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quarta-feira, 26 de junho de 2013

Entre a Loucura e a Razão...




"As mais belas ficções são inspiradas pela loucura e escritas pela razão, ou não?"
Anónimo )



Não é raro a realidade superar a ficção em bizarrias e situações grotescas. É verdade que a ficção está cheia de histórias de loucos, dementes, alucinados, mas não é menos verdade que a realidade está cheia de avariados, desvairados e brincalhões. A maior parte dos “loucos” não se encontra internada em casas de Orates, e eles circulam e interagem “connosco”, ou seja, com aqueles que, por estarem em maioria e se desviarem menos do padrão, se consideram sãos. Resta saber qual dos lados é mais doido, se o lado dos “normais” se o lado dos “dementes”, se na ficção se na realidade. A loucura sempre foi para nós objecto de fascínio e a literatura, cheia de exemplos pertinentes, não o desmente.
No conto O Diário de Um Louco, Fidèle, a personagem que Nikolai Gógol nos descreve como um simples e normal funcionário público, vai aos poucos ficando louco. O conto vai avançando à medida que os leitores se vão apercebendo dos pensamentos e visões da personagem, no mínimo estranhos, que, o vão levando, cada vez mais, à loucura. Claro que no final do conto, Fidèle, é internado, como doente mental, num hospital psiquiátrico. Convencido de que é Rei de Espanha, nunca se apercebe de que está louco (como todos os loucos) e julga encontrar-se na corte de um reino exótico com protocolos estranhos e costumes excêntricos, justificando assim todos os males que lhe vão acontecendo. Noutro conto, O Alienista, de Machado de Assis (na minha opinião, ainda mais extraordinário que o conto de Gógol, e que não podem deixar de ler), conta-se que, «numa remota vila do interior do Brasil chamada Itaguaí, vivera um certo médico, o Dr. Simão Bacamarte, filho da nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas». Ao abrigo da sua fama e sabedoria, consegue colocar, para além dos loucos, sob internamento, no seu próprio hospital psiquiátrico, a inteira comunidade de habitantes da vila, inclusive ele próprio.

Numa ocasião em que Filipe III de Espanha viu um jovem perdido de riso, comentou: «ou o rapaz perdeu o juízo ou está a ler o Dom Quixote.»
Dom Quixote é um dos livros mais divertidos de sempre, talvez o melhor livro de todos os tempos. A partir da obra de Cervantes, os leitores têm de estar conscientes de que, cada vez que iniciam a leitura de um romance, entram num mundo fictício, embora muitas vezes exista uma angustiante dúvida, entre os leitores, sobre a capacidade para fazer esta distinção entre realidade e ficção.
A fronteira que separa aquilo que é ficção e realidade, deixo para vocês julgarem. Porém, não posso deixar de contar uma história, passada na livraria, da esfera da realidade, parecendo ficção. Ou será o contrário?


Um cliente com um aspecto normal, faz uma pergunta natural:
- Tem livros sobre baratas?
O livreiro intrigado:
- Baratas!?...
- Deixe que lhe explique. Tenho uma barata em casa que fala comigo e queria saber mais sobre estes maravilhosos bichinhos. Eu sei que você não vai acreditar e é provável que me ache louco...
O livreiro sem deixar acabar o cliente, empolgado com a identificação, diz:
- Pelo contrário, acho até bastante interessante. E digo-lhe mais, ultimamente também eu tenho falado com uma, até lhe dei o nome de Metamorfose em homenagem a um amigo meu chamado Kafka…
Ainda o livreiro não tinha terminado a frase e já o cliente meio apavorado fugia porta fora.


Fonte: Pó dos Livros

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Sol, Mar, Café, Pastéis de Nata e pouco mais....


De segunda a sexta, na Antena 1, uma das minhas rádios de eleição excepto quando transmite os debates com o governo a partir de S.Bento, pela manhã, passa uma pequena rubrica designada  "Portugueses no Mundo", conduzida pela jornalista Alice Vilaça, e que vai ao encontro de portugueses que estão espalhados pelas sete partidas do mundo, e que normalmente fazem  parte da "nova emigração". Essa rubrica procura indagar, em jeito de conversa informal, o que levou esses portugueses a partirem em busca de uma vida diferente, de novos desafios pessoais ou profissionais, ou de melhores condições de vida. Não se trata de emigrantes formatados pela matriz dos anos sessenta do século passado. Trata-se de gente jovem, normalmente bastante qualificada em termos académicos, mas a quem Portugal não tinha nada para oferecer. Gente que partiu para fazer mestrados ou doutoramentos, que conseguiu no estrangeiro as bolsas que lhes foram negadas no seu país, gente que concluiu fora essas especializações académicas e que por lá ficou a trabalhar na investigação dentro das  respectivas áreas; mas também gente que concluiu por cá essas qualificações e que, sem nenhuma saída credível, ou que pelo menos não fosse risível, partiu, deixando um rasto de investimento perdido pelo país que deveria ter como primeira pioridade das suas políticas, no mínimo, não malbaratar o seu capital humano.

Já ouvi dezenas de entrevistas destas feitas por Alice Vilaça. Cada entrevistado fala das suas particularidades pessoais, do seu caso, das suas esperanças, das suas desilusões, das suas expectativas para um futuro que se lhes afigura, lá longe, bem risonho. Diria que, em 99% dos casos, poucos são os que ponderam um dia voltar a Portugal para aqui continuarem as suas carreiras profissionais, os seus projectos pessoais, a sua vida. A visão deles é ficarem pelo estrangeiro, nos países que os acolheram e lhes deram uma oportunidade ou demandarem outros países, noutros lugares do mundo. O regresso a Portugal nunca está nas suas cogitações, pelas piores razões.

Quando a jornalista convoca essa palavra tão portuguesa chamada saudade, as respostas são quase sempre invariáveis: da família, da gastronomia, do bacalhau, das sardinhas, do mar, do sol, dos cheiros a Portugal, do café e do pastel de nata. Tirando isso, o país não lhes desperta outras saudades ou sentimentos positivos...

Miseravelmente, Portugal é hoje um país que não sabe cuidar nem de si próprio. Como é que um país assim poderá pois saber cuidar dos seus, do seu povo, dos seus jovens, das suas crianças, de todos os que podiam, e podem, ser uma reserva de esperança para  um presente e um futuro melhores ?

Saudades ? Sim, claro, muitas. Mas não a saudade que os possa levar a cometer o erro do regresso. Isso sim, uma aventura que teria todas as condições para correr mal. 

No seu imaginário mais profundo e básico do território onde nasceram e cresceram, restam a gastronomia, a família, a placidez da aldeia, a luz da cidade, os pastéis de nata, o cafézinho, o sol, os cheiros e o mar... É  só isso que os liga a Portugal, quando daqui partem, os portugueses, na demanda de um futuro diferente, para melhor comparativamente ao que  este país triste e sem rumo ou direcção tem para oferecer aos que aqui nascem e  a ele se devotam .

Jacinto Lourenço

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Estes Homens são o Povo...




Há no mundo uma raça de homens com instintos sagrados e luminosos, com divinas bondades do coração, com uma inteligência serena e lúcida, com dedicações profundas, cheias de amor pelo trabalho e de adoração pelo bem, que sofrem, que se lamentam em vão.
Estes homens são o povo.

Estes homens estão sob o peso do calor e do sol, transidos pelas chuvas, roídos do frio, descalços, mal nutridos; lavram a terra, revolvem-na, gastam a sua vida, a sua força, para criar o pão, o alimento de todos.
Estes são o povo, e são os que nos alimentam.
Estes homens vivem nas fábricas, pálidos, doentes, sem família, sem doces noites, sem um olhar amigo que os console, sem ter repouso do corpo e a expansão da alma, e fabricam o linho, o pano, a seda, os estofos.
Estes homens são o povo, e são os que nos vestem.

Estes homens vivem debaixo das minas, sem o sol e as doçuras consoladoras da natureza, respirando mal, comendo pouco, sempre na véspera da morte, rotos, sujos, curvados, e extraem o metal, o minério, o cobre, o ferro, e toda a matéria das indústrias.
Estes homens são o povo, e são os que nos enriquecem.

Estes homens, nos tempos de lutas e de crises, tomam as velhas armas da Pátria, e vão, dormindo mal, com marchas terríveis, à neve, à chuva, ao frio, nos calores pesados, combater e morrer longe dos filhos e das mães, sem ventura, esquecidos, para que nós conservemos o nosso descanso opulento.
Estes homens são o povo, e são os que nos defendem. Estes homens formam as equipagens dos navios, são lenhadores, guardadores de gado, servos mal retribuidos e desprezados.
Estes homens são os que nos servem.

E o mundo oficial, opulento, soberano, o que faz a estes que o vestem, que o alimentam, que o enriquecem, que o defendem, que o servem ?
Primeiro, despreza-os; não pensa neles, não vela por eles, trata-os como se tratam os bois; deixa-lhes apenas uma pequena porção dos seus trabalhos dolorosos; não lhes melhora a sorte, cerca-os de obstáculos e de dificuldades; forma-lhes em redor uma servidão que os prende e uma miséria que os esmaga; não lhes dá protecção; e, terrível coisa, não os instrui: deixa-lhes morrer a alma.
É por isso que os que têm coração e alma, e amam a justiça, devem lutar e combater pelo povo. E ainda que não sejam escutados, têm na amizade dele uma consolação suprema.


Eça de QueirozTextos do Distrito de Évora, 1876

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Madrid, 03 de Maio de 1808



A revolta da população de Madrid em 02 de Maio de 1808, contra os franceses, na sequência das invasões peninsulares, levou o marechal Murat a ordenar o fuzilamento de milhares de populares. O pintor Francisco Goya, imortalizou, em 1814, esse dramático acontecimento ocorrido no dia seguinte ao levantamento popular. Goya pretendeu que a barbárie não fosse esquecida. Já passaram 205 anos. Nós não esquecemos.

Jacinto Lourenço




segunda-feira, 22 de abril de 2013

A Estupidez é Perigosa...



...Para estabelecer as leis fundamentais da estupidez, é preciso, primeiro, definir quem é o estúpido. Para isso, ajudará a comparação com outros tipos de gente. Diz o autor que, quando temos um indivíduo que faz algo que nos causa uma perda, mas lhe traz um ganho a ele, estamos a lidar com um bandido. Se alguém realiza uma acção que lhe causa uma perda a ele e um ganho a nós, temos um imbecil. Quando alguém age de tal maneira que todos os interessados são beneficiados, estamos em presença de uma pessoa inteligente. Ora, o nosso quotidiano está cheio de incidentes que nos fazem "perder dinheiro, e/ou tempo, e/ou energia, e/ou o nosso apetite, a nossa alegria e a nossa saúde", por causa de uma criatura ridícula que "nada tem a ganhar e que realmente nada ganha em causar-nos embaraços, dificuldades e mal". Ninguém percebe por que razão alguém procede assim. "Na verdade, não há explicação ou, melhor, há só uma explicação: o indivíduo em questão é estúpido." [...]
Os estúpidos estão em todos os grupos, pois "a probabilidade de tal indivíduo ser estúpido é independente de todas as outras características desse indivíduo": segunda lei.
A terceira lei corresponde à própria definição do estúpido: "É estúpido aquele que desencadeia uma perda para outro indivíduo ou para um grupo de outros indivíduos, embora não tire ele mesmo nenhum benefício e eventualmente até inflija perdas a si próprio." A maioria dos estúpidos persevera na sua vontade de causar males e perdas aos outros, sem tirar daí nenhum proveito. Mas há aqueles que não só não tiram ganho como, desse modo, se prejudicam a si próprios: são atingidos pela "super-estupidez".
É desastroso associar-se aos estúpidos. A quarta lei diz: "Os não estúpidos subestimam sempre o poder destruidor dos estúpidos. Em concreto, os não estúpidos esquecem incessantemente que em todos os tempos, em todos os lugares e em todas as circunstâncias tratar com e/ou associar-se com gente estúpida se revela inevitavelmente um erro custoso." A situação é perigosa e temível, porque quem é racional e razoável tem dificuldade em imaginar e compreender comportamentos irracionais como os do estúpido. Schiller escreveu: "Contra a estupidez mesmo os deuses lutam em vão."
Como consequência, temos a quinta lei: "O indivíduo estúpido é o tipo de indivíduo mais perigoso." O corolário desta lei é: "O indivíduo estúpido é mais perigoso do que o bandido." De facto, se a sociedade fosse constituída por bandidos, apenas estagnaria: a economia limitar-se--ia a enormes transferências de riquezas e de bem-estar a favor dos que assim agem, mas de tal modo que, se todos os membros da sociedade agissem dessa maneira, a sociedade no seu conjunto e os indivíduos encontrar-se-iam numa "situação perfeitamente estável, excluindo toda a mudança". Porém, quando entram em jogo os estúpidos, tudo muda: uma vez que causam perdas aos outros, sem ganhos pessoais, "a sociedade no seu conjunto empobrece".
A capacidade devastadora do estúpido está ligada, evidentemente, à posição de poder que ocupa. "Entre os burocratas, os generais, os políticos e os chefes de Estado, é fácil encontrar exemplos impressionantes de indivíduos fundamentalmente estúpidos, cuja capacidade de prejudicar é ou se tornou muito mais temível devido à posição de poder que ocupam ou ocupavam. E também se não deve esquecer os altos dignitários da Igreja."
É assim o mundo.

Anselmo Borges 

Ler texto integral AQUI no Diário de Notícias online

domingo, 17 de março de 2013

O Jovem aluno e os 3 Percursores da Revolução Francesa...




Um ar gingão, alto, magro como só alguns adolescentes. Calças muito abaixo da linha da cintura. Olhos vivos pretos, pretos, da mesma cor do cabelo penteado de uma maneira que não sei descrever e que lhe dava um look alternativo, mas ao mesmo tempo seguro. Depois, dirigiu-se ao balcão parecendo ter a lição bem estudada:
- Eu desejava um livro que o meu professor de história me mandou comprar – nisto, encolhe os ombros, faz um esgar, como quem diz o meu professor é um chato, sorri e continua –, não é obrigatório, mas o meu professor diz que é absolutamente necessário – e repete o mesmo trejeito –.
O livreiro antevê que vem de lá disparate.
- Sim, por favor, qual é o título do livro?
- Pois, aí é que está o problema, esqueci-me do título. Todavia, lembro-me perfeitamente dos três autores.
- Isso é óptimo! – desabafa o livreiro mais sossegado –. E quais são os autores?
- São aqueles… tipo!... Os três principais percursores da Revolução Francesa o Jean, o Jacques e o Rousseau.

Jaime Bulhosa in Pó dos Livros

quinta-feira, 14 de março de 2013

O Olhar de António Aleixo...

















Acho uma moral ruim
trazer o vulgo enganado:
mandarem fazer assim
e eles fazerem assado.

Sou um dos membros malditos
dessa falsa sociedade
que, baseada nos mitos,
pode roubar à vontade.

Esses por quem não te interessas
produzem quanto consomes:
vivem das tuas promessas
ganhando o pão que tu comes.

Não me dêem mais desgostos
porque sei raciocinar...
Só os burros estão dispostos
a sofrer sem protestar!

Esta mascarada enorme
com que o mundo nos aldraba,
dura enquanto o povo dorme,
quando ele acordar, acaba.

António Aleixo

segunda-feira, 11 de março de 2013

A Vida Aprendida à Bruta




O sol acordou  preguiçoso, como em todos os invernos. Iluminou o dia e afugentou frios e medos  que as madrugadas acoitam. O rádio dá novas/velhas notícias  duma europa perdida , sufocada pelo garrote económico apertado sem dó nem piedade por quem manobra a economia a seu favor a milhares de quilómetros mais a norte. Houvem-se também coisas de um país que só encontra o caminho da ruína conduzido por mercadores de almas e vidas.                                                                                  

Por entre urbanos sons matinais, o pensamento voa-me para a minha infância,  na escola primária, com a mala às costas para aprender o futuro numa sala fria, hostil em todos os invernos; pensei na professora Helena, todos os dias má e todos os dias temível para alguns alunos. Havia os alunos de "primeira" e os de "segunda", mesmo se isso não tinha nada a ver com a classe frequentada. Os de "primeira", normalmente de famílias mais facilitadas de vida,  eram poupados à pancada e  elogiados; ocupavam as primeiras filas. Os outros, os de "segunda", nas últimas filas, eram sempre candidatos naturais à ponteirada e reguada; estavam, paradoxalmente, sempre na linha da frente, mas apenas para  o castigo, houvesse ou não motivo de maior. O recreio era a libertação, tal como as segundas-feiras, quando a camioneta das onze, que vinha de Montemor e que trazia a dona Helena, se atrasava e    nos dava mais uma hora de alegria. 

Hoje de manhã, quando Deus  nos visitou no sol,  lembrei-me que Ele nasceu para todos   mas lembrei-me também que a vida, no meio dos homens, e à revelia de Deus, é normalmente aprendida à bruta. A rudeza dos dias, mesmo os de sol, castiga sempre os mais frágeis, os que pouco ou nada têm, nem mesmo uma simples escapatória. Este (des)governo,    faz quase o papel da dona Helena: marginaliza, açoita, despreza, castiga e fere ostensivamente. Distribui reguadas e ponteiradas aos que põe nas últimas filas. Em Portugal, a não ser que tenhamos vontade e determinação para isso, as coisas dificilmente vão mudar para quem está nas últimas filas... Restam-nos os pequenos recreios da história, quando ela se lembra de nós, por entre dias e tempos  feitos de invernias duras para quem foi condenado às  zonas de sombra  em Portugal,  a quem  o sol, quando chega, já está no seu declinar.


Jacinto Lourenço  

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Do Alentejo com Lembranças.



...Como qualquer alentejano da minha geração, cresci num tempo em que a confecção dos alimentos tinha por base o lume de lenha, no chão da lareira, ou o de carvão, na fornalha ali instalada. Sem o suporte conserveiro da arca congeladora, sabiamente substituída pela salgadeira, numa tradição milenar, e sem frigorífico, a mãe de família tinha de cozinhar todos os dias, duas vezes ao dia. Foi um tempo em que a cozinha, com a grande chaminé, era casa de entrada, de porta sempre aberta durante o dia, como única fonte de luz, e sala de todos os usos, em que a mesa de comer era a mesma em que eu e os meus irmãos fizemos os trabalhos de casa, a mando do professor.

Dessa cozinha, para além do mobiliário rudimentar, do poial dos cântaros, do poço com água fresca e um tanto salobra, ficaram-me na memória duas oleogravuras, uma do aeroplano Lusitânia, com o Gago Coutinho e o Sacadura Cabral, e outra alusiva à implantação da República. Desse tempo e dessa cozinha recordo os aromas e os sabores da culinária alentejana. A carne de porco, temperada de alho e pimentão, frita em banha, na sertã de barro, as sopas da panela de galinha com linguiça, toucinho e raminhos de hortelã, a açorda de poejos, as sopas de tomate com figos e as de cação envinagradas e a libertar o cheiro dos coentros, as sardinhas de barrica fritas no azeite e as torradas com toucinho cozido ou com azeite, açúcar e canela exalavam cheiros inconfundíveis e são lembranças de paladares inesquecíveis que não posso deixar de associar aos cantares dos homens que, muitas vezes, na taberna da vizinhança, aos fins de tarde de sábado, se abriam em coro polifónico e trocavam boa parte da magra féria por copos de vinho e petiscos para fazer boca, esquecendo aí e assim a “porca da vida”.
[...]

A. Galopim de Carvalho in De Rerum Natura

Ler texto integral AQUI

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

A Rádio um Dia depois do seu Dia


Sim, bem sei, porque me informam todos os manuais de consumismo ocidental, que hoje é o dia dos namorados, mas  o que eu quero mesmo lembrar é algo menos prosaico mas  muito mais importante para a humanidade do que um simples dia de S.Valentim de vocação comercial anódina. Ontem, por manifesta falta de tempo para o fazer, não assinalei aqui a celebração do Dia Internacional da Rádio. Não, não falo apenas da descoberta de Pierre e Marie Curie do elemento químico com esse nome, falo da Telefonia Sem Fios, que designamos sinteticamente por Rádio. Ontem, 13 de Fevereiro, celebrou-se o Dia Internacional da Rádio. Poucos terão dado por tal e, os que deram, não lhe atribuiram a importância que ela tem nas suas próprias vidas, mesmo que não se dêem conta disso.

Lembro-me, como se fora hoje, quando menino com os meus sete ou oito anos, de os meus avós comprarem a sua primeira telefonia a pilhas; era uma Philips, daquelas que tinham uma pega em plástico na parte superior e uma antena que abria em arco rectangular. E lá foi a família toda, em procissão ao estabelecimento do sr. Arranca, para trazer para casa essa importante inovação: uma telefonia a pilhas, sim, a pilhas, daquelas grandes, porque electricidade era uma inovação que ainda não havia chegado a Lavre. Apanhava onda média e onda curta. Não estou certo de que já houvesse FM ao tempo, nos finais da década de sessenta do século passado. Mas lembro-me dos programas que mais se ouviam lá em casa: Serão para Trabalhadores, da FNAT, Parodiantes de Lisboa (algumas das personagens criadas por estes nunca mais nos sairam da memória ), rádionovelas, relatos de futebol, noticiários e, à noite, em alguns dias da semana, o meu avô José, precavendo-se primeiramente com todos os cuidados contra eventuais "escutas" promovidas pela PIDE ou pela GNR  lá da vila, alguns tão engraçados  que, relatados hoje, nos pareceriam quase anedota, ouvia a Rádio Moscovo e a Rádio Portugal Livre onde passavam programas contra o regime instalado em Portugal promovidos pelos partidos políticos portugueses na clandestinidade.

A televisão, nessa altura, não era ainda grande alternativa. Uma programação reduzida e uma informação breve e formatada pelo estado novo. Excepção  era o Bonanza, ao sábado à noite ou o Super-Rato ao domingo à tarde. Eram os tempos da Rádio, do Raúl Solnado com as suas histórias da guerra de 14, dos cançonetistas, dos Reis da Rádio, da Madalena Iglésias, do Artur Garcia, do António Calvário ou da Simone. Todos e cada um com as suas claques. As pessoas reuniam-se à volta de uma telefonia, onde quer que a houvesse, para ouvir as novidades e os relatos da bola ou da volta a Portugal em bicicleta. Desde então muita coisa mudou, mas a Rádio soube sempre preservar o seu lugar e o seu espaço. Para além de uma óbvia companhia na solidão ou nas noites longas de muita gente, é uma  excelente  cúmplice no trabalho ou nas viagens. Pessoalmente continuo a gostar muito de ouvir Rádio em várias circunstâncias: no automóvel, no computador, antes de dormir, ao acordar, durante o dia ou no decorrer da noite, quando estudo ou quando trabalho. Prefiro-a à televisão, em muitos casos. 

Podem perguntar-me se eu poderia viver sem Rádio ? Claro que podia, mas não era a mesma coisa...  Garanto-vos que, na actualidade, sobreviveria muito melhor sem Televisão do que sem Rádio, por várias razões. 

Durante muitos anos fui radialista amador. Produzi, realizei e fiz locução de programas de rádio em estações emissoras locais e nacionais. Enquanto cristão mantive-me cerca de quinze anos como colaborador na locução de programas cristãos-evangélicos no Programa Novas de Alegria de boa memória para muita gente que, por seu intermédio,  teve um encontro pessoal com Cristo. Atravessei o período das designadas rádios piratas em Portugal, nos anos oitenta, produzindo e realizando programas próprios. A rádio continua a ser, ainda hoje, um dos melhores meios de comunicação de massas e chega mesmo onde outros meios com outros recursos técnicos e tecnológicos não conseguem chegar. Do meu ponto de vista, a Rádio irá subsistir a todas as inovações e tecnologias de ponta que forem aparecendo, por razões óbvias e quase redundantes: é simples, relativamente barata, acessível, dúctil, tecnologicamente sustentável e limpa, adaptável aos tempos de modernidade que se vivem a cada momento, e chegando a todos, ricos e pobres.
Eu gosto da Rádio. Felizmente, com algumas excepções,  faz-se muito boa rádio em Portugal.


Jacinto Lourenço

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Ver Passar os Comboios...



Deixei  partir um, quase vazio, que ia directo ao meu destino. Fiquei aborrecido porque se tivesse chegado à gare 2 minutos antes teria conseguido apanhar aquele comboio, onde arranjaria um lugar sentado. Esses dois minutos resultaram em ter que fazer a curta viagem toda em pé, encostado desconfortavelmente na coxia.

Viajo pouco de comboio, mas lembro-me bem de que, quando viajava mais, por razões profissionais, cada viagem era quase como que uma festa ou um momento de puro relaxamento. Grupos de passageiros que se conheciam há muito apenas por se cruzarem todos os dias, na mesma composição, no mesmo horário, de manhã ou à tarde.  Estranhava-se e indagava-se se algum falhava mais do que um dia ou dois. Sabia-se sempre quando iam de férias os que connosco partilhavam o espaço alegre do comboio.

Lia-se a última obra adquirida ao círculo de leitores em suaves prestações mensais. Capas bem forradas para que não se desbotasse a gravura que havia de enquadrar, lombada bem direitinha, a decoração da estante da sala. Debatiam-se as últimas do futebol, os golos falhados, os erros do árbitro cuja mãe era sempre a vítima mais à mão, as picardias habituais que acabavam sempre numas boas e sonoras gargalhadas. O comboio, do que me recordo, era um momento de  descontraído convívio até à estação de destino de cada um. Nunca se viajava em solidão, nem mesmo quem ia sozinho.

Após ter dado um pequeno e inadvertido encontrão, com a minha pasta de ombro, à jovem senhora que ocupava o lugar  próximo do meu encosto ocasional na coxia, pedi desculpas,  mas não me livrei de um olhar enfastiado e reprovador como se tivesse cometido gravíssima falha não merecedora de perdão. Acomodei-me, tirei da mala "O Ano da Morte de Ricardo Reis", que tenho andado a reler em breves soluços ocasionais, senti-me um espécime raro de uma raça em vias de extinção que insiste em fazer da leitura  um hábito viciante; dei-me conta do rolo no estômago que o dr. Ricardo Reis carregava enquanto subia nervosamente a Rua do Alecrim  afim de  comparecer na sede da polícia política depois de ter sido intimado por uma contra-fé recebida no hotel Bragança. Olhei por sobre a cabeça dos meus companheiros ocasionais de viagem. A composição estava cheia no final da tarde de ontem. Parecia até que todos os passageiros caminhavam com Ricardo Reis,  rua do alecrim acima, desconfiados de um percurso em que nada de bom os aguardava. Rostos fechados; semblantes carregados. Nem o regresso a casa consegue deslaçar a opressão sobre quem terminou um dia de fadiga profissional. A tarde, que envelhece precocemente nesta altura do ano, e os grafites  exteriores que malvadamente nos ocultam a paisagem que bordeja a linha, fazem de  nós viajantes silenciosos e oprimidos por um trajecto todos os dias repetido. Os gadgets ocupam e retiram os espaços de convivialidade de outros tempos, quando apenas se lia e sorria. Ouve-se um  silêncio soturno  e redundante entrecortado  pelo ténue ruido do "pouca-terra-muita-terra" produzido pela  moderna composição. Parece que cada passageiro carrega o peso do mundo sobre si.

Senti nostalgia das minhas boas  e curtas viagens de comboio onde as vozes quase troavam e as gargalhadas  eram soltas e subversivas. Não havia gadgets. Apenas um ou outro livro aberto e o jornal da manhã, maioritariamente desportivo. Outros tempos, sem dúvida, quando não havia troika, nem governos neo-liberais a roubar os sorrisos, mesmo se só as gargalhadas eram livres.

Jacinto Lourenço

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Justiça à moda Alentejana...



Uma história familiar verdadeira




Dona Capitolina viveu um grande e curto amor. Mas mesmo assim quando o marido lhe morreu de uma morte muito triste, deixou-lhe oito filhos, cinco rapazes, (dois já casados) e três meninas.
Naquela altura começava-se a trabalhar muito cedo, os rapazes de “ganhão” e as raparigas na “monda”. Algumas meninas começavam a trabalhar de terna idade em casa dos lavradores e não poucas eram despedidas depois de servir os baixos instintos de patrões, filhos, ou feitores lacaios.
Uma das filhas da nossa viúva, a Margarida, (as outras ainda estavam em casa), trabalhava no prédio do maior proprietário rural da terra. Dono de herdades, gados e vidas de pessoas. Era ele quem na terra decidia quem tinha direito ao “pão nosso de cada dia”. Nesses tempos, no Alentejo profundo, trabalhava-se os dias todos e comia-se quando era possível. Não se podia afrontar um destes senhores, que eram saudados de chapéu na mão e cabeça baixa.

Um dia a Margarida chegou a casa muito chorosa. Ante as perguntas da mãe, contou que “o filho do patrão, (um rapazola de dezoito anos), a tinha agarrado e tentou fazer com ela algo muito feio, por sorte tinha conseguido escapar”.
Depois de ouvir o relato a viúva fez o que era usual, reunir toda a família e decidir. Mandou as duas filhas mais novas chamar os irmãos casados; ainda nesse dia iam decidir o que fazer como faziam sempre desde a morte do marido.
À noitinha, depois da ceia, estava reunido o Conselho Familiar. Eles usavam já, sem o saber, o “et pluribus unum”. A menina e a mãe falaram, retiraram-se e os cinco homens decidiram; “nunca mais se falar nessa história, e a rapariga amanhã vai trabalhar para o rancho, já tem bom corpo”.
O triste caso esqueceu-se como os homens tinham mandado e a vida continuou como sempre, mansamente.

Frente ao prédio do lavrador, vivia um dos ferreiros da terra. Era um homem evoluído e interessado na política conturbada da época, feita de revoluções e mudanças de governo constantes nos anos que se seguiram à implementação da República.

Todos os serões o rapazola atravessava o medonho negrume da rua, para participar nas tertúlias em casa do vizinho.
Numa noite muito escura, sem luar, mal fechou a sua porta, foi rodeado por cinco vultos de capote e chapéus pretos. Gritou por socorro, os vizinhos assomaram-se aos postigos, mas nenhum se atreveu a ir em seu auxílio. Levou a maior sova da vida dele, esteve quinze dias entre a vida e a morte.

Durante dias falou-se da afronta feita a um patrão tão importante. Jurava-se a pés juntos ter sido façanha de gabirus de passagem, que ninguém da terra se atreveria a tanto. Mas quem foi mesmo nunca se soube, até desaparecer na bruma do tempo.

O senhorinho nunca relacionou o efeito com a causa, tanto que continuou pela vida fora a abusar de mocinhas inocentes. Mas pela Margarida, pagou bem pago.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

A Fome não é um Dever Constitucional


Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar,  diz a letra de uma canção muito entoada nos anos posteriores ao pronunciamento  militar que deu origem ao 25 de Abril de 1974  que restituiu a liberdade em Portugal após 48 anos de ditadura de um regime que se esgotara por dentro de si próprio. 
Já lá vão 39 anos de restauração das liberdades cívicas, e hoje, não perdemos ainda a faculdade de ver, ouvir e ler acerca de uma certa ideia de democracia que se fundou entretanto no país, baseada na apropriação do poder político por dois ou três partidos que sempre usaram o Estado em benefício próprio, em benefício dos seus dirigentes, dos amigos dos dirigentes, dos parentes e amigos dos amigos dos dirigentes ou das suas clientelas partidárias que se habituaram a viver de favores partidários repartindo  entre si um  bolo que detinha qualidades inebriantes ou alucinogéneas que durante anos e anos causaram uma euforia incontida em tudo e todos os que giraram à volta da esfera do aparelho do Estado e que  os levava a pensar  que podiam ou  podem fazer tudo aquilo que queriam ou querem, porque depois, sim, depois há sempre o povo para pagar os efeitos da ressaca enquanto, de passagem, se procura convencer essa "gentalha" do povo  que, afinal,  andaram a viver acima das suas possibilidades  e, por isso, agora, têm que aguentar...

Estava a ouvir na rádio, no passado sábado de manhã, embalado pela  plácida pacatez de um fim de semana no alentejo, as notícias de que o tal  "Estado", que é propriedade de alguns amigos que funcionam em círculo fechado, injectara mais de mil milhões de euros num banco privado que era pertença de um comendador qualquer, que entretanto morreu e deixou à sua viúva e filhas o dito banco. Estas não se entenderam  e depois andaram todas à chapada para decidirem quem é que ficava com a maior fatia do bolo deixado pelo senhor comendador. Ora foi neste pequeno banco que o actual (des)governo meteu mais uns milhões para nós pagarmos. Entretanto, o mesmo (des)governo, prepara-se para fazer mais um brutal confisco de 4.000 milhões de euros aos portugueses, mas não a todos os portugueses, apenas aos pensionistas, reformados, doentes, estudantes, desempregados e trabalhadores em geral... Enfim, aos do costume, que fazem sempre o papel do mexilhão agarrado à rocha...  É que não sei se já repararam, mas há um confisco que ainda nem sequer entrou em vigor, isso acontecerá apenas a partir do fim do mês que está a correr, e já se anuncia outro, porventura muito maior e mais agressivo do que os anteriores. Claro que este que se anuncia vem debaixo da capa de um estudo do FMI, feito por uns senhores que passam a maior parte da vida enfiada nuns gabinetes lá para Washington a lidar com números e estatísticas e que devem achar que um ser humano será assim como que  uma coisa  muito próxima de um alienígena, que eles nunca viram a não ser nos filmes de ficção feitos em Hollywood. O problema, sabe-se desde há muito, embora ao (des)governo desse algum jeito fingir pensar que não se sabia , é que as premissas para o tão "elaborado" estudo do FMI, foram fornecidas pela equipa do mago Gaspar ( sim, mago, porque um mago é alguém que se guia pela sorte que as estrelas eventualmente lhe possam trazer...). Ou seja, os tais tecnocratas só nos estão a comunicar aquilo que o (des)governo queria que eles comunicassem e, assim, sempre havia de parecer  que não , que os tipos do FMI é que se puseram a pensar na coisa e tal, e que isto afinal não partiu do (des)governo mas sim desses malandros   do Fundo que, quando não têm mais nada para fazer, jogam à sueca uns com os outros ou vão debitando uns números para nos entalarem.

Ou seja: de uma maneira ou de outra o (des)governo em Portugal o que gosta  mesmo é de dar dinheiro aos amigos, de salvaguardar o dinheiro e os interesses  dos amigos e depois, bem, depois essa "gentalha" do povo há-de pagar com língua de palmo... Se em lugar de servirem para "salvar" um banco, que tem uma posição pouco menos que residual no casino  financeiro em que todos os bancos jogam e que não representa, segundo dizem os entendidos nestas coisas, nenhum risco sistémico, os mil e tal milhões de euros fossem injectados na economia real, quantos empregos seriam criados ? Quantas bocas seriam alimentadas? Quantos portugueses continuariam a viver nas suas casas em lugar de terem que as entregar à banca ? Quantos doentes, que hoje estão a morrer por lhes estarem a ser negados os medicamentos  no Serviço Nacional de Saúde, poderiam continuar a seguir com a sua vida ? Quanto estudantes poderiam continuar a pagar as suas propinas  não tendo assim que abandonar os seus estudos ? Quantos trabalhadores ou desempregados deixariam de ter que emigrar para poderem pôr pão em cima da mesa ?  Quantas crianças  deixariam de depender das refeições dadas generosamente pelas escolas, mesmo quando não estão em aulas ?

Este (des)governo de amigos do alheio que tomou posse abusiva do aparelho do Estado, está literalmente a aplicar a eutanásia à economia portuguesa, aos portugueses, a Portugal. É preciso deitá-lo da cadeira abaixo e não voltar a levar ao poder os que nos conduziram à actual situação, nem que para isso apareçam novos movimentos políticos fundados por cidadãos bem preparados e objectivamente focados em governar a bem de Portugal e dos portugueses, que saibam colocar a política ao serviço da economia e das pessoas. Mais vale uma crise política do que um (des)governo destes que só governa para o seu círculo de amigos. Os portugueses sabem que têm que fazer sacrifícios num momento particular da vida nacional para pagar os desmandos cometidos pelos partidos e pelas hostes partidárias que se locupletaram à sombra desta ideia de uma certa democracia que já corre há praticamente 39 anos, mas nada os obriga a tolerar esta gente por mais tempo. Chega de saque !!

O professor Adriano Moreira que, como sabemos, é "um perigoso esquerdista", afirmou hoje, em entrevista à Antena 1, depois de  perguntado se «devíamos preservar esta "estabilidade política" a qualquer custo» que "a fome não é um dever constitucional". 

Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar !


Jacinto Lourenço

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013



Dizia um dia o grande filósofo Citófilo a uma mulher desesperada e com grandes motivos para o estar: «Minha senhora, a rainha de Inglaterra, filha do grande Henrique IV, foi tão infeliz como vós: expulsaram-na dos seus reinos; por pouco não parecia numa tempestade em pleno oceano; viu morrer o seu real esposo no cadafalso – tenho muito pena dela, disse a dama», e continuou a chorar os seus próprios infortúnios.
«Mas, disse Citófilo, lembrai-vos de Maria Stuart: amava muito honestamente um jovem músico que possuía uma belíssima voz de barítono. O marido matou o músico na presença dela; e mais tarde a sua boa amiga e parente; a rainha Isabel, que se dizia virgem, ordenou que lhe cortassem a cabeça num cadafalso coberto de panos negros, depois de a ter enclausurado numa masmorra durante dezoito anos. – Isso é tudo muito triste, respondeu a dama», e voltou a cair na sua profunda melancolia.
«Tenho de vos contar, continuou o outro, a aventura de uma soberana que no meu tempo foi destronada depois da ceia, e que morreu numa ilha deserta. – Conheço toda essa história», disse a dama.
«Então vou contar-vos o que aconteceu a uma outra grande princesa a quem revelei a filosofia. Ela tinha um amante, como todas as grandes e belas princesas. O pai entrou no quarto e surpreendeu o amante com o rosto em fogo e os olhos brilhantes como carbúnculos; a dama também parecia muito animada. A expressão do jovem caiu de tal maneira no desagrado do pai que este lhe deu a maior bofetada de que há memória na região. O amante agarrou numas tenazes e partiu a cabeça ao sogro, que a custo se corou e que ainda hoje tem a cicatriz dessa ferida. A amante, desorientada, saltou pela janela e torceu um pé; agora coxeia um pouco, embora tenha uma figura admirável. O amante foi condenado à morte por ter partido a cabeça a um tão ilustre príncipe. Podeis imaginar o estado em que se encontrava a princesa quando enforcaram o amante. Vi-a durante muito tempo quando ela estava na prisão; só me falava das suas desgraças. – por que não quereis então que eu pense nas minhas? Perguntou-lhe a dama. – É porque não se deve pensar nisso, disse o filósofo, e porque vos fica mal desesperar quando tantas damas ilustres foram tão infelizes. Pensai em Hécuba, pensai em Niobe. – Ah, disse a dama, se eu tivesse vivido no tempo delas, ou no das belas princesas, e se lhe tivésseis contado os meus infortúnios, pensais que elas vos teriam escutado?»
No dia seguinte o filósofo perdeu o seu único filho e quase morreu de dor. A dama mandou fazer uma lista de todos os reis que tinham perdido os seus filhos e levou-a ao filósofo; este leu-a, achou-a muito certa mas não chorou menos por causa disso. Passados três meses voltaram a ver-se e ficaram espantados por se encontrarem com tão boa disposição. Mandaram erigir uma estátua ao Tempo com a seguinte inscrição: «àquele que consola.»

Voltaire


Fonte: Pó dos Livros

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

E no fim, Quando o governo concluir a sua missão de destruição do País e dos portugueses, Sobrarão os bancos...




Acreditar que a intervenção do Estado no Banif terá sucesso corresponde à mesma coisa que supor serem os êxitos iniciais da ofensiva alemã das Ardenas, em dezembro de 1944, uma sólida garantia da capacidade de Hitler inverter a sorte da guerra... Não há leitura técnica de mais este caso revoltante. Apenas uma leitura política e ideológica. Este é um governo que promove a luta de classes. Quis colocar os portugueses uns contra os outros, conseguindo unir sindicatos e patrões na mesma recusa ética da redução da TSU. Incita os jovens a hostilizarem os pensionistas. Desmoraliza os trabalhadores no ativo, alimentando o ressentimento de desempregados contra modestos salários, apresentados como privilégios. Movido pela sua ideologia da luta de classes, este governo não respeita a palavra dada, como se viu na abrupta redução para 12 dias da indemnização por despedimento. A transferência, num plano kamikaze, de 1,1 mil milhões de euros das dívidas do BANIF para o erário público, numa nacionalização de prejuízos, sem qualquer discussão parlamentar, exorbitando as competências do executivo, violando o princípio republicano do consentimento fiscal, constitui uma verdadeira confissão da natureza classista da política que o ministro das Finanças conduz em Portugal, em articulação com a fação predatória de ministros-banqueiros e banqueiros-ministros que visa submeter os povos da Europa ao jugo da indigência. Este ministro desembarcou em Lisboa como uma espécie de Lenine monetarista na Gare da Finlândia. Ele constitui a principal ameaça à coesão social e à tranquilidade pública. Veio com a missão de subverter o país e obrigar Portugal a uma nova revolução. Só que, na revolução tal como na guerra, sabe-se como as coisas começam, mas nunca como e quando acabam.


Viriato Soromenho Marques in Diário de Notícias Online

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

O Servilismo Está-nos no Sangue...


O problema é antigo, está-nos no sangue, parece-me. Dizem-nos que o herdámos do tempo do "botas" , que nos obrigou ao servilismo. Não acredito. A coisa vem mais de trás, do princípio da nossa história enquanto nação, com Egas Moniz a confundir honra com servilismo ( numa "interpretação" muito minha, e livre, da história...) quando foi pedir perdão e oferecer a sua vida e da sua família em resgate  a Afonso VII por D. Afonso Henriques se ter recusado a prestar vassalagem ao primo, conforme lhe prometera Egas Moniz, se este levantasse o cerco a Guimarães.  Sempre tivemos esta tendência para a servidão, para a obediência cega e parva, sem questionamentos. Somos assim; desenvolvemos, como nenhum outro povo da Ibéria,  a arte de "engolir sapos", mesmo se eles são de difícil digestão, e mostrar um sorriso,  por mais amarelo que seja.

Se vamos ao senhor doutor para tratar das maleitas que nos afligem, lá vem a promessa de, pela páscoa, lhe fazermos chegar um borreguinho ou um cabritinho desmamado, tenrinho, ainda a saber a leite, sim,  claro, porque  o médico nos vai aliviar das dores que carregamos. Os mais pobres podem sempre ofertar um queijinho ou um chouriço lá da terrinha. O físico, impante na sua cátedra inquestionável e impenetrável, a olhar-nos por cima dos óculos, diz que sim, que gosta e, na volta de uns comprimidos milagrosos, ou de umas gotas,  lá mais para a frente poderá seguir também para o consultório  um perú pelo natal. Ainda hoje, mesmo acedendo a um Serviço Nacional de Saúde que pagamos com impostos, não conseguimos deixar de olhar para o médico como alguém a venerar servilmente, em lugar de o vermos como profissional que é, pago para tratar da nossa saúde. A esta imagem, talvez mais diluída nos meios urbanos, juntam-se outras que têm a ver com o sacerdote católico, o pastor protestante,  o advogado, com o cabo da guarda, com o presidente da Câmara, etc, a quem dedicamos ridículos e servis  encómios numa atitude borrega, sem paralelo conhecido a não ser o da  nossa triste vocação para desistirmos com facilidade de exibir a dignidade que reside no simples facto de sermos seres humanos e cidadãos na  plenitude da igualdade de direitos e deveres que independe da posição social que ocupamos . Somos, quiçá, dos únicos países do mundo chamado desenvolvido a achar que títulos académicos fazem parte, ou devem  usar-se em lugar dos nomes de registo ou baptismo. Um país de doutores e engenheiros em que, mesmo aqueles que o não são exigem tratamento deferente como se o fossem. Doutor para aqui, doutor para ali, senhor engenheiro para isto senhor engenheiro para aquilo. É cultural, dizem-nos. Sim, até pode ser, mas não passa de uma cultura de penacho que assenta num servilismo a raiar a falta de coluna vertebral que se liga com a facilidade com que a vergamos por tudo e nada.

Clara Ferreira Alves constatava, numa das suas habituais e recentes crónicas no Expresso, que "outros países estão a conseguir atravessar a crise da dívida com a dignidade intacta" e só "Portugal resolveu transformar-se num país habitado por bonecos das Caldas". Dizia ainda  que "o nosso desejo de agradar, de servir, perde-nos. Faz-nos perder o respeito por nós próprios". Também, num outro registo, a mesma Clara Ferreira Alves, em reportagem sobre os estragos provocados pelo furacão Sandy, nos Estados Unidos da América, e para o mesmo semanário, constatava que os milionários de Manhattan, a deslizarem nos seus carros de luxo como se fossem os donos do planeta, não fazem a menor ideia de como vivem os pobres. "Usam-nos como serviçais, e proporcionam-lhes empregos com estatuto de invisibilidade. Os portugueses, uma comunidade em Newark, são famosos pela sua honestidade e por serem criados, governantes  e mulheres da limpeza de confiança. Gente que se pode meter dentro de casa. Simples, discretos, invisíveis. Sem nome nem história".

Também é certo, por aquilo que diz Clara Ferreira Alves, que pudemos, e devemos,  interpretar essa atitude dos trabalhadores portugueses nos E.U. da América, por exemplo, como francamente profissional: fazem o seu trabalho com correcção, executam as suas tarefas com profissionalismo e não se metem, mais do que devem, na vida dos outros, especialmente dos seus patrões. Mas também pode ser que o servilismo cultural dos portugueses os ajude a isso tudo.

Quando Portugal esteve sob dominação espanhola, esta cultura de servilismo era levada ao extremo para com a corte Filipina: relata-nos a História de Portugal coordenada por José Mattoso, no volume 5.3,  que "na corte de Filipe III [de Portugal], em Valladolid, os Castelhanos zombavam da soberba e vaidade dos portugueses: «não cuida um fidalgo português se não em que entrando na Corte, a hão-de assombrar, com os seus lacaios mais rica e custosamente vestidos do que nunca seus bisavós o fizeram nas suas vodas". Claro que o objectivo destes fidalgotes que se deslocavam a Valladolid,  emproados, empoados e seguidos pelo seu séquito de serviçais, era essencialmente  o de bajular o rei  e assim conseguir prebendas e favores políticos. Verificamos que, afinal, o servilismo é transversal na sociedade portuguesa e já vem de antanho.

O que sabemos hoje é que dignidade não rima com servilismo e que este não deve ser confundido com capacidade de realização e disponibilidade para correcção no nosso relacionamento com tudo e com todos.

Jacinto Lourenço



terça-feira, 4 de setembro de 2012

As Fragilidades da Democracia Política


Andava hoje a "passear-me" pelo citador, que tem o condão de nos lembrar coisas interessantes e outras pouco menos que desprezíveis, quando dou de caras com o pequeno excerto (reproduzido abaixo) de um livro de  Aldous Huxlei. Imagino que levado à letra e fora do contexto de toda a temática do livro, que não faz ainda parte do meu portfólio de leituras  mas que movido agora pela curiosidade vou procurar ler, este texto,  pode, aparentemente, validar a opinião de alguns espertos do nosso pequeno microcosmos  político de que o melhor para Portugal seria suspender a democracia por algum tempo até que as coisas entrassem nos eixos ( nos eixos deles, claro...). Ora Portugal, se descontarmos a breve e tragicómica experiência da primeira república, nunca soube verdadeiramente o que é viver em democracia até Abril de 1974. Por mais imperfeito e incapaz que se mostre este sistema político, é o único descoberto até hoje pelos homens capaz de nos conceder, pelo menos, a liberdade de pensar em voz alta aquilo que nos vai na alma. Claro que Aldous Huxlei não deixa de ter razão nalguns aspectos menos conseguidos pela democracia que são aproveitados pelos políticos que esgravatam na fissura da indolência dos povos governados  que, em muitos casos, parecem entrar em negação aceitando placidamente todos os jugos que lhes querem impor mascarados pela necessidade de ultrapassar tormentosas dificuldades fabricadas pelos que repartem o bolo das benesses democráticas. Para os povos, é certo, restará sempre e só a fava. E essa será sempre a deformação de um sistema político humano, qualquer que seja,  que, à imagem do homem imperfeito e carregado de contradições, nunca poderá aspirar à perfeição estando condenado a  contentar-se sempre com o menos mau, que roça muitas vezes o odioso, que, por exemplo, a democracia   política tenha para lhe oferecer. 


Jacinto Lourenço

A Democracia Política Conduz à Ineficiência e Fraqueza de Direcção
Os defeitos da democracia política como sistema de governo são tão óbvios, e têm sido tantas vezes catalogados, que não preciso mais do que resumi-los aqui. A democracia política foi criticada porque conduz à ineficiência e fraqueza de direcção, porque permite aos homens menos desejáveis obter o poder, porque fomenta a corrupção. A ineficiência e fraqueza da democracia política tornam-se mais aparentes nos momentos de crise, quando é preciso tomar e cumprir decisões rapidamente. Averiguar e registar os desejos de muitos milhões de eleitores em poucas horas é uma impossibilidade física. Segue-se, portanto, que, numa crise, uma de duas coisas tem de acontecer: ou os governantes decidem apresentar o facto consumado da sua decisão aos eleitores - em cujo caso todo o princípio da democracia política terá sido tratado com o desprezo que em circunstâncias críticas ela merece; ou então o povo é consultado e perde-se tempo, frequentemente, com consequências fatais. Durante a guerra todos os beligerantes adoptaram o primeiro caminho. A democracia política foi em toda a parte temporariamente abolida. Um sistema de governo que necessita de ser abolido todas as vezes que surge um perigo, dificilmente se pode descrever como um sistema perfeito. 

Aldous Huxley, in "Sobre a Democracia e Outros Estudos"

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

A Inquestionável Sesta Alentejana


Tem sido assim nos últimos dois anos. As minhas "férias" têm servido essencialmente para dar um jeito na casa do Alentejo, ou melhor, no espaço exterior adjacente à casa. "A necessidade aguça o engenho", diz o adágio. Ora tem sido a necessidade de fazer óbvias economias que me conduziram para os domínios do "faça você mesmo" e tentar assim ordenar o tal espaço exterior que estava anteriormente mais vocacionado para "zona agrícola". Não sendo eu, declaradamente, pessoa ligada ao cultivo da terra nem tendo nesse domínio possibilidade nem conhecimentos para  acompanhar os seus ritmos, a opção entre deixar à natureza selvagem um espaço para que esta desenvolvesse a  flora herbácea como entendesse e a de embelezar, sustentadamente, o local, parecia-me não oferecer dúvidas. Deitei, desde há dois anos, mãos à obra. Acho que não me tenho saído mal quando comparo o trabalho executado com o de outros ditos profissionais lá da terra: o meu está melhor. Ganhei-lhe o gosto e este ano continuei. O pior é que as férias anuais se mudaram do puro lazer e hedonismo para elevadas doses de cansaço do corpo e desgaste físico. Claro que há sempre compensações: os duches no pátio fora de casa, ao ar livre,  com a água tépida aquecida pela terra a sair pela torneira, nostalgicamente  com os calções de banho vestidos como se estivesse a sair da areia, para não perder a prática... O largo chapéu de sol na esplanada construída com as próprias mãos a fazer sombra a uma bebida fresca, mais do que merecida, diga-se; o velho churrasco feito numa churrasqueira que eu próprio erigi, e tudo isto como preâmbulo para os longos almoços e convívio com a família de passagem pelo veraneio ou residente. A culminar, a bela, salutar, inquestionável e elementar sesta alentejana naquele período em que o inclemente sol do Alentejo não permite veleidades aos humanos. A noite, após o jantar, é normalmente de passeio pelas mesma ruas já antes percorridas, com velhas curiosas  sentadas nas soleiras das portas  a perscrutar nos mapas das  fisionomias dos passantes os traços que lhes identifiquem as origens. A brisa nocturna  tanto pode ser abafada como fresca, dependendo dos humores do tempo. As estrelas, essas brilham como em nenhum outro lugar do mundo. Volto ao meu jardim, observo a incursão da novel  fauna que aproveita a fresquidão induzida pela rega que mantém o agradável relvado. Olho para uma pequena osga que arma emboscadas aos insectos atraídos pela brancura das paredes que exalam ainda o calor do dia; ouço os guinchos dos morcegos a circundarem, a grande velocidade, quais fórmula 1 dos ares, os candeeiros da rua, exercitando a sua habitual caça insectívora . Por esta mesma altura do ano talvez  me sentisse menos  exausto, fisicamente, sentado numa qualquer explanada junto à praia, apinhada de gente a falar alto e a lutar por um café junto do empregado,  seguramente já pouco disponível depois de dez ou doze horas a aturar clientes, mas não estaria mais feliz e realizado do que ali, na quietude  do Alentejo profundo, a doze quilómetros do local mais próximo onde poder comprar um jornal que nos diga o mesmo de sempre: que a crise continua e a vida também, com as dificuldades de sempre, agravadas pelo desgoverno daqueles que supostamente nos deviam governar. Saudades, longe da minha praia habitual, ficam-me, entre outras, as do impagável e não cambiável Romero, em Ayamonte, paragem sempre obrigatória e não dispensável para quem não desdenha momentos de convívio, descontracção e alegria retirada do contacto humano desprovido de regras de etiqueta desnecessárias. Talvez lá volte um ano destes mais próximos  quando as folgas no meu jardim me permitirem.

Jacinto Lourenço