terça-feira, 16 de agosto de 2011

O Trabalho que Dignifica




Em  anos anteriores tinha sido diferente. Mas este ano aconteceu assim. Nas férias de verão estou com muito pouco tempo para escrever e actualizar o Ab Integro. Talvez porque nos anos anteriores as férias foram diferentes e o lazer tinha prioridade nas minhas actividades de veraneio. Este ano não. Havia trabalho para fazer e vontade de poupar uns euros para o realizar mesmo se nunca nos tinhamos desafiado a semelhante tarefa. As últimas três semanas foram passadas em "reclusão" no alentejo profundo a tentar não defraudar as melhores intenções que nos moviam. A coisa resultou bem mesmo se tivémos que suportar durante muitos dias temperaturas a roçar os quarenta graus. Foram litros e litros de água e outras bebidas frescas que tínhamos à mão. "Borregas" nas mãos, como se diz no alentejo, ou "bolhas", como se diz na cidade; corpo dorido porque mal habituado a estas andanças de trabalho duro de construção mas imenso gozo pessoal por ter atingido com sucesso o objectivo. Isto, claro, para além de uns quilinhos que de outra forma não seria possível serem perdidos.

O trabalho, quando os seus objectivos são claros, motivadores e recompensadores,  realiza-nos, anima-nos e fortalece-nos. Julgo que nada retira mais força anímica, psicológica e moral  a  qualquer pessoa do que não ter uma ocupação, um trabalho recompensador quer materialmente quer psicologicamente e  que lhe transmita a perene certeza de que é útil à sociedade em que se insere e a si próprio.

Fala-se hoje muito de formação profissional e académica, mas a questão mais candente é a de que a essa formação correspondam oportunidades reais de ocupação em linha com as capacidades das pessoas e o tempo, motivação e dinheiro investidos por elas. Aquilo a que assistimos actualmente no mundo, e particularmete nos países desenvolvidos,  é preocupante a vários níveis; formar gente, dar-lhe competências elevadas e depois não preparar a economia para dar respostas consequentes transforma-se num drama que terá consequências que nem sequer conseguimos ainda imaginar, e todos os cenários de conflitualidade político-social são de admitir. Não será possível a existência de sociedades sadias e que sustentem o bem-estar das populações onde uma larga fatia destas sobrevive sem trabalho, a cargo do estado, das famílias, das instituições. Lentamente, esses milhões de pessoas irão perder a sua auto-estima e a vontade de investirem em si próprios e no futuro das famílias e das sociedades. Os sinais dessa degradação social vão ocorrendo um pouco por todo o lado e não adianta dizer que eles resultam apenas de má educação, crime, ou de gente demasiado mimada e protegida pelos governos dos países. Quando as pessoas trabalham e o seu trabalho é reconhecido e recompensado justamente, a saúde social aumenta e os problemas diminuem. Marginalidade e criminalidade é uma outra história e que é opção de quem não quer ter outras opções mesmo se elas existirem à sua disposição. Sim, o trabalho e a ocupação serão sempre recompensadores, menos quando estes são vistos e encarados pelos governos como penalidades para os que não têm nem conseguem emcontrar um trabalho. As políticas neo-liberais, em praticamente todo o mundo, na aplicação ao mundo do trabalho só conseguiram produzir menos trabalho para menos gente, mais exploração, menos interesse pelo trabalho e mais conflitualidade social. Duvido que em Portugal vá ser diferente.

Jacinto Lourenço  

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Humor Judaico - Os Dez Mandamentos...




Deus perguntou aos Gregos:- Vocês querem um mandamento?
- Qual seria o mandamento, Senhor?
- Não matarás!
- Não, obrigado. Isso interromperia a nossa sequência de conquistas.

Então Deus perguntou aos Egípcios: - Vocês querem um mandamento?
- Qual seria o mandamento?
- Não cometerás adultério!
- Não obrigado, isso arruinaria os nossos fins de semana!

Deus perguntou então aos Assírios: - Vocês querem um mandamento?
- Qual seria o mandamento?
- Não roubarás!
- Não obrigado, isso arruinaria a nossa economia!

E assim, Deus foi perguntando a todos os povos, até chegar aos Judeus:
 - Vocês querem um mandamento?
- Quanto custa?
- É de graça.
- Então manda dez.


Fonte: Por Terras de Sefarad

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Montemor-o-Novo: Epicentro de Viragem no Portugal Quatrocentista


Montemor-o-Novo representou no século XV não apenas um importante ponto de passagem obrigatório na estrada que ligava Lisboa e Santarém a Évora, povoações de primeira grandeza medieval no reino e particularmente na zona sul do país; a vila acabaria por se tornar, por inegável consequência disso, em relevante ponto de paragem e estadia mais ou menos prolongada para reis, fidalgos, senhores para além de outra gente que gravitava em torno da corte e da nobreza. Mesmo não revelando uma grandeza urbanística significativa nem uma dimensão comparável às da vizinha Évora, por exemplo, quer em termos populacionais ou das habitações construídas intra-muros, o posicionamento geográfico de Montemor-o-Novo acabaria por se mostrar determinante no papel que a história lhe reservou antes, e durante o século XV. Como é evidente, e apesar de uma notada tendência de desertificação populacional da Cerca da vila, cujos moradores eram aliciados por um Termo que prometia actividade económica muito mais pródiga e lucrativa, particularmente no capítulo da agricultura, Montemor-o-Novo continuou a fazer sempre parte integrante, ao longo de todo o século XV, da vida política nacional e de todos os jogos político-sociais que nesse âmbito iam marcando o pulsar do reino.

Durante todo o século XV a história de Montemor-o-Novo é marcada e pautada por cinco importantes reinados saídos da geração de Avis: D.João I, D. Duarte, D. Afonso V, D. João II bem como ainda os primeiros anos de reinado de D. Manuel I, sem esquecer, é claro, a regência do Infante D. Pedro, no período abrangido pela menoridade de D. Afonso V.
Teve Montemor-o-Novo, como outros municípios, momentos de maior relevância e/ou apagamento. De um ponto de vista lato pode dizer-se que Montemor-o-Novo não estando  no “olho do furacão” esteve porém extremamente envolvido no turbilhão da história Portuguesa no século que encerrou a época medieval portuguesa.

Se tivéssemos que isolar um facto marcante, em definitivo, para a vida do concelho de Montemor-o-Novo, e até de Portugal, no período em estudo, escolheríamos o acontecimento mais dramático representado no degredo e posterior fuga para Castela do donatário e Marquês de Montemor, D.João, irmão de D. Fernando Duque de Bragança, bem como a morte deste último, ambos os factos ordenados por D.João II que pretendia com isto “dizer ao que vinha” e inaugurar uma nova época de retoma política e administrativa do reino por parte da coroa e que estava a ser contestada pelos grandes senhores de Portugal. Este facto representa, uma viragem dramática na orientação do reino muito desejada por D. João II e que ao desferir rude golpe no Duque de Bragança, na sua família e no seu vastíssimo património económico, militar e territorial, dava assim um sinal importante para o reino e os seus mais importantes senhores sobre qual era o seu projecto político para Portugal. Montemor-o-Novo foi palco privilegiado dessa exibição da visão e esperteza política de D.João II e da sua aplicação prática  que levariam  Portugal  ao fausto dos descobrimentos e do grande incremento de  todas as ciências a estes ligadas bem como a alcandorar-se como grande potêncial mundial dos mares e do comércio ultramarino. Uma grande gesta para um pequeno povo. 

Mesmo que não se goste de homens providenciais, há-de reconhecer-se esse papel em D. João II na afirmação do reino de Portugal feita em parte com o combate feroz ao até então domínio senhorial do país pela grande nobreza senhorial e pelo poder esmagador da Casa de Bragança.  A Montemor-o-Novo há-de creditar-se o facto de ter sido palco de uma das maiores viragens positivas da história de um país.  


Jacinto Lourenço

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Crónica de uma Morte Anunciada


Diz-me a comunicação social que Amy Winehouse morreu devido a uma overdose e que esse desfecho seria mais ou menos previsível devido ao estilo de vida que escolhera para si própria.
Só comecei a ouvir falar de Winehouse à coisa de 3 para 4 anos. Não sou grande melómano, como é bom de ver, caso contrário já teria ouvido falar da cantora há mais tempo. O conhecimento com que fiquei dela é aliás mais focado no seu comportamento, no ambiente dentro e fora dos concertos, do que propriamente na sua música. Lamento profundamente que aos vinte e sete anos de idade  ela tenha partido da vida imaginando que o melhor que esta teria para lhe oferecer se resumia   apenas a drogas e alcool. O seu percurso parece-me saido de uma escolha pessoal, mais do que de influências externas, por muito peso que estas possam eventualmente ter tido nas suas opções.

Não pretendo aqui trazer lições de duvidoso moralismo, até porque a ideia que me ficou após a sua morte, pela postura dos seus amigos e familiares  foi precisamente a de que esta seria uma morte esperada e anunciada. Mas não posso deixar de registar que  um ser humano, no auge de uma vida jovem, plena de fama e  sucesso profissional não encontre nada melhor para escolher do que as drogas e o alcool. Que estranha forma de vida, diz a letra de um fado. Que estranha forma de viver uma vida.

Não sei se no caso de Amy Winehouse se pode aplicar aquela velha máxima de que "uma pessoa é ela e as suas circunstâncias" ; quero acreditar que não. Não há nenhuma circunstância  que nos possa obrigar ao estilo de vida da cantora em causa, especialmente quando se sabe onde ele nos pode levar. É por isso que me parece que Amy Winehouse fez uma escolha voluntária e isso pode ser ainda mais intrigante; porquê essa escolha ?!

Independentemente das escolhas dos famosos ( boas ou más ), não podemos iludir o facto de que elas terão influência nas gerações suas contemporâneas. Mas não podemos deixar de procurar também, enquanto cristãos, de mostrar que há escolhas que nos levarão sempre por caminhos potencialmente perigosos, mesmo se vivemos num mundo em que tudo é relativizavel, até a morte.

Amy faz parte de um grupo mais ou menos restrito de cantores e músicos famosos que trilhou o mesmo caminho minado, um caminho largo onde tudo é consentido, até a morte calculada, e isso só significa que o culto da fama e do sucesso não pode substituir-se ao culto da vida. A vida é uma oportunidade única que nos foi oferecida e que deve ser vivida usufruindo em pleno da felicidade e responsabilidade existente em cada minuto da mesma.


Jacinto Lourenço

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

A Nostalgia do meu Agosto



Hoje é segunda-feira de um novo mês de Agosto. Já passaram pela minha vida mais Agostos do que eu gostaria que tivessem passado, mas apesar disso, não enjeito nenhum dos que por mim passaram.
Há alguns anos atrás, Agosto surgia no calendário como mês de férias por excelência, sempre um mês de férias seguidas. As empresas fechavam portas, o parque escolar idem dando oportunidade a trabalhadores, famílias e portugueses em geral a usufruir de um mês inteirinho longe das actividades de um ano de trabalho. Praia, campo, aldeia, destinos mais próximos ou mais distantes, tudo era uma surpresa e uma vertigem constante de novas aventuras e descobertas de verão mesmo se não havia dinheiro para restaurantes e menos ainda para viagens ao estrangeiro, isso já era para gente de outro estatuto num tempo em que à classe média se dava o nome de pobres e os outros, os que podiam ir para o estrangeiro, eram os ricos.

Confrontado com o meu Agosto de 2011, constato como perdi entretanto qualidade de vida. Em lugar da praia no Algarve e alojamento num parque de campismo ou em apartamento, estou confinado à necessidade de aplicar a maior parte do mês numas obras de reconfiguração do espaço livre da casa da aldeia. Poupa-se na mão de obra mas gasta-se o físico que deveria estar a recompor-se algures numa praia algarvia. Sei que lá mais para a frente surgirão outras compensações alternativas à praia que não tive em Agosto. Por estranho que pareça, sinto a nostalgia do cheiro das águas cálidas do sul onde não rumarei este ano mesmo se nos últimos anos os ares do sul algarvio não eram muito consensuais para mim. Talvez porque sempre me habituei a ir de carro cheio ( somos uma família de cinco lá em casa ) e isso já deixou de acontecer de há dois ou três anos para cá; Ou talvez porque as férias a dois precisem ser repensadas e ajustadas a uma realidade familiar diferente e a um Agosto que já não tem a mesma graça do Agosto de 30 dias seguidos de há uns anos atrás, ou porventura porque as férias em Agosto já não têm o mesmo sabor de quando éramos todos mais felizes nas águas quentes do pós-levante algarvio.

Jacinto Lourenço

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Os Ricos estão cada Vez Mais Ricos...Os Pobres, esses, Pagam a Crise !



Em todos os processos de ajustamento económico e financeiro, é a massa dos trabalhadores - sobretudo os por conta de outrem - quem mais paga os seus custos. Não pode deixar de ser assim, devido à implacável lei dos grandes números. Se o que se pretende é travar o consumo das famílias, que representa 67% do produto interno bruto (PIB) do País, isso significa aperto do cinto em rendimento disponível ou em poder de compra real para a grande maioria dos portugueses, constituída pelos pobres e os remediados. E, mesmo quando estes não são tocados por medidas extraordinárias, como a sobretaxa do IRS, acabam por ver cerceado o seu nível de vida com subidas muito altas dos preços de bens essenciais, como os dos passes sociais dos transportes públicos, dos medicamentos, da electricidade ou da água.

O reforço da poupança é desejável e necessário, pelo que é aconselhável actuar com prudência quanto à taxação das poupanças que, aliás, envolvem, em menor ou maior grau, boa parte da população. Mas é difícil de perceber para muitos portugueses que os rendimentos correntes provenientes dos lucros distribuídos pelas empresas não participem equitativamente no esforço de ajustamento, que se proclama nacional.
A revista Exame actualiza hoje o valor das 25 maiores fortunas do País. Em conjunto, elas montam a 17 400 milhões de euros (equivalentes a 10,1% do PIB) e cresceram, entre 2010 e 2011, 17,8%, ou seja, 2630 milhões de euros - o equivalente ao rendimento médio de 210 mil portugueses. É certo que o grosso desta valorização provém das cotações dos seus patrimónios empresariais. Mas note-se que só o contributo de 3,5% deste acréscimo de 25 fortunas renderia 92 milhões de euros ao Estado. O Governo, porém, exige-lhes zero e não se ouve uma só voz entre os 25 portugueses mais afortunados a exortar os seus pares a contribuir patrioticamente para o esforçadíssimo programa nacional de estabilização.

Nos tempos da Administração liderada por George W. Bush, deu brado o célebre manifesto de um conjunto de bilionários americanos (incluindo Warren Buffett e Bill Gates, os dois mais ricos do país) recusando a prorrogação de isenções fiscais em seu próprio benefício, numa situação difícil das contas dos Estados Unidos, a braços com duas guerras em curso no estrangeiro. Entre os nossos muitíssimo ricos, a importância de um sinal dado ao País, de que a solidariedade nacional devia tocar, de facto, a todos, ainda está por acontecer.


quarta-feira, 27 de julho de 2011

A Pele que Habitamos


Olhemos-nos corajosamente, todos nós, homens e mulheres de Portugal, de frente, sem os risos e os olhares tolos – quase infantis – com que aprendemos a mirar o mundo para disfarçar a nossa abissal ignorância das coisas, porque tudo tornámos ligeiro em nós. Interroguemos-nos seriamente, como gente adulta: vivemos bem connosco, vivemos bem na nossa pele? O mal estar que nos assalta continuamente é natural? Este jeito infantil de vivermos, sem abraçarmos causas, movidos apenas por um primitivo e animal desejo de sobrevivência, é natural?

Desprezámos há muito o saber, e os homens e as mulheres que amam o saber. Temos o sol e um vasto oceano que nos cerca, e de luz baça e de espuma fizemos a nossa vida colectiva. Queremos todos viver para o sol e para o mar, esquecidos que há mais, muito mais que o saboroso sol e o revigorante mar. As morsas e as focas, deitadas sobre a banha acumulada, também vivem para saborear o sol e o mar… mas elas nada mais têm. Nós somos homens e mulheres, e aprendemos a olhar as coisas, para além do sol que nos aquece e do mar que nos alimenta. Pelo menos deveríamos ter aprendido…

Não nos amamos como povo, nem sabemos sequer o que isso é. Não amamos aquilo que realizámos e que realizamos todos os dias. Não construímos porque preferirmos mil vezes suar ao sol, frente ao mar, do que suar pelo nosso trabalho. Sabedoria, sim temo-la, e em excesso. Procuramo-la todos os dias, não nos livros, mas no fundo das canecas de cerveja. Nós, Portugueses, odiamos livros e mais odiamos quem os lê. E que ninguém diga que não é assim, porque mente. Ler é uma obrigação, a pior de todas, nunca um prazer.

Fomos assim forjados, há 500 anos, quando a Inquisição nos tornou a todos espiões dos homens que liam. Fugimos todos da cultura para fugirmos dos ferros e do fogo. E escondemos-nos todos dentro da nossa pele, a pele do nosso imenso medo. Cristãos-velhos denunciavam cristãos-novos e cristãos-velhos, por invejas ou por ódios. Cristãos-novos apressavam-se a denunciar outros cristãos-novos, antes que alguém os denunciasse. E os homens nunca mais foram livres, e todos nos tornámos polícias de todos, e os livros foram todos queimados, e as velas nunca mais se acenderam à sexta-feira, e as mãos e os corpos deixaram de se lavar. A brutalidade instalava-se na velha Luzidanya.

Somos nós, Portugueses, estranhíssimas criaturas. Dentro de nós habitam velhos-cristãos e velhos-judeus. Muitos, a esmagadora maioria, não conhece a origem do seu sangue, e é hoje cristã de corpo e alma, porque pensa que sempre assim foi. Outros, incomodados na sua pele, passam indiferentes diante das igrejas e das capelas, sem saber porquê. Ali foram baptizados, ali casaram, ali baptizaram os filhos. Mas dentro deles não se acende nenhuma Luz, porque aquela não é a sua casa. Eles não sabem, mas sentem. Ainda há medo na sua pele. Ainda não reencontraram o seu caminho. Mas começam a dar os seus primeiros passos. Logo estarão em movimento.

 
Via Por Terras de Sefarad

terça-feira, 26 de julho de 2011

Os Meus Avós


Se há dia que eu considero, até por razões pessoais, que deva ser celebrado, é o "Dia dos Avós", e por duas ou três questões fundamentais.
Vive-se hoje numa sociedade em que o papel da família tende a esbater-se. Em que pai e mãe trabalham, ( quando trabalham...) e em que os avós, ao invés de serem encarados como elementos enraízadores da família, são antes vistos como um peso que se despeja num qualquer lar ao virar da esquina, sendo que as razões economicistas da escolha desse lar se sobrepõem às razões de qualidade de vida e humanidade com que os idosos devem ser tratados. Todos os dias os meios de comunicação nos dão notícia do desprezo e ausência de sensibilidade humana mínima a que são votados muitos idosos, quer por quem os acolhe, quer pelas famílias que se "esquecem", literalmente, dos seus familiares, passando-se por vezes anos sem que os visitem nos lares de acolhimento, e havendo mesmo milhares de casos conhecidos em que familiares internam nos hospitais do estado os seus idosos com o claro objectivo de nunca mais de lá os quererem retirar. É dramático e chocante, e diria até, criminoso, assistir a isto.
Não quero nem devo iludir o facto de que em muitos casos os filhos não têm outra alternativa ao internamento dos pais em lares. Mas se  têm que o fazer, devem fazê-lo com a dignidade, humanidade e respeito que aqueles  merecem, quanto mais não seja, porque se sacrificaram, ao longo de uma vida, por proporcionar aos filhos a qualidade de vida e educação que eles próprios, na maioria dos casos, nunca tiveram. Felizmente, identifico muitos casos em que filhos e famílias cuidam e integram no seio familiar, de maneira extremosa, os seus pais e avós, bem como lares que são, independentemente dos preços cobrados, escolas de humanidade.
Há umas décadas atrás, os idosos eram encarados como um valor importante no seio familiar. Um esteio, um factor de transmissão de valores, padrões de vida  e conhecimentos; elementos cuidadores e ensinadores das gerações mais jovens. Nas sociedades mais primitivas sempre houve esse olhar sobre os mais velhos. Nas sociedades modernas parece que, afinal, nada disso é já importante e os idosos são olhados como desnecessários e completamente descartáveis.
A minha experiência pessoal é a de quem foi criado e educado pelos avós a partir dos seis anos de idade. Dou graças a Deus porque o amor que os meus avós e a minha família me dedicaram, não permitiu que eu sentisse grandemente a ausência dos pais. Foi-me consagrado pelos meus avós, o mesmo amor e cuidado que já tinham dedicado aos seus filhos. Numa determinada altura, eu senti-me mesmo como um pequeno "príncipe" no meio de tantos cuidados e afectos que me eram dispensados. Devo muito aos meus avós. Sei que a sua vida teria sido um pouco diferente se não tivessem que, depois de criados sete filhos, terem que criar e educar ainda  um neto. Não me consta que alguma vez se tenham queixado desse facto. E tenho a certeza de que muitas vezes tiveram razões para isso, em especial porque o seu relacionamento, em busca do melhor para mim, com os meus pais, não foi fácil, ou mesmo porque a minha entrada na adolescência e fase inicial da juventude também lhes não facilitou a vida.
Dos meus avós, não me lembro de alguma vez ter recebido um açoite ( e se recebesse teria sido provavelmente merecido, porque como também diz o adágio, "quem dá o pão, dá a educação" ), apenas cuidado e carinho. Lamento que tivessem partido cedo, que eu não tivesse usufruido, por mais tempo, da sua companhia.
Não me lembro de quantos brinquedos me compraram, provavelmente poucos - na minha geração as crianças eram, na generalidade, quem fabricava os seus próprios brinquedos -  mas lembro o amor que me dedicaram, os meus avós, enquanto viveram.
Hoje, na certeza de que os avós devem voltar a ser encarados como um valor seguro de enraizamento familiar e como cuidadores preferenciais dos netos, deixo aqui esta homenagem pública aos meus avós maternos, Gertrudes Serra e José Lourenço,  e a tudo aquilo que ao fim de muitos anos ainda representam para mim, mesmo estando ausentes fisicamente.


Jacinto Lourenço

A Verdade que Liberta


Tenho-me mantido um pouco refractário relativamente à escrita, que é para mim assim como algo do género "fada madrinha", isto é: quando escrevo, melhor dizendo, quando tenho inspiração para escrever, o que nem sempre acontece, a escrita só me faz bem, como qualquer "fada madrinha", enche-me de contentamento e felicidade.

Hoje queria escrever algo que não fosse um lugar-comum, ou que estivesse longe de qualquer trivialidade ou banalidade, o que desde logo afasta os temas que dominam estes últimos dias: "crise", níveis de endividamento dos U.S.A, agências de rating, Grécia, Portugal, etc. Não quero igualmente escrever sobre o odioso acto de terrorismo na Noruega, não porque não tenha posição sobre tão hedionda matéria, bem pelo contrário, mas porque prefiro manter o meu silêncio respeitoso em memória das vítimas inocentes.

Talvez porque o mundo e os homens me oferecem apenas temas batidos, repetidos e banais,  pavorosos outros,  prefiro lembrar hoje, aqui, algo de que os jornais não falam habitualmente, as televisões não passam, as rádios não soltam no éter e as pessoas não partilham normalmente nas conversas entre si. Falo do amor de Deus, e da verdade que só nEle existe. É por isso que deixo um versículo bíblico, algo escrito na Palavra de Deus, a bíblia Sagrada: "e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará." ( João 8:32 ).


Jacinto Lourenço 

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Humor Judaico



Um casal de Judeus radicados desde 1948 em Israel resolveram efectuar uma viagem pela Europa para visitar os lugares de onde tinham partido e levaram seu neto.

Primeiro visitaram a Polónia e fizeram questão de mostrar ao seu neto os campos de concentração onde seus pais faleceram.
Andaram pela cidade e na passagem pelos monumentos e igrejas o menino ávido de querer saber tudo perguntava: Avô estas pessoas são Judeus?
Não respondia o avô, são cristãos.
Quando visitaram a França, ele perguntou de novo: Estes são Judeus? Não, são cristãos. Na Holanda perguntou de novo e a mesma resposta: Não, são cristãos! Na Suécia, na Dinamarca, em Espanha e Portugal, a mesma coisa.
De regresso a Israel o avô querendo saber qual a impressão do seu neto perante a viagem perguntou: Então o que achaste da Europa, dos lugares de memória Judaica, dos monumentos e das pessoas?
E o menino exclamou com uma simpatia autêntica: Gostei de ver tudo, mas deve ser terrível para os coitados dos cristãos estarem assim espalhados pelo mundo todo”.


Via Por Terras de Sefarad

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Passagem por Samaria



!Y nadie sospechaba com qué temblor de urgencia

buscaba ella en la gente un resto de ternura!...


Andrés Quintanilla Buey







Diziam que ia ao poço
escondida sob o cântaro
que perdera já o olhar
varrendo o chão
a mulher samaritana
via apenas sombras
na água que do poço recolhia
ninguém suspeitava
que enchia de lágrimas o cântaro


Há quem diga que pecava
por um gesto de ternura
quando a rosa do sol incandescia
e trespassada de silêncio
se escondia, diziam
da mulher samaritana tanta coisa
ia ao poço para beber
da água repetida, na quietude frágil
da água, a sua vida.
 
João Tomaz Parreira
 
In blogue Papéis na Gaveta 

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Julho 1099 - Sete Semanas de Cerco


Na primeira Cruzada, que foi a única vitoriosa para as hostes cristãs, cavaleiros de toda da Europa capturam Jerusalém após sete semanas de cerco. Sedentos de sangue e imbuídos de um feroz fanatismo religioso, após a tomada da cidade, eles iniciam o massacre de judeus e muçulmanos que habitavam a cidade sagrada. Até cristãos de rito oriental são chacinados.



Fonte: Por Terras de Sefarad

terça-feira, 19 de julho de 2011

O Mistério do Vazio



Perguntas martelam noite e dia: Infantis, por que ainda não deixamos de nadar no útero cósmico? O lago do mistério nunca tem margem? Não se conhece quem pode decifrar o enigma da angústia? A realidade dos sonhos, que expõe o universo do inconsciente, não seria ainda mais real que o mundo estreito da consciência?

Intuímos as respostas, sentados ou correndo. Sabemos que nunca nos acostumaremos com imensidões. A vida, imensurável, permanecerá complexa demais e nosso tempo por aqui, bem curtinho.

Temos medo do vazio. Entupimos os dias com barulhos. Divertimos a alma com lantejoulas falsas. Mas, talvez o imarcescível só caiba no vazio.

O Tao ensina:


Trinta raios unem um eixo,
A utilidade da roda vem do vazio.


Queima-se o barro para fazer o pote.
A utilidade do pote vem do vazio.


Rasgam-se janelas e portas para criar o quarto.
A utilidade do quarto vem do vazio.


Portanto,
Ter leva ao lucro,
Não ter leva ao uso.



Talvez a vida esteja na coragem de conviver com esse vazio, de nada ter senão a nós mesmos. A respostas que tanto procuramos podem não ser respostas, mas o desvencilhar-se de pesos. Viver talvez seja por-se no Caminho. Quem sabe, longe das demandas da competência, sem as vozes da cobrança, consigamos vencer os dragões que impedem de achar o verdadeiro self, essência de nós mesmos.

O Nazareno avisou: “quem quiser ganhar a vida vai perdê-la e quem ousar perder a sua vida vai ganhá-la”. O Espírito enche, mas precisa encontrar vasos vazios. Não seria esse, precisamente esse, o segredo de construir-se humano?



Soli Deo Gloria


Fonte: Ricardo Gondim

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Coisas para as Quais já não tenho Paciência


Tenho andado a pensar que começo a acumular um défice de paciência para muitas coisas, sendo que  outras já me passam completamente ao lado.
Não tenho paciência, por exemplo, para discussões inúteis no Facebook, especialmente as   que têm em vista, por parte de quem muitas vezes as alimenta, a  marcação de território, ostentação de opiniões absolutistas,  ou exibicão de narcisismos  pseudo-culturais com pouca saída em foruns de  mais avisada assistência. Recuso liminarmente os púlpitos virtuais que se erguem nesta rede social  onde pregadores ocasionais proclamam em "deriva profética" um evangelho de consumo imediato, pessoal ou utilitário. Tenho, como sempre tive, e só isso me levou a "aderir", uma visão puramente hedonista do FB, ou melhor: o FB é um dos meus lugares de "veraneio"  na rede e nada mais, onde convivo com os amigos descontraidamente. Que me perdoem os puristas da coisa ou os que possam ter outra visão mais "séria" do assunto que eu sinceramente nunca consegui, nem quero, atingir.

Também já não tenho paciência para um certo  "imperialismo militante", de muitos sectores ditos cristãos, fundamentalistas  religiosos, donos de toda a verdade e revelação. Jesus disse que Ele era a Verdade e é essa Verdade que eu defendo "com unhas e dentes" por ser a Única Verdade. Esse é o evangelho que leio e que guia a minha vida. De resto, o respeito que tenho por qualquer cristão que, como eu, leia apenas e siga  esse evangelho,  é infinitamente  maior do que o que tenho por  qualquer exegeta, doutor da lei, apóstolo ( destes modernos que circulam por aí agora ) ou pregador, mesmo que possa ser muito relevante o seu papel numa qualquer igreja.
Já não tinha nenhum respeito nem paciência  para cristãos, pastores, evangelistas, ministros, que acham que por o serem,  a sua fé não pode ser confrontada,  ou que  estão acima de qualquer questionamento. O Senhor Jesus nunca fugiu aos debates, aos diálogos com aqueles que o questionavam sobre a Salvação e até acerca da sua própria condição humana-divina. Paulo buscava os confrontos que esclarecessem as posições e o alcance da fé cristã. Mais modernamente Lutero ou todos os outros reformadores tiveram que se questionar igualmente sobre as "verdades" absolutas da fé que os tinha formatado tendo a sua vida sido um constante corrigir de percurso e erros, muito deles, infelizmente graves e irremediáveis. Há muito de farisaísmo numa fé que se refugia na fuga ao debate, ao diálogo, que acha que não se deve deixar questionar por quem dela duvida. Gente com uma fé assim anda sempre carregada de pedras nos bolsos, vive num círculo fechado, é habitada por um  "Trento" protestante.

Já se me esgotou a paciência, há muito, para igrejas que se escondem em lugar de se exporem mostrando que também são feitas da mesma "massa humana" que toda a gente que não é igreja. Igrejas que necessitam de redenção!  Já não tenho pachorra para tolerar  "superioridades" espirituais que mais parecem apontar para  regimes de castas sublinhadas por particularismos pontuais que marcaram a vida da igreja de todos os tempos. Sou cristão-pentecostal, sim, mas  não tenho isso como fundamental ou como matriz diferenciadora da minha fé ou do meu comportamento cristão. Não julgo que haja qualquer virtude cristã especial em ser pentecostal, em ser batista, presbiteriano, etc. Somos todos, se efectivamente somos, um em Cristo, nada mais. Não faço  leituras ou exegeses abusivas da Bíblia Sagrada que tenham em vista aprisionar onde o evangelho libertou.

Noutro domínio, já não tenho paciência para governos de esquerda, de direita e menos ainda de centro direita. Cansam-me as causas fracturantes da esquerda e os populismos da direita; a vacuidade das falsas  ideologias que nos faz andar em círculos subindo na escala da babel dos ódios de estimação. Prefiro causas sociais,  pessoas reais, trabalhadores, empresários e sindicalistas sérios, que não vêm o capital como o fim último dos seus interesses ou dos seus combates, mas as pessoas, o povo, a nação, como fim último do seu trabalho . 

Chateia-me Olivença e os seus amigos portugueses em romaria anual a lembrar aos espanhóis que lá vivem que aquilo já foi português. A guerra de fronteiras encerrou-se há muito na península ibérica e os "fantasmas", como é sabido, não gostam de Espanha; preferem os ares mais taciturnos deste lado da fronteira onde os touros nunca andam em pontas e a investida é sempre mais dócil porque nada se arrisca.

Perdi a paciência com um país de penacho onde as pessoas se tratam por doutores e engenheiros como se título académico fosse nome próprio ou apelido de pai ou mãe. Esgota-me a paciência  ver uma justiça onde muitos  juízes prendem  polícias e soltam  ladrões. É bem provavel que tenham cabulado no exame de acesso à profissão...

Não dá mais para suportar o eterno desprezo a que é votada a cultura em Portugal, que hostiliza Nobeis portugueses, raros, como sabemos, e os deixa morrer fora de portas apenas porque são polémicos ou incovenientes para as oligarquias do regime. Menos paciência tenho  ainda para tolerar uma cultura-de-faz-de-conta-que-é-mas-não-é  promovida por quem não sabe respeitar um povo que se soube afirmar contra ventos e tempestades e onde falta uma nova geração de Avis que recoloque Portugal no lugar que é seu no concerto das nações.


Jacinto Lourenço   

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Comunidades Judaicas Portuguesas na Idade Média


( Sinagoga de Belmonte - Portugal )


Desde o fim do Império romano que uma minoria judaica existia no território que depois veio a ser Portugal.

Aquando da fundação da nacionalidade, em 1143, esta minoria já se encontrava disseminada em algumas localidades importantes como Santarém que possuía a mais antiga sinagoga nacional.

A população judaica aumentava, favorecida com a necessidade que os primeiros reis (século XII) sentiam de povoar o território que ia sendo conquistado aos mouros.

Em todos os locais em que o número de judeus superava a dezena, era criada uma comuna ou aljama cujo centro organizacional era a sinagoga. O seu sino chamava os fiéis não só à oração como também para lhes fornecer qualquer informação vinda do rei ou qualquer decisão tomada pelo rabi-mor. A sinagoga era a sede do governo da comuna.

Já no século XIII, D. Afonso II legisla (Ordenações Afonsinas) as relações entre cristãos e judeus pois estas começavam a criar dificuldades à minoria. Quer isto dizer que: os judeus não podiam ter serviçais cristãos sob pena de perda de património; qualquer judeu converso ao cristianismo que retornasse à religião original podia ser condenado à morte; não podiam os judeus ocupar cargos oficiais de modo a que os cristãos não se sentissem prejudicados.

Na época do Rei D. Dinis cada comuna tinha uma ou mais judiarias. Neste tempo, o rabi-mor tinha delegado seus, chamados ouvidores, nos principais centros judaicos do pais: Porto (Região de Entre Douro e Minho); Torre de Moncorvo (Trás-os-Montes); Viseu (Beira); Covilhã (Beira/Serra da Estrela); Santarém (Estremadura); Évora (Alentejo) e Faro (Algarve). Estes ouvidores exerciam verdadeira jurisdição sobre todas as comunidades judaicas nacionais.

A sinagoga era um local tão importante do ponto de vista religioso (como era a igreja para os cristãos) quanto civil; era lugar de assembleia e reunião dos membros da comuna.



Fonte:  Rede de Judiarias de Portugal