‘Precisamos preparar-nos para as más surpresas na vida, mas não deveríamos esquecer-nos da mão de Deus em todas as coisas’.
Recentemente aceitei um convite para uma entrevista de um jornal – o que eu não estava muito propenso a fazer. As pressões de agenda, somadas à ansiedade quanto às perguntas que seriam feitas, deixaram-me negativo e relutante.
Mas Deus me surpreendeu. A pessoa que me entrevistou era super dinâmica, cheia de entusiasmo e alegria. Ao invés de acontecer o que antes eu imaginava, a entrevista deu-me fôlego e energia para o dia. Felizmente – embora relutante – orei pela entrevista enquanto me dirigia para encontrar o repórter. Deus respondeu às minhas orações em segundos.
Whitney Balliet escreveu um valioso livro sobre jazz, intitulado O som da surpresa. No livro, ele fala sobre a imprevisibilidade do jazz. Nesse género musical, você nunca sabe o que virá a seguir – os ritmos, as harmonias, etc. – e isso faz do jazz algo extraordinário. Ele sempre nos surpreende.
Assim é na vida e no trabalho. A única certeza é a mudança, que sempre vem como uma surpresa. Podemos até prever a chegada de uma mudança, mas não conhecemos os seus detalhes. As boas surpresas que Deus nos manda são, geralmente, corriqueiras e comuns. Infelizmente, não deixamos que Ele nos surpreenda. Ao invés disso, vivemos temendo as más surpresas. Queremos antecipá-las para que, tendo-as enfrentado, tomemos novamente o controlo da situação.
É claro que precisamos preparar-nos para as más surpresas na vida, mas não deveríamos esquecer-nos da mão de Deus em todas as coisas. Além disso, devemos tomar cuidado para que nossas expectativas não conduzam a nossa direcção. Boa parte da alegria na nossa vida é determinada pela forma como reagimos; podemos reagir com regozijo e alegria, ou com insatisfação e temor.
Giampaolo Giuliani, técnico e investigador no Laboratório Nacional de Física de Gran Sasso, avisou: um forte sismo iria abalar a zona de L`Aquila nos próximos dias. Ninguém fez caso, pese embora as previsões alertassem sobre fortes movimentos.Ele foi acusado de estar a criar alarmismos desnecessários.
Será que se poderia ter evitado a tragédia se porventura se tivesse prestado atenção aos avisos ?
Foto e Notícia no Jornal El Mundo. Ler versão integral do texto ( em Castelhano ) aqui.
Contam que, certa vez, perguntaram a Karl Barth se ele acreditava na segunda vinda de Jesus Cristo. Sua resposta foi no mínimo intrigante. Barth teria dito que acreditava em todas as vindas de Jesus, e não apenas na segunda. Na verdade, disse o célebre teólogo alemão, Jesus Cristo veio pela primeira vez na encarnação e, depois, pela segunda vez na ressurreição, e veio outra vez no Pentecostes, uma quarta vez na Igreja, que é o seu corpo, e, além destas, Jesus Cristo vem todas as vezes que um pecador se arrepende e se reconcilia pessoalmente com Ele. No final, Barth teria dito que acreditava, sim, que Jesus Cristo viria consumar o reino de Deus no “fim da história”, mas essa seria a quinta ou sexta vinda de Jesus.
De facto, dá que pensar, pois estamos acostumados às afirmações simplistas do tipo “Jesus veio quando nasceu (primeira vinda), foi-se embora após a sua ressurreição, e virá em triunfo no fim dos tempos (segunda vinda)”. Mas há algumas pontas soltas na construção das doutrinas escatológicas (relativas às últimas coisas) e nas interpretações das afirmações do Novo Testamento acerca da parousia (vinda) de Jesus Cristo. Por exemplo, como explicar a afirmação “Eis que estou convosco até a consumação dos séculos” (Mateus 28.20)? Cristo está connosco ou devemos esperar por ele no futuro escatológico? Ou ainda, o que Jesus quis dizer quando prometeu àquele que obedece à sua palavra: “Eu e meu Pai viremos para ele e faremos nele morada” (João 14.23)? Como podemos conciliar a afirmação de Jesus quanto ao facto de que o fim ocorrerá apenas quando o evangelho do reino de Deus tiver sido anunciado em todas as nações (Mateus 24.14), com a sua promessa de que o Filho do Homem viria antes de os discípulos percorrerem todas as cidades de Israel (Mateus 10.23)? Mais ainda, como entender a declaração de Lucas ao afirmar que o livro de Actos regista as coisas que Jesus continuou a fazer após a sua ressurreição e ascensão? Também há necessidade de esclarecer porque é que o livro do Apocalipse não descreve,em detalhe, a “segunda vinda de Jesus” e, aliás, em vez de dizer que vamos para o céu, diz que o céu vem até nós (Apocalipse 21.1-4).
Estas poucas questões indicam que não podemos nos ater ao literalismo das passagens bíblicas, isoladas umas das outras, mas devemos procurar compreender o sentido amplo das suas narrativas, que possibilitam ver os mesmos factos e fenómenos em múltiplas dimensões e implicações. Em termos da “doutrina das últimas coisas”, a melhor interpretação sugere a “escatologia inaugurada”, que estabelece a tensão entre o “já” e o “ainda não” da salvação: ao mesmo tempo em que o dia da salvação é agora – já (2 Coríntios 6.2), também “em esperança somos salvos” – ainda não (Romanos 8.24).
Não é incorrecto, portanto, afirmar que assim como o reino de Deus já veio e ainda está por vir: o reino de Deus chegou (Lucas 11.20) e “venha o teu reino” (Mateus 6.10), também Jesus Cristo já veio e ainda está por vir, pois se o esperamos no fim escatológico – a parousia, também é certo que Ele está connosco até à consumação dos séculos, pois ao afirmarmos a igreja como corpo de Cristo, declaramos que Jesus age na história por meio de homens e mulheres que invocam o seu nome. Como afirma Ariovaldo Ramos, “quando falamos da segunda vinda, dizemos da sua vinda, novamente, visível, mas é razoável a perspectiva de várias vindas e de uma derradeira, definitiva e visível, como o foi na sua ascensão, pois se esta derradeira vinda não for plausível, teremos de rever o rapto da igreja, a transformação dos que estiverem vivos e a ressurreição dos mortos”.
Aguardar a vinda de Jesus no fim dos tempos pode tornar-se uma distracção que nos impede a relação com Ele aqui e agora; negligenciar a vinda de Jesus no fim da história equivale a esvaziar a fé cristã da sua utopia do reino eterno de Deus e negar a promessa futura do novo céu e nova terra. Ambos os equívocos são perigosos e perniciosos à militância e esperança cristãs.
Pensar em Deus é desobedecer a Deus,
Porque Deus quis que o não conhecêssemos,
Por isso se nos não mostrou…
Sejamos simples e calmos,
Como os regatos e as árvores,
E Deus amar-nos-á fazendo de nós
Belos como as árvores e os regatos,
E dar-nos-á verdor na sua primavera,
E um rio aonde ir ter quando acabemos!…
Às vezes diversas “técnicas” de usar o concreto aparecem juntas nos ensinamentos de Jesus. Assim a parábola, a ocasião e o caso que contradizem a dominante suposição geral aparecem reunidos no exemplo do “bom samaritano” (Lc 10).
Jesus realmente carregou nos detalhes. E, no entanto, a história é muito verdadeira. É um desses casos em que, com aquilo que podia muito bem ser uma mera parábola, Jesus talvez estivesse contando uma história que realmente acontecera. É o tipo de coisa que todos os seus ouvintes sabiam que de facto acontece. É o tipo de coisa que acontece ainda hoje.
Quando Jesus afinal faz a pergunta decisiva — “Qual destes três te parece ter sido o próximo do homem que caiu na mão dos salteadores?” —, qualquer pessoa decente só tem uma resposta a dar. Tergiversar mais seria revelar um coração irrecuperavelmente iníquo. Assim o intérprete teológico responde: “O que usou de misericórdia para com ele”. Para ele seria demais dizer apenas: “o samaritano”.
Mas nós precisamos dizê-lo, e precisamos compreender o que isso significa. Significa que as suposições gerais dos ouvintes de Jesus sobre quem tem vida eterna precisam ser revistas à luz da condição dos corações das pessoas. O relato não ensina que podemos ter vida eterna apenas por amar o nosso próximo. Também não podemos nos safar com esse belo legalismo. A questão da nossa postura diante de Deus ainda precisa ser levada em conta. Mas na ordem de Deus nada pode substituir o amor pelas pessoas. E definimos quem é o nosso próximo pelo nosso amor. Fazemos de alguém o nosso próximo cuidando dele.
Não definimos primeiro uma classe de pessoas que serão os nossos próximos para depois elegê-los objectos exclusivos do nosso amor - deixando os outros estirados na estrada. Jesus habilmente rejeita a pergunta — “Quem é o meu próximo?” - e a substitui pela única pergunta realmente relevante aqui: “De quem serei eu o próximo?” E ele sabe que só podemos responder a essa pergunta caso a caso no nosso dia-a-dia. De manhã ainda não sabemos quem será o nosso próximo naquele dia. A condição do nosso coração irá determinar quem é que, ao longo do caminho, será o nosso próximo, e principalmente a nossa fé em Deus é que determinará se teremos força bastante para fazer desta ou daquela pessoa o nosso próximo.
Se Jesus estivesse aqui hoje, a história seria um pouco diferente. As palavras bom samaritano agora identificam na nossa sociedade uma pessoa de índole especialmente boa. Temos até leis para proteger os “bons samaritanos” quando eles fazem as suas “boas obras”.
Para tecer hoje o mesmo argumento, Jesus poderia colocar o “bom samaritano” no lugar do sacerdote ou do levita da narrativa original. Ou se ele vivesse no Israel de hoje, provavelmente contaria a parábola do “bom palestiniano”. Os palestinianos, por outro lado, ouviriam um relato sobre o “bom israelita”.
Nos Estados Unidos, logicamente, ele nos contaria a parábola do “bom iraquiano”, do “bom comunista”, “do bom muçulmano” e assim por diante. Para alguns segmentos sociais, teria de ser a parábola da boa feminista ou do bom homossexual. Para outros ainda, a do bom cristão ou do bom frequentador de igreja produziria o efeito desejado. De fato, diante de algumas actuais posturas seculares, falar do bom sacerdote ou do bom diácono talvez fosse o mais apropriado. Todos esses exemplos derrubam caras generalizações a respeito de quem, com certeza, tem ou não a vida eterna.
No relato do bom samaritano, Jesus não só nos ensina a ajudar os necessitados; num nível mais profundo, ele nos ensina que não podemos identificar quem “tem a vida eterna”, quem “está com Deus”, quem é “bem-aventurado” só por olhar as aparências. Pois essa é uma questão do coração. Só ali o reino dos céus e os reinos humanos, grandes e pequenos, estão entrelaçados. Estabeleça as fronteiras culturais ou sociais que quiser, e Deus dará um jeito de atravessá-las. “O homem vê o exterior, porém o Senhor, o coração” (ISm 16:7). E “Aquilo que é elevado entre os homens é abominação diante de Deus” (Lc 16:15).