quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

A Negação da Morte

Entrei num tribunal e divorciei-me da Igreja Católica. É isso que você tem que fazer se for alemão e quiser deixar a igreja.

Eu esperava que o papa me segurasse. Eu esperava que me dissesse que nunca deveria ter acontecido. Esperava que ele corrigisse o seu erro. Mas ele deixou-me à espera.

Quando ouvi falar pela primeira vez que o papa tinha aceitado de volta à Igreja um bispo excomungado que negava o Holocausto, não acreditei. Achei que a verdade provavelmente era mais complexa.

Eu respeitei o papa Bento XVI . Por mais que discordasse dele em muitas questões, admirava a sua inteligência. Como alemão, sentia um certo orgulho por este homem, grande e humilde pensador, se tornado tornar líder da igreja à qual eu pertencia.

Depois, ele perdeu-me. O bispo absolvido, Richard Williamson, era um famoso defensor da inexistência do Holocausto.

Semanas antes, Williamson tinha dado uma entrevista a um repórter da televisão sueca, na Alemanha. Por incrível que pareça, onde ele repetiria a sua negação do Holocausto.

Confrontado pelo repórter com a sua declaração, de que nem um único judeu tinha morrido numa câmara de gás, que era tudo "mentira, mentira, mentira", Williamson pensou por um momento: bem vestido com uma túnica preta, com uma grande cruz no pescoço, ele assentiu que sim com a cabeça e expôs, numa voz suave, de avô, aquilo em que acredita: "Acredito que não houve câmara de gás", disse ele.

Sabendo que negar o Holocausto é considerado um crime na Alemanha, Williamson olhou por cima do ombro como se quisesse assegurar-se de que ninguém o estava a ouvir: "Você poderia ter-me metido na prisão antes que eu tivesse tempo de deixar a Alemanha", disse ele, e sorriu.

Este é um homem que, após ser excomungado por um papa há mais de vinte anos, foi reconsagrado como bispo da Igreja Católica por um papa alemão que esteve em Auschwitz.

Depois de dias de silêncio insuportável e revolta em torno do mundo, Bento XVII finalmente falou, e foi nessa altura que ele me perdeu. De facto, ele não falou. O Vaticano emitiu uma declaração exigindo que Williamson "se demarcasse da sua posição sobre o Shoah."

Olhei para essas palavras e perguntei-me porquê, aos olhos do Vaticano, negar o Holocausto era "uma posição". Eu perguntei-me porque é que um bispo que negava o Holocausto precisava apenas "demarcar-se" das suas palavras para permanecer como bispo.

Não consegui entender porque é que Bento XVI não dissociou a Igreja Católica de Williamson da mesma forma que se associou a ele, com uma penada. Então, eu demarquei-me do papa.

Eu sei que eu deveria ter ido falar com o padre que celebrou o meu casamento, há apenas um ano. Nós escolhemos a sua igreja quando soubemos que o seu secretário havia escondido judeus na cave durante o nazismo. Eu suspeito que o padre me teria pedido para não o punir pelos erros do papa. Mas eu estava cansado. Peguei na minha certidão de casamento e fui para a justiça. Há muitas questões na Igreja Católica que eu gostaria de discutir: gostaria de discutir quais os papéis que as mulheres podem desempenhar? Porque é que usar preservativo para prevenir a Sida é um pecado? Porque é que a Igreja Católica não considera a Igreja Protestante como Igreja? Mas há certas questões que eu não quero discutir. Eu não quero discutir se Hitler tinha um lado agradável. Eu não quero discutir se o Holocausto realmente aconteceu. Sou neto de dois homens muito diferentes. Um veio de uma família que hasteou a bandeira da suástica no prédio mais alto da minha cidade natal. O outro era um alfaiate que secretamente costurava fatos para judeus. Ambos desapareceram nas trincheiras da Segunda Guerra Mundial. Talvez por isso eu seja sensível a discutir o Holocausto. Parte da minha família tem sangue nas mãos, e a parte que não tem também foi morta.

Eu lembro-me do dia, em 2005, em que Joseph Ratzinger, inesperadamente se tornou o papa Bento XVI.

Foi no mesmo ano em que, pela primeira vez, uma mulher se tornou líder do meu país. Mas não apenas isso; ela era filha de um pastor protestante que se tinha mudado da Alemanha Ocidental para a Oriental recusando-se a ser intimidado por um governo comunista que desprezava a fé tanto quanto o capitalismo. Foi um belo ano para um alemão.

O papa não é anti-semita e nunca falou sobre o anti-semitismo. Entretanto, prefere omitir-se numa altura em que deveria falar sobre este problema e, essa, para mim, não é uma opção para um papa alemão face ao anti-semitismo. Talvez eu o esteja a julgar muito duramente. Espero que sim. Essa é a beleza de ter nascido num país com um passado nazi. Posso exigir dele um padrão mais elevado.

Por Mario Kaiser , jornalista em Berlim.

Tradução de Deborah Weinberg

In Uol Notícias Via Práxis Cristã

Adaptado ao português usado em Portugal por Ab-Integro

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Espiritualidade e Sexualidade

Simone Weil é uma intelectual francesa da maior importância neste século. Ela converteu-se ao cristianismo. Uma citação do seu pensamento que gostaria de fazer é:

“Ao homem foi dada uma divindade imaginária, para que ele se desprenda dela, da mesma maneira que Cristo se despojou de uma divindade real.”

Trata-se de um comentário de Fp. 2.5-11, onde o apóstolo Paulo comenta o movimento de Cristo de abandonar toda a glória da sua divindade para se tornar servo, servo mesmo face à possibilidade da morte. Não possuímos nenhuma divindade real, apenas imaginária. Contudo estamos firmemente ligados a esta divindade imaginária. Sentimos que os nossos desejos, necessidades e sonhos são o centro. Mais que isto, estamos de tal forma encapsulados nesta visão, digamos narcísica, que não podemos realmente reconhecer o desejo e o sonho de qualquer outro. Nutrimo-nos e sentimos omnipotência como se realmente pudéssemos controlar o destino e as nossas principais relações. Não podemos.

O caminho proposto por Simone Weil é o do arrependimento desta pretensão. É suportar a dor de se saber finito, mortal, apenas humano. O verdadeiro louvor pressupõe esta renúncia de qualquer omnipotência. Quando cultuo a Deus, quando digo que ele é Deus verdadeiro, fica implicado que eu não sou Deus. Louvar significa reconhecer que eu sou apenas homem ou mulher. Li um poema simples de Violeta Caballero que coloca, com enorme delicadeza, estas verdades:

Tu não forças a uma flor que se abra.

A flor a abre Deus.

Tu plantas, regas e a guardas.

O demais faz Deus.

Tu não obrigas a que a alma creia.

A fé a dá Deus.

Tu oras, trabalhas, confias e esperas.

O demais faz Deus.

Tu não obrigas a um amigo que te ame.

O amor o dá Deus.

Tu serves, ajudas, em ti a amizade arde.

O demais faz Deus.

Não quero falar de modo apenas teórico. Quero falar em experiência real. Para que haja encontro com Deus (espiritualidade) e para que haja encontro amoroso (sexualidade) é necessário despir-mo-nos das nossas fantasias de omnipotência e controlo e entregar-mo-nos à experiência do encontro como tal. Isto é fé, o contrário de tentar - o que é inútil, controlar a acção de Deus e do próximo.

A devoção e o romance podem ser facilmente comparados a uma dança. É necessário aprender a dançar, o que inclui a aprendizagem para se deixar levar. A pessoa dispõe-se para o encontro, abre-se para ele. Já não tenta controlar mas entrega-se ao ritmo e melodia da música. Na devoção a pessoa afina os ritmos da sua respiração com os ritmos divinos. No amor também.

No livro de Cantares o tema da espiritualidade e da sexualidade estão presentes e reunidos. Na verdade o encontro humano é metáfora do encontro com Deus. O que me surpreende muitíssimo é que o poema - veja, trata-se de um poema, não teoriza sobre os temas, mas convida, pelos seus movimentos internos, ao amor e à devoção. Teorizar sobre o encontro com Deus e com o próximo é criar resistências para a vivência do encontro real. É necessário despir-mo-nos das fantasias que temos, não apenas de nós mesmos (fantasias de omnipotência e controlo), mas despir-mo-nos das fantasias que temos sobre os outros e sobre Deus. Ir para o encontro para nos surpreendermos, e conhecer-mo-nos, e deixar-mo-nos transformar pelo novo.

Transmito-lhe o convite de amor e fé do livro de Cantares.

Fonte: Carlos Hernandez, CPPC via “Igreja do Jubileu”

Adaptado ao português usado em Portugal por Ab-Integro

Bíblia Ambientalista

Para adaptar a Bíblia ao gosto dos ambientalistas, a editora americana HarperCollins acaba de lançar a “Bíblia Verde”, para ajudar os cristãos a entenderem a mensagem ambientalista da Bíblia.

O livro, feito com 10 por cento de papel reciclado e impresso em tinta verde, apresenta, realçadas em cor verde, as passagens que falam do dever de se cuidar da terra. O site da editora afirma que a Bíblia Verde “equipará e incentivará as pessoas a verem a visão de Deus acerca da criação e as ajudará a se envolver na cura e manutenção da terra”.

A Bíblia Verde contém 1.000 referências à terra — em comparação com apenas 530 referências ao amor e 490 ao céu.

“A Bíblia Verde” usa comentários de São Francisco de Assis, Papa João Paulo II e do ultra-liberal bispo anglicano Desmond Tutu, que apoia o “casamento” entre homossexuais. Foram impressos mais de 37.000 exemplares — e os primeiros 25.000 foram totalmente vendidos em poucas semanas.

Além da “Bíblia Verde”, a HarperCollins publica os livros “Bíblia Satânica” e “Rituais Satânicos”, escritos por Anton La Vey, conhecido como o “Papa Negro” do satanismo.

A HarperCollins é dona da editora evangélica americana Zondervan, que durante muitos anos foi dona da Editora Vida no Brasil.

In “O Verbo” via “ADONAINEWS”

O mínimo que se pode dizer da HarperCollins é que é uma editora muito pragmática… sem dúvida, capaz do melhor e do pior…

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Cem Anos de Fundamentos

Firmeza nas mesmas Coisas O meio ambiente religioso de Filipos da Macedónia era propenso aos sincretismos. Foi terreno fértil tanto para os cultos de Ísis e Artémis, como para os cultos greco-romanos, até o culto inelutável de uma religião imperial. O conhecimento do judaísmo helenizado também não seria esquecido. A própria magia corria pelos dedos dos filipenses como rios de dinheiro, o uso mercantilista dos espíritos demoníacos. Foi neste contexto que Paulo chegou a Filipos e fundou uma igreja cristã, pela qual passou a sentir grande afecto. Como o apóstolo Paulo nunca foi um produto da assimilação das opiniões que corriam nos seus dias, em certo sentido, diríamos que foi líder de opinião. Fosse qual fosse o território onde as suas viagens missionárias o levassem, a aplicação da Verdade do Evangelho, da ética e da moral cristãs, a Salvação do homem e a Vida Eterna deste como retribuição futura, consistia no seu primordial objectivo. Onde Paulo chegava, contra o monte Párnaso, ou o altar ao «deus desconhecido», ou mesmo os judaísmos voltados para o monte de Jerusalém, ele contra tudo isso, levantava o Gólgota, que era também a contra-cultura do seu tempo. E, na verdade, de todos os tempos. Pela causa de Cristo crucificado, Paulo envolveu e conquistou a Macedónia. Como aos atenienses divulgou a infinitude e a glória do «deus desconhecido», que os gregos supunham brindar com a «santa» ignorância, aos macedónios filipenses ensinou que o verdadeiro «Deus Altíssimo» não ficava como refém de uma simples frase de uma mera adivinhadora. Sim, porque às vezes é preciso que se saiba quem é o Deus Altíssimo e o que significa nos lábios de quem o pronuncia (At 16,17; Lc 8,28), seja através das «pedras» que falam quando os homens se calam ou seja através de uma jovem endemoninhada. Contextualizações para valorizar a firmeza No meio dos ataques do sincretismo religioso, das políticas anti-tudo que viesse da Judeia, da legislação em vigor nas colónias greco-asiáticas do Império Romano acerca de actividades religiosas prosélitas, o autor da epístola aos Filipenses propugnava pela firmeza dos crentes da Igreja, na Macedónia. «Abundância na caridade, na ciência e no conhecimento», «aprovação das coisas excelentes», «cheios de frutos de justiça», são alguns dos pontos iniciais que Paulo desejava e nos quais os cristãos filipenses deveriam abundar (1,9-11) com firmeza. Com efeito, pontos fortes indubitavelmente contra os sincretismos para aqueles dias e para hoje também. Cem anos de Fundamentos Pensamos que no século XXI os sincretismos tomaram forma avassaladora como produtos do chamado pós-modernismo relativamente às religiões e aos valores, até mesmo sob a forma do profetizado Choque de Civilizações ( do recentemente falecido prof. Samuel Huntington), contudo os avisos sobre os sincretismos religiosos começaram cedo nos inícios do passado século XX. A primeira e prevalecente «civlização», segundo a leitura do autor supracitado, foi sem dúvida a Ocidental. Nem se podia falar nessa altura de um «choque», o Ocidente começava a instalar-se sobre todas as demais: latino-americana, islâmica, chinesa, hinduísta ou mesmo africana, etc. O Ocidente prevalecia também definido em torno de uma religião, o Cristianismo. Em 1909, há exactamente cem anos, «Deus levou dois Cristãos leigos, Lyman e Milton Stewart, a comprometerem-se com os gastos da publicação de uma série de doze volmes que deveriam apresentar os fundamentos da fé cristã.»( Os Fundamentos, R.A.Torrey, Hagnos, 2005) Os referidos magnatas do petróleo californiano, dispuseram a sua fortuna para espalhar os Fundamentos. As suas doutrinas foram e continuam a ser fundamentais na Fé Cristã, aqui algumas em síntese: Bíblia Sagrada, no seu conteúdo espiritual e na sua estrutura literária, veículo para conhecer os fundamentos da humanidade, Palavra de Deus para a Salvação, para a Moral e a Ética do criatura humana. Deus, Pai Criador, omnipotente, omnisciente e omnipresente no Universo. Deus em Cristo. O Deus-Homem, o nascimento virginal de Jesus Cristo e a Sua ressurreição corporal dentre os mortos. Espírito Santo, Pessoa divina que intervém no confronto do coração humano com a necessidade de Salvação que Deus-Homem trouxe à humanidade, a Redenção por causa do Pecado. Vida Eterna como retribuição futura do crente. Então, era preciso combater as incursões do liberalismo. As armas práticas foram remetidas «gratuitamente a ministros do evangelho, missionários, supervisores da escola dominical». Sabe-se hoje que três milhões de volumes foram então distribuídos, ainda que exclusivamente no mundo anglo-saxónico. Nesse momento da história em que a conjugação do chronos e kairos se realizaram felizmente como tempo e oportunidade, o Fundamentalismo tornou-se um enorme e inexpugnável «Pártenon» doutrinário.

João T. Parreira In "Papéis na Gaveta"

No templo Ele encontrou os homens vendendo bois, ovelhas e lágrimas e o brilho súbito das pombas aqueles que trocavam perdão à cotação do dia.

João Tomaz Parreira In "Poeta Salutor"

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Evolucionismo, Criacionismo e Escola

Com a celebração dos duzentos anos do nascimento de Charles Darwin e dos 150 anos da publicação de sua obra “A Origem das Espécies”, o debate criacionismo versus evolucionismo voltou a ocupar amplos espaços na imprensa, quase sempre marcado pela falta de imparcialidade e uma boa dose de sensacionalismo. O legado da Idade Contemporânea inclui uma forte herança do cientificismo, ou cienticismo, sistematizado no Positivismo de Augusto Comte (a teologia e a filosofia como fases “inferiores” do saber versus a fase “superior” da ciência), que influenciou várias teorias, inclusive o marxismo.

Há uma amnésia histórica em relação ao facto de que todas as universidades do mundo, desde os seus primórdios do século 9 ao século 19 (cuja excepção foi a Escola Politécnica de Paris, fundada por Napoleão), foram criadas pelas instituições religiosas com a presença curricular da teologia, da filosofia e das ciências (da natureza, sociais e as ditas exactas). Enquanto vivemos hoje sob um novo surto de secularismo (pseudolaicismo) que quer empurrar a religião para fora da esfera pública (política, academia), restringindo-a ao subjectivismo individual e ao espaço fechado dos lares e dos templos, vamos testemunhando uma nova valorização da multidisciplinaridade e da interdisciplinaridade (quebrando do departamentalismo estanque), a revalorização do saber teológico e filosófico, e a compreensão dos seres humanos como além-cerebrais, e que o conhecimento inclui o afectivo, o erótico, o místico, o estético etc., e não somente o racional e o sistemático-verificacional.

O mundo do saber deve ser eminentemente plural. Em cada disciplina há diversidade de escolas e teorias, nenhuma sendo monolítica, e, muito menos, estática, pois todo o saber tem um quê de provisoriedade. A liberdade de cátedra, com espaço para a exposição e a crítica, para novas sínteses e novas propostas, é uma marca central da vida académica. Na história do debate entre criacionismo e evolucionismo, tivemos entre judeus e cristãos propostas de evolucionismos teístas e de criacionismos evolutivos, como Telhard Chardin (entre os católicos romanos) e Bernard Ramm (entre os protestantes).

Enquanto se criticam alguns fundamentalistas norte-americanos por serem contrários à inclusão do evolucionismo nas escolas públicas daquele país, no Brasil (e em outros países), são os evolucionistas que de forma arrogante, intolerante e dogmática lutam para proibir, de forma absoluta, a presença do ensino criacionismo nas nossas escolas. É a mesma atitude, com sinais trocados.

Não se pode negar que o evolucionismo teve rebatimentos além da biologia, com pensadores no campo sociológico e político defendendo um “darwinismo social” (a sobrevivência dos mais fortes e mais aptos). Com a ausência da intervenção divina e da revelação, resulta num relativismo moral, com a dificuldade para se condenar a delinquência.

Os evolucionistas precisam, urgentemente, de um choque de humildade, permitindo uma crítica aos seus postulados na sala de aula. Precisam recuperar o valor concreto da liberdade académica, e, mais ainda, o respeito a docentes e alunos na sua capacidade de investigar, discernir e escolher.

Nós, os retrógrados religiosos, apenas exercemos a nossa cidadania, os nossos direitos humanos e a nossa defesa da liberdade de expressão e do retorno da universidade à proposta original que motivou a sua criação por homens e mulheres de fé.

In Editora Ultimato por Robinson Cavalcanti* via Práxis Cristã

*Dom Robinson Cavalcanti é bispo anglicano da Diocese do Recife e autor de, entre outros, Cristianismo e Política -- teoria bíblica e prática histórica e A Igreja, o País e o Mundo - desafios a uma fé engajada.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Uma Carta para Pérgamo

Do ponto de vista Bíblico, exceptuando no livro de Apocalipse, não existe nenhuma outra referência, quer ao Império, quer à cidade de Pérgamo propriamente dita. Há referências a povoações ou regiões que estiveram integradas no Império de Pérgamo, nomeadamente em actos 14:25, que poderão até estabelecer alguma confusão pela toponímia dos lugares aí referidos ( Atália e Pergue ), mas no entanto nenhuma destas povoações corresponde à cidade de Pérgamo, capital do Império. Naturalmente que Pergue e Atália, terão sido eventualmente inspirados quer no nome da dinastia Atálida, fundadora do Império de Pérgamo, quer na própria cidade de Pérgamo. Porém, estas duas povoações situavam-se na zona sudeste do Império já em território daquela que viria a ser a província romana da Panfília.

Assim sendo, resta-nos ir à história secular para entendermos e contextualizarmos a igreja à qual foi dirigida a 3ª carta de Apocalipse por revelação ao apóstolo João e, a seguir, olhar a igreja de Pérgamo nesse contexto, buscando aí muitas das explicações que precisamos para entender o conteúdo da Carta que lhe é dirigida.

Pérgamo – O Reino e a Cidade

“Uma geração antes da guerra de Tróia, o rei Aleo de Tegea, em terras de Arcádia, recebeu um funesto oráculo : o seu neto matá-lo-ia e governaria em seu lugar. Para evitar o cumprimento da profecia, decidiu consagrar a sua filha Auge à deusa Athena, proibindo-a de se casar, sob pena de a matar. Mas esta sua intenção não foi suficiente para impedir que se cumprisse o oráculo. Um dia , Heracles, que tinha sido acolhido na corte do rei, embriagou-se e forçou a jovem, tendo esta posteriormente dado à luz um filho a quem foi posto o nome de Télefo. O rei Aleo, receoso de que na criança nascida se viesse a cumprir o profetizado, encerrou a mãe e o filho numa caixa e deitou-a ao mar. Graças à protecção de Athena, a caixa encalhou no delta do rio Caicus (Caico), na costa da Ásia Menor, tendo desta forma sido salvos os seus passageiros. Tinham chegado à Mísia. O rei da Mísia, Teutrante, fez de Auge sua esposa e adoptou Télefo como seu filho, sucessor e herdeiro.

Sobre uma imponente montanha de novecentos metros de altura e na vertente direita do rio Caicus ( Caico), a vinte e oito Quilómetros da costa do mar Egeu, começou a ganhar forma uma cidadela que tomou o nome de Pérgamo; nome de origem indo-europeia que quer dizer “alto fortificado”. Os seus habitantes apropriaram-se da lenda de Télefo e passaram a honrá-lo como seu antecessor mitológico. A adopção desta história mitológica, reflecte o carácter claramente Grego do Reino fundado com o nome de Pérgamo ( Télefo é um herói da mitologia grega ) e dava corpo ao desejo de Átalo I , que emprestou o seu nome à dinastia, entretanto surgida dos Atálidas, de converter a sua cidade na Atenas da Ásia Menor, que se tornaria assim defensora da civilização helénica face aos povos bárbaros.

O desejo de Átalo I define a história de todo o seu reinado e explica a intensa promoção das artes, letras e ciências por parte de toda a dinastia Atálida, que fez da cidade de Pérgamo um dos mais importantes núcleos urbanos de toda a Ásia Menor helenística, bem como um centro cultural só superado por Alexandria. Mas para Átalo I, Pérgamo precisava converter-se também no principal centro político da região, objectivo que conseguiu atingir depois dos seus envolvimentos em complexas lutas de poder que se seguiram à morte de Alexandre Magno e do desmembramento e divisão do seu Império pelos seus quatro generais”

Pérgamo não era apenas uma cidade importante, mas também um reino que estendia as suas fronteiras muito para além daquilo a que se viria a chamar “província da Ásia Menor” do Império Romano. “As origens do Reino de Pérgamo remontam provavelmente ao ano de 301 a.C. em que o general Lisímaco lutou pela repartição dos territórios do Império Grego e se apoderou da Trácia e de toda a Ásia Menor estabelecendo em Pérgamo a sede do seu território e guardando aí um imenso tesouro que colocou debaixo da supervisão de um Eunuco Macedónio, Filetero. Este envolveu-se em intrigas de corte e, aproveitando os problemas surgidos entre Lisímaco e Seleuco, sublevou-se após a derrota de Lisímaco às mãos de Seleuco no ano de 281 a.C. E aqui começa oficialmente a história de Pérgamo como reino independente e a expansão da cidade propriamente dita.

Filetero morre e passa o reino ao seu sobrinho Eumenes I. Por razões óbvias, “os Selêucidas tornaram-se os principais adversários políticos do pequeno império de Pérgamo, tendo-se aliado a eles também os Gálatas ( originários da Gália). Com os primeiros, lutaram os reis de Pérgamo para obter a supremacia na Ásia Menor. Com os segundos, para defender os seus domínios e proteger a civilização helénica dos povos bárbaros”.

Os Gálatas conseguiram durante muito tempo submeter populações e territórios integrados no Império de Pérgamo, através do estabelecimento da lei do terror. As populações locais eram obrigadas a pagar-lhes vultuosas quantias para poderem viver em paz. Foi Átalo I, sucessor de Eumenes I quem acabou com o terror dos Gálatas quando acedeu ao trono em 241 a.C.”

Para consolidar o seu poder, Átalo I iniciou contactos com Roma, contactos esses que conduziriam o Império de Pérgamo, ao longo de reinados dos seus sucessores, ao seu apogeu político e territorial, mas também ao seu fim.

Os Romanos aliaram-se com Pérgamo em diversas guerras cuja maior vitória foi contra Antíoco III, rei Selêucida. Em troca do seu apoio a Roma, Pérgamo receberia o território Selêucida a oeste dos montes Tauro. Sob o reinado de Eumenes II, Pérgamo atingiu o seu Apogeu. As suas fronteiras estendiam-se do Mar Egeu até Bitínia, Galácia, Capadócia, para além de cidades estado-independentes tão importantes como Éfeso(…).

As terras de Pérgamo eram férteis. Disso falaram Plínio o velho e Estrabão. Trigo, azeite, vinho, cavalos e ovelhas, mármore, madeira, minas de prata e ouro. Unguentos e perfumes de Sardes. Tecidos bordados a fio de ouro, sapatos e arreios. Enfim toda uma panóplia de matérias e produções que estão refletidas no pórtico do altar de Zeus. A riqueza de Pérgamo era tão fabulosa que Horácio, o grande poeta Grego, utiliza nos seus poemas o termo «Atálico» quando se quer referir a algo que é imensurável.

Monumentais obras arquitectónicas dispostas em «socalco» e em quatro plataformas da Acrópole da cidade de Pérgamo, dominavam aquela. Destacam-se o palácio dos reis, o templo de Athena, a biblioteca (a segunda maior do mundo, por essa altura, a seguir a Alexandria com a qual rivalizava), o Teatro (com capacidade para cerca de 20.0000 espectadores), o templo de Dioniso, o templo de Asclépio, a Ágora superior e o grande altar de Zeus. Descendo da Acrópole, o complexo do «Gimnasium», o maior e mais completo da antiguidade.

Já no período de domínio Romano , foi construído um templo dedicado a Augusto e á religião do estado. Também no período Romano e, segundo Plutarco, depois do incêndio na biblioteca de Alexandria, que praticamente a reduziu a cinzas, António, o lugar-tenente de Augusto para o Império do Oriente, e que viria a tornar-se seu opositor, querendo ele próprio tornar-se independente no Oriente, aliado a Cleópatra, ofereceu à sua amante ( Cleópatra ) a biblioteca de Pérgamo para a compensar da perda de Alexandria. Este facto teve como consequência a instauração de rivalidades que levou a que a dinastia dos Ptolomeus , no Egipto, proibisse a exportação de papiro para Pérgamo. Tal acontecimento forçou os Pergamenos a “inventar” um novo suporte para a escrita com base em peles de animais devidamente tratadas e preparadas em rolos : o “PERGAMINHO” . Este revelou ter uma vantagem grande sobre o papiro: podia ser

raspado e de novo escrito ( embora isto viesse a criar outro tipo de problemas pois muitas vezes a escrita antiga e raspada entretanto para que se pudesse escrever de novo, como que reverdecia, fazendo-se notar claramente por debaixo da nova escrita, dando muitas vezes lugar a confusões e origem a discussões sobre se eventualmente se estaria na presença de códigos secretos.

No reinado de Átalo III, por causas não conhecidas de todo, este legou em 133 a.C. o seu Império aos Romanos, com excepção da cidade. Aristónico, filho bastardo de Eumenes II, não gostou da decisão e proclamou-se Rei de um estado com o nome de Heliópolis ( cidade do Sol ) prometendo igualdade para todos os cidadãos. Procurou aliados contra os Romanos (Bitínia, Ponto, Capadócia e algumas cidades autónomas seguiram-no ).” Os Romanos, contudo, não gostaram desta sublevação e sufocaram-na, fazendo depois da cidade de Pérgamo capital administrativa daquilo que passou a chamar-se Província da Ásia Menor, e que viria a abrir as portas para as restantes conquistas Romanas no Oriente.

“ O prestígio do Reino de Pérgamo, não se extinguiu com a morte de Atálo III. Já durante a época Imperial Romana, conheceu um período ( o último) de explendor, quando gentes de todos os lados procuravam as suas escolas de Retórica e particularmente de Medicina, esta relacionada com o deus Asclépio ( Esculápio para os Romanos ), o deus que tinha “solução” para todos os males físicos. Aí pontificou Galeno, cujos conhecimentos e experiências científicas no corpo humano e animais, foram a base da medicina, até para além , um pouco, da idade média. Porventura, Galeno, foi mais importante para a Medicina do que Hipócrates.