quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

"Nós não Somos a Grécia..."


... O cerco feito aos gregos, os vexames a que são submetidos em declarações proferidas por ignaros funcionários estrangeiros, provocam a mais funda indignação naqueles que ainda sentem o rebate da consciência. E a reacção daquele povo resulta da humilhação sistemática de que é alvo.

Sinto uma surda revolta quando ouço os medíocres políticos portugueses dizerem: "Mas nós não somos a Grécia!", sem a noção do peso das palavras e com a desfaçatez de quem nada conhece de história. Não; não somos a Grécia, mas pertencemos- -lhe, e a Grécia pertence-nos. Faz parte integrante da nossa condição relacional e da existência cultural e intelectual que nos define.[...]

Na sombra e no silêncio, a conspiração contra a Grécia é um capítulo da insídia que pretende liquidar o sonho europeu. Não o esqueçamos.


Baptista Bastos in Diário de Notícias Online

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

"A Europa Move-se, mas para Trás."




... No domingo passado, foram as mãos de civis gregos a repetir o gesto dos soldados de Xerxes, incendiando alguns dos edifícios mais belos do centro de Atenas, no meio de uma verdadeira batalha urbana. No Parlamento, Evangelos Venizelos explicava a necessidade de aprovar mais um pacote de austeridade nos seguintes termos: "A questão não é a de saber se alguns salários e pensões vão ser reduzidos, mas sim a de saber se esses salários e pensões reduzidos poderão ser pagos..." Em Espanha foi aprovada uma nova lei laboral que propõe brutais reduções salariais, conferindo ao patronato um poder discricionário que só vai aumentar a belicosidade social. Em Portugal, mesmo com as promessas paternalistas de Schäuble, o sofrimento social aumenta todos os dias. A narrativa europeia foi, durante mais de meio século, a da paz sob o império da lei, do progresso social, da convergência económica. Como num filme de terror, a moeda comum tornou-se uma masmorra onde manda a força nua, perante o sono profundo das leis e instituições comunitárias. Cresce a desigualdade entre nações, e, dentro destas, entre as classes sociais. A Europa move-se, mas para trás. Parece que regressámos aos tempos de smog e pobreza dos personagens de Charles Dickens. Quem trouxer Oliver Twist para a Europa do século XXI levará consigo também Marx e Bakunine. Por este caminho, a Europa terá um trágico passado à sua frente.



Viriato Soromenho Marques in Diário de Notícias Online

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Tudo para Serem Felizes...


(Janis Joplin )

Janis Joplin, Jimmy Hendrix, Amy Winhouse, Whitney Houston. Nomes mais recentes ou  mais gastos pelo tempo, mas nomes que correspondem a pessoas, seres humanos de excepção no mundo da música ( e podíamos citar outros do designado show business ) que nos deixaram quase todos da mesma forma e pela mesma razão,  levados pelos excessos, por consumos de drogas e alcool que os conduziram ao lugar de onde não tiveram forças para sair e onde se renderam à morte. 

Aparentemente, na perspectiva da esmagadora maioria das pessoas, tinham tudo para serem felizes. A imprensa, as rádios, as televisões e o cinema, enfim a indústria ligada ao espectáculo trouxeram  as suas  vidas glamorosas para a ribalta. Mostraram o lado iluminado  do seus dia a dia. Os seus nomes, as suas vidas, as suas casas e carros, os seus actos, as suas carreiras vendiam e davam lucro a uma corte que só pensava em promover ainda mais a sua aura de grandes artistas para obterem ainda mais lucro. Mesmo quando  a vida das superstars globais está em baixa ou passa por "zonas negras", mesmo essas fases, por si só, continuam a dar lucros de milhões aos "vampiros" que circulam à sua volta. Pouco lhes importa o que se passa com a vida pessoal de cada cantor ou actor que atingiu o topo da fama. Para os "vampiros" as pessoas não contam, nem a sua individualidade. O que conta é que continuam a facturar até na sua desgraça e miséria humana, como se viu ultimamente com Amy Winehouse, que vendia provavelmente muito mais jornais e dava muito mais motivos de reportagem quando entrava embriagada ou drogada em palco.

As canções de Whitney Houston, traziam muitas vezes a mensagem do Amor de Deus. Deus que a amava e a quem, estamos certos, ela também amava. Infelizmente a cantora perdeu essa visão do Amor divino, deixou que Deus fosse substituido por adições que gradualmente a foram destruindo e à sua vontade de se manter perto de Jesus. Só aí estaria protegida das muitas armadilhas e ciladas que o mundo em que se inseria lança aos que o integram e frequentam esquecendo muitas vezes a equidistância que é necessário manter para lhe sobreviver.

Estou certo que muitos foram os cristãos que intercederam por ela, que a tentaram ajudar, apoiar, encaminhar; mostrar o Caminho. Estou certo que Deus a levantou muitas vezes e que  esteve, até ao último momento, empenhado no seu resgate. Mas Whitney não terá porventura tido forças nem vontade própria para percorrer o Caminho de volta para a vida com determinação, como não tiveram outros que fizeram escolhas semelhantes. Do outro lado, do lado  obscuro da vida, a morte insinuava-se há muito com futilidades e coisas simples. Tão simples que parece fácil. Fácil de mais. Tão fácil que é capaz de destruir a vontade e a dignidade de qualquer ser humano. 


( Whitney Houston )

Jacinto Lourenço   

domingo, 12 de fevereiro de 2012

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

O Homem que Não fez a Saudação Nazi...


O Rei vai Nu...


Sobre a polémica instalada nos meios de comunicação, e meandros da política nacional, com as palavras do presidente do parlamento europeu, Martin Schulz, à volta da visita de Passos Coelho a Angola e do seu apelo ao investimento angolano em Portugal, foi curioso ver como as habituais vozes dos aparelhos partidários com representação parlamentar cairam em cima do sr. Schulz, "como gato a bofe",  mesmo se uma boa parte das críticas ignoram o contexto das palavras do senhor. E foi curioso ouvir a "indignação" das prima-donas nacionais especialmente porque essas defensoras vozes do orgulho português não foram capazes de se levantar na verberação das palavras da sra. Merkel sobre a Madeira ( com uma ou outra excepção de deputados naturais da ilha ou representantes da região autónoma ), bem mais graves que as de Schulz porque tiveram como pano de fundo uma ingerência clara, abusiva e inaceitável por parte de um chefe de governo estrangeiro em assuntos internos portugueses. Não vem para o caso aqui saber ( e eu não sei ) se os dinheiros aplicados na construção de túneis e vias-rápidas madeirenses resultaram ou não em aplicação coerente e rigorosa de fundos europeus. O que é interessante é que toda a gente, especialmente na esfera do governo, fingiu não ter ouvido a ingerência política de Merkel nos assuntos internos portugueses. E isso é grave, porque configura uma subserviência total à Alemanha, que se acha à vontade para repreender países soberanos acerca do modo  como fazem a aplicação dos dinheiros dos fundos de coesão. Esse é aliás um assunto que compete aos orgãos da UE e não a qualquer país membro fiscalizar.

Cabe perguntar onde ficou a indignação e reprovação pública do governo português face ao arrazoado de Merkel sobre a Madeira ? Será que o governo alemão se ficaria nas encolhas se algum membro do governo português fosse querer repreender a Alemanha pela forma como esta aplicou o dinheiro comunitário nas muitas obras  de reabilitação realizadas  na parte Leste do país desde a reunificação? Claro que não. Mas por cá, sobre as palavras da chanceler sobre a Madeira,   Passos Coelho e a malta do seu governo assobiaram para o lado e seguiram em frente numa atitude de quem não quer contrariar a "chefe".

O problema de Schulz não está em não ter razão no que disse, ( mesmo se ignorarmos que  se referiu vagamente à visita recente da sra. Merkel a Angola, que não foi apenas, com toda a certeza,  para matar saudades de José Eduardo dos Santos...) está em ser apenas presidente do parlamento europeu e ser nessa medida igualmente um alvo muito mais fácil e cómodo para as ofendidas prima-donas da nossa política interna. O que Schulz viu, qualquer português vê, mesmo se o dinheiro, como disse Vespasiano, não tem cheiro, e nem cor, como afirmam tantos outros que dele preferem ter  sempre uma visão inócua..., ainda  que não desinteressada.

Tenho por Martin Schulz alguma simpatia e acho que ele deveria ter vincado melhor o que queria dizer com o exemplo que deu, até porque, como bem sabemos, os nossos políticos são quase todos falhos de entendimento das coisas básicas e óbvias; mas acho também que aquilo que sobrou de franqueza em Schulz faltou em coluna vertebral ao governo português e às prima-donas da nossa política para lembrar à senhora Merkel que ela não é, pelo menos ainda, a imperatriz europeia que governa a partir do seu trono de Berlim, ainda que  para muitos governos europeus isso já seja uma realidade.

Jacinto Lourenço


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Portugal, os Burros e Passos Coelho...


Há uns anos, o Ministério da Economia encomendou um inquérito para perceber como os outros Estados europeus olhavam para Portugal. Na altura, escrevi uma coluna sobre o assunto. À pergunta - a que animal associa o país? -, a maioria respondeu: o burro. Poderia ter sido a águia, que nos faria voar de alegria. Ou o touro, que nos faria inchar de orgulho. Infelizmente, calhou-nos o burro.

Não sei se era a isto que Pedro Passos Coelho se queria referir - à maneira como os outros países nos olham e avaliam - quando de repente se indispôs contra a lamechice nacional. Mas não percebendo o objetivo político de Passos nesta incursão, fiquei a remoer o assunto: será que somos realmente um povo pedestre, dócil e amanteigado, como tantas vezes se diz, e o primeiro-ministro pareceu confirmar?
Não tendo resposta objetiva para esta súbita inquietação metafísica do Governo (logo numa altura destas), saltei para outra dúvida: num país menos sentimental do que o nosso - menos piegas, portanto -, esta frase, dita por um primeiro-ministro, seria interpretada de que forma? Imaginei Merkel perorar contra a rigidez dos alemães. Ou Sarkozy lamentar a vaidade francesa. Ou ainda Monti atacar o excesso de boa disposição dos italianos. Na verdade, nunca os ouvi dedicar-se a temas tão... intestinos. Porque será?

Para responder, não tenho alternativa senão citar, não Camões, embora o caso pedisse, mas um político de olhos bem abertos: Winston Churchill. No meio da guerra com a Alemanha, com o Reino Unido a fazer um brutal esforço financeiro, um grupo de ministros quis cortar as despesas supérfluas, entre as quais as ligadas aos poucos eventos culturais que ainda havia. Confrontado com a ideia, Churchill respondeu: meus senhores, se cortarmos aí, esta guerra serve-nos para quê?!
O homem da frase "sangue, suor e lágrimas" (a tirada é de Garibaldi, foi usada por Roosevelt e depois celebrizada por Churchill) sabia do que estava a falar. As pessoas reconheciam nele a inteligência para, apesar de tudo, conseguir dosear as decisões. A legitimidade para exigir sacrifícios vinha do medo dos alemães, sim, mas também da confiança que soubera construir à sua volta.

Na fase em que Portugal se encontra, não precisamos de um Governo com medo de falar. Mas se é vital termos um primeiro-ministro, digamos, decidido, é importante que não confunda austeridade com uma (vaga) autoridade moral que não tem e que, na verdade, ninguém deseja. No meio de uma guerra há coisas que não se dizem. Nem sequer no Carnaval.


André Macedo in Diário de Notícias Online

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Grécia, Moody's e Crise económica: Um certo Sabor a "Deja Vu"...


A agência de rating Moody's baixa a nota da Grécia; as taxas de juro explodem; o país declara falência; a população revolta-se; o exército toma o poder, declara-se o estado de urgência e um general é entronizado ditador; a Moody's, arrependida pelas consequências, pede desculpa... "Alto!", grita-me um leitor, que prossegue: "Então, você começa por dizer que vai recapitular e, depois de duas patacoadas que todos conhecemos, lança-se para um futuro de ficção científica?!" Perdão, volto a escrever: então, recapitulemos. Só estou a falar de passado e vou repetir-me, agora com pormenores. A Moody's, fundada em 1909, não viu chegar a crise bolsista de 1929. Admoestada pelo Tesouro americano por essa falta de atenção, decidiu mostrar serviço e deu nota negativa à Grécia, em 1931. A moeda nacional (dracma) desfez-se, os capitais fugiram, as taxas de juros subiram em flecha, o povo, com a corda na garganta, saiu à rua, o Governo de Elefthérios Venizelos (nada a ver com o Venizelos, atual ministro das Finanças) caiu, a República, também, o país tornou-se ingovernável e, em 1936, o general Metaxas fechou o Parlamento e declarou um Estado fascista. Perante a sua linda obra, a Moody's declarou, nesse ano, que ia deixar de dar nota às dívidas públicas. Mais tarde voltou a dar, mas eu hoje só vim aqui para dizer que nem sempre as tragédias se repetem em farsa, como dizia o outro. Às vezes, repetem-se simplesmente.


Por Ferreira Fernandes in Diário de Notícias Online

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Ensino Talmúdico



Quem é sábio ?
Aquele que aprende com todos.

Quem é poderoso ?
Aquele que se conquista a si mesmo.

Quem é rico?
Aquele que se contenta com o que tem.

Quem é honrado ?
Aquele que trata a todos honradamente.





( Shimon ben Zoma (século II), Talmude, Pirkei Avot ) 

Fonte: Por Terras de Sefarad



segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

A Sabedoria é Mais Excelente que a Estultícia


A Bíblia diz, no capítulo dois do  livro de Eclesiastes, que "a sabedoria é mais excelente que a estultícia, quanto a luz é mais excelente que as trevas", diz também, no mesmo capítulo dois,  que "ao homem que é bom diante dEle dá Deus sabedoria, conhecimento e alegria".

Que a sabedoria é realmente um desiderato de todos os homens e mulheres, é um facto, como também é um facto que, embora desejem,  poucos  alcançam a medida de sabedoria percebida em Eclesiastes. É que sabedoria requer conhecimento e este implica esforço e dedicação à compreensão de tudo o que enforma o mundo em que vivemos.

Percebemos com isto que o mundo dos homens seria ainda hoje um penoso calvário de luta pela sobrevivência humana se muitos dos que nos antecederam em vida não se tivessem aplicado ao conhecimento aturado no sentido de alcançarem a sabedoria. Mas há uma outra variavel que Eclesiastes introduz e que têm a ver com o facto de que a sabedoria é um dom de Deus para  os homens bons. Mas afinal que homem é bom perante Deus, para que alcance a sabedoria e o conhecimento diante dEle ? Entende-se  como "bom", na leitura de Eclesiastes, não apenas aquele que alcança muito conhecimento, muito sucesso profissional, muita capacidade humana neste ou naquele sector da vida apenas porque estudou muito. Aliás, homens sábios e bons existiram, e existem em todas as culturas e geografias, em todos os tempos, sem que para isso tenha sido necessário atingirem qualquer patamar de sucesso social. Um homem, ou uma mulher, "bons" e "sábios", são aqueles que se conhecem a si próprios, à sua  natureza humana, aos seus anseios e  limites  e têm, dos seus semelhantes e do mundo dos homens e das coisas um conhecimento equivalente e proporcional ao que têm de si próprios sem que tenha sido necessário,  porventura,  aprender tudo isso numa qualquer universidade. 

Eclesiastes diz também que a alegria do homem está relacionada com a sabedoria e o conhecimento.

O homem sábio conhece-se em todas as suas dimensões. Nos tempos que correm os meios de comunicação enchem-se de palavras, frases, estudos, textos, comunicações  de homens e mulheres, pretensamente sábios, que se deitam a adivinhar e a debitar o futuro da humanidade como se fossem donos de uma bola de cristal. As suas análises fazem-se em todas as vertentes. O conhecimento acumulado e explanado é muito. Era suposto então que todos nós, com tantos "sábios" a dizerem-nos o que vai ser da humanidade, fossemos, no mínimo, muito mais felizes por sabermos tanta coisa que vemos, ouvimos e lemos.

Contrariamente ao expectável não é assim. E Porquê ?!

O homem moderno tem acumulado conhecimento sobre conhecimento mas isso não lhe tem permitido coroar de sabedoria a sua vida por aí além. Qualquer animal do campo, doméstico ou selvagem é capaz de dar lições de sabedoria ao homem moderno. É só olharmos para a forma como se conduzem e procuram viver, numa boa parte dos casos, as suas curtas vidas. 

É que, para sermos felizes temos que nos entender em todas as dimensões e, ao homem moderno, tem-lhe faltado olhar e perceber a sua dimensão e filiação divina; sem isso, por muito "bom" que se seja, nunca se está completo, nem nunca se pode perceber, por inteiro, o mundo dos homens e das coisas. Sem o espírito divino em nós nunca estaremos reconciliados com a autenticidade do projecto maior que nos está cometido, nem estaremos irmanados neste destino comum que nos juntou aqui à face da terra, homens de todas as cores, raças e culturas. Sabedoria e felicidade serão então, de acordo com a Palavra de Deus, um dom ao alcance apenas dos que realizam esta globalidade em si mesmos dentro de uma totalidade física e espiritual. Só isso nos pode trazer a felicidade, porque só isso nos voltará a integrar dentro dos planos de Deus e  porque só assim poderemos  perceber o mundo, os homens e as coisas que nos acontecem. 


Jacinto Lourenço     

domingo, 5 de fevereiro de 2012

O Homem não é simples Besta de Carga...

Não esperava voltar aos feriados. Se volto, é por causa da troika e do debate que se gerou. Não creio que o atraso nacional se deva propriamente aos feriados ou que seja a sua supressão que nos vai fazer dar um salto em frente. As razões do atraso - a ordem é arbitrária - são mais fundas: sem negar manchas felizes de excelência, uma educação coxa; falta de produtividade; não temos uma cultura do trabalho - a religião também influenciou; uma industrialização atrasada; o velho encosto ao Estado protector, que engordou desmesuradamente; incompetência na governação; assimetrias sociais gritantes; a corrupção e a aldrabice atávicas - não apareceram agora, por causa do fisco, mais de cem mil filhos inexistentes, e, nos centros de saúde, dois milhões de utentes-fantasmas?; excesso de administradores nas empresas públicas, com privilégios e prémios imerecidos; justiça lenta e sentida como desigual; desemprego galopante; uma multidão ondulante pendurada da política e dos partidos; cumplicidades entre a política e interesses privados... Quando se lê o estudo recente "A Qualidade da Democracia em Portugal: a Perspectiva dos Cidadãos", há razões sérias para preocupação.
Mas compreendo até certo ponto o projecto em curso, sobretudo porque há a tendência para as "pontes" e todo o problema dos gastos por causa da produção em cadeia.
Claro que o homem precisa de trabalhar. Essa é mesmo uma das suas características: é transformando o mundo que se humaniza. E esta relação com o mundo é mais do que uma relação de trabalho para a produção de bens para a subsistência, porque o trabalho é também realização própria, social e histórica, já que é construindo o mundo que a humanidade ergue a sua história de fazer-se. Cá está: o desemprego não é então dramático apenas por colocar em risco a subsistência, mas também a realização de si e o reconhecimento devido ao facto de contribuição na obra comum. Portugal precisa de responsabilidade no trabalho, de boa gestão, de educação e formação excelentes, de iniciativa e empreendimento, justiça social, estímulos salariais.
Mas o ser humano não se define apenas pelo trabalho. A sua relação com o mundo e com os outros é também de gáudio, de gratidão, de criação, de contemplação da beleza. O seu ser não se esgota na produção: destrói-se a si próprio, quando vive para sobreviver. Pelo contrário, sobrevive para viver, e viver tem em si a sua finalidade, e, nesse viver, estão presentes e gozosos a festividade, o "luxo", o gratuito, a alegria genuína e expansiva de ser, o inútil do ponto de vista da produção - "o fascinante esplendor do inútil", escreveu George Steiner.
Feriado quer dizer, atendendo ao étimo, precisamente dia festivo. Vale em si mesmo e por si mesmo. Tem a sua finalidade em si próprio e não é meio para outra coisa, concretamente para que os trabalhadores recuperem forças para poderem trabalhar outra vez e mais. É da natureza do feriado ser um acontecimento não programado: é um "luxo", uma "graça" inesperada. Para haver tempo para a família e o homem lembrar-se de que é criador festivo e não simples besta de carga.
Dimensão essencial do feriado é também a comemoração de um acontecimento importante, constituinte da identidade de um povo. Lá está a memória, a história e a simbólica.[...]


Anselmo Borges in Diário de Notícias Online

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Em Tempos de Crise Económica, é Ouro sobre Azul...


Tribunal de recurso de Atlanta decidiu que os caçadores de tesouros da emprega Odyssey Marine Explorer vão ter que devolver aos espanhóis as 17 toneladas de moedas de ouro e prata encontradas no navio Nuestra Señora de las Mercedes, que foi afundado em 1804 e em 2007 e localizado a 21 milhas da costa algarvia em frente ao Cabo de Santa Maria (Faro).
Espanha venceu os caçadores de tesouros que em maio de 2007 levaram num jato privado, de Gibraltar para a Florida, as 594 mil moedas de metais preciosos que foram encontradas nos destroços do navio afundado pelos britânicos no Séc. XIX. Nesse naufrágio terão morrido quase 300 marinheiros, noticiam os jornais espanhóis on-line.
Após uma dura batalha judicial o Tribunal de Distrito da Florida em Atlanta decidiu a favor dos espanhóis esta terça-feira, tendo agora os responsáveis do Odyssey dez dias para devolver este tesouro submarino ao Estado espanhol. O processo será supervisionado pelo juiz espanhol Pizzo.
Este tesouro, de 17 toneladas, está avaliado em 500 milhões de dólares e segundo um dos recursos apresentados em tribunal foi encontrado a 21 milhas da costa algarvia na Zona Económica Exclusiva, em frente ao Cabo de Santa Maria, Faro, no Algarve.
A Odyssey, que tem encontrado tesouros em todo o mundo, falhou em convencer o tribunal de que a carga do Las Mercedes pertencia aos descendentes dos mercadores que viajavam na embarcação vindos do Peru. Os tribunais americanos consideraram sempre que o navio era militar e, portanto, pertencia ao Estado de Espanha, o país da bandeira.


In Diário de Notícias Online