quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Crónica de Férias - 3: Acerca de Multidões e Solidões.

Não gosto de multidões nem de solidões. É apenas por isso que não gosto de certas zonas do Algarve. Albufeira, por tudo o que representa de mau gosto ( no meu conceito, claro ), afasta-me. Fico meio perdido no meio de multidões. Apetece-me fugir !
Sou uma pessoa avisada na maior parte dos temas que cercam a vida. Albufeira repele-me na justa medida em que não satisfaz a minha pesonalidade e carácter de recorte intimistas. Ontem, por muito avisado que estivesse acerca de Albufeira, não a conseguiria evitar. Compromissos familiares !!! Há coisas que eu francamente tenho dificuldade em entender. Uma delas é a razão pela qual, mesmo depois de nos juntarmos, do ponto de vista familiar, várias vezes, durante um ano inteiro, nos nossos locais habituais de residência, em férias acabamos sempre por ter que nos visitar, para nos juntarmos de novo. Cada família terá as suas explicações mais ou menos prosaicas ou suficientemente justificadas para que isso aconteça. Comigo, acredito que seja por questões inexplicáveis para além das que resultam da necessidade de, no meio de uma multidão, me refugiar perto de gente com quem possa conversar. Pessoas que têm comigo algum tipo de afinidade, por pequena que seja. Multidões e solidões não são para mim grandes conselheiras. Fujo das duas ! Mas não raras vezes me deixo "enganar" por uma ou por outra, conforme o tempo e o lugar. Curioso o facto de o Senhor Jesus ter tido algumas vezes a necessidade de se afastar das multidões. Sózinho para orar ao Pai, ou com os amigos próximos ou discípulos, retirava-se não poucas vezes para convívios serenos ou diálogos prenhes de ensino de Sabedoria Divina. Muito desse ensino, ficou para nosso próprio ensino no Novo Testamento da Bíblia Sagrada. Apesar de tudo, e mesmo não gostando de multidões ou solidões prefiro as segundas. Remetem-me sempre para dentro de mim, onde estou num território que aprendi a conhecer ao longo dos anos de vida que levo e onde me sinto batedor de paixões e caçador de mim próprio, nesse terreno tão propício onde coraçãos saltam descompassados a cada centímetro na busca do tempo perdido em laços e armadilhas que a vida nos arma. Sinto Cristo no meio de solidões, posso vê-lo na expectação das multidões. Amo-o independentemente de umas ou outras. Multidão é para mim sinónimo de confusão. Disso não gosto assumidamente. É por isso também que não gosto de Albufeira, no Algarve. Mesmo que tivesse a melhor praia do mundo, continuaria a não gostar. Para além do mais, tenho "memória de gato" no que a água diga respeito ! Voltei a "casa". Estou no Sotavento.
. Jacinto Lourenço

Derrubar o Muro

Ficamos assim:você joga as queixas no telhado,
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eu ponho as manias de lado,você lava a escadaria,
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eu rego o jardim.
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Podemos varrer juntos as nódoas secas aderentes ao passado.
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Se você se habilita, eu me disponho, num desafio à desdita.
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Você acende a luz, eu desempeno o sonho,
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enquanto você ensaia o passo, eu troco a fita.
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Na mesa torta, a toalha colorida.
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O resto é fácil:basta mandar flores ao futuro,
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derrubar o muro e acreditar na vida.
Flora Figueiredo

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Crónica de Férias - 2 : Acerca das Pontes

Ocorreu-me hoje, quando passava sobre a Ponte Romana de Tavira, um ex-libris desta cidade : "pontes são construções importantíssimas, e apenas por um pequeno detalhe que as distingue de outras construções: elas ligam duas margens ! Se assim não for, não são pontes". Uma verdade de La Palisse, esta !
Ao passar nesta tão importante ponte Romana e olhar, de sobre ela, em perspectiva para as restantes pontes que se erguem sobre o Gilão, assim se chama o rio que rasga Tavira em duas cidades desiguais, concluí ( não pela primeira vez claro) da importância que os romanos dedicavam a estas obras de engenharia e a convicção que colocavam na obtenção de certezas quanto ao objectivo final da obra. Duas coisas se realçam como fundamentais nas pontes romanas e que não noto noutras pontes, nomeadamente as que ligam Tavira: resistência e estética ! A Ponte Romana da cidade algarvia de Tavira tem estas duas coisas que as restantes não possuem e que se aliam à terceira vertente que uma ponte terá que possuir e que, será comum a todas : a utilidade ! A questão em Tavira é que as pontes de mais recente construção denotam apenas a preocupação pela utilidade; resistência e estética não lhas esboçou o projectista. Destas duas últimas qualidades, a primeira degrada-se a olhos vistos e a segunda não se faz notada. E lá está a outra, a Romana, a fazer inveja, quer pelos espaços projectados, que acabam por lhe emprestar a singularidade estética essencial para a fruição do rio pelos passantes, quer pela resistência dos seus pilares e tabuleiro em pedras que nos segredam histórias de séculos.
Pontes ligam margens e estabelecem união. Promovem encontros, desenvolvem e estreitam laços. Pontes unem origem e destino mesmo que não saibamos qual a margem de um e de outro. Pontes são monumentos à necessidade de comunicação. Pontes lembram-me o Amor de Deus por mim. A ligação entre nós, que Jesus estabeleceu na cruz. Pontes são monumentos ao Amor significado em duas margens, que podem até estar distantes, que podem até ser diferentes, que podem até ser magoadas por um rio que corra tormentoso entre elas. Nada, nunca mais, as poderá separar, quando uma pequena ponte é construida. Uma pequena ponte significa sempre uma oportunidade e uma possibilidade, assim nos deixemos unir por ela. Que nenhum de nós queime pontes quando acabar de as atravessar. Podem sempre ser-lhe úteis para um qualquer regresso. Não foi pequena a ponte que Jesus nos estendeu. A ponte do Amor, do perdão e da comunhão com Deus. Mais difíceis se tornam a construção de pontes consistentes e duradouras na comunhão entre os filhos de Deus. Aqui, muitas têm sido queimadas. Os incendiários continuam aí, a assistir, como se nada de relevante se passasse quando uma ponte é destruida. Quais pirómanos lançam fogo e observam à distância deliciando-se com a altura das lavaredas.
Sejamos construtores de Pontes, numa inspiração de Fé, Graça, resistência e utilidade. Pontes com estas características, foram as únicas que até hoje ultrapassaram séculos e milénios, e que continuam de pé. Pirómanos sempre existirão.
Jacinto Lourenço

Sobre o amar e o ouvir

Amamos não a pessoa que fala bonito, mas a pessoa que escuta bonito… A arte de amar e a arte de ouvir estão intimamente ligadas. Não é possível amar uma pessoa que não sabe ouvir. Os falantes que julgam que por sua fala bonita serão amados são uns tolos. Estão condenados à solidão. Quem só fala e não sabe ouvir é um chato… O acto de falar é um acto masculino. Fala é falus: algo que sai, se alonga e procura um orifício onde entrar, o ouvido… Já o acto de ouvir é feminino: o ouvido é um vazio que se permite ser penetrado. Não me entenda mal. Não disse que fala é coisa de homem e ouvir é coisa de mulher. Todos nós somos masculinos e femininos ao mesmo tempo. Xerazade, quando contava as estórias das 1001 noites para o sultão, estava carinhosamente penetrando os vazios femininos do machão. E foi dessa escuta feminina do sultão que surgiu o amor. Não há amor que resista ao falatório.
Rubem Alves

"Caçados" pela Graça.

...Deus é quem nos busca. Ele mesmo está empenhado em nos guiar em toda verdade e outorgar-nos os seus atributos comunicáveis. E somente a partir deste esforço celestial que podemos então buscar a Deus. Por isso, somente o buscamos porque Ele nos buscou primeiro. Esta deve ser a raiz de toda nossa espiritualidade e devoção. Fomos "caçados" graciosamente de modo tão irresistivel que agora não resta mais nada, senão escolher a melhor parte como fez Maria, e ficar prostrado aos Seus pés.
Se somos de facto cristãos, não é porque nos tenhamos decidido por Cristo, mas porque Cristo se decidiu por nós. É a busca desse “amante tremendo” que nos torna cristãos.
(Francis Thompson )
Ler versão integral do texto Aqui no Blogue Soli Deo Gloria

"Nem só de Pão Viverá o Homem"...

“Tenho-vos mostrado em tudo que, trabalhando assim, é mister socorrer os necessitados e recordar as palavras do próprio Senhor Jesus: Mais bem-aventurado é dar que receber” (At 20:35).“E Jesus lhe respondeu, dizendo: Está escrito que nem só do pão viverá o homem, mas de toda a Palavra de Deus” (Lc 4:4).

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Faz parte dos anais da tradição decorrente da Reforma religiosa na Europa o respeito pela autoridade e integridade das Escrituras. “Sola Scriptura” ficou como um dos poucos fundamentos indiscutíveis do movimento de restauração espiritual do Cristianismo, iniciado pelo alemão Martinho Lutero, no século XVI e depois consolidado por Calvino. O evangelicalismo, que sucedeu historicamente ao movimento protestante ou reformado, manteve a tocha acesa deste princípio, porventura ainda com mais assertividade e compromisso do que nunca. O pentecostalismo, que atravessou o século passado numa dinâmica de crescimento global explosivo, nunca deixou cair o cuidado pela integridade do texto bíblico, independentemente das suas interpretações. Mas o neopentecostalismo tem vindo a dar sinais de querer anular este velho princípio que norteou gerações sucessivas de cristãos em todo mundo, no último meio milénio. Como? Ao promover uma abordagem às Escrituras cada vez mais irreverente, isto é, embrulhando-a num pacote “comercial” que desvirtua a essência e a totalidade da Palavra Revelada. Longe do abnegado espírito missionário das Sociedades Bíblicas em todo o mundo, alguns líderes neopentecostais estão a promover edições especiais do livro sagrado dos cristãos, de acordo com as suas doutrinas.Bem sei que por enquanto são só comentários, anotações e auxiliares de leitura, mas já falta pouco para vermos o próprio texto bíblico “adaptado” às doutrinas neopentecostais, à boa maneira dos russelistas ou, quem sabe, que integrem novas revelações, como as famosas tabuinhas de ouro dos mórmons. Assim têm surgido as bíblias disto e daquilo, para todos os gostos. Mas não me refiro a edições como a Bíblia da Mulher, Bíblia Teenager, Bíblia do Ministro, Bíblias de Estudo e outras do género, pois normalmente não são mais do que adequações da apresentação (formato, capa, tamanho de letra, destaques, mapas, tabelas, etc.) com vista a públicos definidos. Refiro-me a uma outra coisa, que se reveste de contornos de gravidade, e que entra no campo da manipulação e do abuso da boa fé das pessoas, tendo em conta a sua ignorância. Um dos últimos exemplos disto é a Bíblia da “Batalha espiritual e vitória financeira”, recheada de comentários altamente controversos (para não dizer pior) de Morris Cerullo, cuja propaganda afirma “Creia na palavra do Profeta de Deus”. Assim mesmo. O importante já não é crer na Palavra de Deus, mas na palavra de um homem que se intitula “Profeta de Deus” (com P maiúsculo, sim!). A Palavra de Deus foi substituída pela palavra do homem!… As pessoas são desafiadas, não a comprar uma Bíblia, mas desta forma pouco honesta, e mais própria de uma campanha publicitária de electrodomésticos: “Faça a sua oferta voluntária de 900 reais (cerca de 350 euros) e ganhe a bíblia de estudo tal”. Porquê 900 reais? Por um puro delírio numerológico (a justificação é estarmos em 2009!), que daria para rir se não fosse triste. É preciso descaramento… Afirma Pedro: “(…) nenhuma profecia da Escritura provém de particular elucidação; porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana (…)” (1 Pd 1:20-21). Só falta dizer que aquele exemplar da Bíblia é melhor do que um outro qualquer, adquirido numa livraria cristã, porque tem as anotações do pregador tal, e portanto será mais abençoada, mais poderosa, mais Palavra, em suma, funciona melhor. São por demais evidentes os laivos de simonia nesta manobra (At 9:9-25). Actos dos Apóstolos conta-nos de Simão, o mágico, que ofereceu dinheiro aos apóstolos para também impor as mãos e as pessoas receberem o Espírito Santo, com a evidência das línguas estranhas. Neste produto em particular, Cerullo chega a prometer, num dos comentários, uma “unção financeira especial”: “É hora de Deus acabar com a escravidão das dívidas e da pobreza no meio do seu povo!”, uma vez que “pobreza é escravidão”. Mas o Apóstolo Pedro diz: “Assim como, no meio do povo, surgiram falsos profetas, assim também haverá entre vós falsos mestres, os quais introduzirão, dissimuladamente, heresias destruidoras, até ao ponto de renegarem o Soberano Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina destruição” (2 Pd 2:1).Como alguém disse, por esta ordem de ideias podemos dizer que Jesus era escravo, pois “não tinha onde reclinar a cabeça” e os cristãos de Roma seriam igualmente escravos, pois viviam em catacumbas. Sugere-se assim que, utilizando aquela edição da Bíblia e as suas orientações dadas nas notas e comentários, a pessoa alcançará vitória financeira, como que por magia. Mas nada de ensinar mordomia cristã, princípios bíblicos de gestão financeira ou uma vida de obediência e fidelidade a Deus.Oferece-se assim este mundo e o outro em troca de 350,00 €, mas o facto é que a própria Bíblia ensina não ser Deus quem oferece o mundo em troca de adoração, mas sim o diabo (Mt 4:9). Esta manipulação e estas negociatas com a Palavra são chocantes para quem ama e respeita a Bíblia e a reconhece como Revelação de Deus, porque configura um mercantilismo enganador e intolerável em qualquer líder cristão que se preze. Estou convicto de que, se Jesus voltasse agora cá abaixo faria com estes “vendilhões do templo” o mesmo que fez com os outros, há dois mil anos, no átrio do Templo de Jerusalém. Corria com eles. Violentamente.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Cantar faz bem à Vida...

( imagem D.N. )

Investigadores portugueses da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa acreditam que a capacidade acústica das cigarras, que cantam durante grande parte da sua vida, está associada à reprodução e evolução da espécie. E consideram que a diversificação dos seus cantos pode ser até responsável pelo surgimento de novas espécies Já dizia a fábula, e até de um modo meio depreciativo, que enquanto a formiga trabalha, a cigarra canta. Pois, agora, os investigadores portugueses descobriram que, durante essas horas de canto, as cigarras podem estar a contribuir para o desenvolvimento da espécie. E que a diversificação dos seus cantos pode até explicar o aparecimento de novas espécies. Três estudos publicados em revistas internacionais da especialidade revelam novas características destes insectos. Os trabalhos foram realizados por investigadores do Centro de Biologia Ambiental do Departamento de Biologia Animal da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e da School of Biosciences da Universidade de Cardiff (no Reino Unido), que contribuiu na parte genética dos estudos. Estes insectos têm olhos grandes e uma capacidade acústica que, nos dias de maior calor, pode atingir os cem decibéis. Os machos, pois as fêmeas são silenciosas. As cigarras chegam a viver 17 anos, sendo dos insectos com maior esperança de vida. Mas grande parte do tempo passam-no a alimentar-se e a crescer debaixo de terra. Daí saem por algumas semanas, na fase ninfa, para se reproduzirem e morrerem. No tempo que passam à superfície, toda a energia é usada no acasalamento e na deposição de ovos em plantas herbáceas. José Alberto Quartau, especialista da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, explicou à Lusa o trabalho. "A investigação tentou comparar a evolução de algumas espécies de cigarras ao longo de várias gerações, a níveis morfológico, genético e comportamental." E a conclusão prova que a comunicação acústica é usada essencialmente na reprodução. "É um exemplo muito bonito de como a comunicação acústica tem um papel muito importante na criação de novas gerações, ao servir de sinalização dos machos para atrair as fêmeas da sua espécie." Esta comunicação acústica implica grande dispêndio de energia, pois os machos chegam a cantar horas seguidas no tempo de maior calor. Fazem-no através da vibração de membranas, provocada pela contracção de músculos. Ao constatar que a evolução enveredou nestes insectos pela comunicação acústica, por lhes trazer grandes vantagens, os investigadores vão tentar agora demonstrar que o aparecimento de novos sinais acústicos poderá estar na origem da criação de novas espécies.
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In Diário de Notícias Online de 17 de Agosto de 2009

Coisas que a Memória não Leva

"Minha memória já quase se foi, mas eu recordo duas coisas: Eu sou um grande pecador, Cristo é o meu grande salvador."
John Newton

Crónica de Férias - 1: Acerca de Filas de Trânsito e Águas Cálidas

Raramente me acontece iniciar as férias a um Domingo. Aconteceu-me este ano.
Ainda a pensar que vamos apenas descansar e usufruir de um tempo diferente das nossas rotinas ao longo de um ano de trabalho, e aí está: levamos com uma fila de trânsito igualzinha às que habitualmente nos acontecem quando temos que ir todos os dias para o trabalho ; a diferença é que acabámos de entrar de férias.... e isso dá-nos a descontração suficiente para saber retirar dividendos até de uma fila de trânsito. "Calma, ouve a música na RFM, observa o entardecer, fala com a família sobre temas que habitualmente não abordas", etc, etc, são coisas que nos vêm à cabeça. E acho que resulta... Quando damos conta, estamos a chegar a casa , vindos da "inauguração" da nossa época balnear, sem nos termos preocupado com a fila de trânsito mais do que ela merecia, retirando ainda dividendos interessantes, nomeadamente com momentos de descontração que propiciaram conversas que a agitação do dia a dia da vida urbana não permite.
Aprendi assim mais uma lição ( se é que intimamente não a conhecia já ): ver coisas boas no meio de coisas más. Retirar "bónus"pessoais positivos de situações que nos parecem francamente aborrecidas. Chega à minha memória Mateus 6:34; "Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal."
De resto, o Algarve continua a atrair-me, e não necessariamente pela paisagem... apesar de esta, no que respeita ao litoral, se ir alterando, para melhor, de ano para ano.
São as águas cálidas, sim cálidas como já há três para quatro anos não me acontecia; só aqui, no "meu Algarve" , ainda sem grande registo dos atentados que foram feitos à Costa, no Barlavento, eu corro para a água, a tratar de me recompor da falta dela, a temperaturas aceitáveis para a minha "pele de galinha", em latitudes onde o Verão normalmente estagia perto de minha casa. Será por isso que o mapa da geografia humana se inverte no verão em Portugal ? Desconfio que sim.
Nota 20 para o cuidado que as autarquias do Sotavento algarvio estão a colocar nos arranjos e nas acessibilidades às suas praias facilitando, e muito, a vida, a todos os que as procuram, para além, claro, do alindamento da orla marítima, com implantação de espécies arbustivas autóctones. Talvez por isso o número de espanhóis que frequentam as nossas areias finas e brancas de biliões de grãos a fazer lembrar a imensidão de gente resgatada pelo sangue do Cordeiro que povoará o Céu, aumentou exponencialmente. Isso é bom para o país e para a auto-estima dos portugueses. Nem tudo pode ser sempre mau. Ainda bem, porque eu até sou um Português-Iberista convicto.
Por mim, esta invasão espanhola é bem-vinda !

Jacinto Lourenço

Manutenção da Vida

O facto de termos sido criados não encerra a questão que Cristo aborda. Não apenas fomos criados, mas uma providência misteriosa nos sustenta. A questão muda de tom. Não apenas vim à existência, mas estou vivo agora. Como explicar a minha vida nesse exato momento? Não falo da cor dos olhos, pele e cabelo. Falo sobre o fato de que o coração está batendo nesse instante. Sinta a sua respiração. Essa é a vida sobre a qual Cristo fala. Pois bem, responda-me: a que você atribui a manutenção dessa mesma vida? Com espanto percebemos que estamos vivos devido a todo um histórico de sobrevivência às ameaças mais sérias pelas quais nossa vida passou. Pense em tudo. Tragédias naturais, enfermidades incuráveis, violência urbana, entre tantos outros sustos mais que experimentamos no chamado “vale da sombra da morte”. Ora, você e eu somos resultado não apenas de algo que aconteceu antes do tempo, quando na eternidade uma possibilidade na mente divina, transformou-se em decreto, que por sua vez virou certeza de vir-a-ser-o-ser, para por fim transformar-se em algo que bebe, come e vive. Você e eu somos produto de algo que aconteceu também no tempo e no espaço. Aquele que decretou a nossa existência decretou também a preservação da nossa vida em tais e tais circunstâncias. A pergunta é: qual o nosso papel em tudo isso? O que descobriremos? Descobriremos que estamos vivos devido a um cuidado providencial de um ser que fez por nós o que não poderíamos fazer em favor da nossa própria vida. Por que o seu coração não parou de bater um minuto atrás?A vida é mais do que o que é necessário para a sua manutenção. Não é só comer, beber e se vestir. Para viver é necessário um estômago que receba o alimento, um rim que seja purificado pela ingestão de água e um corpo que sinta frio e calor. Se um cuidado providencial é manifestado no fato da nossa existência concreta, porque haveríamos de duvidar dessa mesma providência quanto ao que é secundário – o sustento dessa mesma vida? Deus nos deu a vida, e, por não estar brincado com a sua criação, nos dará também o que é necessário para a sua manutenção.
António Carlos Costa Via Genizah

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Impressionismo-Degas

Judeu eleito para órgão da Fatah

Judeu israelita anti-sionista eleito para órgão da Fatah
Um judeu israelita foi hoje eleito para o Conselho Revolucionário da Fatah, no dia em que finalmente encerrou a conferência da facção em Belém, Cisjordânia. Trata-se do militante anti-sionista Uri Davis. A Fatah anunciou hoje os nomes dos 80 novos membros do Conselho Revolucionário, para o qual foram eleitos sobretudo membros da Fatah com menos de 40 anos e ainda várias mulheres, entre elas a mulher de Marwan Barghouti, o palestiniano condenado e preso em Israel que estava entre os escolhidos para o Comité Central da Fatah, segundo a agência palestiniana Ma’an. O Comité Central é o organismo mais importante do movimento, seguido do Conselho Revolucionário. Davis é professor de Sociologia na Universidade Al-Quds de Jerusalém e vive na Cisjordânia. O professor de 66 anos é casado com uma palestiniana. “Tenho nacionalidade israelita e britânica, mas considero-me sobretudo palestiniano”, disse Davis, ontem, à AFP. O professor universitário refere -se ao Estado de Israel como um estado de apartheid e defende boicotes às suas instituições. Davis preferia ver um estado democrático comum para israelitas e palestinianos.[...]
In Jornal Público de 15 de Agosto de 2009
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Admito que lancei o olhar por umas duas ou três vezes para a Notícia do Público afim de validar que o título do artigo estava correcto e alinhado com o texto a seguir. E não restaram dúvidas. Era mesmo! Estava lá: "Judeu israelita anti-sionista eleito para órgão da Fatah" . Pensei: "não pode ser, o homem não pode ser judeu israelita. Lá o ser anti-sionista ainda é como o outro; eu também o sou, naquilo que essa expressão modernamente adquiriu enquanto "semi-metáfora" ( se é que esta coisa de semi-metáfora alguma vez se possa entender o que seja - mais do que provavelmente, só eu perceberei como semelhante figura possa servir na interpretação de qualquer texto . Mas como já existe a semi-colcheia... pode ser que a coisa passe aos puristas e "fariseus" da língua ) de crimes contra a humanidade". Agora, judeu israelita e ainda por cima dirigente da Fatah.... Não me deixei intimidar pela coisa em si e arrisquei de imediato: "isto é a minha cabeça que está formatada desta maneira" - sim, porque eu tenho uma cabeça formatada pela cultura ocidental-americanizada e normalmente pró-judaica, para além, claro, de manter uma manifesta simpatia, por Israel, enquanto nação e povo, sendo que isso não me impede de ser dotado de senso-comum e razão para poder olhar, com olhos humanos, mais ou menos friamente, o que assiste justamente ao povo palestiniano . Então percebi, de imediato, o porquê da minha admiração pela notícia do Público. Mas sou dos que desarmam rapidamente sem explorar a coisa até ao fim... Vai daí, imaginei de imediato, que, um dia, ainda veríamos, igualmente, um membro da Fatah a entrar, calma e descontraidamente , com um jornal palestiniano debaixo do braço e tomar, confortavelmente, o seu assento no "Knesset" (parlamento Israelita situado em Jerusalém ), e ler a notícia do dia editada em duas línguas de forma a que tanto Israelitas quanto Judeus entendam que a Paz não pode ser uma "semi-metáfora". Claro que, depois temos a Bíblia... mas aí não vejo razões para que povos distintos não possam ser bons vizinhos e cooperem um com o outro no sentido da dignificação de ambos, mesmo que isso não tenha que significar andarem sempre aos beijos e abraços ( que é uma coisa que povos do médio oriente adoram fazer ). Já não era muito mau que se calassem as armas e se acabasse de vez com a linguagem "semi-metafórica da guerra", que isso sim, não tem razão para existir, mesmo que o futuro não assente num passado percorrido lado a lado. Mas em política raramente isso acontece, e eu só estou a falar de política...
Jacinto Lourenço

domingo, 16 de agosto de 2009

Interpretação de Expressões Faciais

Cultura condiciona a interpretação das expressões faciais
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A cultura e a origem geográfica condicionam o modo como os seres humanos interpretam as expressões faciais - e uma cara de asco não é a mesma coisa para um ocidental e para um asiático, segundo um estudo científico. A investigação, realizada pela Universidade de Glasgow (Escócia) e publicada na revista "Current Biology", concluiu que as pessoas da Ásia oriental têm maior dificuldade em distinguir entre expressões, porque se fixam sobretudo nos olhos do interlocutor. Segundo o estudo, que põe em causa a universalidade da máxima "a cara é o espelho da alma", os asiáticos, em maior grau do que os ocidentais, tendem a ver surpresa numa cara de medo e nojo numa que realmente mostra enfado. O motivo, na opinião de Rachael Jack, co-autora da investigação, é que os indivíduos de diferentes grupos culturais são propensos a observar distintas partes da cara para interpretar uma expressão. Os investigadores comprovaram que os asiáticos tendem a fixar-se mais nos olhos da outra pessoa, enquanto que os ocidentais costumam olhar para o conjunto da cara. A experiência consistiu em mostrar a 13 ocidentais e a 13 asiáticos imagens de sete expressões faciais: felicidade, tristeza, indiferença, enfado, asco, medo e surpresa. O movimento dos olhos dos participantes na investigação foi monitorizado por forma a determinar para onde eles dirigiam o olhar, o que permitiu verificar as diferenças entre os membros de um grupo e do outro. Rachel Jack pensa que "o que mostra a região do olho é ambíguo", o que altera a percepção de quem se concentra nessa zona. Os autores do estudo assinalaram que esta diferenciação cultural entre ocidentais e asiáticos no modo de interpretar as caras ocorre também com os "emoticons", caracteres tipográficos utilizados na internet para exprimir emoções. Os "emoticons" asiáticos apresentam traços muito mais marcados na parte superior do rosto, principalmente nos olhos, ao passo que os ocidentais acentuam a parte inferior, sobretudo a boca.
In Diário de Notícias de 12 de Agosto de 2009

Impressinismo - Degas

Greatest Love of All