer debates futebolísticos para o Ab Integro, não quero agora fazê-lo, não o faria nem que a selecção de Paulo Bento fosse campeã europeia. Estranho, aliás, que um jornal em que se reconhece alguma respeitabilidade imponha este tipo de regras aos seus cronistas. Também não falei com a jornalista para perceber se ela estava na "mangação" mas,  se não estava, fico a saber que mesmo as direcções dos jornais ditos de referência têm o seu lado populista bacoco não conseguindo escapar ao "Maria vai com as outras". Esse mesmo jornal, no suporte em papel, ocupa hoje mesmo, no mínimo, sessenta a setenta por cento das suas páginas com o futebol... É obra.

Não tenho nada contra o futebol, bem pelo contrário, gosto de ver e gosto de ver a selecção do Bento ganhar, mesmo que não lhe  reconheça, à selecção de futebol, o brilhantismo suficiente para fazer boa figura desta vez. Mas não ter nada contra o futebol, não significa que apoie esta quase semi-alienação da imprensa portuguesa e restantes meios de comunicação,  face a um desporto que depende, no fundamental, grosso modo, de uma bola que entra na baliza ou que bate na trave.

Quem deve estar muito contente sãos os políticos portugueses. Os do governo porque toda a gente esquece, momentaneamente, os seus desmandos no país, o que lhes dá alguma folga. Os da oposição porque têm oportunidade de rever e estudar melhor os seus guiões, pois até agora o que têm levado a cena passa completamente ao lado dos portugueses. Uns e outros representam papéis diferentes mas neste momento o que querem, uns e outros, é beber uns canecos à frente de um prato de caracóis, ou de um pires de tremoços na esplanda mais próxima.  A nação que espere, pendurada ao pescoço, enquanto Portugal perde...

Jacinto Lourenço 

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Afinal o Tamanho Conta, Conta de Mais, na União Europeia


Podem os espanhóis querer convencer o mundo  que o seu resgate se destina apenas à banca. Pode a UE querer fazer-nos acreditar que,  não senhor, não é o que se diz e que a Espanha irá ser sujeita, tal como os outros países resgatados, a medidas de alguma austeridade e vigilância sobre as contas públicas. Pode o governo português, na sua já habitual obediência canina e querendo mitigar o sentimento de amarga injustiça que impõe ao povo português, vir tapar o sol com uma peneira e dizer que o problema dos espanhóis não é igual ao português. Podem fazer e dizer tudo que nada disso vai mudar o sentimento de que nesta desigual europa, que pretendem fazer passar por união, o tamanho conta, e conta muito, conta muito mais do que aquilo que devia contar. Gostava que me dissessem se a cor, o modelo, ou o formato das notas de euro que viajaram para Espanha é diferente das que viajaram para Grécia, Irlanda e Portugal ?! Não me perece que seja ! Então, porque raio é que espanhóis tem uma carga de juros, a pagar pelo dinheiro que pediram, inferior à de gregos, portugueses e irlandeses ? Porque razão o tratamento que nos é imposto, e aos outros países resgatados, é substancialmente mais severo que o imposto aos espanhóis ? No final o que conta é o que todos temos que sofrer, pagar e, pelos vistos os espanhóis vão sofrer e pagar imensamente menos que os outros povos. É sempre mais fácil bater nos mais pequenos, mas isso também é revelador da hipocrisia e covardia política dos líderes europeus.

Inaceitável,  para/numa europa que diz ser União. Sim o tamanho conta, e conta muito. Conta  demais. Esta europa não nos convém, não nos interessa, e talvez esteja a chegar o momento em que os países mais pequenos queiram aprender à sua custa e decidam somar esforços para aparecerem unidos, em defesa dos seus interesses, dentro de uma União Europeia cujas estruturas só têm olhos para os grandes países e onde só os interesses destes contam. A União Europeia, tal como foi sonhada na sua génese, morreu há muito, e se as relações dentro dela se pautam apenas por relações de força entre grandes e grandes então não estamos lá a fazer nada e isto já nada faz sentido nenhum. Mais vale acabar de uma vez por todas e voltarmos todos a uma europa de nacionalidades com os riscos inerentes a isso. 
É isso que querem, pelos vistos, alguns grandes países que acham que são patrões e donos de todos os europeus. 

Agora estou em condições de compreender muito melhor a razão pela qual os ingleses desconfiaram sempre desta europa  fabricada.

Jacinto Lourenço

terça-feira, 5 de junho de 2012

Portugal, o Ambiente e o Abismo



Há dias assim, em que não nos apetece escrever nem dizer nada. Hoje estou num desses dias.

Ouvi na Antena 1, às sete da manhã, que hoje é o "Dia Mundial do Ambiente", e o pensamento fugiu-me logo para o facto de neste velho país europeu plantado à beira do atlântico, o ambiente andar de cortar à faca. Claro que não falo do ambiente, da fauna, da flora, do ar, da água, dos animais, da natureza, dos recursos naturais cada vez mais ameaçados, etc; falo do ambiente social, político, económico, do ambiente nas famílias, como dizia o meu avô, cada vez mais "encalacradas" com a vida. Falo dos desempregados, dos jovens sem expectativas nem esperança, dos trabalhadores sem futuro, dos doentes a definharem por não terem dinheiro para pagar as taxas moderadoras, da austeridade criminosa que se impõe a um país sem soluções que não seja a de tirar aos pobres para dar aos ricos. 

Os bancos portugueses ( depois de receberem mais uns largos milhões ), dizia o ministro gaspar (escrevo o seu nome com letra pequena propositadamente), "são dos mais capitalizados da europa". Sim, claro, pensei eu: e de que é que isso serve aos portugueses se  os bancos vão pegar no dinheirinho  e depois emprestar a juros altos, como convém a qualquer bom agiota, impedindo assim as pequenas e médias empresas de lhe acederem para se desenvolverem ?! Enquanto isso, todos os dias ficam desempregados largas centenas de portugueses, porque todos os dias fecham as empresas onde tinham o seu emprego e de onde sustentavam a sua família, pagavam a casa, a luz, a água, etc. Claro que a  "boa notícia" é que vão deixar de pagar essas despesas caseiras por terem que entregar a casa ao banco; a má notícia, é que mesmo entregando a casa ao banco continuam a não ter dinheiro para sustentar os filhos e acabam por cair na situação de dependência económica de familiares que ainda podem acudir-lhes. É por isso que que se torna intolerável ouvir Passos Coelho dizer que já não estamos à beira do abismo, já que todos vimos que caímos mesmo nele, demos um Passos em frente...

As sondagens hoje publicadas em alguns meios de comunicação dizem que a esquerda  é neste momento maioritária. Mas o que é que isso interessa quando não ouvimos nenhuma ideia capaz vinda dos partidos de esquerda ?!  "Martelar" na direita até eu sou capaz de fazer, o problema são as ideias e as políticas que abram os horizontes a um país cansado de si mesmo, e aí a esquerda não ata nem desata. Ao pé desta esquerda até  algumas vozes mais esclarecidas  da área política dos partidos do governo nos parecem mais radicais.

Confesso que estou cansado. Tinha 20 anos, acabados de fazer, quando se deu o golpe militar do 25 de Abril de 1974. Pensei que, acalmada a fúria revolucionária do PREC, o país fosse assentar e encontrar um caminho de paz e a prosperidade possível no seio da europa. Fiquei contente de ver que aquela meia-dúzia de famílias que tinham dominado Portugal, como se de sanguesugas se tratassem, estavam afastadas, mas nunca pensei que ao cabo de trinta e sete anos os seus filhos netos e bisnetos continuassem a "obra" dos seus ancestrais no país. Ou seja: Portugal continua a ser  devassado pelos mesmos de sempre e alguns novos ricos, clientes dos partidos políticos do zona do poder, que se afirmaram neste país de brandíssimos costumes. Provavelmente temos o que merecemos como povo ao permitirmos que assim seja.

Para os mais jovens, que agora estão confrontados com este "resgate" que nos devora, uma mensagem e um aviso: percam as ilusões, este não há-de ser o último "resgate" da vossa vida. Eu pensava que o primeiro, no final da década de 70 do século passado, pela mão do PS/CDS, seria o único a que assistiria na minha vida, afinal não, e em 1983 viria outro pela mão do PS/PSD, e agora este pela mão do PS/PSD/CDS. Ou seja: os políticos portugueses, do centro e da direita, são viciados em resgates e quem paga as favas somos sempre nós, aqueles que trabalham ou se dão ao luxo de ter algum rendimento, nem que seja o ordenado mínimo nacional.

Eis aqui, pois, a razão do meu enfartamento, da minha azia com Portugal, este país governado por políticos que os portugueses elegem. Era por isso que hoje não me apetecia escrever. O ambiente em Portugal é a causa da minha falta de vontade de ainda me pronunciar sobre o que quer que seja. Se ao menos os políticos tivessem algum decoro nas palavras que utilizam quando se dirigem aos portugueses... Mas nem isso. Para Passos Coelho e o gasparzinho, somos um sucesso, e os bancos os mais ricos da europa... Só é pena  que os portugueses estejam em queda abismo abaixo, mas isso, como já percebemos, é uma questão de somenos para o governo, para a troika e para os bancos, até porque para estes últimos há sempre dinheiro, o dinheiro que é sacado aos portugueses que pagam mais de metade dos seus salários  em impostos.

Jacinto Lourenço 

sexta-feira, 1 de junho de 2012

O Confisco da Democracia na Europa


Dia 17 de Junho, quando se realizarem de novo as eleições gregas, muito mais estará em causa do que aquilo que qualquer um de nós possa supor. As diversas sondagens que semanalmente se vão realizando naquele país não têm sido esclarecedoras quanto aos resultados que se podem esperar sobre quem irá sair vencedor na Grécia. Nova Democracia, da direita, e Syriza, da esquerda, revezam-se, a fazer fé nas sondagens, como candidatos ao podium enquanto possíveis vencedores.
                                                               
Há diversas verdades que saltam à vista em toda esta tragédia grega que nos tem entrado diariamente casa dentro. Em primeiro lugar o que está evidente há muito tempo é que a democracia está confiscada na Grécia e um pouco em toda a União Europeia. É sintomático que as instâncias europeias e o próprio FMI estejam permanentemente a "ameaçar" os gregos com a saída do Euro se estes não votarem nos partidos políticos que defendem a continuação da miserável austeridade que lhes está imposta e que conduz, a continuar assim, a Grécia para um abismo de que não terá retorno nas próximas décadas. A curiosidade deste facto está em que a União Europeia  quer que os gregos votem maioritariamente   nos partidos que levaram a Grécia, nos últimos trinta anos, à situação em que se encontra e que, por arrasto, trouxe olímpicos problemas à zona euro. É por isso tanto mais incompreensível que  os poderes europeus queiram manter os corruptos de sempre à frente do governo da Grécia. A quem é que isso pode interessar ? De certeza que não é ao povo grego. Por outro lado, os senhores da Europa  pressionam os gregos para que não votem nos partidos à esquerda do Partido Socialista ( Pasok) pois aqueles são manifestamente contra as condições miseráveis e humilhantes em que o povo se encontra no estado helénico e, ao que dizem, pretendem reformular as condições do resgate para que seja possível recuperar a sanidade social e económica do país. Esta esquerda que emerge, não me parece saber também muito bem o que pretende fazer em caso de vitória. Para mim, observador à distância, mas não desinteressado, a única verdade disto tudo é que a democracia se expressa pela vontade do voto popular vá ele em que direcção for. Como europeu preferia que os governos europeus tivessem à sua frente gente séria e que zelasse, seria e honestamente, em primeiro lugar, pelos interesses dos povos. O povo grego, e a Europa, estão assim encurralados. E quando se está encurralado e as opções de fuga  são  uma parede, os resultados são imprevisíveis.

Posto isto, a União Europeia, e o FMI, e igualmente a Alemanha, o que pretendem é que se mantenham no poder os bandidos que sempre lá estiveram desde que a Grécia saiu da ditadura militar e que, pelos vistos, são os únicos em quem a Europa de Merkel confia para que o saque aos gregos tenha êxito, e para isso  utilizam  uma linguagem agressiva, e até ofensiva para com a Grécia,  afim de levar a água ao seu moinho. Todos percebemos que quem pactua com bandidos só pode ser bandido e esse é o papel que União Europeia, Alemanha e FMI têm assumido no problema grego e europeu.

Derrubam-se  governos e substituem-se por outros não sufragados pelo voto popular, proibem-se referendos, ameaçam-se e constrangem-se nações quanto ao resultado das consultas populares, que terão que ser de feição aos interesses dos senhores da Europa, tudo com um objectivo: permitir que o saque financeiro dos povos europeus continue a realizar-se pontualmente sem interferência nem expressão da vontade das populações. A democracia está aprisionada e refém de Berlim guardada pelos esbirros da UE e FMI, e Merkel a certificar-se de que os fluxos financeiros entram nos seus cofres, cada vez mais robustecidos. E venha alguém  que ouse contrariar esta gente que confiscou, impune e literalmente, a democracia na Europa. Os resultados de referendos e eleições têm que ser os que eles querem e, se não forem, realizam-se novos referendos ou eleições até que o voto do povo vá no sentido da canina obediência à vontade suprema da UE ( leia-se Alemanha ), isto, claro, depois de muita chantagem política e económica pelo meio. 

Feitas as contas, desde que estalou a crise em 2008, já se efectuaram 24 cimeiras para a resolver. O resultado dessas 24 cimeiras, uma após outra, tem sido sempre a piorar  para os países, e mais valia, a observar pelos resultados, que elas não se tivessem realizado...


Espanha e Itália estão agora mais perto do resgate do que nunca estiveram, com todas as consequências que se adivinham.  Mariano Rajoy não tem já soluções internas para poder dar a volta ao monstro económico que devora Espanha. Bate a todas as portas e, de cada vez que bate, bate também contra a vontade da Alemanha em permitir encontrar soluções credíveis e aceitáveis. É que as soluções credíveis para os restantes países europeus não interessam à Alemanha que se sente perfeitamente confortável com os bolsos cheios. A mim, que não sou político nem economista, parece-me que a Alemanha tem duas agendas políticas e económicas distintas. Uma em que como membro da UE beneficia desse facto e surge forte numa economia global onde pode exportar à vontade sem que os países europeus lhe façam sombra,  a outra  agenda complementa  esta e assenta na necessidade de contar com um  euro credível e  expurgado das economias débeis, ou, no mínimo, controladas economicamente, como faz, aliás, para poder aparecer aos olhos dos mercados internacionais como o único país credível, seguro e forte em que vale a pena apostar dentro da UE. Toda a gente vê isto, este papel de prestidigitador da sra. Merkel, mas ninguém ousa denunciá-lo de viva e alta voz com medo das consequências.

Há quem chame a este estado de coisas, democracia. Aquilo que aprendemos na escola sobre democracia é que os povos escolhem o seu próprio destino e caminho. Admitimos que, dentro da UE pode haver "democracia", mas não esta que nos querem vender por boa. A "democracia" vigente não passa de um sucedâneo de democracia. Esta União Europeia em que vivemos actualmente é uma vergonha e ficará na história como o sistema político que conseguiu impor uma ditadura "validada" pelo voto popular.

É por isso que a 17 de Junho, na Grécia, as eleições podem representar um importante ponto de viragem. Ou os gregos, chantageados e amedrontados, votam nos criminosos que os levaram ao estado em que estão ou atiram uma pedra contra o charco de lodo em que esta Europa se transformou e veremos o que daí pode advir. Mas o que quer que seja, só pode ser, ou não, quanto a mim, mais clarificador do que as 24 cimeiras já realizadas para supostamente resolver a crise económica europeia. É que, nas eleições gregas, não é só a Grécia, o berço da democracia, que está em causa, é a europa, são todos os povos que vivem num regime dito democrático mas em que a democracia, enquanto expressão efectiva da vontade dos povos,  está sob confisco aferrolhada em Berlim. Estes são os factos. O Tempo está a esgotar-se para este projecto chamado União Europeia.

Jacinto Lourenço        

terça-feira, 29 de maio de 2012

A Política no Tempo dos Sábios...


Naquela época a que soe chamar-se a "idade de ouro", o governo estava nas mãos dos sábios: tal é a opinião de Possidónio. Os sábios impediam a violência, protegiam os mais fracos dos mais fortes, indicavam o que se devia ou não fazer, apontavam o que tinha ou não utilidade. Graças à sabedoria, providenciavam para que nada faltasse ao seu povo; graças à coragem, mantinham afastados os perigos; por meio dos seus benefícios, distribuiam bem-estar e prosperidade entre os súbditos. Para eles, governar era o exercício de um dever, e não a mera posse do poder. Ninguém tentava experimentar contra eles as suas forças, pois a eles deviam essas forças; ninguém tinha a ousadia de os injuriar, nem para tal havia motivo, pois é fácil obedecer a quem governa com justiça" [...]

Cartas a Lucílio, livro XIV,carta 90.5 - Edição Fundação Gulbenkian

quarta-feira, 16 de maio de 2012

A Europa Morreu em Auschwitz...

...Recentemente, no Reino Unido, debateu-se a intenção de remover o holocausto do curriculum das suas escolas, porque era uma ofensa para a população muçulmana, a qual diz que isto nunca aconteceu.

Até agora ainda não foi retirado do curriculum. Contudo é uma demonstração do grande receio que está a preocupar o mundo e a facilidade com que as nações o estão a aceitar. Já passaram mais de sessenta anos depois da Segunda Guerra Mundial na Europa ter terminado. O conteúdo deste email está a ser enviado como uma cadeia em memória dos 6 milhões de judeus, dos 20 milhões de russos, dos 10 milhões de
cristãos e dos 1 900 padres católicos que foram assassinados, violados, queimados, que morreram de fome, foram espancados, e humilhados enquanto o povo alemão olhava para o outro lado.
Agora, mais do que nunca, com o Irão entre outros, reclamando que o Holocausto é um mito, é imperativo assegurar-se de que o mundo nunca esquecerá isso.[...]


Ler texto integral AQUI no blogue Eterna Sefarad




Nota: Este texto não traduz, para o Ab Integro, uma total concordância com  parte das ideias e fundamentos expressos no mesmo. No entanto é  um desafio, do ponto de vista sociológico e religioso, ente outros, e por isso merecedor de reflexão.

J.L.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

A Trindade Capitalista



 J. I. González Faus, da Faculdade de Teologia da Catalunha, faz uma crítica acérrima à presente situação. Voltando ao documentário célebre Inside Job, num artigo ácido que intitula "Agencias de rating o de raping?", denuncia os Bancos de investimento que vendiam activos tóxicos, sabendo-o. Lá estavam os peritos da Moody's e Standard and Poors, dizendo: "são AAA (fiabilidade máxima)." Deste modo, as três agências (Moody's, S & P e Fitch) ganharam milhões. Elas poderiam ter terminado a festa, dizendo: vamos ajustar os critérios. Mas não; pelo contrário, deram triplo A a Madoff, dias antes da sua queda. Meses antes da derrocada de Lehman Brothers, o próprio FMI declarou que estava "em boa situação financeira e os riscos parecem baixos".

Por isso, na arbitragem das agências, ao contrário do que deveria suceder, "é preciso partir do pressuposto da sua parcialidade e desonestidade, a não ser que se prove o contrário". O problema é que vivemos num sistema montado sobre a agressão do capital insaciável. [...]
A quem lhe atira que é um ignorante ou analfabeto económico responde: "Tive uma irmã gémea que morreu de cancro por culpa de uma clara falha médica. Quando lhe foi comunicado o diagnóstico fatal, limitou-se a dizer: 'Eu não saberei de medicina, mas quando digo que algo me dói é porque dói; mas ao médico não doía'. Receio que aos nossos médicos económicos lhes não dói."

José M. Castillo, da Universidade de Granada, pergunta: "Quem são os mercados?" O que se sabe é que, uma vez que o que interessa é o lucro, as pessoas investem somas fabulosas no capital financeiro e, neste momento, "ninguém sabe até onde chega a montanha imensa de dinheiro que os mercados manejam". O que é facto é que o movimento de capitais financeiros se move pelo mundo sem qualquer controlo, e um indivíduo, a partir de casa, com o seu computador, pode transtornar e afundar a estabilidade económica e as poupanças de milhões de pessoas.

Que fazer? Afinal, "a corrupção maior e mais perigosa não é a desta ou daquela pessoa, deste ou daquele político, desta ou daquela empresa. A corrupção mais grave é a corrupção do sistema económico em que estamos metidos", que enriquece mais os ricos e empobrece mais os pobres. Quem manda no mundo não são os políticos, mas a economia e a finança. "É urgente que nós todos pressionemos, cada um como puder e sempre com a mais transparente honradez, os que gerem o poder económico e político, para que regulem e controlem os mercados, aumente a produtividade e, em todo o caso, que o que se produz não beneficie tanto uns poucos à custa da ruína dos outros."

Xabier Pikaza, da Universidade de Salamanca, reflecte sobre a nova Trindade, frente à Trindade cristã. "A Trindade cristã era formada por Deus Pai, o Filho Jesus Cristo (que éramos todos os seres humanos) e o Espírito Santo (que era a comunhão ou amor entre Deus e os seres humanos, entre todos os seres humanos). Mas agora surgiu uma Trindade diferente, formada por Deus-Capital (que não é Pai, mas monstro que tudo devora), pelo Filho-Empresa, que não redime, mas produz bens de consumo ao serviço dos privilegiados do sistema, e pelo Espírito Santo-Mercado, que não é comunhão de amor, mas forma de domínio de uns sobre os outros."

Anselmo Borges in Diário de Notícias

terça-feira, 8 de maio de 2012

67 Anos após a Barbárie


A 8 de Maio de 1945 o marechal de campo alemão, Keitel,  assinava a rendição alemã que poria fim às hostilidades da  segunda guerra mundial na europa, muito embora esta continuasse por  mais alguns meses com os japoneses.

É uma data tristemente histórica, desde logo porque arrasou com uma boa parte das cidades e territórios da europa  e com a economia europeia que só voltaria a reerguer-se nos anos sessenta depois de um bem gizado e bem sucedido Plano Marshall  posto em prática pelos Estados Unidos da América para a recuperação dos países europeus afectados pela guerra.

Mas fundamentalmente, e após 67 anos, não nos sai da memória a quantidade de vidas ceifadas, que terão rondado o indescritível número  de cerca de setenta milhões, sendo que quase dez por cento desse número se refere a judeus assassinados pelos alemães nos guetos e campos de concentração, no  que haveria de ficar conhecido  para a história da humanidade como o Holocausto. Não esqueceremos a barbárie. Nunca. Mesmo que muito poucos meios de comunicação queiram publicar algo sobre a data, nomeadamente em Portugal. Compreendo, não vende papel nem dá share, e os mortos não se fazem ouvir... É por isso que o lembramos hoje, passados 67 anos, quando os ventos que sopram na europa voltam a ser de esquecimento, confusão e dão lugar à  emergência de nacionalismos de recortes vários.

Jacinto Lourenço

segunda-feira, 7 de maio de 2012

O Mundo em Duas Semanas e um Arrepio...


Passaram apenas duas semanas desde que saí. Pensamos sempre que duas semanas pouco podem alterar o rumo de uma vida, de um país, de uma região, do mundo. Mas acho, afinal, que as duas últimas semanas contrariam esta ideia feita, que se calhar era só minha, já que até  Heraclito de Éfeso  dissera há cerca de dois milénios e meio  "não haver nada permanente excepto a mudança"...

No alentejo profundo, a centena e meia de  quilómetros de casa, só pensámos na chuva, que nunca mais parava, no sol que nunca mais vinha, nos passeios  pelos campos floridos daquele atapetado multicolor de que apenas os  campos alentejanos se sabem cobrir  que tardavam em mostrar-se. Tudo trocado, apesar disso, por felizes momentos passados a ouvir o crepitar da lareira e a ler o jornal da semana anterior ao som da chuva a cair do lado de lá da janela, a descansar das rotinas e do stress com que as actividades diárias e o lufa lufa urbano se encarregam de nos repassar. Um pouco de televisão à noite e eis que somos atingidos em cheio pela "bomba" sociológica lançada pelo Pingo Doce. Não tenho muito mais a dizer sobre tal assunto, tudo já foi explorado à exaustão pelos media e comentadores de serviço habituais que são capazes de dizer, sobre um mesmo assunto, a mesma coisa e o seu contrário esperando depois que nós, comuns cidadãos, sejamos todos muito burros e incapazes de perceber o que se passou realmente.
Não me apetece agora discorrer sobre aquilo que, em minha opinião, se passou no dia 1 de Maio de 2012 em Portugal, mas desconfio que o mundo também não estará muito expectante sobre o  que eu tenha para dizer acerca da tal "bomba" sociológica.

O que era expectável foi o que se passou hoje, quando terminaram as minhas férias molhadas, em França e na Grécia. Parece que se fizeram, só em França, 300 e tal sondagens sobre os previsíveis resultados eleitorais para a presidência francesa... O que eu acho espantoso é que praticamente todas davam a vitória a Hollande, tanto na primeira como na segunda volta das eleições, e com erros mínimos nas previsões. Hoje confirmou-se que os franceses são de ideias fixas mas têm certezas não absolutas quanto às suas escolhas, a julgar pela divisão de votos entre os dois candidatos. Já os gregos mantiveram-se fiéis às suas dúvidas e incertezas quanto ao  que querem do futuro, muito embora me pareça que sabem exactamente o que não querem, só que, da soma das suas dúvidas,  sobram-lhes, parece-me, mais problemas que soluções. 

Enquanto eu me recolhia ao calor da minha lareira alentejana e ouvia na rua a chuva a cair sobre a terra sedenta, o mundo, cá dentro e lá fora,  mudava a ritmo acelerado, e de arrepio. Afinal, em duas semanas, o mundo dos homens pode mudar muito mais do que se possa imaginar, mesmo que não tenhamos nenhumas certezas sobre o que é que isso pode significar no futuro imediato para todos nós. Depois, bem, depois temos sempre presentes as palavras de Jesus: "basta a cada dia o seu mal". Talvez a inquietação permanente não deva ser o nosso objectivo principal quando nos levantamos a cada novo dia. Talvez devamos então preferir a esperança e a força vital que nos faz caminhar pelo meio da tempestade sabendo que a seguir a esta virá, quase de certeza, a bonança e que o arco iris trará a mesma certeza de sempre.


Jacinto Lourenço    

terça-feira, 24 de abril de 2012

O Meu 25 de Abril...


O despertador tocou, como habitualmente, às oito e meia da manhã de uma quinta-feira normal de uma semana qualquer. A D.Ilda entrou esbaforida no meu quarto a dizer que tinha havido uma revolução. Lavei-me à pressa, enfiei a roupa e fui, como habitualmente, a pé, do Alto do Pina até à rua Zaire, ali para o pé dos anjos, para a empresa onde trabalhava. Pelo caminho fui observando os rostos das pessoas e as suas reacções. Percebi um misto de esperança e receio. Na Paiva Couceiro alguns  grupos de homens mais velhos conversavam meio em surdina; adivinhei o tema das conversas e continuei a andar. Nunca antes tinha chegado tão rápido ao emprego. No escritório os meus colegas seguiam interessados a emissão da rádio. Ninguém estava a trabalhar. Fomos percebendo, pelas notícias, a realidade do que se estava a passar nas ruas de Lisboa e a intenção dos militares que se tinham sublevado.

O patrão não apareceu naquele dia no escritório e todos decidimos que não iríamos ficar ali da parte da tarde, até porque o nervosismo e a expectativa eram tão elevados que dificilmente alguém iria ser produtivo no que restava daquele extraordinário dia. Fomos para a rua, cada um para seu lado, ver a revolução que estava a derrubar uma ditadura fascista que durava  há  48 anos  e que tinha marcado negativa e dramaticamente a vida da esmagadora maioria dos portugueses.

Desci a rua Zaire em direcção ao largo de Santa Bárbara. Subi para a  rua do Conde de Redondo. De passagem olhei para as portas do quartel da GNR fechadas e sem sinal nenhum cá de fora que indiciasse algum movimento lá dentro. Fui em direcção à Avenida da Liberdade percebendo já nos rostos e nas reacções das pessoas um grande desprendimento e alegria. Toda a gente muito agitada, mas serena ao mesmo tempo. Sem que fosse ainda definitiva a certeza do êxito do golpe militar, observava-se já, ali à frente dos  olhos, a real possibilidade de se poder gritar LIBERDADE a plenos pulmões  e de assistir também ao  extertor de um regime político que se tornara abominável e isso seriam as melhores coisas que podiam ter acontecido aos portugueses e a Portugal no último meio-século da nossa história.

Vi os tanques, os soldados deitados no chão com as suas G3 em prontidão. Pela Calçada do Sacramento descia um pelotão do exército em direcção à Praça do Comércio que, a uma ordem do graduado, puxou a culatra atrás e a soltou a um tempo. O ruído provocado pelas armas intimidou os muitos populares, quase encavalitados nos militares, que debandaram em  atabalhoada corrida  rua do Ouro acima. Por mim, achei melhor seguir dali para fora. O peito dilatava-se-me de alegria à medida que me encaminhava para o quartel do Carmo onde, dizia-se, Marcelo Caetano estava refugiado. Ninguém parecia estar muito preocupado  que as coisas se complicassem e houvesse tiroteio a sério nas ruas. A multidão enchia-as. A vontade de ver cair o regime opressor era mais forte do que os cuidados que se recomendavam numa situação daquelas. O primeiro-ministro da ditadura  já tinha saido do Carmo numa Chaimite quando lá cheguei, mas o largo continuava cheio de pessoas as gritos exultando pela liberdade finalmente conquistada. Os buracos das balas que serviram de aviso à guarda pretoriana do regime, sempre configurada pela GNR, eram visíveis na frontaria do edifício  onde se acoitara Caetano.

Vivi o 25 de Abril de 1974 com muita intensidade. Tinha vinte anos acabados de fazer em Março. Apresentara-me  já  à   inspecção militar e sabia que, como qualquer jovem português de então, o meu destino seria cumprir cerca de quatro  anos de tropa obrigatória sendo dois deles  no então designado Ultramar. Quatro anos na vida de um jovem na casa dos vinte, a cumprir serviço militar obrigatório, eram sem dúvida um tempo de interregno que comprometia  aspirações e punha em causa a própria vida. Muitos fugiam para o estrangeiro para não obedecerem a esse chamamento do regime a uma guerra injusta  que não fazia qualquer sentido. França era o destino mais corrente dos mais politizados, dos que tinham família emigrada ou dos que possuiam suporte financeiro familiar para por lá ficarem o tempo necessário. Eu não me enquadrava em nenhum destes perfis pelo que,  era mais do que certo, iria para o ultramar. Sem dúvida um cenário que apavorava.

Não sendo suficientemente politizado, como aliás se passava com a maioria da população, tinha uma noção perfeita das condições políticas existentes em Portugal e do resultado que isso implicava para a vida das pessoas: ausência das  liberdades mais elementares, perseguições políticas, obscurantismo, censura, prisão, tortura, etc. Na minha família materna havia exemplos de pessoas perseguidas, torturadas, presas sob a acusação de serem comunistas sem que muitas vezes houvesse sequer uma real noção do que era isso, o comunismo. Vivi parte da minha infância e  adolescência a ver o meu avô José a sintonizar a Rádio Portugal Livre, que emitia a partir de Argel, e a Rádio Moscovo. Era a única maneira de se saber o que é que se passava no interior do  país ao nível das lutas de estudantes e trabalhadores contra o regime que todos queriam ver deposto pois os jornais e as estações de rádio e televisão só diziam  aquilo que os censores autorizavam. Enfim, vivíamos sob um  poder que aterrorizava as pessoas e manipulava as consciências de acordo com os seus interesses mais obscuros e foi no meio deste ambiente que se chegou a 25 de Abril de 1974 e à ansiada liberdade. Como não sentir, pois, tanta alegria e satisfação, naquele dia, à medida que ia percorrendo as ruas de Lisboa, pela   liberdade conquistada ?!

Trinta e oito anos depois, os portugueses já não exibem o sorriso daquele dia vinte e cinco de Abril de 1974. O que sobra é apreensão e tristeza. Interrogam-se como é que deixaram que lhes retirassem coisas importantes que Abril lhes deu. Desconfiam que não conseguirão readquirir  o sorriso e a alegria que lhes roubaram neste percurso de quase quatro décadas de liberdade ...


Jacinto Lourenço

segunda-feira, 16 de abril de 2012

O Sorriso das Vacas...



...“A vaca, tal como alguns homens, tem quatro patas, duas à frente, duas atrás, duas à direita e duas à esquerda. A vaca é um animal cercado de pêlos por todos os lados, ao contrário da península que só não é cercada por um. O rabo da vaca não lhe serve para extrair o leite, mas para enxotar as moscas e espalhar a bosta. Na cabeça, a vaca tem dois cornos pequenos e lá dentro tem mioleira, que o meu pai diz que faz muito bem à inteligência e, por não comer mioleira, é que o padre é burro como um tamanco. Diz o meu pai e eu concordo, porque, na doutrina, me obriga a saber umas merdas de que não percebo nada como as bem-aventuranças. A vaca dá leite por fora e carne por dentro, embora agora as vacas já não façam tanta falta, porque foi descoberto o leite em pó. A vaca é um animal triste todo o ano, excepto no dia em que vai ao boi, disse-me o pai do Valdemar “pauzinho”, que é dono do boi onde vão todas as vacas da freguesia. Um dia perguntei ao meu pai o que era isso da vaca ir ao boi e levei logo um estalo no focinho. O meu pai também diz que a mulher do regedor é uma vaca e eu também não entendi. Mas, escarmentado, já nem lhe perguntei se ela também ia ao boi.”[...]


Ler texto integral AQUI no blogue   A Ovelha Perdida

quinta-feira, 22 de março de 2012

"A Mediocridade Não Suporta a Diferença"...



A "questão judaica" é hoje, na Europa, uma mera relíquia daquilo que foi durante séculos. Na verdade, poucos têm coragem de o dizer, mas embora a abominável "decisão final" (Endlösung), urdida pelo regime nazi para as minorias judaicas da Europa ocupada, tenha ficado por metade, tal foi suficiente para privar a Europa desse filão de resiliência, criatividade e inteligência que as minorias judaicas representaram na história das nações europeias. Os sobreviventes do extermínio, na sua maioria, estão hoje em Israel, ou são um dos motores da prosperidade dos EUA.
O ódio "popular" aos judeus é um dos fatores da decadência europeia. Não é preciso ser Antero de Quental para perceber que a decadência peninsular se inicia com a expulsão dos judeus, na altura em que a organização dos impérios marítimos de Portugal e Espanha mais precisaria do seu contributo. Basta olhar para a Alemanha de 2012. Com a mesma população que tinha ao tempo da República de Weimar, mas sem o impulso da sua vibrante comunidade judaica, exterminada ou exilada pelo Holocausto, a cultura alemã de hoje é, na comparação, pobre e sem brilho. Onde estão os filósofos, os escritores, os cientistas, os músicos, os cineastas, de ascendência judaica, que fizeram a grandeza universal da Alemanha até1933? Basta ler a biografia de George Steiner, Errata, para compreender os motivos que levaram Nietzsche a considerar os judeus como uma (malograda) vanguarda cosmopolita da unidade europeia, contra o perigo da autodestruição. As crianças judias assassinadas em França apenas nos recordam que, sob o verniz da tolerância europeia, jaz um virulento génio maligno pronto a despertar. A mediocridade não suporta a diferença e a singularidade de mérito que os judeus deixaram na nossa cultura comum. E que falta isso nos faz agora!

Viriato Soromenho Marques  in  Diário de Notícias Online 

quinta-feira, 8 de março de 2012

Fósforos e Gasolina...


Disseram-nos tarde, tarde de mais, quando pouco ou nada já havia a fazer, que tínhamos que mudar de paradigma.

Todos o afirmamos, mas todos sabemos também que os paradigmas, quase sempre, não mudam apenas porque nós temos vontade que eles mudem.

Há não muitos meses atrás, um jovem vendedor ambulante de 26 anos, tunisino, de seu nome Mohamed Bouazizi, suicidou-se imolando-se pelo fogo em plena via pública. Uma tragédia pessoal mas que tinha por detrás muitos outros  milhões de outras tragédias pessoais. Será que o jovem Bouazizi pretendia, com o seu acto de desespero e loucura, dar início a alguma revolução ? Claro que não. Ele estava a protestar, de forma extrema  e utilizando um valor   sagrado e inviolável que é a vida humana, contra uma situação instalada na Tunísia que colocava em causa a sua própria sobrevivência. Cansado de fugir da polícia por vender ilegalmente na rua. Cansado de dar gorgetas aos polícias para não ter que fugir sempre deles. Cansado de não possuir o suficiente para se sustentar e levar a sua vida com um mínimo de dignidade. Cansado de bater a todas as portas para obter uma licença de venda ambulante, que não lhe era passada vá lá saber-se porque razão, cansado de estar cansado e depois de lhe terem confiscado  as parcas mercadorias que tinha para vender e  a balança onde as pesava, tomou a atitude limite de por termo à vida tornando-se numa pira de vergonha para a humanidade.

Não quero aqui dissecar as razões porque entendo que o suicídio não pode ser uma opção para o ser humano, pese embora  seja recomendado em algumas culturas como saída para muitas situações que se prendem com a dignidade humana. Não é isso que me traz aqui hoje. Poderá ser assunto para um dia destes. Mas quero lembrar que, na sequência do suicídio do jovem Bouazizi, começaram de imediato manifestações que, qual rastilho de pólvora, se estenderam também de imediato a toda a Tunísia  abrindo lugar ao acontecimento que ficou conhecido pela Revolução do Jasmim e que foi depoletada pelo facto da generalidade dos tunisinos se identificarem, nos seus problemas e nos problemas do seu país, com Mohamed Bouazizi e na razão dos seus protestos.

Eis como  um simples fósforo e alguma gasolina podem ceifar a vida a um humilde vendedor ambulante, um ser humano cuja única reivindicação era poder viver no patamar inferior da dignidade. Eis como esse simples fósforo pode dar também início a uma mudança de paradigma num país e um pouco por todo o norte de África. Nunca passou pela cabeça de Bouazizi tal coisa, mas a verdade é que aconteceu, mesmo que seja também verdade que, neste preciso momento, nenhum de nós consiga ainda opinar sobre o que se vai passar  nos países atingidos por aquilo a que se chamou posteriormente Primavera Árabe. Mas bastou uma pequena chama para que o mundo Árabe se incendiasse e tudo fosse posto em causa: a vida das pessoas, as famílias, os governos, os exércitos, as políticas a seguir, os direitos e deveres dos cidadãos. 

Lamento profundamente ter sido necessário que uma pessoa tivesse sido levada, pela sociedade, a limites de momentânea ausência da razão e  fazer o que fez Bouazizi, um jovem de 26 anos com muita vida ainda pela frente. Quantos Bouazizi 's mais  irão morrer, de uma ou outra forma, em qualquer lugar do mundo,   para que as sociedades se mexam e se centrem mais nos seres humanos e na vida, e no respeito que esta tem que merecer, e menos naquilo que são os interesses monetaristas de meia dúzia de indivíduos sem rosto ou alma. Este sim o verdadeiro paradigma que interessa sobrepor a todos os outros. 

Mas como vimos, infelizmente, a mudança de paradigma raramente irrompe, ainda que isso seja desejável, apenas  porque nós achamos que sim, que deve irromper. É mais fruto de circunstâncias nem sempre imaginadas, ou até de um pequeno fósforo, riscado por anónima mão, que ateia um rastilho que  há muito secretamente se estende.

Mudar de paradigma na europa? Pois sim, eu acredito que as circunstâncias  actuais tornam isso desejável e um desiderato que todos gostaríamos de alcançar. Ao longo da sua história já foi feito várias vezes e em  muitas dessas vezes o preço pago em vidas e sacrifício humano foi pesado. Mudanças de paradigma não se fazem por decreto, embora sejamos desafiados a tomar as decisões e medidas que concorram para promover essas mudanças. Acontecem simplesmente ditadas pelas circunstâncias que vão sendo criadas, na maior parte dos casos ditadas pelas nossas escolhas ao longo do caminho. É por isso que, mais do que nunca se impõe que as escolhas sejam responsáveis, adequadas e respeitadoras da dignidade humana.

Em algum momento, no futuro próximo, acredito que, se a insanidade dos actuais líderes europeus se mantiver, e eles não pararem para pensar, ou não forem rapidamente substituídos por gente capaz e responsável,  um fósforo irá ser riscado, e isso terá sérias consequências para a europa e para o mundo.


Jacinto Lourenço

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

D. Camilo e Pepone...

Quando eu era menino, ver televisão era  uma festa só permitida aos domingos à tarde, para  os desenhos animados, e  a premiar o facto de ter estado presente no serviço religioso da manhã;  eventualmente aos sábados à noite isso também podia acontecer se  acompanhado de algum familiar adulto a um dos dois únicos cafés que possuiam aparelho receptor,  para ver o Bonanza. A televisão, nessa altura, não oferecia nenhum risco para crianças nem para adultos, até porque, por via de regra, a emissão do único canal televisivo existente  iniciava-se ao final da tarde/princípio da noite e encerrava, se a memória não me falha,  por volta das 23h-30', mais coisa menos coisa. Tirando isso, só muito excepcionalmente havia emissão fora dessa janela horária nos dias úteis da semana. Normalmente acontecia se o Benfica (  não me lembro se ocorria com outros clubes nacionais) jogava fora para a então taça dos campeões europeus, ou se algum Papa visitava Portugal e ia a Fátima. Também, diga-se, não havia razão nenhuma para que as emissões fossem mais alargadas num país em que não se passava nada e onde aquilo que se passava no estrangeiro, e em Portugal, se nos chegava, era filtrado e acomodado ao que o regime achava que devíamos ver, ouvir ou ler, e daí, sim, vinha o verdadeiro perigo para todos.

Anos  mais tarde, não me lembro em que tempo, começaram a ser emitidos os  filmes de D.Camilo, um padre católico que exercia o seu ministério numa aldeia perdida algures na  Itália do pós-guerra dos anos 40/50. Fizeram as minhas delícias de adolescente. D. Camilo e o seu eterno opositor, Pepone, o autarca comunista, retratavam uma realidade que convinha ao estado novo exibir. Os argumentos de "D.Camilo", tinham um denominador comum: apresentavam a igreja católica  como a única força que era capaz de defender os interesses do povo no que tocava a assuntos de toda a ordem, mesmo os mais insignificantes. Por seu turno, e do outro lado da barricada, estava o eterno opositor comunista, personificado em Pepone, cujas atitudes e  acções eram diabolizadas e exibidas como capazes de conduzir à perdição do inferno qualquer bom católico e habitante da vila. E tudo naquela terra se passava à volta  das aventuras e desventuras de D.Camilo, um pároco que dialogava com um cristo de madeira preso numa cruz dependurada sobre o altar-mor da igreja e do qual recebia conselhos e dicas de como se devia conduzir ( e aos quais raramente atendia ),  e de Pepone, o dirigente comunista que pretendia instalar uma "URSS"  no microcosmos da pequena povoação Italiana. A luta dos dois oponentes assentava basicamente em saber quem iria alcançar o apoio do povo para os pontos de vista tão antagonicamente apresentados e defendidos  de forma radical como sendo os melhores para a vida e ordem  da terra.

A história que chegava até nós, contada por cada filme, se vista com o olhar de hoje, era realmente muito naíf, mas de ingénua tinha muito pouco. O que acontecia no ecran era a eterna luta entre o bem e o mal. O primeiro encarnado em D.Camilo e nos valores católicos de então, que eram genericamente comuns a toda a europa do sul, e o segundo corporizado pelo comunista Pepone  defensor acérrimo do velho estilo estalinista e de uma contraditória nova ordem que pretendia substituir a velha.

A RTP Memória tem passado nas últimas semanas alguns deste filmes. Gravei e fui revendo conforme a minha disponibilidade de tempo.  Não deixo de sorrir, ma já não me divertiram tanto, como é evidente, as aventuras e desventuras de D.Camilo e Pepone, até porque o que alegrava a minha adolescência ingénua de há quarenta anos atrás, cobre-me agora de "ridículo" quando os meus filhos me "apanham" a ver o D.Camilo. O mundo, tal qual o conhecemos hoje, já não é  visto como há quarenta ou cinquenta anos atrás.  A mensagem maniqueísta que o estado novo pretendia fazer  passar nos anos 60 em Portugal, e onde os filmes de D.Camilo assentavam que nem uma luva, ajoelhou perante  os ventos de Abril.  Volvidas algumas décadas, D.Camilo e Pepone já não encaixam nestes tempos de pós- modernidade, mesmo se traduzem uma velha realidade sociológica  que se espraia,  nos dias que correm,  envolvida na espuma do tempo. O bem e o mal  são-nos hoje apresentados  veiculados por diferentes e intrincadas manifestações sociológicas, muito mais complexas e estruturadas, de difícil descodificação  mas, na essência, a terra  que deixa um ou outro germinar continua presente nas sociedades e nos homens do nosso tempo. Afinal, D.Camilo ou Pepone não passam de alegorias que, de uma forma ou de outra,  se projectam em todos os tempos, em todas as sociedades, em todas as vivências.

Jacinto Lourenço