terça-feira, 3 de novembro de 2009

Leitura Pós-Moderna do Texto Bíblico

Uma das principais características do pós-modernismo é a relativização da verdade. De acordo com os profetas da pós-modernidade, não existe uma verdade absoluta, tudo é relativo. É por isso que é muito comum ouvirmos por aí alguns mantras como: "isto é verdade para você, mas não é verdade para mim", "a verdade é apenas uma questão de perspectiva", e assim por diante.[...]
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Daniel Grubba
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segunda-feira, 2 de novembro de 2009

"Jorge de Sena Escrevia e Ficava Tudo Explicado"

Jorge de Sena foi um escritor "enorme, nas melhores coisas que fez" e uma das "figuras mais controversas e mais complexas" da Literatura portuguesa, na opinião do escritor Casimiro de Brito, presidente da assembleia geral do PEN Clube português. "O melhor de Jorge de Sena é do melhor que se escreveu em Portugal", sintetizou, em declarações à agência Lusa. No poeta de "Peregrinatio ad loca infecta", segundo Casimiro de Brito, "a mágoa" é uma presença recorrente e com "duas vertentes - literária e política". Na literária, observou, Sena "tem razão e não tem" e parte do esquecimento a que os contemporâneos votaram a sua obra poderá explicar-se pelo facto de o próprio escritor se desdobrar em explicações e análises nos livros, prefácios e críticas que escrevia. "Ele escrevia e ficava tudo explicado", resumiu.[...]
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Nota Ab-Integro: Jorge de Sena, se fosse vivo, faria hoje 90 anos
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In jornal "I" de 09 de Setembro de 2009

Em Busca de Lágrimas Absolutas

Minhas antigas amizades se dissolvem como bolhas de sabão. Esqueci nomes. Mal consigo lembrar os olhos de quem já passou por minha vida. O passado diluiu momentos que poderiam torná-los familiares. Fiz-me irmão, e doei-me inteiramente a companheiros, mas hoje hesito. Desconfiado, reparto pedaços do coração. Não suporto imaginar a dor de outras separações, de mais decepções. Tenho medo de abrir os porões da alma. A desarrumação de minha casa faz sentido para mim. O que os outros consideram bagunça, tem uma sincronicidade própria, que me deixa em paz. Vacilo em rasgar os envelopes selados, onde escondo segredos. Sei detectar os traumas que me deixaram chorão, os complexos que me deram olhos melosos, as circunstâncias que me fizeram viver à beira do pranto, as fragilidades que me transformaram em tímido. Mas não pretendo explicar nada a ninguém. Tornei-me cauteloso quando brinco e rio. Fujo dos que procuram analisar a minha felicidade; ela não carece de julgamentos. O riso que meus lábios desenham não tem que ser explicado. Introjeto a alegria para que não seja pisoteada como a pérola da parábola. Prezo em não deixar vazar frágeis contentamentos; a pouca riqueza que amealhei merece ser guardada debaixo de mil segredos. Olho para colegas e antecipo navalhadas. Resguardo as costas dos estiletes da inveja. Assusto-me. As maldades que já sofri são parecidas com as que eu próprio já acalentei no peito. Se não sei explicar o porquê de atitudes mesquinhas em mim, também não justifico a estreiteza que observo no próximo. Não sou pior nem melhor que os demais. Por isso, cerco o quintal de casa contra lobos ferozes. Sempre espero alguém ávido para destruir o pedacinho da dignidade que me resta. Meus desalentos não serão rasos. Desço às regiões abissais da angústia. Envolvo-me na absoluta escuridão da casmurrice; que o lençol do desgosto me isole. Quero ficar na quarentena dos tristes. E provar a verdade de que “são bem-aventurados os que choram, porque serão consolados”.
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Soli Deo Gloria
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"Deus Não é Objecto de Ciência"

[ Titulo original do autor : Seria injusto não haver Deus ]
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As nossas sociedades científico-técnicas, comandadas pela razão instrumental, pelo progresso, o êxito e o consumo, hedonistas, nas quais a fé se obnubilou, são as primeiras da História a fazer da morte tabu. Este tabu, acompanhado da perda da fé no Além e da eternidade, é essencial para o entendimento do que se passa. Porque já não há eternidade, o tempo não faz texto, ficando reduzido a instantes que se devoram. Como pode então ainda haver valores e futuro num tempo que se dissolve na voragem de instantes? De qualquer modo, estas nossas sociedades permitem a visita dos mortos dois dias por ano: 1 e 2 de Novembro. Os cemitérios enchem-se e, de forma mais ou menos explícita e funda, num silêncio ao mesmo tempo vazio e opaco, plúmbeo, há o confronto com a ultimidade, aí onde verdadeiramente se é Homem. Afinal, qual é o sentido da existência e de tudo? O que vale verdadeiramente? M. Heidegger chamou a atenção para isso: a diferença entre a existência autêntica e a existência inautêntica dá-se nesse confronto. Se tudo decorre na banalidade rasante e na gritaria oca, a explicação está aqui: no último tabu. Para onde vão os mortos? Para o Silêncio. O mistério da morte é esse: dizemos que partiram, mas o que abala é não deixarem endereço. Na morte, a evidência é o cadáver. Mas quem se contenta com o cadáver? Por isso, a morte é o impensável que obriga a pensar e, enquanto formos mortais, havemos de perguntar por Deus. Deus não é "objecto" de ciência, mas uma esperança, sobretudo quando se pensa nas vítimas inocentes. Como escreveu o agnóstico M. Horkheimer, um dos fundadores da Escola Crítica de Frankfurt, "se tivesse de descrever a razão por que Kant se manteve na fé em Deus, não saberia encontrar melhor referência do que aquele passo de Victor Hugo: uma anciã caminha pela rua. Ela cuidou dos filhos e colheu ingratidão; trabalhou e vive na miséria; amou e vive na solidão. E no entanto está longe de qualquer ódio e rancor, e ajuda onde pode... Alguém vê-a caminhar e diz: Ça doit avoir un lendemain!... Porque não foram capazes de pensar que a injustiça que atravessa a História seja definitiva, Voltaire e Kant postularam Deus - não para eles mesmos". A curto, a médio, a longo prazo, todos foram estando mortos. A curto, a médio, a longo prazo, todos iremos, todos irão estando mortos, e lá, no final, só há uma alternativa. Claude Lévi-Strauss conclui assim o seu L'homme nu: "Ao homem incumbe viver e lutar, pensar e crer, sobretudo conservar a coragem, sem que nunca o abandone a certeza adversa de que outrora não estava presente e que não estará sempre presente sobre a Terra e que, com o seu desaparecimento inelutável da superfície de um planeta também ele votado à morte, os seus trabalhos, os seus sofrimentos, as suas alegrias, as suas esperanças e as suas obras se tornarão como se não tivessem existido, não havendo já nenhuma consciência para preservar ao menos a lembrança desses movimentos efémeros, excepto, através de alguns traços rapidamente apagados de um mundo de rosto impassível, a constatação anulada de que existiram, isto é, nada". A Bíblia, no último livro, Apocalipse, conclui assim: "Vi então um novo céu e uma nova terra. E vi descer do céu, de junto de Deus, a cidade santa, a nova Jerusalém. E ouvi uma voz potente que vinha do trono: 'Esta é a morada de Deus entre os homens. Ele habitará com eles; eles serão o seu povo e o próprio Deus estará com eles e será o seu Deus. Ele enxugará todas as lágrimas dos seus olhos; e não haverá mais morte, nem luto, nem pranto, nem dor. Porque as primeiras coisas passaram.'" No meio da perplexidade, fico com Kant: "A balança do entendimento não é completamente imparcial, e um braço da mesma com o dístico 'esperança do futuro' tem uma vantagem mecânica, que faz com que mesmo razões leves, que caem no seu respectivo prato, levantem o outro braço, que contém especulações em si de maior peso. Esta é a única incorrecção que eu não posso eliminar e que eu na realidade não quero abandonar."
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Prof. Anselmo Borges
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In Diário de Notícias de 31 de Outubro de 2010

sábado, 31 de outubro de 2009

Mantenha-se Firme

[ Titulo original do autor: Lágrimas pelo Evangelho ]
Quando os seus esforços para promover o perdão, a unidade, o cuidado, a reconciliação e o entendimento a partir do Evangelho não dão resultados... ame, acarinhe e ore mais em favor das pessoas embrutecidas pelas suas escolhas, seus pontos de vista, orgulhos e vaidades. Não fique abalado. Não ceda ao mal. Não se preste a abusar do poder. Mantenha-se fiel a Jesus Cristo e não a estes “cristinhos” canalhas, abusadores e ridículos, forjados por estas “igrejinhas” medíocres, sacrificialistas, punidoras, descomprometidas e distantes de Deus. Abra o seu coração ao Espírito Santo e Ele dar-lhe-á consolo, alegria e força. Guarde o seu coração no Senhor. Ele enxugará dos seus olhos toda a lágrima. Permaneça firme Naquele que é o Caminho, a Verdade e a Vida.
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Graça, paz e bem!
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Fonte: Ademir Antunes
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Adaptado ao português usado em Portugal por Ab-Integro

Ateucracia e Heterofobia

A humanidade conviveu e tem convivido com regimes não-democráticos: monarquias absolutas, teocracias, ditaduras, aristocracias, oligarquias, que privilegiam famílias, etnias, religiões, partidos ou classes. Com a substituição do poder personalizado pelo poder institucionalizado. Surgiram os Estados Nacionais, as constituições e a democracia, como “o povo politicamente organizado”. Na maioria das vezes, o formalismo democrático e a liturgia das eleições apenas legitimam grupos, que controlam os aparelhos do Estado. Ao povo cabe apenas escolher periodicamente, entre os escolhidos, os seus senhores. Presencia-se no Ocidente, sob a fachada da democracia, uma nova autocracia: a dos ateus e agnósticos e materialistas secularistas -- netos do Iluminismo -- contra a maioria religiosa dos cidadãos. Essa ideologia aparece mais nítida com o término da Guerra Fria, e pretende confundir Estado laico com Estado secularista. Por Estado laico entende-se aquele legalmente separado das igrejas, sem religião oficial, com a igualdade perante a lei, que se constitui um avanço para a civilização, e que foi uma das bandeiras do protestantismo histórico no Brasil. O Estado secularista expressa uma ideologia militante de rejeição da religião, da sua negação como facto social, cultural e histórico, ou considerando-a intrinsecamente negativa. No passado, tivemos a influência da filosofia positivista que, com sua “lei dos três estados”, advogava a marcha inexorável da história de uma etapa religiosa inferior para uma etapa superior, pretensamente científica ou positiva. Essa filosofia marcou grande parte das ideologias contemporâneas, inclusive o marxismo, cujos regimes, oficialmente ateus, procuravam “colaborar” com esse processo histórico perseguindo implacavelmente a religião e tornando compulsivo o ensino do ateísmo. O que essa elite iluminada tem dificuldade em aceitar é o facto de que, no século 21, a religião, em vez de diminuir, está a aumentar, no que Giles Kepel denomina “a revanche de Deus”, e que dá o título do novo “best-seller” de John Micklethwait e Adrian Wooldridge, “Deus Está de Volta”. Há todo um malabarismo intelectual para “explicar” esta anomalia, e, por outro lado, procura-se promover um combate sistemático para a conter. O antireligiosismo teve como epicentro a Europa Ocidental, estendeu-se para a América do Norte, e espalha-se pela periferia do sistema mundial, chegando até nós. Há uma prioridade em se atacar as religiões monoteístas de revelação, porque julgam que o monoteísmo promove a intolerância e a revelação traz conceitos e preceitos autoritários retrógrados (o pecado, por exemplo) que se chocam com as visões tidas como superiores da autonomia das criaturas. Mais particularmente, esse ataque centra-se contra o cristianismo. A intolerância para com a religião implica impossibilitar a sua expressão nos espaços públicos ou que os seus seguidores ajam publicamente por motivações religiosas. A religião, para os seus adversários secularistas, deveria apenas ficar confinada às quatro paredes dos templos e dos lares, à subjectividade de cada um, condenada à irrelevância. Essa elite sente-se iluminada, superior, com o papel histórico de proteger as pessoas delas mesmas, de corrigir os seus “atrasos” e de “educar” a humanidade, seja pelo apropriação dos aparelhos ideológicos do Estado (educação, media), seja pelo uso do aparelho coercivo do Estado (leis, justiça, polícia). Na esteira desse movimento temos tido a chatice do “politicamente correto” (moralismo de esquerda), a luta por retirar símbolos religiosos dos espaços públicos, acabar com os dias santificados, proibir a saudação “Feliz Natal” (deve-se apenas desejar “Boas Festas”), e a defesa de bandeiras como a libertação sexual, o aborto (no lugar do direito à vida, o direito da mulher a dispor do “seu” corpo), a eutanásia e a licitude das “orientações sexuais” -- a chamada agenda GLSTB (gays, lésbicas, simpatizantes, transgéneros e bissexuais). Por sua mobilização política (e não por “descobertas científicas”) promoveu-se a retirada dessa anomalia do rol das enfermidades e dos ilícitos -- e se instituir o casamento homossexual -- e parte-se para proibir os que querem deixá-la, cassar o registo de psicoterapeutas, forçar a maioria a mudar os seus padrões morais e criminalizar os que não aderirem. Enquanto a Europa e a América do Norte já evidenciam um novo ciclo de perseguição religiosa, corre no Congresso Nacional [Brasil] um projecto de lei que faria com que o autor deste artigo fosse condenado a até cinco anos de prisão por escrevê-lo. Enquanto a minoria materialista tenta forçar uma ateucracia e a minoria homossexual tenta fomentar uma heterofobia -- ódio aos que insistem no seu direito de afirmar a normatividade da heterossexualidade, e de não aceitar a normalidade do homoerotismo -- eles recebem o apoio (cavalo de troia) de outra minoria: o liberalismo teológico. A nós, a maioria, cabe, democraticamente, o direito à resistência!
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Robinson Cavalcanti
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Via Revista Ultimato

UMA CONFISSÃO EM AUGSBURGO

Há dez anos, em 31 de Outubro de 1999, escrevíamos no extinto semanário aveirense Litoral, que a cidade alemã de Augsburgo assistiu a um acontecimento que poderia ter sido – na linha da definição de poética de Aristóteles contrária à história- outro muro derrubado na Alemanha. Uma alusão compreensível ao Muro de Berlim, derrubado em 1989, desta vez para falar de aproximações entre instituições católicas e protestantes. No dia preciso em que se comemorava mais um aniversário (31 de Outubro de 1517) da afixação histórica das 95 Teses de Lutero contra as indulgências, assistia-se a um acordo católico-luterano sobre a «Doutrina da Justificação por Graça e Fé». Discutida durante mais de três décadas, chegava ao ponto culminante essa declaração conjunta como um marco miliário – de acordo com a afimação do papa João Paulo II. «Na difícil estrada da recomposição da plena unidade entre cristãos». Aquela declaração, elaborada por comissões mistas internacionais luterano-católicas, firmava uma ideia comum sobre a Salvação, no que dizia -e diz- respeito às duas Igrejas cristãs. Não sei ainda na íntegra, passada uma década, os termos e o conteúdo desse acordo, tanto mais que o mesmo procurava superar questões não apenas de fé, mas jurídicas também de base confessional para as igrejas históricas luteranas, na Alemanha, que vêm desde o século XVI. Há precisamente dez anos, dizia-se que o evento «deixara a opinião pública indiferente.» E hoje, em 31 de Outubro de 2009? E no entanto, esse assunto foi considerado há quase quatrocentos e oitenta anos magno e de estado. Com efeito, a leitura da chamada Confissão de Augsburgo aconteceu a 25 de Junho de 1530, às 3 horas da tarde, e demorou cerca de duas horas. O artigo 4º da mesma, coisa crucial para os luteranos, protestantes ou evangélicos, agora também se diz evangelicals (de Evangelicalismo), versava a doutrina incontornável da Justificação. De Justificatione, o que, como todos os cristãos devem saber, se baseia na verdade doutrinária que S. Paulo escreveu aos Romanos, segundo a qual «somos justificados gratuitamente pela redenção que existe em Cristo Jesus.» Se houve sempre este ponto de fé e de discórdia educada e civilizada entre nós, evangélicos e católicos, o mesmo continua bem vivo no Céu e de posse do Redentor. Não faz parte exclusiva dos cânones da Terra, diríamos, é determinação divina, não só no discurso sobre Deus que é a teologia, mas de Deus mesmo, que «a justificação do pecador só se faz pela fé, não através de obras e sacrifícios», segundo se afirma, e bem, naquela referida Confissão.
. João Tomaz Parreira

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Humor de 6ª - Crentes de Peso

Fotos Reveladoras - 6

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Conversas com Lutero

Em menos de 90 anos (entre 1456 e 1543), foram feitas descobertas notáveis e surpreendentes que abriram novos horizontes e transformaram o mundo. O gráfico alemão João Gutemberg descobriu caracteres tipográficos móveis que deram origem à imprensa (1456). O navegador genovês Cristóvão Colombo descobriu o vasto continente americano, habitado de norte a sul e de leste a oeste (1492). O navegador e explorador português Vasco da Gama descobriu a tão desejada rota marítima para as Índias (1497). O militar e navegador português Pedro Álvares Cabral descobriu a parte mais meridional do continente encontrado menos de oito anos antes por Colombo (1500). E o astrónomo polaco Nicolau Copérnico descobriu que a Terra gira em torno do Sol, e não o contrário, como se pensava desde Ptolomeu, 1.400 anos antes (1543). No meio dessas descobertas, que mudaram de uma hora para outra concepções conservadoras e tímidas, há mais uma, a que causou impacto maior e mais prolongado, com repercussões que duram até hoje. Trata-se da descoberta, ou melhor, da redescoberta da Graça de Deus pelo monge alemão Martinho Lutero. Para redescobrir a Graça, o “javali da floresta”, como o chamou o papa Leão X, teve de fazer outras redescobertas, a princípio, desconcertantes e, mais tarde, alvissareiras. Lutero percebeu a miséria humana: “Nós somos mendigos, essa é a verdade”. Tal revolucionária e difícil redescoberta levou-o a outra: “Cheguei, de facto, à firme conclusão de que ninguém é capaz de justificar-se pelas suas obras [e] que é preciso recorrer à graça divina, que pode ser obtida por meio da fé em Jesus Cristo”. A partir dessas duas redescobertas preliminares, ele chegou logo à graça, que é o amor de Deus activo em benefício da salvação do homem. Depois da descoberta pessoal da Graça, Lutero viu-se na obrigação de a tornar conhecida dos outros miseráveis “mendigos”. Ele entendeu que a sua tarefa, a partir de então, seria trazer à luz o que estava e está encoberto e obscurecido: as boas notícias de que nos “nasceu um Salvador, que é Cristo, o Senhor” (Lc 2.11). É por isso que ele se apresentava como “Doutor Martinho Lutero, indigno evangelista de nosso Senhor Jesus”.
Ao contrário do que muitos ainda pensam, o alvo de Lutero era proclamar o evangelho, não reformar a Igreja. O resto todo, inclusive a Reforma, foi consequência. Os pesquisadores católicos Erwin Iserloh e Harding Meyer registam no livro «Lutero e Luteranismo Hoje»: “Em sua maneira aguda de falar, [Lutero] chega a expressar-se ocasionalmente assim: o facto de o papa viver em concubinato não tem importância; mas é insuportável que não pregue o evangelho, que até o escamoteie”. Outro reformador, Guilherme Farel, de Genebra, pensava como Lutero ao censurar o sacerdote católico “não pela sua má vida, mas pela sua má crença”. Para Lutero, “o evangelho é, e não pode ser outra coisa senão uma prédica de Cristo, filho de Deus e de Davi; verdadeiro Deus e [verdadeiro] homem, que superou, para nós, com a sua morte e ressurreição, o pecado, a morte e o inferno de todos os homens que nele crêem”.
O cristocentrismo de Lutero — expresso nas famosas frases latinas solus Christus (só Cristo e nada mais), sola gratia (só a graça e nada mais) e sola fide (só a fé e nada mais) — é tal que ele insiste: “Somente Jesus, filho de Deus — repito, somente Jesus, filho de Deus — nos redimiu dos pecados”. Por causa dessa fantástica descoberta da Graça, Lutero é chamado de “pai na fé” na monografia, cheia de calor humano, preparada pelo historiador católico Peter Manns, publicada em 1982. Ou de “doutor comum”, como sugeriu, em 1970, o cardeal J. Willebrands, presidente do Secretariado para a Unidade dos Cristãos, por ocasião da quinta Assembléia da Federação Luterana Mundial, realizada em Evian, em 1970.
Apesar da extraordinária contribuição de Lutero, o “indigno evangelista” é muito pouco conhecido. A única coisa que todo o mundo sabe a seu respeito — a solene e corajosa afixação das 95 teses à porta da igreja de Wittenberg em 31 de outubro de 1517 — de facto não aconteceu, segundo pesquisas confiáveis e recentes, iniciadas por um historiador católico. Nesse dia muito querido pelos protestantes, a ponto de ser chamado “Dia da Reforma”, Lutero apenas enviou as teses ao seu bispo diocesano Jerónimo Schulz, de Brandemburgo. Os Protestantes sentem-se na obrigação de admirar aquele que reformou a Igreja. Os Católicos romanos sentem-se na obrigação de questionar aquele que provocou o segundo Grande Cisma da Igreja. Mas a maioria destes grupos desconhece a vida e a obra de Martinho Lutero, nascido e morto em Eisleben, na Alemanha. Para uns, Lutero é mesmo o “javali da floresta” que devasta a vinha do Senhor (Sl 80.13); para outros, é o herói que enfrentou o todo poderoso papa Leão X.
Porque ainda existe a tentação de deixarmos Jesus Cristo de fora da Igreja, das homilias, das teses, dos livros, da televisão, da internet e da história (e essa tentação não deixará de acontecer nos séculos vindouros), precisamos ressuscitar a ênfase cristocêntrica de Lutero, expressa magistralmente na 62a tese: O verdadeiro tesouro da Igreja é o santíssimo evangelho da glória e da graça de Deus. Esse seria o laço de aproximação mais razoável, necessário e urgente, e o único que evitaria o vexame pelo qual passou o pastor da Igreja em Laodicéia, que se dizia cristã sem a efectiva presença de Cristo (Ap 3.20).
O pastor luterano brasileiro Walter Altmann diz, no seu livro «Lutero e Libertação», que “Lutero ainda continua muito vivo e presente”. É verdade, pois das pregações de Lutero em Wittenberg e outras cidades, o fabuloso número de 2.082 chegaram até nós. Some-se a isso cerca de 750 escritos da sua autoria, que estão sendo traduzidos para o português e publicados no Brasil pela Comissão Interluterana de Literatura (já foram publicados nove dos quinze volumes previstos). A cada ano surgem mais de mil títulos sobre Lutero, sem contar os textos em livros escolares e os verbetes não assinados em diccionários. De tempos em tempos, reúne-se num lugar do mundo o Congresso Internacional de Pesquisa sobre Lutero, cada vez com número maior de participantes. Não é de surpreender o crescente e positivo envolvimento de pesquisadores, historiadores e teólogos católicos, como Joseph Lortz, Erwin Iserloh, Yves Congar e Hans Küng. Lortz faz um apelo muito oportuno: “[Somos chamados] a trazer para a Igreja Católica as riquezas de Lutero”. Se as “riquezas de Lutero” são a sua contribuição para a cristologia e o cristocentrismo, a obrigação de reviver o “javali da floresta” é não só de católicos romanos, mas de toda a cristandade, incluindo os cristãos orientais e os protestantes.
Sabe-se que até há bem pouco tempo, só a menção do nome de Lutero, no meio católico romano, causava arrepios, até certo ponto compreensíveis, pois tudo o que se sabia dele era baseado no livro Commentaria de Actis et Scripts Martini Lutheri (Comentário Acerca dos Actos e dos Escritos de Martinho Lutero), escrito em 1549, três anos depois da morte de Lutero, por João Debeneck Cochlaeus, sacerdote e humanista, e cónego da Catedral de Breslau. Para Cochlaeus, Lutero era a encarnação do demónio (veja no apêndice “O Filho do Diabo”, p. 265). Conversas com Lutero é uma sincera contribuição e um esforço mais sincero ainda para encorajar os “mendigos” de hoje a descobrirem ou redescobrirem a Graça de Deus!

"Viva sem Medo de ser Feliz"

“O medo é um gigante que se nutre da carência”
(Emilio Mira y López)
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Alguém rabiscou num muro: “Viva sem medo de ser feliz”. Porque alguém teria medo da felicidade? Na verdade, o que a frase evoca não é a felicidade – ela é o fim a alcançar – mas o caminho, a construção, a via até ela. Poucos sentimentos são tão avassaladores quanto esse fantasma chamado medo. Ele vampiriza sonhos, é capaz de infectar com a suspeita os mais belos projetos existenciais. Decreta o fim das tentativas.Há gente que nem consegue mais viver. O medo da vida ficou tão monstruoso que fez da casa, um cárcere. Gente isolada de todos, vivendo uma existência dolorosa, uma desrealização humana. Gente que se contenta em ver a vida através do cinza dos vidros. Das janelas fechadas, do carro blindado, da fuga pela televisão, onde a vida não sai da tela, não tem expressão real. Gente com medo de ser.Não se iluda. Não é fácil encarar o medo. Se você grita, ele grita de volta. Produz ecos de um caos que nos habita. O medo conhece como ninguém os meandros de nossa intimidade fragilizada. Mas, há uma chance. Não é fácil, mas é perfeitamente possível! Encarar o medo implica em subjugá-lo. Espancá-lo. Domesticá-lo. Você não vai destruí-lo completamente, não, ele é indestrutível, mas, saiba, você pode domá-lo. É possível mantê-lo amordaçado.Quando temos coragem de afirmar: “Eu tenho medo”, ele começa a ceder. Ele é “o gigante que se nutre da carência”, portanto, a consciência de sua utilidade (como mecanismo de defesa, é muito bem-vindo), é capaz de derrubar seus castelos de poder, acabar com o reinado de seu orgulho. O medo tem medo de não assustar!Proponho uma troca: trocar os arrepios, a face paralisada, as mãos trêmulas, a voz vacilante, a sensação de desmaio por uma determinação em vencer, uma consciência de poder, uma certeza: tenho medo, mas ele não tem a mim! Quando essa troca acontecer, seremos dignos de viver como heróis da disposição, da coragem, da garra, da destreza, da competência, da vida. Heróis de uma humanidade que ousa.Antes das águias aprenderem a voar, são empurradas de seus ninhos. Como os ninhos ficam em montanhas muito altas, o prazer de experimentar o poder das asas só vem com o medo da queda. Quer voar? Assuma o medo da queda. Tenha a consciência de que lá embaixo estará o duro chão. Mas, quando pousar, sentirá o indescritível prazer de zombar do medo que não te deixava usufruir do poder de suas asas magníficas.Não posso te dizer para não ter medo, mas posso dizer: “Não deixe o medo te dominar”. Não se isole da vida, não faça de sua casa uma masmorra, de seu carro um casulo que impede a entrada do amor, não se destrua numa caverna psicológica onde, supostamente, o medo não te alcance. Não perca o prazer de voar só porque o chão existe. “Viva sem medo de ser feliz”. Acredite, o medo não possui o dom da eternidade. Ele também é perecível, também tem data de validade. Alguém escreveu num muro em Osasco, São Paulo: “Descubra quem você é, e seja de propósito!”

A Explosão de uma Velha Estrela

( Imagem Jornal Diário de Notícias )

Um grupo internacional de astrofísicos detectou um corpo celeste que é o mais distante e antigo registado até agora, e confirmou que as estrelas já existiam quando o universo tinha apenas 600 milhões de anos. Estas são algumas das conclusões de dois estudos publicados na revista científica Nature e assinados, entre outros, por Javier Gorosabel e Alberto Castro-Tirado, do Conselho Superior de Investigações Científicas de Espanha, e Alberto Fernández Soto, do Instituto de Física da região de Cantábria. Os artigos analisam a explosão de raios gama registada a 23 de Abril, que foi a mais distante observada até agora e corresponde à explosão da estrela mais antiga e longínqua que se conhece, uma gigante que se apagou há 13 mil milhões de anos e cujo último esplendor chegou à Terra há apenas seis meses. As explosões de raios gama são dos fenómenos que mais energia libertam no universo, correspondendo à explosão de uma estrela gigante no final da sua vida, que assim esgota o seu combustível e se extingue, dando lugar a um buraco negro ou a uma estrela de neutrões. Segundo o cientista Castro-Tirado, as descobertas são importantes porque, por detrás da estrela, "supostamente tem de haver uma galáxia, embora seja tão fraca que, com a tecnologia actual, não se consegue observar", sendo, talvez, apenas perceptível com o sucessor do telescópio espacial Hubble. Javier Gorosabel revelou, por seu turno, que a luz da estrela que se finou viajou pelo espaço desde um tempo em que ainda não existiam nem o Sol, nem a Terra. Alberto Fernández Soto complementou que, com isto, se comprova que há 13 mil milhões de anos já existiam estrelas, algo que até agora não passava de uma hipótese, e se conclui que "a formação dos corpos celestes foi mais rápida do que se pensava". Os investigadores acreditam que as estrelas da primeira geração, designadas por "população III" e das quais não se conhecem exemplares, surgiram quando o universo tinha entre 200 e 400 milhões de anos. Para proceder a estas análises, os cientistas recorreram a dados obtidos por vários telescópios colocados em diversos pontos do mundo, entre os quais o da estação espanhola BOOTES-3, situado na Nova Zelândia, e o telescópio Nazionale Galileo, operado por italianos e localizado na ilha espanhola de La Palma.
In Diário de Notícias de 29 de Outubro de 2009

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Fotos Reveladoras - 5

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Desassossego de Segunda-Feira

Tenho tudo para viver uma vida minimamente despreocupada. Vivo como um legítimo burguês, migrante nordestino relativamente bem sucedido na cidade grande. Adquiri hábitos de classe média. Sou bi-língue. Escrevi e publiquei alguns livros, comunico-me em uma rádio para milhares de pessoas. Estou na internet. Gosto de vinho tinto seco, de Bach, de poesia latino-americana, de colóquios filosóficos. Eu não deveria ter desassossego algum; não se permite a uma personagem admitir inquietações existenciais. Espera-se que um homem semi-público mantenha-se otimista, transbordante de esperança; principalmente, líder de uma igreja. Dúvidas doutrinárias? Em hipótese alguma. Os crentes são inamovíveis e, bem alicerçados em textos bíblicos, não entristecem jamais! Por que eu, então, pastor de uma comunidade de probos cristãos, começo a segunda-feira com esse enfarto emocional? Que colesterol entupiu as veias da minha alma para me deixar assim, sem fôlego? À semelhança de Fernando Pessoa noto que “meu passado foi só a vida mentida/de um futuro Imaginado!”. A eterna competição, que me empurrava para frente, transformou-me no guerreiro que nunca desejei. As guaritas, as rondas noturnas, a constante prontidão militar, deram-me desprezo pela guerra. Odeio arenas, ringues, dos peões ao rei do xadrez, carteados, ping-pong. Trato o imperativo de vencer como um vampiro, que suga meu sangue venoso. Jogo a toalha, simplesmente. Desisto de dar certo ou estar certo. Já não me importo em ser desmentido, não faço questão que chancelaria alguma me aprove e aponte o polegar para cima. Abatido, perco o medo de despencar. Disforme como um poliedro mal arquitetado desço a ladeira dos anos, aos solavancos. Palcos bem iluminados não me seduzem. Indiferente aos reclames tradicionais, desprezo os paradigmas canônicos. Quero ficar só. Em minha tristeza, lacro os cadeados do espírito. Amanheço da madrugada escura sem rasgos onipotentes. Não tenho raiva da insónia. Transformo minha prece em solilóquio. Recuso a visita do sol. Desligo todas as tomadas do quarto; não quero conselho. Penduro a placa de “não perturbe” no trinco da porta. Parto para correr sozinho, enquanto duplico os quilómetros. E se alguém vier com platitude, peço deseducado: Por favor, me deixe em paz.
Soli Deo Gloria

Aderi à Teologia da Restituição

Demorei... Relutei por anos e até falei mal, mas finalmente a luz me atingiu e atravessou meu peito como flecha. Hoje quero que todo mundo fique sabendo, homens, anjos e potestades, que abraçei a teologia da restituição.Sim, amigos, por mais estranho que pareça, existe sim, a teologia da restituição, e, pela Graça de Deus, fui conduzido a ela hoje pela manhã. Olhei para o meu passado, para os dias em que os campos de minha vida foram devorados e chorei diante da desolação. Vi que não só meus campos foram dizimados, mas também os campos dos que estavam sob minha responsabilidade.Tudo aconteceu assim: nos dias em que um verme como eu levantou a voz ao Altíssimo e quis romper Seus laços de amor e sacudir Suas algemas de Graça ( Sl 2:3), sim, foi nesses dias que o céu claro e azul de repente enegreceu com o mais terrível e numeroso exército de gafanhotos chamados: meus pecados.Hoje quero restituição!Por isso fui até o Senhor meu Deus e Lhe disse: " Pai de amor, restitui para Ti mesmo toda a glória que minha vida deixou de Te dar em tempos passados! Amorosa foi a Tua disciplina para comigo, e eu mesmo me danei fugindo de Tua santa presença. Mas quem pode restituir a glória de Ti roubada? Pai Santo, se um dia pra Ti é como mil anos e mil anos como um dia, toma de volta o que Teu e faze que nos dias que me restam toda a Tua glória seja reivindicada de minha vida pobre!"E viva a Teologia da Restituição! Eu quero de volta o que é Teu!