quinta-feira, 17 de novembro de 2011

A Vertigem Portuguesa...


...As transições que ultimamente protagonizámos ( do Estado Novo para a democracia liberal, desta para a massificação globalizadora ) crispou em nós tipos de violência descontínua. Não conseguiremos fazer nada como povo se continuarmos , por um lado, a pregar a paz, a esperança, o bem-estar, a confraternização e, por outro, a inflamar a contradição das injustiças que provoca uma clivagem esfacelante entre o que as pessoas sonham e o que a realidade lhes impõe.

Muitas vezes aqueles que matam são apenas a engrenagem última de uma cadeia difusa, que a todos cumplicia. A violência desgraçada dos desgraçados é, com frequência, antecedida da violência branca e fria, e legal dos intocáveis.

Somos por temperamento, avessos à revolta, à agitação, sublinhava Fernando Pessoa. Quando fazemos uma revolução é para implantar uma coisa igual ao que já estava.  Não se conhece noutro povo tamanho apelo à desistência, à imolação.[...]


Fernando Dacosta em  Nascido no Estado Novo - Notícias Editorial, pág. 337

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Grosseira Simulação de Liberdade

A política doméstica de Portugal é hoje, inteiramente, política europeia, ou melhor, política alemã. O que se passa em Portugal, como ficou provado na discussão do Orçamento, é uma grosseira simulação de uma liberdade que o País já não tem. O Executivo de Passos Coelho, salvas as devidas distâncias, tem tanta margem de manobra sobre o guião das políticas públicas como os governos de Quisling, na Noruega, ou de Pétain, em França, nos anos da Ocupação. Para esta grotesca ficção de aparente normalidade, colaboram também os ardores retóricos da Oposição, em particular os antigos ministros de Sócrates, agora sem gravata, e indumentária mais leve. A nossa política entrou, definitivamente, para o registo das actividades circenses. Ficou definitivamente confirmado que o chefe do Governo padece do sindroma de Zelig, bem abordado no filme com o mesmo nome, rodado por Woody Allen, em 1983. Já se percebeu que Passos Coelho não consegue estabilizar uma ideia, pois o centro do seu discurso oscilatório não se encontra no âmbito de uma actividade mental endógena, a que chamamos pensamento, mas nas trocas emocionais com os seus interlocutores, sobretudo se forem vislumbrados como poderosos. Junto de Merkel, nega os eurobonds, que antes defendera. Junto de Juncker, recusa negociar com a troika qualquer correcção do memorando, quando antes o havia sugerido. Agora, que a Zona Euro está à beira do abismo, Passos Coelho pisa a única hipótese de salvação, que até o distraído Cavaco Silva considera fundamental: a declaração por parte do BCE da disponibilidade para intervir "ilimitadamente" no mercado secundário da dívida pública. Portugal, nesta hora crítica, continua órfão de liderança. Mas a senhora Merkel está de parabéns. Mesmo neste "indisciplinado" país, encontrou um feitor à sua altura.


Viriato Soromenho Marques in Diário de Notícias Online

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

A Noite de Cristal - Efeméride


A Noite de Cristal, no alemão Kristallnacht, é a designação mais conhecida para os terríveis e violentos actos anti-semitas levados a cabo no Reich hitleriano, ocorridos na noite de 9 de Novembro de 1938, e já em menor escala na noite de 10.



Elie Wiesel chamou à Kristallnacht: “Uma bofetada no rosto da Humanidade”. E o mundo voltou a face uma vez mais !!!


Já Vimos este Filme...


Se não me falha a memória, passaram já 22 anos sobre a queda do muro de Berlim. Na altura, pensávamos nós, iria abrir-se um novo tempo para a europa, um tempo de liberdade, de novas dinâmicas sociais e económicas, de um novo paradigma para este velho continente. A esta distância temporal, era impossível adivinhar onde chegaríamos passadas pouco mais de duas décadas.

A UE está em frangalhos. A Comissão Europeia não manda nada. Os orgãos que a deviam dirigir, entregaram de bandeja o poder legitimado por milhões de europeus de diferentes nações a um dito directório franco-alemão que não tem legitimidade democrática nenhuma e  que ainda por cima só tem olhos para o seu próprio umbigo sendo em função disso que nos vai impondo decisões a esmo. Os tratados que deviam regular a vida e as decisões da UE são actualmente um anátema para este novo eixo que nos dirige. E o mais interessante é ver que todos os restantes países que compõem a UE e a Zona Euro sucumbiram por esmagamento às ordem franco-alemãs como se a europa fosse apenas a França e a Alemanha. Confesso que, para além de França, Alemanha, Itália, Grécia, Portugal e Irlanda é já difícil perceber se esta União Europeia é composta por mais alguns países já que,  quando se fala de UE,  é destes países que se fala.  Se imaginarmos a visita de um extra-terrestre ( se é que eles existem...) a este planeta, a imagem que reteria é  que há dois países de média dimensão, que são medianamente ricos, que mandam na europa e que esta europa em que eles mandam é composta por outros três ou quatro países, medianamente pobres, que não contam para nada para além de existirem para obedecerem  às estratégias de quem manda.

Os países que integram a União Europeia limitam-se hoje a pairar numa zona de influência e determinação de dois países que não têm legitimação para impor seja o que for a alguém, a não ser, claro, aos seus próprios governados. A isto, chama-se ditadura, seja qual for a aparência que tenha.

A europa e os europeus, são povos com uma história alargada de sobrevivência e determinados em defenderem a sua cultura, a sua história e a sua independência. Uma União Europeia que se submete a um eixo franco-alemão debaixo de um poder que subverte os próprios tratados comunitários, está condenada a desaparecer com mais ou menos dor para as nações europeias. Já vimos este filme quando Hitler e a Alemanha foram  invadindo e anexando territórios e nações à sua volta, debaixo do mesmo manto de cumplicidade e  silêncio inglês. Os ingleses, antes de 1939, imaginavam, como agora, que conseguiriam passar pelos "intervalos da chuva". Não conseguiram... A europa calou-se, como se cala agora, enquanto Hitler ia subvertendo o direito das nações existirem. A França claudicou e submeteu-se, como agora, aos interesses alemães, tornou-se, como agora, colaboracionista. Sarkozi não deslustra Pétain, passe o exagero.

As nações europeias estão a cair, uma a uma, aos interesses franco-alemães. Franceses e alemães acham que têm que ir mais longe, que o melhor é erguer um novo muro à volta de Paris, Berlim e mais algumas capitais europeias a norte. E nós os do Sul e outros periféricos que vamos à nossa vida. Por mim tudo bem, até porque se me é difícil confiar nos políticos e nas políticas do meu país, mais difícil me é confiar em quem já lançou a europa para duas guerras sangrentas. E que não se considere esta minha opinião como xenófoba ou primária. Xenofobia existe nas posições de alemães e franceses. Eu, por mim, gostava de continuar a partilhar, com todos os povos, incluidos alemães e franceses,  este espaço comum a  que chamam europa e que tem, ou  teve,  na sua génese, uma matriz cristã, mesmo que isso não pareça significar nada na actualidade. Não me pareçe que seja uma tarefa fácil, pelo menos enquanto os europeus se deixarem vergar às ordens franco-alemãs e mantiverem esta posição de tentar "passar pelos intervalos da chuva" 


Jacinto Lourenço

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

E vão Dois...




"A Grécia Não é Portugal"...


Um texto de alguém que sabe do que fala. Uma portuguesa, professora universitária, casada com um grego, que vive na Grécia há vinte anos e está perfeitamente entrosada na sociedade grega. Mais do que atender aos jornais, rádios ou  televisões, que nos empanturram todos os dias com notícias bombásticas colectadas nos corredores da UE e de Atenas, no diz que disse das diplomacias paralelas e subversivas,  importa perceber como é que as pessoas reais, as que sentem e vivem os problemas de todos os dias, problemas que lhes são criados e colocados por políticos e politicas desastrosos, olham para o presente e o futuro de um país milenar, berço da democracia e da civilização fundacional de todas as culturas ocidentais.

Ler Aqui no Diário de Notícias Online  

terça-feira, 8 de novembro de 2011

A nossa Situação, segundo Eça de Queiroz


Nós Estamos num Estado Comparável à Grécia. Nós estamos num estado comparável, correlativo à Grécia: mesma pobreza, mesma indignidade política, mesmo abaixamento dos caracteres, mesma ladroagem pública, mesma agiotagem, mesma decadência de espírito, mesma administração grotesca de desleixo e de confusão. Nos livros estrangeiros, nas revistas, quando se quer falar de um país católico e que pela sua decadência progressiva poderá vir a ser riscado do mapa – citam-se ao par a Grécia e Portugal. Somente nós não temos como a Grécia uma história gloriosa, a honra de ter criado uma religião, uma literatura de modelo universal e o museu humano da beleza da arte.




Eça de Queirós, in Farpas, 1872

Via Citador 

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Repetem-se os erros Económicos que Levaram Hitler ao Poder



Dois académicos da universidade espanhola Pompeu Fabra concluíram pela História, pela matemática e pela economia o que muitos políticos aprendem na pele - que a austeridade provoca contestação social, e que mais vale subir impostos do que cortar benefícios.
"Quanto mais corto nos benefícios sociais, mais agitação social tenho. O nível expectável de agitação aumenta maciçamente à medida que cai a despesa do Estado", disse à agência Lusa Hans-Joachim Voth, um dos autores do estudo, resumindo a investigação que fez com Jacopo Ponticelli, com o título ‘Austeridade e Anarquia: Cortes Orçamentais e Agitação Social na Europa, 1919-2009’. 
No estudo, os dois investigadores olharam para os movimentos de contestação social, incluindo motins, manifestações, greves gerais, assassinatos políticos, crises governamentais e tentativas de revolução, ao longo de 90 anos, em 26 países, incluindo Portugal.   
Um período que envolveu uma guerra mundial, assassinatos de presidentes e líderes políticos, nascimentos e mortes de nações, o fim da colonização e inúmeras revoltas e revoluções.  
Ponticelli e Voth, investigador de História Económica, concluíram que os países que escolheram aumentar os impostos em vez de reduzir as prestações e serviços sociais enfrentaram menos contestação nas ruas.  
"Subir impostos quase não teve efeitos, em comparação com os cortes na despesa. Quem paga impostos tem emprego e portanto, tem muito a perder, enquanto quem recebe transferências sociais - grande parte da despesa pública nos países observados -- tem pouco a perder e sente que não é parte interessada na sociedade", explica o investigador.  
"Ao ver o Estado cortar a despesa, ao dizer aos mais pobres que ele não têm prioridade, um número significativo vai decidir que este não é o género de sociedade em que querem viver", acrescenta Voth, que compara o fenómeno a um fogo - o fósforo pode ser uma causa exterior, mas o combustível são as razões que levam "tantas pessoas dispostas a assumir o pior e a decidir invadir as ruas" e partir para as formas mais extremas de contestação.

  
CONTESTAÇÃO AMEAÇA EUROPA

O investigador admite que, extrapolando para o futuro as conclusões do passado, é possível recear que o espectro da contestação aumentada ameace a Europa nos próximos anos, até porque, diz Voth, a revolta "tem a ver com as expectativas" e a classe média, que se habituou a esperar do Estado muito mais, deverá engrossar a massa contestatária.  
"Se tudo desabar na agitação social, haverá um segundo ciclo em que nos vamos deparar com menos crescimento e receitas fiscais ainda mais baixas. Depois tem que se cortar outra vez e vamos acabar numa espiral, vamos acabar por destruir grande parte do tecido social e político que mantém a estabilidade na Europa", prevê Voth.  
O investigador, nascido na Alemanha há 43 anos, diz mesmo que, no caso da crise na Grécia, a Europa vai "olhar para trás e ver que perdeu uma oportunidade gigante" para reforçar o continente e corrigir uma política económica e financeira que Voth compara mesmo àquela que levou à ascensão de Adolf Hitler.


In Correio da Manhã via Enciclopédia de Notícias

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

A moderna Batalha de Termópilas...


Conta-nos Heródoto de Halicarnasso a história da batalha de Termópilas na qual 300 guerreiros hoplitas terão resistido a Xerxes e aos muitos milhares de guerreiros persas que invadiam  o território grego. Na verdade nem a Grécia existia como estado unificado, tal qual o conhecemos hoje,  nem os guerreiros que ofereceram resistência ao imenso exército de Xerxes eram apenas 300. Leónidas, rei de Esparta conseguiu reunir um pequeno exército de alguns poucos milhares de homens, contando para isso com o apoio dum número considerável de cidades-estado gregas, na maioria dos casos pouco treinados e menos preparados ainda  para a guerra que tinham que travar. Os 300 hoplitas espartanos, seriam mais do que isso, mas mesmo assim nem por sombras se aproximavam da força esmagadora dos persas.

A técnica militar grega e a estratégia guerreira de Leónidas conseguiram inflingir pesadas baixas a Xerxes levando-o a recuar diversas vezes na frente de batalha perante os entrincheirados espartanos que se acoitavam num praticamente inexpugnável desfiladeiro. Leónidas e os bravos gregos acabariam por sucumbir após a penetração dos exércitos de Xerxes depois de  este ter recebido informação de traidores gregos sobre como penetrar na fortaleza natural do pequeno exército grego.

Parece uma história simples, mas traduz muito sobre a capacidade de resistância dos povos gregos à adversidade. Já o império romano do ocidente tinha sido desmantelado há muito e ainda os gregos faziam parte do império romano do oriente. Durante séculos resistiram também à força do islão mantendo-se fiéis à sua fé cristã.

Hoje, para os gregos, o perigo não vem do oriente mas do ocidente; já não são ameaçados por exércitos armados e numerosos. O perigo para os gregos, tal como para todos os europeus, em especial para as nações mais fragilizadas economicamente, reside num capitalismo selvagem e obsessivo que domina o mundo actual através do garrote financeiro e que não tem rosto nem alma e que não quer saber de democracia para nada nem de voto dos cidadãos para coisa nenhuma.  Mesmo assim parece que os gregos se mantém fiéis à sua velha história de resistir contra as adversidades especialmente as que ameaçam destrui-los. 

Não sei bem, e saberão muito poucos por agora, quais as verdadeiras intenções de Papandreou para, de repente,  remeter todas as decisões para um referendo popular ao novo plano de austeridade para a Grécia. Mas sei que o capitalismo e os seus arautos não gostaram nada de ouvir que as decisões na Grécia deixariam de ser tomadas pelo circulo restrito do conselho de ministros para passarem para a esfera de decisão do voto popular. É claro que os obscuros capitalistas que dominam o mundo não gostam nada de votos populares. Preferem este fingimento de "democracia" em que o "voto" é planeado e direccionado na defesa dos seus particulares  interesses mesmo que isso represente a falência e miséria dos povos.

Os gregos e os europeus em geral estão hoje confrontados por uma nova e moderna batalha de "Termópilas". Os hoplitas são poucos e muita gente, a esmagadora maioria  dos europeus,  nem consegue perceber o que se passa à sua volta. Mas sabemos que se os "traidores" não forem denunciados, a Grécia e a europa, país a país, irão desmantelar-se e retroceder civilizacionalmente uma boas décadas.


Jacinto Lourenço

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O Mundo em que Vivemos


Não passaram muitos anos ainda, mas já lá irão quase 40. Nessa altura lembro-me das discussões que nós, jovens cristãos, tínhamos sobre a forma como o mundo evoluia e quais os desfechos que o mesmo poderia ter à luz das ideias escatológicas e interpretações que então se faziam sobre o Livro de Apocalipse e as suas projecções futuristas. Lembro também que, nesses anos, a União Europeia ainda se chamava Mercado Comum e, à luz da Bíblia, imaginávamos então, este  erguer-se-ia como o novo império romano que iria dominar o mundo. As nossas certezas iam sendo desmontadas dia após dia, ano após ano, com a evolução mais ou menos célere dos acontecimentos à volta desta nova europa que surgia e só os nossos verdes anos e grande voluntarismo bíblico desculpavam a bondade das convicções muito avant-garde para a época. 

Os anos sucederam-se, as projecções político-escatológicas das nossas discussões juvenis esboroaram-se ao mesmo ritmo que se esborova a realidade de uma igreja que se negou sempre a acompanhar os tempos e adaptar-se a novas contingências sociais. O Mercado Comum cresceu, em termos de membros, mais do que alguma vez a nossa imaginação poderia supor. Transformou-se na União Europeia que conhecemos hoje. Não sabemos como vai continuar a evoluir, seja lá isso da evolução  o que for. Aquilo que nos parece é que esta ideia de Europa, acabou, e nada a poderá já redimir. O que virá a seguir ? Não sei. O que sei é que se o governo grego concretizar o anunciado referendo esta dita União Europeia vai desmantelar-se como se de um castelo de cartas se tratasse. E porquê ? Porque esta UE já não assenta na soberania dos povos; já não radica o seu poder na democracia mas antes em poderes ocultos que não querem nem podem ser escrutinados. E os governos europeus têm pavor do voto popular, especialmente se este não servir os seus interesses. É por isso que o anúncio do primeiro-ministro grego teve o efeito de uma tempestade espalhando o terror no mundo e particularmente na europa.  O que se seguirá ? Também não sei. Mas sei o que diz a Bíblia quando ao fim dos tempos e acredito que, cada vez mais, o mundo se reaproxima da matriz bíblica e do cumprimento do plano de Deus, mesmo que esse caminho esteja a ser feito  inconscientemente.

Apocalipse 5:1 Vi na destra do que estava assentado sobre o trono um livro escrito por dentro e por fora, bem selado com sete selos.
2 Vi também um anjo forte, clamando com grande voz: Quem é digno de abrir o livro e de romper os seus selos?
3 E ninguém no céu, nem na terra, nem debaixo da terra, podia abrir o livro, nem olhar para ele.
4 E eu chorava muito, porque não fora achado ninguém digno de abrir o livro nem de olhar para ele.
5 E disse-me um dentre os anciãos: Não chores; eis que o Leão da tribo de Judá, a raiz de Davi, venceu para abrir o livro e romper os sete selos.



Jacinto Lourenço

   

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

"Conformismo, é a Marca da Classe média"



A classe média em Portugal é mais baixa do que a média europeia. É conservadora, monótona, cumpridora, informada e formada por uma dose de realismo e bom senso. Nunca será revolucionária. Acata a lei e paga impostos. O conformismo é a marca da classe média e faz desta classe,  que não aparece nas notícias e é a maioria silenciosa,  o chamado "pilar da democracia".


Clara Ferreira Alves in Revista Única

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

A Razão e a Emoção


Lembro-me do fim penoso do rei Saul e do seu reinado. Saul foi o rei que o povo escolheu. O povo hebreu, a exemplo do que via com todos os outros povos à sua volta, queria um rei, pedia um rei, exigia um rei,  e foi-lhes dado um rei. Rejeitavam o governo de Deus. As eventuais capacidades de Saul para governar nunca haviam sido testadas. As suas qualidades espirituais nunca haviam sido postas à prova. Era um homem impulsivo, tinha coragem guerreira. O povo escolheu-o. Samuel alertou para o peso que um rei e as  exigências do seu reinado comportavam. Mas o povo não recuou. E assim Saul foi ungido rei.

Ora este exemplo traduz uma verdade para a qual nem sempre nós estamos despertos e que resulta do facto de que nem sempre aquilo que nos parece providencial é uma solução real. As nossas escolhas presentes, quer queiramos ou não, mais do que o presente condicionam o nosso futuro. O professor e cientista Carvalho Rodrigues afirmou em tempos que  aquilo que mais nos condiciona  são as causas futuras e não as passadas. Os hebreus olharam para a frente e quiseram ver o seu futuro conduzido por um líder que fosse um deles, que pensasse como eles, que reagisse como eles, que tivesse o mesmo pensamento que eles.  Como é bom de ver, pelas razões conhecidas, isso não iria dar bom resultado. O passado,  não podendo já ser determinante na vida de ninguém, não deixa de ser um bom conselheiro, alguém a quem escutar, especialmente porque o ser humano tem esta tendência doentia para a repetição do erro. Não há bolas de cristal. O futuro dependerá sempre das escolhas pessoais que fizermos no presente. É assim desde que nos foi dada a faculdade do  livre arbítreo  Tomar decisões acertadas nem sempre é fácil. Mas ajuda se elas forem ponderadas,  às vezes separando a razão da emoção. Foi por isso que o povo hebreu sofreu tanto. Raramente quis atender à razão de Deus. Raramente tomou decisões que não estivessem afectadas pelas emoções do imediato. É assim connosco também, nos dias que correm. Como pessoas, como povo, como nação.


Jacinto Lourenço

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Os Truques dos Maus políticos


Um dos clássicos truques dos maus políticos apanhados em situação dúbia é argumentarem terem a lei a seu favor. O ministro Miguel Macedo cedeu à pressão e abdicou do subsídio de deslocação pago pelo Estado. Antes disso, porém, argumentara que a sua residência oficial era em Braga (apesar de em Algés ter um apartamento registado no Tribunal Constitucional como segunda morada), que o direito a este subsídio "existe há muito tempo na lei" e que "a questão colocada não é nova, tem muitos anos".

O secretário de Estado José Cesário, apanhado na mesma situação, argumentou: "Ter casa aberta em Lisboa tem custos, que são elevados. A de Viseu suporto com o meu orçamento." O governante (ó espanto!) parecia mesmo querer que o Estado ajudasse à compra da casa na capital, pois argumentou que o tal subsídio servia para suportar, passo a citar, "os custos do empréstimo, mais a abertura da dita (IMI, condomínio, água, luz) e os custos de estar deslocado". E, claro, "estava na lei".

Noutro caso, o das subvenções vitalícias, as declarações foram parcas e, nitidamente, o PSD estava preparado, pois, logo no dia seguinte à notícia do DN, apareceu a anunciar um projecto de lei para acabar com a coisa. Mas ainda li uma frase curta e grossa de Dias Loureiro, o administrador que nada sabia do que se passava no BPN: "Cumpro a lei."

O mesmo pensamento legalista ilude, certamente, a consciência de Ângelo Correia, Armando Vara, Jorge Coelho ou Ferreira do Amaral, todos eles com rendimentos alternativos que lhes permitem manter um padrão de vida digno, mas a que juntam valores mensais que variam entre os 1700 e os 3000 euros, pagos pelos contribuintes.

Usar a letra da lei para colher benefícios contrários ao espírito da lei é coisa que não se vê como pode estar tipificada nos códigos como crime, ilegalidade ou mera infracção. Resta a condenação na opinião pública... Só que essa condenação é totalmente ineficaz, pois ninguém será demitido ou perderá eleições por causa disto!

O que acontece, perversamente, é a condenação política geral de todos os políticos, mesmo daqueles que, no meio desta gente, procuram portar-se de forma ética e patriótica e de muitos que deveriam beneficiar destes subsídios e acabarão por os perder, pagando assim o justo pelo pecador.

Pior: numa situação de crise económica, quando se exigem enormes sacrifícios ao povo, não é preciso ser-se mestre em ciência política para adivinhar que cada situação imoral imputada à classe política é mais um prego no caixão do regime a que chamamos, ainda e esperançosamente, Democracia.



Por PedroTadeu in Diário de Notícias online

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Para onde Vamos ?



Podemos chamar-lhe o que entendermos, crise do euro, crise da dívida, crise  europeia, americana ou chinesa, mas na verdade aquilo para que teremos que nos preparar é provavelmente para um recuo civilizacional.

Maioritariamente, os países mais desenvolvidos, os que efectivamente controlam a economia mundial, chegaram a um beco sem saida. O sistema capitalista transformou-se num monstro monetarista sem controlo que abocanha as economias, os governos, os estados, os cidadãos e os destrói  gradual e paulatinamente. A vida das pessoas, a família, o trabalho, o desenvolvimento cultural e social são hoje valores subjugados completamente a essa coisa prosaica que é o dinheiro e ao acumular do mesmo. Na actualidade, quando se fala de mercados, fala-se de gente que se esconde  por detrás de organizações supostamente sérias mas que  na verdade  encobrem uma actividade altamente especulativa e destrutiva das economias reais dos países cujos governos se hipotecam ao limite para supostamente promoverem um desenvolvimento que não é sustentado pelas economias reais, por aquilo que os países produzem em termos de mais valias do seu trabalho. Hoje, os governos e os governantes são meros administradores de dívida pública ou gestores de hipotecas políticas em benefício dos ditos mercados. Ou seja: a política e os políticos são meros factores instrumentais de alimentação de pérfidos interesses. A questão que se coloca é se eles, os políticos, não percebem isso ? Claro que percebem. Mas essa é também a única razão pela qual se mantêm na política e anseiam aceder ao poder; sabem que só assim terão oportunidade de partilhar o que os mercados espurgam aos povos.

A razão última, em minha opinião, pela qual os políticos do mundo dito desenvolvido apostam cada vez mais neste regime capitalista-monetarista selvagem é porque fora dele não teriam hipóteses de sobrevivência. Os mercados, esses, continuam a precisar de homens de mão, que façam o seu trabalho sujo de manter os povos em sujeição através da ilusão de que são livres para escolher os seus representantes. Na prática, essa liberdade só existe de quatro em quatro anos e, tomando o exemplo português, os povos só têm a liberdade de escolher sempre os mesmos que os arruinam cada vez mais.

Acredito que este estado de coisas, a nível mundial, é insustentável. As nações começam a despertar para a realidade quando o seu modelo de vida começa a ser tocado de perto pelas exigências dos mercados que apertam o cerco ao perceberem que o seu dinheiro poderá não ter retorno. 

Perante este cenário, não vejo como se pode reinventar um sistema que chegou ao fim. Todos os impérios têm os seus ciclos, quase todos se impõem pelo medo e pelo terror, mas quase todos caem com estrondo. Com este império do dinheiro não vai ser diferente. Cairá com estrondo. Isso afectar-nos-á a todos de uma maneira que não podemos ainda adivinhar, mas não tenho grandes dúvidas de que vai acontecer, e isto não tem nada a ver com previsões delirantes ou futuristas. É uma simples observação da realidade que vivemos.


Jacinto Lourenço