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sábado, 21 de julho de 2012

A Música, a Transcendência e a Paz



Sobre o poder encantatório da música disse Homero na Odisseia. Era tanta a beleza, a doçura, o fascínio e o feitiço do canto das sereias que, para não correrem o perigo da atracção e da morte, Ulisses ordenou que tapassem com cera os ouvidos dos marinheiros e a ele o amarrassem sem possibilidade de fuga ao mastro do navio.
Não há nenhum povo sem música. Nada de tão material como a música: a voz, instrumentos de sopro, de percussão e de cordas e disso tudo resulta o que nos enleva, nos transporta para a transcendência, nos coloca lá no donde viemos e lá para onde verdadeiramente queremos ir e habitar. Feita de tempo, a música pára o tempo, transcende o tempo e tange o eterno. Ali, onde quereríamos estar sempre, e já não há morte.
Por isso, Ernst Bloch disse que a música é "a mais utópica das artes". Ela é o divino no mundo ou, pelo menos, o que nos abre à experiência do divino. Aí está a beleza, que, no dizer de Dostoiévski, "salvará o mundo". O belo abre a porta do que normalmente, no meio da banalidade rasante, se não vê nem ouve. Mas, quando se viu o invisível e se ouviu o inaudível e a sua beleza, tudo se transfigura e reconcilia. Este mundo torna-se outro, sem deixar de ser este. Daí, a exclamação de felicidade, que também os discípulos experimentaram, aquando da transfiguração de Jesus: "Como é bom estar aqui!"
No belo, tornamo-nos vizinhos imediatos do próprio transcendente. Como escreveu George Steiner, "a poesia, a arte, a música são os meios portadores desta vizinhança". A música, nomeadamente, é inseparável do sentimento religioso: "Ela foi durante muito tempo, continua a ser hoje, a teologia não escrita dos que não têm ou recusam qualquer crença formal."
Até pela negativa, através do dilacerante, o que ela procura é a harmonia. Como escreveu Fernando Savater, "na denúncia que falta vê-se contra a luz a possibilidade futura daquilo que poderia ser a plenitude".[...]

Anselmo Borges in Diário de Notícias Online

sexta-feira, 29 de junho de 2012

O Que os Retratos Dizem.


Olho para o retrato pendurado na parede, sobranceiro à lareira; na primeira fila da foto, sentado, o meu avô materno, na sua pose de homem ribatejano com chapéu de aba direita e postura firme, tendo ao seu lado a minha avó Gertrudes, a doçura e humanidade personificada, junto da qual estou eu  num jeito de menino citadino de seis anos de idade ainda não muito habituado à vivência da província. Na fila de trás os meus tios mais novos que ainda não haviam saído da casa paterna para participar  nessa diáspora que levou milhões de portugueses, para outras paragens no país e estrangeiro, e que também  muitos alentejanos encetaram, nos anos sessenta, para fugir à ruralidade de um país onde o interior latifundiário sufocava e semi-escravizava. Hoje, uma grande parte dos que  partiram já regressaram aos seu locais de origem onde usufruem agora  de uma justa reforma onde o tempo é contado o mais devagar possível.

Olho para o retrato e faço uma breve retrospectiva da minha vida. As coisas boas e menos boas. Momentos felizes e menos felizes. Enfim todo um trajecto  em que alguns objectivos foram por  vezes diluídos  no imenso mar das circunstâncias da vida e outros foram ganhos a pulso e com esforço e em que a recompensa foi a alegria de atingir metas que julgávamos tantas vezes inacessíveis a pessoas que, como eu, nunca receberam nada de mão beijada da vida e em que tudo teve que ser conquistado com esforço, denodo e  sacrifício.  O meu percurso de vida tem sido marcado por dois elementos fundamentais: Jesus Cristo, com quem tive um encontro pessoal por volta dos meus quase 17 anos de idade e a família que construí e que está ao meu lado. Sem estes dois esteios fundamentais, a minha vida não teria sido certamente a mesma e, estou certo, não poderia ter sido vivida com o mesmo grau de satisfação, certeza e felicidade.

Gosto de pensar que o meu país, o território onde nasci, me  forneceu  apenas e só uma identidade nacional, da qual me orgulho, mais pela sua história e pela sua cultura do que por qualquer razão geográfica ou paixão indefectível. Sim sou português e, apesar de tudo, não trocaria essa identidade por outra que eventualmente não fosse além de mera  necessidade circunstancial, que no meu caso nunca se colocou. Mas enquanto português sinto que nasci numa pátria que trata desigualmente os seus filhos e isso convoca a minha tristeza e revolta e também por isso sou tão crítico e exigente com ela. Uma pátria, uma nação, um país, têm muito mais deveres e obrigações para com os que lhes pertencem do que aqueles que cumpriu comigo e com a esmagadora maioria dos meus concidadãos, e não só os  da minha geração. Mas pior ainda: um país não pode eximir-se a tratar com igualdade todos aqueles a quem pede iguais responsabilidades, e isso é o que tem acontecido ao longo do tempo que medeia entre a actualidade e o tempo que o retrato que tenho à minha frente, sobranceiro à lareira da minha sala, exibe. Sim, os retratos falam, traduzem histórias, vivências e realidades que,  para um simples observador, não se encontram visíveis. 

Não quero que os meus filhos vivam um país assim, que trata com criminosa desigualdade os seus cidadãos. É por isso que sou tão crítico em relação a Portugal, esta pátria que foi sempre mais madrasta do que mãe para a generalidade dos seus filhos e que, quase sempre, só tratou com redobrado desvelo aqueles que, mercê da sua linhagem ou da sua conta bancária, mais do que do seu esforço pessoal ou capacidade de realização, conseguiram manter-se perto da corte e dos palácios onde se joga um monopólio de poder discricionário. Esta é uma luta que travarei sempre ao longo da minha vida. Ao fazê-lo, quero contribuir para  construir uma nação que se preocupe mais do que com simplesmente fornecer uma identidade tantas vezes ofensivamente desigual. Tenho um desiderato:  mostrar às gerações que me sucederem que Portugal pode ficar bem no retrato. Para isso é  preciso um fotógrafo que não se limite a pedir um sorriso circunstancial para a câmara para que depois pareça que estava toda a gente bem e feliz. Se o fotógrafo não for bom profissional, é necessário que se mude. No futuro, o que conta não é apenas o retrato, mas o que ele traduz por detrás dos sorrisos.

Jacinto Lourenço

quarta-feira, 14 de março de 2012

Os Porcos Gostam de Lama...





“Nunca respondo a provocações idiotas. O meu pai sempre me disse: nunca te atires à lama a lutar com um porco – primeiro, porque te sujas; segundo, porque é disso que o porco gosta.”
Walter Winchell




Via Por Terras de Sefarad

terça-feira, 13 de março de 2012

Origem de Porto Judeu - Ilha Terceira

Porto Judeu situa-se a sul da Ilha Terceira, abrangendo uma área de 30,86 Km2, dos quais 28,5 Km2 na ilha, propriamente dita, e os restantes 2,36 km2 constituídos pelos Ilhéus das Cabras. Estende-se do litoral, onde confronta com as freguesias de S. Sebastião e Feteira, ao interior, confrontando aí com as freguesias da Ribeirinha, S. Bento, Posto Santo, Quatro Ribeiras e Agualva.


Desconhece-se a data da criação da freguesia pois, segundo a tradição, foi no Porto Judeu (actual porto de pesca) que terão desembarcado os primeiros povoadores da Ilha. Provavelmente, Jácome de Bruges, primeiro capitãodonatário, aqui terá desembarcado, em 1 de Janeiro, devido ao facto de o tempo estar mau e por isso querer aproveitar a pequena enseada do porto. Como este não tinha grandes condições de abrigo sendo, portanto, mau e como naquele tempo chamavam "judeu" a tudo que fosse mau, assim o porto foi chamado de Porto Judeu. Outra 
tradição, reza que conjuntamente com Jácome de Bruges vinha um Judeu, os quais terão travado o seguinte diálogo no momento do desembarque:

- Jácome Bruges: Salta, judeu, senão salto eu.
- Judeu: Salto e o porto será meu.

Desta conversa terá o porto ficado conhecido como Porto do Judeu. Contudo, na falta de documento autênticos, fica-se apenas pela tradição. Sabe-se, contudo, ser freguesia do início do povoamento da ilha Terceira, sendo a igreja paroquial anterior a 1470.



Fonte: Eterna Sefarad

segunda-feira, 5 de março de 2012

O Código de Hammurabi e o Ano do Jubileu



O Livro V da Política, de Aristóteles, descreve a eterna transição de oligarquias que se transformam a si próprias em aristocracias hereditárias – as quais acabam por ser derrubadas por tiranos ou desenvolvem rivalidades internas quando algumas famílias decidem "trazer a multidão para o seu campo" e introduzir solenemente a democracia, dentro da qual,  mais uma vez, emerge uma oligarquia, seguida por aristocracia, democracia e assim por diante ao longo da história.  

Como esta prática foi privatizada pelos cobradores reais de licenças de uso e de rendas, a "divina majestade" protegia devedores agrários. As leis de Hammurabi (1750 AC) cancelavam as suas dívidas em tempos de enchentes ou de seca. Todos os governantes da sua dinastia na Babilónia principiavam o seu primeiro ano  com o cancelamento de dívidas agrárias de modo a remover pagamentos atrasados através da proclamação de uma tábua rasa (clean slate). Direitos sobre escravos, terra ou colheitas e outros compromissos eram devolvidos aos devedores para "restaurar a ordem" numa idealizada condição "original" de equilíbrio. Esta prática sobreviveu no Ano Jubileu da Lei Mosaica em Levitico 25.[...]


Via blogue Renascer

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

A Vida segundo Séneca


"...Que diferença faz sair de um sítio de onde temos mesmo de  sair ? Não nos devemos preocupar em viver muito, mas sim em viver plenamente; viver muito depende do destino, viver plenamente, da nossa própria alma. Uma vida plena é longa quanto basta; e será plena se a alma se apropria do bem que lhe é próprio e se apenas a si se reconhece poder sobre si mesma. Que interessam os oitenta anos "daquele homem" passados na inacção ? Ele não viveu, demorou-se nesta vida; não morreu tarde, levou foi muito tempo a morrer!  "Viveu oitenta anos". O que importa é ver a partir de que data ele começou a morrer. "Mas aquele outro morreu na força da vida". É certo, mas cumpriu os deveres de um bom cidadão, de um bom amigo, de um bom filho, sem descurar o mínimo pormenor; embora o seu tempo de vida ficasse incompleto, a sua vida atingiu a plenitude. "Viveu oitenta anos ?". Não, existiu durante oitenta anos, a menos que digas que ele viveu no mesmo sentido em que falas na vida das árvores. Peço-te insistentemente, Lucílio: façamos com que a nossa vida, à semelhança dos materiais preciosos, valha pouco pelo espaço que ocupa, e muito pelo peso que tem. Avaliemo-la pelos nossos actos, não pelo tempo que dura. Queres saber qual a diferença entre um homem enérgico, que despreza a fortuna, cumpre todos os deveres inerentes à vida humana e assim se alça ao seu supremo bem, e um outro por quem simplesmente passaram numerosos anos ?  O primeiro continua a existir depois da morte, o outro já estava morto antes de morrer ! Louvemos, portanto, e incluamos entre os afortunados o homem que soube usar com proveito o tempo, mesmo exíguo, que viveu. Contemplou a verdadeira luz; não foi um como tantos outros; não só viveu, como o fez com vigor. Umas vezes gozou de um céu inteiramente sereno; outras, conforme sucede, o fulgor do astro poderoso brilhou através das nuvens. [...]



Lucílio Aneu Séneca - Cartas a Lucílio, livro XV, carta 93 - Edição:  Fundação Caloustre Gulbenkian, 2009 

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Tudo para Serem Felizes...


(Janis Joplin )

Janis Joplin, Jimmy Hendrix, Amy Winhouse, Whitney Houston. Nomes mais recentes ou  mais gastos pelo tempo, mas nomes que correspondem a pessoas, seres humanos de excepção no mundo da música ( e podíamos citar outros do designado show business ) que nos deixaram quase todos da mesma forma e pela mesma razão,  levados pelos excessos, por consumos de drogas e alcool que os conduziram ao lugar de onde não tiveram forças para sair e onde se renderam à morte. 

Aparentemente, na perspectiva da esmagadora maioria das pessoas, tinham tudo para serem felizes. A imprensa, as rádios, as televisões e o cinema, enfim a indústria ligada ao espectáculo trouxeram  as suas  vidas glamorosas para a ribalta. Mostraram o lado iluminado  do seus dia a dia. Os seus nomes, as suas vidas, as suas casas e carros, os seus actos, as suas carreiras vendiam e davam lucro a uma corte que só pensava em promover ainda mais a sua aura de grandes artistas para obterem ainda mais lucro. Mesmo quando  a vida das superstars globais está em baixa ou passa por "zonas negras", mesmo essas fases, por si só, continuam a dar lucros de milhões aos "vampiros" que circulam à sua volta. Pouco lhes importa o que se passa com a vida pessoal de cada cantor ou actor que atingiu o topo da fama. Para os "vampiros" as pessoas não contam, nem a sua individualidade. O que conta é que continuam a facturar até na sua desgraça e miséria humana, como se viu ultimamente com Amy Winehouse, que vendia provavelmente muito mais jornais e dava muito mais motivos de reportagem quando entrava embriagada ou drogada em palco.

As canções de Whitney Houston, traziam muitas vezes a mensagem do Amor de Deus. Deus que a amava e a quem, estamos certos, ela também amava. Infelizmente a cantora perdeu essa visão do Amor divino, deixou que Deus fosse substituido por adições que gradualmente a foram destruindo e à sua vontade de se manter perto de Jesus. Só aí estaria protegida das muitas armadilhas e ciladas que o mundo em que se inseria lança aos que o integram e frequentam esquecendo muitas vezes a equidistância que é necessário manter para lhe sobreviver.

Estou certo que muitos foram os cristãos que intercederam por ela, que a tentaram ajudar, apoiar, encaminhar; mostrar o Caminho. Estou certo que Deus a levantou muitas vezes e que  esteve, até ao último momento, empenhado no seu resgate. Mas Whitney não terá porventura tido forças nem vontade própria para percorrer o Caminho de volta para a vida com determinação, como não tiveram outros que fizeram escolhas semelhantes. Do outro lado, do lado  obscuro da vida, a morte insinuava-se há muito com futilidades e coisas simples. Tão simples que parece fácil. Fácil de mais. Tão fácil que é capaz de destruir a vontade e a dignidade de qualquer ser humano. 


( Whitney Houston )

Jacinto Lourenço   

domingo, 12 de fevereiro de 2012

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

No Tempo em que as Gargalhadas eram Livres


Deixei  partir um, quase vazio, que ia directo ao meu destino. Fiquei aborrecido porque se tivesse chegado à gare 2 minutos antes teria conseguido apanhar aquele comboio, onde arranjaria um lugar sentado. Esses dois minutos resultaram em ter que fazer a curta viagem toda em pé, encostado desconfortavelmente na coxia.

Viajo pouco de comboio, mas lembro-me bem de que, quando viajava mais, por razões profissionais, cada viagem era quase como que uma festa ou um momento de puro relaxamento. Grupos de passageiros que se conheciam há muito apenas por se cruzarem todos os dias, na mesma composição, no mesmo horário, de manhã ou à tarde.  Estranhava-se e indagava-se se algum falhava mais do que um dia ou dois. Sabia-se sempre quando iam de férias os que connosco partilhavam o espaço alegre do comboio.

Lia-se a última obra adquirida ao círculo de leitores em suaves prestações mensais. Capas bem forradas para que não se desbotasse a gravura que havia de enquadrar, lombada bem direitinha, a decoração da estante da sala. Debatiam-se as últimas do futebol, os golos falhados, os erros do árbitro cuja mãe era sempre a vítima mais à mão, as picardias habituais que acabavam sempre numas boas e sonoras gargalhadas. O comboio, do que me recordo, era um momento de  descontraido convívio até à estação de destino de cada um. Nunca se viajava em solidão, nem mesmo quem ia sózinho.

Após ter dado um pequeno e inadvertido encontrão, com a minha pasta de ombro, à jovem senhora que ocupava o lugar  próximo do meu encosto ocasional na coxia, pedi desculpas,  mas não me livrei de um olhar enfastiado e reprovador como se tivesse cometido gravíssima falha não merecedora de perdão. Acomodei-me, tirei da mala "O Ano da Morte de Ricardo Reis", que tenho andado a reler em breves soluços ocasionais, dei-me conta do rolo no estômago que o dr. Ricardo Reis carregava enquanto subia nervosamente a Rua do Alecrim  afim de  comparecer na sede da polícia política depois de ter sido intimado por uma contra-fé recebida no hotel Bragança. Olhei por sobre a cabeça dos meus companheiros de viagem ocasionais. A composição estava cheia no final da tarde de ontem. Parecia até que todos os passageiros caminhavam com Ricardo Reis,  rua do alecrim acima, desconfiados de um percurso em que nada de bom os aguardava. Rostos fechados; semblantes carregados. Nem o regresso a casa consegue deslaçar a opressão sobre quem terminou um dia de fadiga profissional. Os gadgets ocupam e retiram os espaços de convivialidade de outros tempos. Silêncio quase absoluto apenas entrecortado pelo ténue ruido do "pouca-terra" da moderna composição. Cada passageiro carrega o peso do mundo sobre si.

Senti nostalgia das minhas boas  e curtas viagens de comboio onde as vozes quase troavam e as gargalhadas  eram soltas e subversivas. Não havia gadgets. Apenas um ou outro livro aberto e o jornal da manhã, maioritariamente desportivo. Outros tempos, sem dúvida, quando não havia troika, nem governos neo-liberais a roubar os sorrisos, mesmo se só as gargalhadas eram livres.


Jacinto Lourenço  

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Afinal, quem são os Portugueses...?!



Um estudo sobre os homens da Península Ibérica "recentemente publicado", sugere que o antepassado de muitos portugueses terá sido um judeu ou um muçulmano do Norte de África (berbere). Convertido ao cristianismo ou forçado (esse antepassado) fundiu-se  na população geral e abandonou a sua fé e cultura originais, para depois acabar por esquecê-las. Em média, os homens ibéricos apresentam no seu ADN cerca de 20 % de ascendência judia e 11 % africana.


Ana Gerschenfeld


Jornal Público - Dez. 2008


Via Por Terras de Sefarad

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

A Vida Aprende-se à Bruta, em Portugal....


Hoje o sol acordou, tardio e preguiçoso como em todos os invernos. Iluminou o dia e espantou o frio que as madrugadas acoitam. O rádio dava as notícias duma europa letárgica e de um país que não encontra o caminho. Pensei na minha infância a caminhar para a escola primária, com a mala às costas para aprender o futuro numa sala fria, hostil em todos os invernos, pensei na professora Helena, todos os dias má e selectiva nos alunos. Havia os de "primeira" e os de "segunda", mesmo se isso não tinha nada a ver com a classe frequentada. Os de "primeira", normalmente de famílias mais facilitadas de vida,  eram poupados à pancada e sempre elogiados; ocupavam as primeiras filas. Os outros, os de "segunda", nas últimas filas e sempre candidatos à ponteirada e reguada, sempre na posição da frente, mas apenas para  o castigo, houvesse ou não motivo. O recreio era a libertação, tal como as segundas-feiras, quando a camioneta das onze, que vinha de Montemor e trazia a dona Helena,   nos davam sempre três horas de folga. 

Hoje de manhã, quando Deus, nos visitou no sol,  lembrei-me que Ele nasceu para todos e aquece todos por igual,  mas lembrei-me também que a vida no meio dos homens é normalmente aprendida à bruta. A rudeza dos dias castiga sempre os mais frágeis, os que pouco ou nada têm. Os governos,  normalmente,  fazem o papel da dona Helena, são selectivos e açoitam quem tem pouco para lhes dar. Distribuem castigos e ponteiradas aos que ficam nas últimas filas. Em Portugal, as coisas dificilmente vão mudar para quem está nas últimas filas... Restam-nos os pequenos recreios da história, quando ela se lembra de nós.


Jacinto Lourenço  

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O que os Espanhóis pensam do Café que se bebe em Portugal...




De certeza que, se gosta de café e tem o hábito de viajar para fora de Portugal, já se apercebeu de que, lá fora, é muito difícil encontrar algo que se assemelhe à nossa bica.

Desde água deslavada em canecas XXL, a expressos mal tirados e a saber a queimado, encontra-se de tudo um pouco por esse mundo fora. E parece que, finalmente, este facto foi reconhecido pelos nossos vizinhos espanhóis.

O jornalista da publicação «El País», Paco Nadal, admitiu - num artigo intitulado «Porque é que o café sabe sempre bem em Portugal? (e aqui não)» - que um dos melhores cafés do mundo é o português.[...]

Fonte: Agência Financeira - Ler texto integral AQUI

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Ludwig van Beethoven - 241 anos


A data que consta sobre o nascimento de Ludwig van Beethoven, no território correspondente à actual  Renânia do Norte, na Alemanha,   é  17 de Dezembro mas, segundo algumas fontes históricas, Beethoven terá sido batizado nesse dia  e nascido efectivamente  um dia antes, a 16 de Dezembro. Para o caso, não faz nenhuma diferença, o que conta é a genialidade unanimemente reconhecida ao compositor, que infelizmente não tirou grande partido disso em vida, como quase todos os grandes artistas que tardiamente vêm reconhecido o seu virtuosismo e  a sua obra no domínio do belo e das artes em geral que suscitam as melhores e mais sentidas emoções no espírito dos homens.  241 anos passaram já sobre a data de nascimento de Beethoven.


Jacinto Lourenço


quinta-feira, 3 de novembro de 2011

A moderna Batalha de Termópilas...


Conta-nos Heródoto de Halicarnasso a história da batalha de Termópilas na qual 300 guerreiros hoplitas terão resistido a Xerxes e aos muitos milhares de guerreiros persas que invadiam  o território grego. Na verdade nem a Grécia existia como estado unificado, tal qual o conhecemos hoje,  nem os guerreiros que ofereceram resistência ao imenso exército de Xerxes eram apenas 300. Leónidas, rei de Esparta conseguiu reunir um pequeno exército de alguns poucos milhares de homens, contando para isso com o apoio dum número considerável de cidades-estado gregas, na maioria dos casos pouco treinados e menos preparados ainda  para a guerra que tinham que travar. Os 300 hoplitas espartanos, seriam mais do que isso, mas mesmo assim nem por sombras se aproximavam da força esmagadora dos persas.

A técnica militar grega e a estratégia guerreira de Leónidas conseguiram inflingir pesadas baixas a Xerxes levando-o a recuar diversas vezes na frente de batalha perante os entrincheirados espartanos que se acoitavam num praticamente inexpugnável desfiladeiro. Leónidas e os bravos gregos acabariam por sucumbir após a penetração dos exércitos de Xerxes depois de  este ter recebido informação de traidores gregos sobre como penetrar na fortaleza natural do pequeno exército grego.

Parece uma história simples, mas traduz muito sobre a capacidade de resistância dos povos gregos à adversidade. Já o império romano do ocidente tinha sido desmantelado há muito e ainda os gregos faziam parte do império romano do oriente. Durante séculos resistiram também à força do islão mantendo-se fiéis à sua fé cristã.

Hoje, para os gregos, o perigo não vem do oriente mas do ocidente; já não são ameaçados por exércitos armados e numerosos. O perigo para os gregos, tal como para todos os europeus, em especial para as nações mais fragilizadas economicamente, reside num capitalismo selvagem e obsessivo que domina o mundo actual através do garrote financeiro e que não tem rosto nem alma e que não quer saber de democracia para nada nem de voto dos cidadãos para coisa nenhuma.  Mesmo assim parece que os gregos se mantém fiéis à sua velha história de resistir contra as adversidades especialmente as que ameaçam destrui-los. 

Não sei bem, e saberão muito poucos por agora, quais as verdadeiras intenções de Papandreou para, de repente,  remeter todas as decisões para um referendo popular ao novo plano de austeridade para a Grécia. Mas sei que o capitalismo e os seus arautos não gostaram nada de ouvir que as decisões na Grécia deixariam de ser tomadas pelo circulo restrito do conselho de ministros para passarem para a esfera de decisão do voto popular. É claro que os obscuros capitalistas que dominam o mundo não gostam nada de votos populares. Preferem este fingimento de "democracia" em que o "voto" é planeado e direccionado na defesa dos seus particulares  interesses mesmo que isso represente a falência e miséria dos povos.

Os gregos e os europeus em geral estão hoje confrontados por uma nova e moderna batalha de "Termópilas". Os hoplitas são poucos e muita gente, a esmagadora maioria  dos europeus,  nem consegue perceber o que se passa à sua volta. Mas sabemos que se os "traidores" não forem denunciados, a Grécia e a europa, país a país, irão desmantelar-se e retroceder civilizacionalmente uma boas décadas.


Jacinto Lourenço

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

A Razão e a Emoção


Lembro-me do fim penoso do rei Saul e do seu reinado. Saul foi o rei que o povo escolheu. O povo hebreu, a exemplo do que via com todos os outros povos à sua volta, queria um rei, pedia um rei, exigia um rei,  e foi-lhes dado um rei. Rejeitavam o governo de Deus. As eventuais capacidades de Saul para governar nunca haviam sido testadas. As suas qualidades espirituais nunca haviam sido postas à prova. Era um homem impulsivo, tinha coragem guerreira. O povo escolheu-o. Samuel alertou para o peso que um rei e as  exigências do seu reinado comportavam. Mas o povo não recuou. E assim Saul foi ungido rei.

Ora este exemplo traduz uma verdade para a qual nem sempre nós estamos despertos e que resulta do facto de que nem sempre aquilo que nos parece providencial é uma solução real. As nossas escolhas presentes, quer queiramos ou não, mais do que o presente condicionam o nosso futuro. O professor e cientista Carvalho Rodrigues afirmou em tempos que  aquilo que mais nos condiciona  são as causas futuras e não as passadas. Os hebreus olharam para a frente e quiseram ver o seu futuro conduzido por um líder que fosse um deles, que pensasse como eles, que reagisse como eles, que tivesse o mesmo pensamento que eles.  Como é bom de ver, pelas razões conhecidas, isso não iria dar bom resultado. O passado,  não podendo já ser determinante na vida de ninguém, não deixa de ser um bom conselheiro, alguém a quem escutar, especialmente porque o ser humano tem esta tendência doentia para a repetição do erro. Não há bolas de cristal. O futuro dependerá sempre das escolhas pessoais que fizermos no presente. É assim desde que nos foi dada a faculdade do  livre arbítreo  Tomar decisões acertadas nem sempre é fácil. Mas ajuda se elas forem ponderadas,  às vezes separando a razão da emoção. Foi por isso que o povo hebreu sofreu tanto. Raramente quis atender à razão de Deus. Raramente tomou decisões que não estivessem afectadas pelas emoções do imediato. É assim connosco também, nos dias que correm. Como pessoas, como povo, como nação.


Jacinto Lourenço

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Um Chiado Triste demais...


Há já muito tempo que não subia ao Chiado, em Lisboa. Nasci e vivi a maior parte da minha vida em Lisboa ou perto dela. Confesso que a cidade me tem encantado e desencantado ao longo dos anos dependendo da forma como evolui positiva ou negativamente nas várias vertentes que enformam a vida de uma cidade capital de um país. Mas no sábado passado, enquanto subia a rua do Carmo em demanda da feira de alfarrabistas que se realiza todos os sábados na rua Anchieta, Lisboa desencantou-me profundamente, e nem o cosmopolitismo emprestado por um razoável número de estrangeiros que por ali circulavam conseguiu disfarçar a tristeza nos meus olhos. Gente de rostos fechados, macilentos,  sofridos, lojas encerradas, liquidadas, edifícios descuidados e escuros, sujidade e lixo amontoado, pedintes e mendigos a cada esquina como nunca tinha visto e,  para encerrar o quadro decadente deste Chiado, a rua Anchieta em obras com um tapume a indicar que por detrás estaria a feira de alfarrabistas que me tinha feito deslocar até ali. Verdade é que de alfarrabistas nem sombras.
Lisboa, parece-me, perdeu o brilho e o encanto de outros tempos. O Chiado já não atrái nem distrái, assemelha-se  mais um doente a requerer cuidados paliativos e que a carrinha dos fados acompanha debitando melopeias tristes e passadistas.
 Saí dali rapidamente, depois de ter tomado um café e experimentado um pastel de nata na Brasileira que me custaram os olhos da cara. Pobre, decadente, deprimente, mas valha a verdade, com preços de europa dos ricos, esta "zona nobre" de Lisboa onde os passos de Pessoa já não ecoam.


Jacinto Lourenço