sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Hebreus, uma Epístola Historiográfica

A Exposição aos Hebreus tem pouquíssimas marcas do seu tempo, contextualizações e referências contemporâneas(quase todas nos últimos sete versículos) e no entanto tem um capítulo que é uma espécie de sumário do Velho Testamento, uma historiografia da Fé.Não mostra nome de autor, por evidências internas no texto (5,12-13; 13,23) a garantia de ter sido escrita pelo apóstolo Paulo não é definitiva, nem tão pouco por Pedro (11,7; 13,20), não obstante o que poderia parecer evidente. Também não por Apolo, embora Lutero lançasse por muito tempo hipóteses. Apenas para citar termos empregues que estão na linha de pensamento e expressão, ou referências históricas pessoais daqueles dois apóstolos e autores bíblicos, atentos à estrutura estilística de algumas frases.Tão-pouco se dirige a alguma igreja territorialmente implantada. Quando se refere a uma, no sentido de assembleia, fá-lo de uma forma universal e, digamos assim, cósmica e espiritual: a universal assembleia dos santos, a paneguris ekklésia.No entanto, é uma epístola que pode ser designada como historiográfica porque também trata de História, a história do povo hebreu, na perspectiva mosaica, e a referência dos factos da fé dos patriarcas antes da história. [...]
João Tomaz Parreira
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Charles Swindoll na Transmundial Portugal

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quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Como o "Inferno de Dante"

( Imagem de jornal Público )
Horas de telescópio revelaram densidade, massa e composição de planeta

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CoRoT-7b: um exoplaneta rochoso como a Terra e quente como o "Inferno de Dante"
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O CoRoT-7b foi anunciado em Fevereiro deste ano como um dos exoplanetas mais pequenos que se conhecia. Alguns meses depois e muitas horas de observação fizeram com que os cientistas conseguissem obter o tamanho, a massa, a densidade e até estimar a composição do planeta que cai na categoria das super-Terras e que parece ter as condições de um "Inferno de Dante".“Fizemos tudo o que podíamos para aprender o que o objecto descoberto pelo satélite CoRoT é, e descobrimos um sistema único”, disse em comunicado Didier Queloz, líder da equipa que está à frente das observações, e que não se conteve com todas as descobertas: “Isto é ciência no seu mais excitante e fantástico melhor.”O planeta, que tem um raio 80 por cento maior do que a Terra, foi descoberto pelo satélite CoRoT que está concentrado em encontrar exoplanetas. O satélite encontrou uma sombra suspeita numa estrela um pouco mais pequena e menos quente do que o sol, na direcção da constelação de Unicórnio. A estrela, chamada de CoRoT-7, está a 500 anos-luz de nós, tem apenas 1,5 mil milhões de anos de vida (o Sol tem cerca de 4,5 mil milhões de anos). O satélite detectou uma descida cíclica na luminosidade do sol, que poderia ser a passagem de um planeta, mas não conseguiu saber mais sobre o tamanho e massa por causa das manchas estelares produzidas pela estrela, que tal como acontece com o nosso Sol são regiões mais frias e escuras, à superfície da estrela.As manchas dificultavam o sinal do planeta, e impediram a medição da massa. Foi necessário observações acrescidas através do melhor aparelho para detectar exoplanetas – um espectrógrafo chamado High Accuracy Radial velocity Planet Searcher (HARPS) que está instalado no Telescópio de La Silla no Chile – serviu para fazer estas medições.“Apesar do HARPS ser certamente impossível de se ganhar quando se fala em detectar exoplanetas, as medições para o COROT-7b revelaram-se tão exigentes que necessitámos de 70 horas de observações”, disse o co-autor do artigo François Bouchy. O planeta está incrivelmente perto da CoRoT-7, apenas a 2,5 milhões de quilómetros de distância – 23 vezes mais próximo do que Mercúrio está do Sol – e a cada 20,4 horas, o tempo de uma translação, apaga uma fracção da luz emitida pela estrela. Isto permitiu inferir que a massa é cerca de cinco vezes maior do que a Terra. É por isso que foi classificado no rol das super-Terras, uma classe que junta 12 exoplanetas. [...]
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Imagens Intemporais - 5

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Exposição Universal de Paris - França em 1900

Igreja é Coisa de Gente de Deus

Igreja tem que ser coisa de gente de Deus, de gente livre, de gente sem medo, de gente que anda e vive, que deixa viver, que crê sempre no amor de Deus; e sobretudo, é algo para gente que confia, que entrega, que não deseja controlar nada; e que sabe que não sabe, mas que sabe que Deus sabe... Somente gente com esse espírito pode ser parte sadia de uma igreja local, por exemplo. Entretanto, para que as pessoas sejam assim seus pastores precisam ser assim.Se o pastor é assim, tudo ficará assim. Ou, então, o tal pastor não emprestará a sua vida para o que não seja vida, e assim, bem-aventuradamente deixará tal lugar de prisão disfarçada de amor fraterno. Em igreja há problemas...É claro... Afinal, tem gente!Mas nenhum problema humano tem que ser um escândalo para a verdadeira igreja de gente boa de Deus.Numa igreja de Deus ninguém tem que ser humilhado..., adúlteros não tem que ser “apresentados” ao público..., ladrões são ajudados a não mais roubarem...,corruptos são tratados como Jesus tratou a Zaqueu..., e hipócritas são igualmente tratados como Jesus tratou aos hipócritas...; ou seja: com silencio que passa..., mas, ao mesmo tempo, não abre espaço... Na igreja de gente boa de Deus fica quem quer e até quando deseje... E quem não estiver contente não precisa ser taxado de rebelde e nem de insubordinado... Ele é livre para discordar e sair... Sair em paz. Sem maldições e sem ameaças; aliás, pode sair sem assunto mesmo...Na verdadeira igreja não há auditores, há amigos. Nela também toda angustia humana é tratada em sigilo e paz.Igreja é um problema?... Sinceramente não acho... Pelo menos quando a igreja é assim, de gente, para gente, liderada por gente, com o propósito de fazer de toda gente um humano maduro — então, creia: não há problemas nunca, pois, os problemas em tal caso nada mais são do que situações normais da vida, como gripe, febre ou qualquer outra coisa, que só não dá em poste de ferro... Tudo o que aqui digo decorre de minha experiência... Não é teoria... Pode ser assim em todo lugar... Mas depende de quem seja o pastor... E mais: se o povo já estiver viciado demais nem sempre tem jeito... Entretanto, se alguém decide começar algo do zero, então, saiba: caso você seja gente boa de Deus, e que trate todos como gostaria de ser tratado..., não haverá nada que não seja normal, pois, até as maiores anormalidades são normais quando a mente do Evangelho em nós descomplicou a vida.
Pense nisso!...Nele,
Caio Fábio

A Igreja MotoSerra...

Podemos ser uma igreja que actua de forma artesanal ou industrial

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Avistei uma árvore caída na rua. As raízes romperam o duro cimento da calçada e ela tombou – o que antes fora um enorme ser vivo, agora era um toco agonizante. Abatida e torcida, a árvore parecia gemer com as suas fracturas expostas. Continuei andando e pensando o seguinte: uma coisa é derrubar uma árvore com um machado, e outra, bem diferente, é abatê-la com uma motoserra. A natureza recompõe-se e renova-se. Não podemos dizer que o lenhador seja um agressor, que por capricho e raiva abate as pobres árvores. No entanto – pensava eu enquanto caminhava –, o mesmo não podemos dizer daqueles que derrubam árvores com potentes motoserras. As grandes, derrubadas para atender às demandas industriais, à primeira vista, parecem que são mais velozes do que a natureza no seu esforço para se recompor. É claro que estes pensamentos me ocorreram e eu não tinha a menor pretensão de sistematizá-los, ou sequer de que fossem coerentes. Simplesmente estava pensando enquanto andava, até que encontrei um pastor que estava à porta do templo esperando outros colegas para uma reunião de oração. Ele me disse que regularmente um grupo pequeno de pastores se reúne ali para orar e pensar no que chamou de “ferramentas adequadas” para a construção dos seus ministérios. Foi neste instante que falou algo que me intrigou: “Nós podemos realizar o ministério com várias ferramentas. Podemos usar um serrote ou podemos usar uma motoserra. Onde estamos e o que queremos é que vai determinar o tipo de instrumentos que queremos usar.” Apanhei um susto quando ele disse aquilo. Parecia que o diálogo com ele não se situara à volta do que eu falava com ele , mas do que eu pensava para mim. Por uns instantes, fiquei calado, sem saber o que representava aquela coincidência. Os outros pastores chegaram e o diálogo sobre ferramentas ministeriais terminou sem que eu dissesse nada sobre o que vinha pensando acerca de machados e motoserras desde que vira aquela árvore tombada na rua. A primeira coisa que me veio à mente foi a de que podemos optar por sempre ser uma igreja que produza em escala industrial. É óbvio que, para conseguir esse objectivo, é necessário ajustar-mo-nos aos procedimentos típicos de uma indústria. Numa igreja com este ênfase, tempo é dinheiro, templo é a marca, a eficiência é tudo, os media são o padrão e as pessoas são números. Convenhamos que uma igreja que se organiza assim e produz em função disso, está adequadamente afinada com o espírito da nossa época. Noutras palavras: podemos ser uma igreja com “motoserra”, que só actua pensando na produção em larga escala e aceita os desafios de hoje impostos pelo mercado religioso. Já uma igreja que entende que o seu trabalho não pode ser generalizado e impessoal prefere talhar o carácter dos seus membros. Para isso, o trabalho tem que ser artesanal. Peça por peça, vida por vida. As particularidades de cada um não são a excepção. Para quem tem a missão de formar pessoas usando como modelo o próprio Jesus Cristo, não há pressa. Estamos falando de uma igreja comunitária, onde os vínculos profundos se formam. Nesta igreja, tempo é partilha, templo é aconchego e discipulado é a pérola de grande valor. As pessoas ali sabem que Deus as conhece pelo nome e as ama – é por isso que a igreja por elas se interessa, pretendendo também conhecê-las e amá-las. Uma igreja artesanal lida com a complexidade humana, sem simplificações dos chavões religiosos e sem as subtilezas da linguagem de um marketing viciado e agressivo. Devemos promover um ministério marcadamente artesanal, onde cada um ponha a mão na parte que lhe cabe, definida pelo Espírito Santo, para a execução daquilo que Deus define como a nossa tarefa para este tempo. Queremos e devemos produzir, construir, edificar, mas sem causar males à natureza do Evangelho e às pessoas. O que pautará a nossa atitude é o carácter de Cristo e não o espírito mercantilista do nosso tempo. É notório que as igrejas que caem na tentação de actuar com motoserra acabam por sofrer pelos seus próprios desvios: conseguem visibilidade, mas anunciam, com os seus discursos, práticas e alianças que renunciam ao essencial para não perder o emergencial. Que rumo o Senhor quer que tomemos? As respostas que a igreja de Antioquia encontrou, mencionadas em Actos 13 podem ajudar-nos. Ali havia profetas e mestres – mas ambos os ministérios procuravam entender e compartilhar a palavra de Deus. Profetas anunciam coisas novas, convidam aos rompimentos, estimulam, inquietam, provocam, confrontam. A voz profética é, sobretudo, uma voz que lembra aos esquecidos o rumo apontado e determinado por Deus. E o Senhor não está retido no passado distante. Deus fala, e fala ao homem de hoje. Quanto aos mestres, esses ensinam apontando para a revelação de Deus e fazem-no com a sua própria vida. O verdadeiro mestre é aquele que experimenta o conteúdo do que ensina. Que haja entre nós a voz de Deus que anuncia as coisas novas e a voz de Deus que não nos deixa esquecer a sua revelação ao longo da história.
Valdemar Figueredo Filho

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Imagens Intemporais - 4

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Exposição Universal de Paris - França em 1900

Protegemos o que Amamos

"Nós protegemos o que amamos”, declarou recentemente o filho de Jacques Cousteau. Se alguém não cuida, é porque não ama. Ou seja, descuidar a natureza e a si mesmo é a evidência não apenas de desnaturação, mas também de falta de amor à vida e a si próprio. Por exemplo, quem sorve constantemente as 4.720 substâncias contidas no cigarro, muitas delas cancerígenas, maltratando assim sua “casa corporal”, (1ªCor.12:22) dificilmente será consistente na defesa da “casa comum”, até porque não se importa com os fumadores passivos ao seu redor nem com a condição de semiescravidão dos fumicultores. Quem se conforma com a “dose diária inaceitável” de agrotóxicos no leite materno e nos alimentos em geral não se interessará em desmascarar o agronegócio como insustentável em termos ambientais (devastação), sociais (trabalho escravo) e económicos (rendição ao sistema bancário e às multinacionais controladoras das sementes e da maléfica transgenia). Logo, a tolerância com as pequenas incoerências pessoais é uma das causas da pouca eficácia do cuidado pela natureza no nosso sistema de crescimento económico. Pois, contraditoriamente, ninguém se opõe à preservação ambiental. Afinal, trata-se de um empreendimento ganha-ganha para todos, hoje e no futuro. Contudo, que a promovam os outros e que ela não tolha o nosso modo de vida e modo de produção. Diante do muito que está a ser feito e dos poucos avanços na preservação ambiental, Jean-Michel Cousteau acrescenta que, quando olha para uma criança, alvo do amor humano e carente de protecção, consegue vencer o desânimo e renovar o compromisso de lutar pela preservação do planeta. Essa motivação “secular” é desenhada de duas maneiras nos textos bíblicos. A primeira, mais conhecida, é a afirmação de que devemos preservar a criação de Deus porque somos parte dela e incumbidos do seu cuidado: ser criado à imagem e semelhança de Deus (Gn. 1:26) significa ser o estandarte do domínio de Deus sobre a terra, representando, anunciando e executando a vontade benfeitora dEle. Ao Senhor Deus pertencem o mundo e tudo o que nele existe, inclusive os seus habitantes (Sl. 24:1). Além disso, a informação de que Deus considerou muito boa toda a sua criação (Gn. 1:31) faz lembrar que, na concepção hebraica, “bom” é o que está ligado a Deus, ainda que seja “imperfeito”, ao passo que a concepção grega da “perfeição” do cosmos nos leva à crise diante das deficiências físicas. Qualquer ser humano, por mais falho que seja, pode ser útil na mão de Deus. Embora toda a criação esteja gemendo, e nós com ela, o Espírito de Deus geme com ela e connosco (Rm. 8:22-26). Não é bom estar separado de Deus nesta empreitada de cultivar e preservar. A segunda base, menos lembrada, do empenho em favor da preservação, não vem da teologia da criação, mas da experiência da libertação. É a única que transmite a realidade do amor, sempre nas três vias: amor de Deus ao ser humano e à criação, amor do ser humano a Deus, e amor do ser humano ao semelhante e à natureza. Trata-se da interpelação directa de Deus que intervém na história, transformando a criatura humana em sua parceira de diálogo e acção, e revestindo-a de uma dignidade inaudita (cf. Sl 8.4ss). “Eu sou o Senhor, teu Deus, que te arranquei do contexto da escravidão” (Ex. 20:1). É esse amor divino aos e nos humanos que estremece diante de abusos contra seres humanos indefesos como as crianças, que se compadece da frágil biodiversidade e que se deslumbra com a tenacidade da vida. Que lamenta perplexa e criticamente a mercantilização dos patrimónios universais da humanidade: “Nossa água, por dinheiro a bebemos, por preço vem a nossa lenha” (Lam. 5:4). E que levanta a voz, defendendo os direitos humanos, quando escravos libertos submetem outros à corveia: edificar um templo a esse Deus libertador mediante trabalhos forçados? (cf. 1ºRs. 9:15). A intensidade da experiência de Deus na história é indutora da crítica social: Quem vê apenas o problema e não o sistema, não vê o problema. E é indutora da luta em favor de soluções socio-ambientais dignas e consistentes: Não se resolve a questão ambiental à custa da social, nem a social à custa da ambiental. O social e o ambiental estão interligados. Quem não respeita a terra e o ser humano sobre a terra tão pouco respeita o meio ambiente. Assim, desumaniza-se a si próprio. Portanto, cuidemos do jardim por causa de nós mesmos, da nossa coerência connosco mesmos e com nossa posição de interlocutores amados de Deus (Gn. 2:15). A resposta humana a esse amor divino é louvor e reconhecimento: Sim, “os céus são os céus do Senhor, mas a terra, deu-a Ele aos filhos dos homens” (Sl.115:16). É também ser pró-activo, articulando e difundindo modos de vida e de produção com tecnologias sociais e ambientais que respeitem o meio ambiente e a abundância de vida que ela nos propicia, a exemplo da agroecologia, das cisternas no semiárido, dos projectos comunitários de economia solidária. Porém, essa resposta é sobretudo defender os empobrecidos e fragilizados, em consonância com o agir de Jesus. Porque esmagar a cana quebrada e torcer o pavio que fumega não é somente desumano, mas primordialmente antidivino ( Is. 42:3; Mt.12:20).
Werner Fuchs*
* Werner Fuchs é pastor da IECLB, tradutor e coordenador do projeto Mini-Fábricas Comunitárias de Óleo Vegetal, da Rede Evangélica Paranaense de Assistência Social (REPAS).

Camada de Ozono Recupera

( Foto jornal El Mundo - Buraco do Ozono com um ano de intervalo)
A camada de ozono regista uma progressiva mas lenta recuperação pelo que terá de se esperar até 2050 para que se possam alcançar os níveis registados por altura dos anos oitenta. As perspectivas são ainda mais pessimistas na região da Antártida, onde se chegará a esses valores apenas em 2060 - 2075 [...]
Continuar a Ler Aqui, em Castellano, no jornal El Mundo

"A Minha Alma Feminina"

Deus, atrevo-me a chamar-te ao mesmo tempo de Pai e de Mãe. Antes, confesso: minha relação contigo continua inadequada. Sou inepto em lidar com o sagrado. Sei tão pouco sobre o mundo espiritual. Não alcanço como o universo cabe na concha de tua mão. Não sei explicar que antes da explosão primordial que moveu o relógio cósmico, tu já eras. Não compreendo o significado desde sempre. Não posso tratar-te como um fundamento, isso te coisificaria; recuso tentar encapsular-te em definições, isso te reduziria a um ídolo. Pretender definir-te é arrogância. Equivale à ousadia de fazer-te menor que a racionalidade humana. Contemplo-te com a mesma admiração do astrónomo que vasculha o espaço sideral em busca de nebulosas e de buracos negros. Meu coração se enche de “porquês?” infantis. Assombrado, reconheço: não passo de um cisco, uma fuligem que o vento espalha. Quando falo contigo fico em suspensão. Insisto em orar porque pela fé acredito que, de alguma forma, tu me ouves. Embora pareça muito improvável, sinto-me bem-vindo. Desde que me ajoelhei na adolescência e sozinho prometi te seguir, achei-me; mas também, perdi-me. Estranho dizer-te que me encontrei. Na verdade, continuo desconhecido de mim mesmo. Ego e superego não se entendem em minha cabeça. Muitas vezes o meu ego se desestrutura com o assédio implacável de um superego forte. Acovardo-me com as travas da moralidade burguesa que me formou; sofro com as patrulhas ideológicas de meus pares; hesito diante dos exílios sociais. Quando sonho, meu inconsciente arma palcos malucos. Dormindo, assassinei, ajudei necessitados, traí meus filhos, espezinhei amigos. Sei tão pouco sobre minha interioridade. Mas devo a ti algumas descobertas que me enchem de alegria. Acordei para a verdade de que tenho uma alma feminina. Eu defendia a masculinidade como um Titã. Estudava a tua Palavra sem criticar a cultura patriarcal que super valoriza o macho e discrimina a mulher. Um dia senti que me chamavas de “menina dos olhos de Deus”; naquele dia, despi-me do orgulho estúpido de ter nascido com um falo. Passei a inspirar-me nas personagens que conseguiram furar o cerco preconceituoso do mundo antigo, dominado pelos homens. Agora, quero aprender com as mulheres a ser doce, corajoso, transgressivo, perspicaz. Quero o espírito transgressivo de Sara, Rebeca, das parteiras que pouparam a vida de Moisés e Raabe; quero a sagacidade de Tamar, Abigail, Rute e Ester. Mas, minha alma feminina deseja inspirar-se principalmente em tua mãe, Maria. Através de seu exemplo, aprendo disponibilidade. Diferente dela, respondo aos teus apelos com um não posso. Mas Maria não vacilou em dizer: “Cumpra-se em mim”. Adio, postergo, faço-me de rogado, mas Maria nunca hesitou; preciso imitá-la. O exemplo de Maria pode preservar-me da infidelidade. Paro diante da Pietá, que chora o filho morto no colo e reajo: “Meu Deus, que cena comovente”, mas fico por aí. Maria, contudo, do primeiro ao último dia do seu Filho, se manteve presente. Semelhante à tua mãe, almejo ser achado leal. Peço-te ouvir no último dia: “Bem feito, servo bom e fiel”. Isso, para mim, será céu. Amém.
Soli Deo Gloria

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Não Temos todas as Respostas...

* Impossível Deixar de Ler este Texto *
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Hoje vi alguém afirmar que "o cristianismo é uma aposta sem riscos". Não sei quem é o autor desta frase, mas sei que a visão do cristianismo como uma aposta remonta ao filósofo Blaise Pascal. Partindo da premissa de que é impossível “provar” que Deus existe, Pascal conclui que, de um jeito ou de outro, todos nós jogamos dados com Deus, mesmo ele não jogando dados com o Universo. Impossível não concordar com Pascal. Infelizmente (ou não), ser cristão é uma aposta. E não só uma aposta, mas um penhor: Você entrega sua vida aqui, para receber algo melhor no além. É ainda um salto no escuro, como disse Kierkgaard. Nos aventuramos a seguir um Deus que não vemos, e a prova da sua existência e da nossa esperança se reduz em fé (Hb11.1). Houve um tempo em que eu pregava um cristianismo acima de qualquer dúvida. Debatia com ateus, explorava os argumentos de Anselmo e Aquino, dissecava livros do Geisler e do Craig, e assim vendia a idéia de um cristianismo acima de qualquer suspeita. Eu era tolo e não sabia... Hoje, alguns anos mais tarde, descobri que a dúvida é parte de um "pacote" chamado cristianismo. Há lacunas em nosso conhecimento que jamais serão preenchidas. Seguir a Cristo é apostar que tudo o que Ele disse é verdade. As almas sinceras hão-de admitir: Não temos todas as respostas, embora tenhamos respostas suficientes. Não possuímos toda a fé, embora Cristo nos aperfeiçoe na fraqueza. Não sabemos tudo sobre Deus, mas cremos que ele sabe tudo sobre nós. Às vezes pergunto-me: Onde foi que eu andei este tempo todo? E a resposta que encontro é a mesma: Longe, muito longe do Senhor. Com a cabeça cheia de argumentos, mas com o coração oco. Mas eu tinha certezas! Agora, ao contrário daqueles dias, tenho muitas dúvidas. Não entendo porque tem tanta gente boa se arrebentando, se machucando; e tanto hipócrita se dando bem. Os versos assimétricos do poeta Renato parecem reflectir a verdade com uma força indizível: "É tão estranho... Os bons morrem jovens. Assim parece ser." Quem é bom quase sempre se dá mal. O mundo é injusto às vezes, e eu não sei porquê. Porém, apesar de todo esse existencialismo, das repentinas (e passageiras) incertezas, eu nunca me senti tão perto de Deus! É um paradoxo, eu sei, mas tal como as trevas evidenciam a luz por contraste, também a fé se fortalece na dúvida. E eu poderia te dizer qualquer outra coisa, mas isso não seria sincero. Portanto, o que digo é: Você deve crer em Deus, mesmo em face deste mundo injusto, e confiar na Palavra dEle de que um dia a justiça reinará. Minhas dúvidas nunca acabam. Ontem duvidei, por um instante desesperador chorei. Eu quis entender e não pude (e talvez jamais possa). "Os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos, os meus caminhos".Mas há um facto irrefutável. Deus me deu uma certeza que nenhum manual de doutrina cristã pode dar. É quando "O Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus". Ah... certeza insofismável ! Em um instante a nuvem escura se dissipa e a paz novamente reina (ainda que momentânea). "Paz... paz... Cuán dulce paz!"
"E Jesus disse-lhe: Se tu podes crer; tudo é possível ao que crê. E logo o pai do menino, clamando, com lágrimas, disse: Eu creio, Senhor! Ajuda a minha incredulidade."
Leonardo Goçalves

Imagens Intemporais - 3

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Exposição Universal de Paris - França em 1900

Somos todos "mimos"

O meu filho André, o mais velho dos três, que é casado e portanto já não habita comigo, foi em trabalho até um país do mediterrâneo. Nós já brincamos com as suas deslocações, mais ou menos frequentes àquela região, porque o seu tom de pele moreno cobreado e o facto de gostar de usar o cabelo curtinho, emprestam-lhe uma certa aparência dos naturais do país onde está neste momento. O seu francês fluentíssimo, em lugar de ser um elemento facilitador com os populares, que têm essa língua quase como materna, tem-lhe acrescentado algumas dificuldades nas deambulações profissionais; os habitantes acham que ele tem que falar a língua nativa e não o francês ( que só estará a usar por pedantismo ou anti-patriotismo - pensarão eles ), ora o André nunca aprendeu árabe... Há mesmo alguns funcionários de lojas que se recusam a atendê-lo por ele se lhes dirigir na língua francesa... Mas o André lá vai explicando, como pode, que é de origem portuguesíssima, filho, neto, bisneto, trineto e etc, de portugueses que, por sua vez, o são também de outros portugueses de gerações mais antigas ainda.

Mas nada ! De cada vez que vai em trabalho, por alguns dias, a um dos países daquela zona do globo, acontece-lhe sempre o mesmo. Valham-nos o optimismo e o humor que se retiram da situação. Mais tarde todos nos rimos, a bom rir, das histórias que nos traz destas incursões e confusões.

Mas agora foi à sua chegada no aeroporto local de destino. Durante o mini-interrogatório a que foi sujeito, no controlo de passaportes, questionaram-no sobre qual a razão que levou os seus ascendentes familiares a emigrarem para Portugal e não para França... ( e eu até compreendo a estranheza do funcionário... Porque raio alguém havia de ter querido emigrar para Portugal, país paupérrimo nos anos 60, quando se deram as principais vagas de emigração para a europa ? E porque razão o fariam, ainda por cima, os habitantes de uma ex-colónia francesa...? ). Claro que o André teve que explicar tudo do princípio, como da primeira vez que o contou. Da próxima, vou propor que me leve consigo, assim sempre lhe será possível provar, de imediato, que o pai não é nada moreno ou pelo menos é menos moreno que ele, que por acaso atirou à mãe, que é tão europeia quanto eu ou ele.

Acho que o exemplo do que acontece ao meu filho André, é flagrante, e ilustra bem o facto de muita gente ainda acreditar que a nossa identidade é espelhada pela nossa cara. Na verdade, nada mais fácil de iludir.

Somos todos "mimos" ! Isto é, sabemos e podemos utilizar expressões miméticas contrárias aos sentimentos que estarão a dominar-nos intimamente em determinado momento. Extremamente falaciosa, esta atitude . Enganadora para quem acha que até podemos estar a ser sinceros.
Normalmente pensamos que conseguimos avaliar o que exteriormente deixamos transmitir com o nosso rosto, olhando olhos nos olhos, mas nem isso é garante da fidedignidade do que se passa efectivamente no nosso coração e nem mesmo o coração nos traduz sempre toda a verdade.
Para além do mais, somos igualmente mestres na arte da camuflagem. Quais camaleões humanos, adaptamo-nos ao fundo ou ambiente que nos cerca. Por uma questão de sobrevivência ou de falta de coluna vertebral.
Andamos por vista e por obras, quando a Palavra de Deus nos recomenda que andemos pelo seu Espírito, pela sua Graça e pela sua Palavra. Percebemos em Isaias 11: 1-3 que esta é a forma de Cristo andar :
1 Porque brotará um rebento do tronco de Jessé, e das suas raízes um renovo frutificará. 2 E repousará sobre ele o Espírito do SENHOR, e o Espírito de sabedoria e de inteligência, e o Espírito de conselho e de fortaleza, e o Espírito de conhecimento e de temor do SENHOR. 3 E deleitar-se-á no temor do SENHOR e não julgará segundo a vista dos seus olhos, nem repreenderá segundo o ouvir dos seus ouvidos.
Como vimos, a nossa identidade, ou a identidade que os outros nos querem atribuir, ou ver em nós, pode assentar em pressupostos absolutamente falseados.
Tendemos a olhar à cor da pele, à cor dos olhos, dos cabelos, enfim, ao aspecto físico, para fazer juízos de valor sobre quem temos à nossa frente e, normalmente, somos enganados pela nossa intuição ou pela capacidade mimética do nosso interlocutor.
Até mesmo o nosso cartão de identidade pode trair a análise primária à identificação, por essa via. Bilhetes de identidade são falsificáveis, como muito bem sabemos.
Pensamos muitas vezes que as vivências miméticas se reduzem às pessoas com quem convivemos no mundo de trabalho ou nas nossas actividades humanas, fora da igreja. Depois lembramo-nos dos Fariseus. Os piores "mimos" que conheço na Bíblia. Fáceis de identificar, de reconhecer. Não escondem ao que vêm. A Luz é para eles mais prejudicial que a sombra. Denuncia-os, projecta-os, separa-lhes e contorna-lhes a silhueta pecaminosa. É por isso que muitas vezes se escondem nas zonas escuras das igrejas ou à sombra larga dos templos. Aí tudo se confunde aos nossos olhos. Deixamos de perceber quem é quem. Só Cristo entende e denuncia. Nós, só pelos frutos os conheceremos, através do tempo.
Hoje, na igreja de Deus, os "mimos" são tantos ou mais do que os fariseus, mas ao contrário destes, vestem-se de "luz" para evitar a projecção da sombra denunciadora da silhueta falaciosa.
Há uma marca identitária que não deixa ninguém ficar enganado. Ela define-nos a identidade enquanto cidadãos dos céus.
Existe um versículo bíblico que diz claramente quem somos e porque somos :
1ª João 3:14 “Nós sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos; quem não ama a seu irmão permanece na morte.”
Este verso bíblico fornece-nos como que um género de "chip" espiritual, uma marca identitária do cristão e a sua posição perante o Reino Celestial e o reino terreno, e ninguém a consegue imitar, "mimar", copiar ou falsificar. Ela clarifica e indica como se pode reconhecer um cidadão dos céus. Aqui não há camulagem possível nem habilidade mimética que valha. Ou somos ou não somos! Nessa medida, será fácil, sem nenhuma confusão, identificar um filho de Deus, independente da sua cor de pele, do seu local de nascimento ou do seu posicionamento geográfico em qualquer momento da sua vida.
Jacinto Lourenço

As Guinadas que a Vida dá

A vida dá guinadas. O torvelinhar dos vendavais joga a existência contra rochedos pontiagudos. Impotentes, somos tangidos por decisões alheias. Inaptos e entupidos de receios, notamos nossa história tornar-se um trágico enredo de folhetim. O que fazer? Não dispomos de meios para controlar, subjugar, impor, nossa estúpida vontade. A vida esbofeteia. A reputação protegida despenca até bater no lajeado seco. Piranhas, de fisgada em fisgada, nos tiram a vontade. Nossa dignidade é arrancada devagarinho. Dói descobrir que não somos o personagem que imaginávamos. O esforço para não repetir desastres, pifou. Prometemos não perpetuar ciclos e mordemos a língua. Juramos que não aceitaríamos repetir biografias, tudo inútil. A vida se esvai sem muitas opções. Longevidade cobra em libras esterlinas. Quem durar se condena a encarquilhar. Morrer cedo ou virar caquético, eis a questão! Lemos, aprendemos, amamos e nos emocionamos, mas uma foice pode acabar com tudo. Basta um coágulo, um aneurisma, um curto circuito em uma sinapse e vegetamos. O tiquetaqueador genético não acompanha os cronômetros. Poucos, pela robustez, dão prejuízo às companhias de seguro. A grande maioria, previsívelmente, se esmiuça. A vida exige conformação. Não adianta relutar. Azeda quem não aceita solavancos, dias maus, lobos e traições. Indinação somatiza úlcera duodenal. Os revoltados esmurram pontas de faca. As oligarquias se perpetuam nos palácios. Chacais, em matilhas, continuarão a vagar pelo parlamento. Amebas infestarão as águas bentas. Sarnentos vão calar o profeta. O Coisa-ruim continuará a degolar as santas. O Tinhoso se confundirá com o pregoeiro da justiça. A vida debilita. Portanto, os impotentes, só eles, conseguem viver um dia de cada vez. Todos os demais se condenam ao enfado. Resta reafirmar: bem aventurados os humildes. Eles esperam o Reino que, fora da história, foi o tema de Jesus.
Soli Deo Gloria

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Imagens Intemporais - 2

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Exposição Universal de Paris - França em 1900