segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

A Nova Torre de Babel

Estou gravemente enfermo. Gostaria de apresentar publicamente as minhas desculpas a todos os que confiaram cegamente em mim. Acreditaram no meu suposto poder de multiplicar fortunas. Depositaram em minhas mãos o fruto de anos de trabalho, de economias familiares, o capital dos seus empreendimentos.

Peço desculpas a quem vê as suas economias evaporarem-se pelas chaminés virtuais das Bolsas de Valores, bem como àqueles que se encontram asfixiados pela inadimplência, os juros altos, a escassez de crédito, a proximidade da recessão.

Sei que nas últimas décadas extrapolei os meus próprios limites. Arvorei-me em Rei Midas, criei em torno de mim uma legião de devotos, como se eu tivesse poderes divinos. Meus apóstolos – os economistas neoliberais – saíram pelo mundo a apregoar que a saúde financeira dos países estaria tanto melhor quanto mais eles se ajoelhassem a meus pés.

Fiz governos e opinião pública acreditarem que o meu êxito seria proporcional à minha liberdade. Desatei-me das amarras da produção e do Estado, das leis e da moralidade. Reduzi todos os valores ao casino global das Bolsas, transformei o crédito em produto de consumo, convenci uma parcela significativa da humanidade de que eu seria capaz de operar o milagre de fazer brotar dinheiro do próprio dinheiro, sem o lastro da produção de bens e serviços.

Abracei a fé de que, face às turbulências, eu seria capaz de me auto-regular, como ocorria à natureza antes de tero seu equilíbrio afectado pela ação predatória da chamada civilização. Tornei-me omnipotente, supus-me omnisciente, impus-me ao planeta como omnipresente. Globalizei-me.

Deixei de fechar os olhos. Se a Bolsa de Tóquio se silenciava à noite, lá estava eu eufórico na de São Paulo; se a de Nova York encerrava em baixa, e ressarcia-me com a alta da de Londres. Meu pregão em Wall Street fez de sua abertura uma litúrgia televisionada para todo a urbe terrestre. Transformei-me na cornucópia de cuja boca, muitos acreditavam, haveria sempre de jorrar riqueza fácil, imediata, abundante.

Peço desculpa por ter enganado tantos em tão pouco tempo; em especial aos economistas que muito se esforçaram para tentar imunizar-me das influências do Estado. Sei que, agora, suas teorias se derretem como suas acções, e o estado de depressão em que vivem se compara ao dos bancos e das grandes empresas.

Peço desculpa por induzir multidões a acolher, como santificadas, as palavras do meu sumo pontífice Alan Greenspan, que ocupou a Sé financeira durante dezanove anos. Admito ter ele incorrido no pecado mortal de manter os juros baixos, inferiores ao índice da inflação, por longo período. Assim, estimulou milhões de norte-americanos à busca de realizarem o sonho da casa própria. Obtiveram créditos, compraram imóveis e, devido ao aumento da procura, elevei os preços e pressionei a inflação. Para contê-la, o governo subiu os juros… e a inadimplência se multiplicou como uma peste, minando a suposta solidez do sistema bancário.

Sofri um colapso. Os paradigmas que me sustentavam foram engolidos pela imprevisibilidade do buraco negro da falta de crédito. A fonte secou. Com as sandálias da humildade nos pés, rogo ao Estado que me proteja de uma morte vergonhosa. Não posso suportar a idéia de que eu, e não uma revolução de esquerda, sou o único responsável pela progressiva estatização do sistema financeiro. Não posso imaginar-me tutelado pelos governos, como nos países socialistas. Logo agora que os Bancos Centrais, uma instituição pública, ganhavam autonomia em relação aos governos que os criaram e tomavam assento na ceia de meus cardeais, o que vejo? Desmorona-se toda a cantilena de que fora de mim não há salvação.

Peço desculpa antecipada pela caos que se desencadeará neste mundo globalizado. Adeus ao crédito consignado! Os juros subirão na proporção da insegurança generalizada. Fechadas as torneiras do crédito, o consumidor vai encher-se de cautelas e as empresas sofrerão à míngua de capital; obrigadas a reduzir a produção, farão o mesmo com o número de trabalhadores. Países exportadores, verão menos clientes do outro lado do balcão; portanto, terão menos dinheiro dentro da sua caixa e precisarão repensar as suas políticas económicas.

Peço desculpa aos contribuintes dos países ricos que vêm os seus impostos servirem de bóia de salvação a bancos e financeiras, fortuna que deveria ser aplicada em direitos sociais, preservação ambiental e cultura.

Eu, o mercado, peço desculpas por haver cometido tantos pecados e, agora, transferir para todos o ónus da penitência. Sei que sou cínico, perverso, ganancioso. Só me resta suplicar para que o Estado tenha piedade de mim.

Não ouso pedir perdão a Deus, cujo lugar almejei ocupar. Suponho que, a esta hora, Ele me olha lá de cima com aquele mesmo sorriso irónico com que presenciou a derrocada da torre de Babel.

Frei Betto In “Amai-vos” via “ Caminhada Cristã”

A DIFERENÇA

“ (…) Um bom e saudável evangelho faz toda a diferença. Não é à toa que, dentre os 20 países menos corruptos do mundo, 18 tenham uma forte herança protestante. Um dos únicos "não-protestantes", o número 7 da lista, é Singapura. Em 1970, apenas 25 dos seus cidadãos declaravam pertencerem a uma igreja evangélica. Entretanto, dezenas de milhares se tornaram cristãos nas últimas décadas, investindo no discipulado de seus filhos, ensinando-os a estudarem dedicadamente, trabalharem duramente e viverem integralmente o evangelho, tudo pelo bem da nação e para a glória de Deus. Muitos destes jovens cristãos ascenderam a cargos de liderança nas empresas ou assumiram posições estratégicas dentro do governo. O cristianismo tem transformado a sociedade de Singapura! Com menos de quatro milhões de habitantes, esta ilha asiática exala prosperidade e modernidade.

Reconheçamos; praticamos ainda um cristianismo infantil, bastante rudimentar, sem consciência da abrangência do pecado no indivíduo e do mal estrutural na comunidade. De muitos lugares do terceiro mundo vozes proféticas levantam-se indagando como poderíamos aplicar uma visão mais integral de evangelho, de tal forma que a nossa fé impactasse as esferas da vida social, incluindo áreas como a pobreza, justiça, violência e política. Os evangélicos precisam estar conscientes da opressão e injustiça de sua própria cidade e região bem como a tarefa que devem realizar no processo de transformar a sociedade com os valores do Reino de Cristo.”

Fonte: “Sepal” via “Práxis Cristã”

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Eu Sou Cristão !

“Quando eu digo, “Eu sou um cristão,” Não estou gritando, “Eu sou salvo!”

Eu estou sussurrando, “eu me perdi! É por isso que optei por este caminho”

Quando eu digo, “Eu sou um cristão,” Eu não falo com orgulho humano

Eu estou confessando que tropeço e necessito que Deus seja o meu guia

Quando eu digo, “Eu sou um cristão,” Eu não estou tentando ser forte

Estou professando que estou fraco e oro por força para continuar

Quando eu digo, “Eu sou um cristão,” Não estou me gabando de sucesso

Eu admito, eu sou falho e não posso pagar a dívida

Quando eu digo, “Eu sou um cristão,” Eu não acho que eu sei tudo

Apresento à minha confusão pedindo humildemente para ser ensinado

Quando eu digo, “Eu sou um cristão,” Eu não pretendo ser perfeito

Minhas falhas são demasiadamente visíveis, mas Deus acredita que eu possa valer a pena

Quando eu digo, “Eu sou um cristão”, eu ainda sinto o cheiro da dor

Eu tenho a minha quota de melancolia, é por isso que vou buscar o seu nome

Quando eu digo, “Eu sou um cristão,” não estou querendo julgar

Eu não tenho autoridade - Eu só sei que sou amado.

Poema de Carol Wimmer

In blogue “Tomei a Pílula Vermelha”

Domingo, dia do Senhor.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Lição de Integridade Cristã por John Wesley

Richard J. Foster observou que o efeito evangelizador do pregador metodista John Wesley foi grandemente acentuado pela integridade da sua vida. Há registo de que Wesley teria dito à sua irmã: "dinheiro nunca fica comigo. Eu sentir-me-ia a arder se aceitasse isso. As minhas mãos livram-se dele o mais rápido possível, para que este não encontre um caminho dentro do meu coração". Ele dizia a todos que, se ao morrer tivesse mais de dez libras consigo, as pessoas teriam o privilégio de lhe chamar ladrão".

Um dos biógrafos de Wesley, Mateo Lelievre, conta-nos como era a relação deste herói da fé com o dinheiro e o lucro dos livros:

“Ele poupava dinheiro, mas fazia-o para o bem dos pobres, e não em proveito próprio. Quando consentiu em aceitar salário da sociedade de Londres, por sua própria iniciativa limitou-o à modesta soma de 30 libras. É verdade que além disso recebia o lucro da venda dos seus livros, que por vezes chegava a ser considerável. Mas, depois de retirar o necessário para suas modestas despesas, distribuía o restante pelos pobres[...]. A Sua maneira de viver era tão singela que, quando lhe perguntavam quanto valiam os seus talheres, julgando que um homem tão notável como ele possuiria talheres de grande valor, respondeu: "Tenho duas colheres de prata aqui em Londres, e duas em Bristol. Esses são todos os utensílios de maior valor que possuo actualmente, e não comprarei mais, enquanto me rodearem pessoas que careçam de pão". Morreu pobre, como prometera aos seus amigos, e nada deixou na sua pobreza, para além de "uma grande estante cheia de bons livros, uma toga pastoral bastante usada, um nome escarnecido, e... a Igreja Metodista. Sobre a venda de livros e o lucro, Wesley dizia:

"Alguns livros alcançaram vendas superiores às minhas expectativas, e com elas fiquei rico sem querer. Mas nunca quis ser rico, nem me empenhei por isso. Como tal fortuna, porém, me veio inesperadamente, e não acumulo riquezas sobre a terra, nem entensouro absolutamente nada para mim, o meu desejo e propósito são distribuir de graça o saldo alcançado. Com as minhas próprias mãos executarei a distribuição dos meus bens".

Wesley levou a sério o queo apóstolo Paulo disse em II Coríntios 6.3: "não dando nós nenhum motivo de escândalo em coisa alguma, para que o nosso ministério não seja censurado". Infelizmente, existe uma onda de escândalos envolvendo a igreja, intimamente ligados a actos inescrupulosos de ganância e poder. E ainda têm coragem em falar de perseguição? “Porque melhor é sofrerdes fazendo o bem, se a vontade de Deus assim o quer, do que fazendo o mal” (I Pe 3.17). São atingidos porque fazem o mal, e reclamam? Aprendam com Wesley a serem íntegros, e parem de sujar o nome de Jesus.

Por Daniel Grubba

In Blogue “Soli Deo Gloria” via “Púlpito Cristão”

(adaptado para português usado em Portugal por Ab-Integro)

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Fome e Sede de Justiça

“(…) São as pessoas que não se adaptam a esta construção social ou é esta construção social que não serve as pessoas ? ”

“O caso de Isabel é um entre muitos”

“ Está uma mulher carregada de sacos a correr ao longo do Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa. Está a tentar chegar a tempo à paragem de autocarro, que só passa de meia em meia hora. Ela chama-se Isabel Manuel, tem 29 anos e um filho de dois. Nasceu em Angola mas vive em Portugal há 12 anos. Vai naquela correria desenfreada para ir buscar o filho à creche da Segurança Social, que fica em Santa Apolónia. Sai do emprego – trabalha na copa de um restaurante em Belém – às cinco e meia da tarde. As educadoras guardam as crianças até às seis, e ela, se não houver atrasos nos três autocarros que tem de apanhar, com um bocadinho de sorte e o passo estugado, consegue chegar ao jardim-de-infância às seis e meia. «Menos mal, assim não ralham comigo».

Dá a mão ao gaiato, se ele está de birra, coloca-o às cavalitas e torna a apanhar um autocarro, direito ao Cais do Sodré. Daí, apanha o barco para Cacilhas e espera vinte minutos por outro autocarro, que a leva à Baixa da Banheira. Nunca põe o pé dentro de casa antes das oito da noite. Duas horas e meia de viagem para cada lado, todos os dias. No mínimo. Depois é fazer a sopa para o rapaz, dar-lhe banho, comer alguma coisa, se houver. E cama, que o dia começa às seis menos quinze. «Ganho 565 euros por mês, incluindo já o subsídio de alimentação. Pago 200 Euros de renda de casa, 50 da escola e 55 de passe social. Como o meu trabalho funciona por turnos, estou muitas vezes com o horário das cinco da tarde às duas da manhã, por isso pago mais cem Euros a uma senhora que me toma conta do menino. As contas da água, da luz e do gás dão mais ou menos 30 Euros por mês». Sobram-lhe 130 para comer, vestir e comprar de vez em quando um brinquedo ao filho.

Isabel tem uma depressão. Quando se senta à mesa da cozinha, tudo é desespero. Há alguma fruta que a ama do filho vai buscar à praça, são as sobras do dia . Há Cerelac para o pequeno-almoço do miúdo. Ela faz normalmente uma refeição por dia, a que lhe dão no restaurante. «Desmaio muitas vezes. Pensava que era da fome, mas não é só. Também tenho tremores, diarreia, vómitos. Não consigo deixar de pensar no que a minha vida se tornou, não consigo dormir, preocupada com o meu filho. Ai se eu um dia adormeço, ai se chego atrasada para o ir buscar ou para o ir levar. E tenho tanto medo de ser despedida».

O futuro não existe. Ela não sabe o que irá fazer quando o rapaz crescer e for para a escola primária. Ou quando tiver de lhe comprar livros. Ou quando o miúdo for demasiado grande para andar ao colo da mãe e tiver de pagar bilhete de autocarro. «Se financeiramente não está bem, emocionalmente também não. Como é que consegues rir se estás a passar fome? E é por isso que as pessoas enlouquecem. E eu às vezes sinto que passo a barreira, que não aguento mais, sei lá, que passo para o outro lado. Mas não tenho medo de enlouquecer. Loucura é esta vida que eu levo».(…) «Às vezes, quando chega ao fim de semana, vou ao Centro Comercial encher os olhos na Zara. Gostava de comprar uma camisola ao miúdo ou de ter um telemóvel, mas não posso. Tudo o que tenho vai para as fraldas, para o leite, para a papa». (…) Isabel estudou até ao 9º ano em Luanda e, quando chegou a Portugal, começou a trabalhar no que mais gostava: tomar conta de crianças. À noite estudava. Tirou um curso de secretariado, outro de inglês, um de informática e ainda a carta de condução. «Investi na minha formação e para quê? Só arranjo emprego a lavar pratos. Devia ter poupado esse dinheiro, hoje dava-me muito mais jeito para comer».(…)

«Sei que estou doente». Sem esperança. Nem apoio de ninguém. Isabel precisa de anti-depressivos para aguentar os dias, de calmantes para as noites, mas só os toma quando tem dinheiro ou quando alguém da Segurança Social lhe arranja a medicação sem custos. Há cinco anos ganhava bem, tinha uma boa casa, podia comprar roupa e tirar cursos, podia fazer voluntariado. Perdeu tudo. E está doente.”(…).

Texto de Ricardo J. Rodrigues in Revista Notícias Magazine – Edição do jornal Diário de Notícias.

“Vinde a mim todos vós que estais cansados e oprimidos e Eu vos aliviarei”

Palavras de Jesus.

As palavras de Jesus comprometem cada cristão para com o seu próximo.

O mundo está cheio de “Isabéis” e de relatos como este, que nos atormentam e tiram o sono. Enquanto filhos de Deus, não podemos apenas hipocritamente dizer “ que Deus te abençoe, Isabel ”, especialmente se Isabel e o seu pequeno filho têm fome de tudo, mas especialmente “têm fome e sede de justiça”. Valores que o “deus mercado” lhes retira todos os dias.

“Compromisso” , é o que Deus requer de cada cristão. Todos os dias.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

O "deus" Mercado

“O mercado tem sido cada vez mais citado como força propulsora de sociedades inteiras e de todo o tipo de relações, das interpessoais às internacionais. Utilizando uma série de mecanismos para estabelecer parâmetros, fomentar condutas e definir regras, o mercado tem sido elevado a uma espécie de altar neste século 21. Pelas suas regras, a capacidade empreendedora transforma “matéria-prima” em produto, afim de atender às demandas e aos interesses dos clientes. É assim que surge o lucro, objectivo primordial do mercado; no final, o “produto” proporciona um certo grau de satisfação a quem o consome. Entidade distante da compreensão das pessoas comuns, e ao mesmo tempo tão próxima a ponto de interferir na vida do indivíduo, o mercado transcendeu a esfera puramente económica para se intrometer na política, no desporto, na ecologia e até na religião.

A indústria do futebol, por exemplo, consegue satisfazer as demandas de entretenimento e paixão dos adeptos, transformando um tipo de “matéria-prima” em produto passível de comercialização. Empresários conseguiram transformar o futebol num dos mais rentáveis negócios do mercado. A capacidade de muitas crianças e adolescentes para controlarem e conduzirem com os seus pés uma bola de futebol – habilidade tão comum entre os brasileiros –alimenta essa indústria. Assim, logo a partir de criança, são “fabricados” atletas nas “indústrias” dedicadas ao futebol; os clubes ou centros de treino, comercializam, “literalmente” atletas e serviços de entretenimento para os seus clientes.

Outro exemplo marcante é o da chamada indústria de turismo, que nos últimos tempos tem sido uma das principais fontes de rendimento de diversos países. Há uma demanda de clientes interessados em novas experiências pessoais e no lazer. Pode considerar-se como “matérias-primas” deste mercado as belezas naturais de um determinado destino, assim como a arte, a cultura, o folclore ou a culinária de um povo ou região. Enfim, empreendedores de diversos segmentos conseguem atender às demandas de seu público-alvo, transformando até mesmo o talento ou a habilidade humana em produtos a serem comercializados.

E o mercado religioso? Este também tem crescido, e alimentado uma florescente “indústria da fé”. De um lado, temos a religião institucional utilizando-se dos elementos do mercado para justificar a funcionalidade pragmática dos seus métodos; do outro, temos os devotos desse ídolo, fundamentando esperanças no acumular das suas dádivas (…). Desse modo, surge uma nova forma de ser e fazer religião que, de facto, se caracteriza como mais um negócio. Há uma demanda subjectiva: a tentativa humana de encontrar, na transcendência, uma resposta para as questões da vida, uma maneira de descobrir um caminho mais fácil e rápido para a solução de problemas e realização de expectativas.

O ser humano é, por natureza, religioso. Ele acede a um campo subjectivo, que o impulsiona para o exercício da fé e à busca de um espaço colectivo onde possa relacionar-se com a divindade. A matéria-prima capaz de atender a essa demanda é a “oração”, os cânticos, as experiências místicas e as manifestações espectaculares, como os “milagres”. “Empresários” religiosos conseguem atender os desejos dos seus “clientes” fornecendo-lhes os produtos da indústria da religião. Da mesma forma que qualquer indústria fabrica um produto final que será comercializado, “empresas” religiosas fabricam respostas para consumo da alma. No mercado, tanto uma como as outras têm a mesma natureza e usam a mesma lógica.

Pela lei da oferta e da procura, que rege o mercado desde os primórdios da civilização, é este mesmo mercado que determina a viabilidade dos empreendimentos. Nos dias de hoje, com o aparecimento de novos mercados, [novos produtos, serviços, etc.] cabe-lhe também, o papel de auto-regulação. Os empreendedores da actividade religiosa e os seus intermediários usam como mediação o nome de Jesus, levando muitos a acreditar que estão de facto seguindo a Cristo. Não percebem que, no fundo, a raiz desse “neocristianismo”, não está efectivamente interessada em buscar ao Senhor Jesus Cristo, nem os compromissos decorrentes do seu Reino, mas apenas procurando interesses exclusivamente materialistas. Os mercadores de espiritualidade fazem do nome de Jesus um mero amuleto.

Nesse relacionamento mercantilista, não faz diferença se o mediador é o Filho de Deus ou um ídolo qualquer – até porque, neste caso, a grande divindade é o capital, a conta bancária, enfim, o vil metal. Contudo transacções de carácter comercial não cabem no Evangelho. Para os servos de Deus, é necessário procurar na experiência com Jesus Cristo e nos exemplos dos primitivos cristãos uma outra matriz, fundamentada na Graça, no amor e serviço aos pobres e marginalizados; enfim, uma opção de serviço e sacrifício pelo bem comum.

A moderna forma mercantilista de praticar uma religião, leva a que muitos não entendam que fazem parte de uma “nova ordem espiritual” regida pelo ídolo do mercado. Uma “divindade” cuja face actual nada mais é, realmente, do que uma maneira nova de fazer coisas velhas. Mas só não percebe isso quem ficou de facto cego pelo deus deste século.

In Revista “Cristianismo Hoje”

(adaptado para português usado em Portugal por Ab-Integro)