quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
A Credibilidade da Igreja é Cristo
Dizia-me uma vez em Bruxelas, admirado e pesaroso, um ilustre teólogo da Universidade de Lovaina (Joseph Ratzinger até o cita num dos seus livros sobre Jesus de Nazaré; não é herege): "Como é que foi possível o movimento desencadeado por Jesus, essa figura simples e amiga dos pobres, que acabou crucificado, desembocar no Vaticano, com um Papa chefe do Estado?" Entende-se, quando se estuda a História, mas é preciso reconhecer a tremenda ambiguidade da situação e o perigo constante de traição da mensagem cristã. [...]
Acima de tudo e em primeiro lugar, é preciso voltar a Jesus Cristo, ao que ele foi, é, quis e quer. De facto, em síntese, a Igreja é a comunidade dos que acreditam em Cristo: "A comunidade dos que se entregaram a Jesus Cristo e à sua causa e a testemunham com energia como esperança para o mundo. A Igreja torna-se crível, se disser a mensagem cristã não em primeiro lugar aos outros, mas a si mesma e, portanto, não pregar apenas, mas cumprir as exigências de Jesus. Toda a sua credibilidade depende da fidelidade a Jesus Cristo."[...]
Anselmo Borges in Diário de Notícias online
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
Robinson Cavalcanti - Uma luz que Não deixará de Alumiar
“A missão da Igreja é manifestar aqui e agora a maior densidade possível do Reino de Deus que será consumado ali e além”
Há pouca gente, no panorama cristão-evangélico que fala português, da dimensão ética, cultural e intelectual de Robinson Calvancanti. Infelizmente o bispo da igreja Anglicana do Recife, no Brasil, foi brutalmente assassinado, tal como a sua esposa, ontem, por volta das 22h-00 locais, dentro da sua própria casa. E assim se perdeu um grande pensador da igreja e do cristianismo em geral. Robinson Cavalcanti era um daqueles homens de Deus que sabia rasgar caminhos novos na vida espiritual vivida neste difícil mundo contemporâneo. Independentemente da denominação, todos o respeitavam; respeito que extravasava muito para além do mero panorama eclesial em que se movia. Era um vulto no Brasil, que soube, pela sua voz sensata e pelo seu pensamento sereno e esclarecido, ultrapassar as fronteiras do seu país em vários domínios. Os cristãos-evangélicos perdem uma das suas melhores referências. O Céu recebeu um servo dedicado e fiel que soube fazer a diferença entre os homens no tempo em que permaneceu entre eles.
Jacinto Lourenço
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
A Vida segundo Séneca
"...Que diferença faz sair de um sítio de onde temos mesmo de sair ? Não nos devemos preocupar em viver muito, mas sim em viver plenamente; viver muito depende do destino, viver plenamente, da nossa própria alma. Uma vida plena é longa quanto basta; e será plena se a alma se apropria do bem que lhe é próprio e se apenas a si se reconhece poder sobre si mesma. Que interessam os oitenta anos "daquele homem" passados na inacção ? Ele não viveu, demorou-se nesta vida; não morreu tarde, levou foi muito tempo a morrer! "Viveu oitenta anos". O que importa é ver a partir de que data ele começou a morrer. "Mas aquele outro morreu na força da vida". É certo, mas cumpriu os deveres de um bom cidadão, de um bom amigo, de um bom filho, sem descurar o mínimo pormenor; embora o seu tempo de vida ficasse incompleto, a sua vida atingiu a plenitude. "Viveu oitenta anos ?". Não, existiu durante oitenta anos, a menos que digas que ele viveu no mesmo sentido em que falas na vida das árvores. Peço-te insistentemente, Lucílio: façamos com que a nossa vida, à semelhança dos materiais preciosos, valha pouco pelo espaço que ocupa, e muito pelo peso que tem. Avaliemo-la pelos nossos actos, não pelo tempo que dura. Queres saber qual a diferença entre um homem enérgico, que despreza a fortuna, cumpre todos os deveres inerentes à vida humana e assim se alça ao seu supremo bem, e um outro por quem simplesmente passaram numerosos anos ? O primeiro continua a existir depois da morte, o outro já estava morto antes de morrer ! Louvemos, portanto, e incluamos entre os afortunados o homem que soube usar com proveito o tempo, mesmo exíguo, que viveu. Contemplou a verdadeira luz; não foi um como tantos outros; não só viveu, como o fez com vigor. Umas vezes gozou de um céu inteiramente sereno; outras, conforme sucede, o fulgor do astro poderoso brilhou através das nuvens. [...]
Lucílio Aneu Séneca - Cartas a Lucílio, livro XV, carta 93 - Edição: Fundação Caloustre Gulbenkian, 2009
terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
D. Camilo e Pepone...
Quando eu era menino, ver televisão era uma festa só permitida aos domingos à tarde, para os desenhos animados, e a premiar o facto de ter estado presente no serviço religioso da manhã; eventualmente aos sábados à noite isso também podia acontecer se acompanhado de algum familiar adulto a um dos dois únicos cafés que possuiam aparelho receptor, para ver o Bonanza. A televisão, nessa altura, não oferecia nenhum risco para crianças nem para adultos, até porque, por via de regra, a emissão do único canal televisivo existente iniciava-se ao final da tarde/princípio da noite e encerrava, se a memória não me falha, por volta das 23h-30', mais coisa menos coisa. Tirando isso, só muito excepcionalmente havia emissão fora dessa janela horária nos dias úteis da semana. Normalmente acontecia se o Benfica ( não me lembro se ocorria com outros clubes nacionais) jogava fora para a então taça dos campeões europeus, ou se algum Papa visitava Portugal e ia a Fátima. Também, diga-se, não havia razão nenhuma para que as emissões fossem mais alargadas num país em que não se passava nada e onde aquilo que se passava no estrangeiro, e em Portugal, se nos chegava, era filtrado e acomodado ao que o regime achava que devíamos ver, ouvir ou ler, e daí, sim, vinha o verdadeiro perigo para todos.
Anos mais tarde, não me lembro em que tempo, começaram a ser emitidos os filmes de D.Camilo, um padre católico que exercia o seu ministério numa aldeia perdida algures na Itália do pós-guerra dos anos 40/50. Fizeram as minhas delícias de adolescente. D. Camilo e o seu eterno opositor, Pepone, o autarca comunista, retratavam uma realidade que convinha ao estado novo exibir. Os argumentos de "D.Camilo", tinham um denominador comum: apresentavam a igreja católica como a única força que era capaz de defender os interesses do povo no que tocava a assuntos de toda a ordem, mesmo os mais insignificantes. Por seu turno, e do outro lado da barricada, estava o eterno opositor comunista, personificado em Pepone, cujas atitudes e acções eram diabolizadas e exibidas como capazes de conduzir à perdição do inferno qualquer bom católico e habitante da vila. E tudo naquela terra se passava à volta das aventuras e desventuras de D.Camilo, um pároco que dialogava com um cristo de madeira preso numa cruz dependurada sobre o altar-mor da igreja e do qual recebia conselhos e dicas de como se devia conduzir ( e aos quais raramente atendia ), e de Pepone, o dirigente comunista que pretendia instalar uma "URSS" no microcosmos da pequena povoação Italiana. A luta dos dois oponentes assentava basicamente em saber quem iria alcançar o apoio do povo para os pontos de vista tão antagonicamente apresentados e defendidos de forma radical como sendo os melhores para a vida e ordem da terra.
A história que chegava até nós, contada por cada filme, se vista com o olhar de hoje, era realmente muito naíf, mas de ingénua tinha muito pouco. O que acontecia no ecran era a eterna luta entre o bem e o mal. O primeiro encarnado em D.Camilo e nos valores católicos de então, que eram genericamente comuns a toda a europa do sul, e o segundo corporizado pelo comunista Pepone defensor acérrimo do velho estilo estalinista e de uma contraditória nova ordem que pretendia substituir a velha.
A RTP Memória tem passado nas últimas semanas alguns deste filmes. Gravei e fui revendo conforme a minha disponibilidade de tempo. Não deixo de sorrir, ma já não me divertiram tanto, como é evidente, as aventuras e desventuras de D.Camilo e Pepone, até porque o que alegrava a minha adolescência ingénua de há quarenta anos atrás, cobre-me agora de "ridículo" quando os meus filhos me "apanham" a ver o D.Camilo. O mundo, tal qual o conhecemos hoje, já não é visto como há quarenta ou cinquenta anos atrás. A mensagem maniqueísta que o estado novo pretendia fazer passar nos anos 60 em Portugal, e onde os filmes de D.Camilo assentavam que nem uma luva, ajoelhou perante os ventos de Abril. Volvidas algumas décadas, D.Camilo e Pepone já não encaixam nestes tempos de pós- modernidade, mesmo se traduzem uma velha realidade sociológica que se espraia, nos dias que correm, envolvida na espuma do tempo. O bem e o mal são-nos hoje apresentados veiculados por diferentes e intrincadas manifestações sociológicas, muito mais complexas e estruturadas, de difícil descodificação mas, na essência, a terra que deixa um ou outro germinar continua presente nas sociedades e nos homens do nosso tempo. Afinal, D.Camilo ou Pepone não passam de alegorias que, de uma forma ou de outra, se projectam em todos os tempos, em todas as sociedades, em todas as vivências.
Jacinto Lourenço
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
A Herança Judaica em Portugal
Muito já se escreveu sobre a herança de judeus na Península Ibérica. Depois de uma visita a 15 cidades portuguesas, incluindo as sinagogas e museus de Lisboa, Belmonte, Castelo de Vide e Tomar, pode-se concluir que a herança judaica foi muito forte e altamente representativa.
Expulsos da Espanha em 1496, os judeus encontraram abrigo no país vizinho, a que chegaram das mais diversas formas, incluindo caminhadas a pé e a utilização de carros de bois, sempre somente com a roupa do corpo. Diz a história que os primeiros judeus foram para Castelo de Vide ainda no período romano. A situação começou a se complicar a partir de 1497, quando o rei D. Manuel I determinou a conversão forçada que deu origem aos cristãos-novos e aos criptos judeus, estes com a característica de manter os postulados da sua crença de forma oculta. [...]
Ler texto integral AQUI no blogue Eterna Sefarad
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
Humor de Sexta - Estudante Exemplar...
Um pai judeu, com a melhor das intenções, enviou o seu filho para o colégio
mais caro da comunidade Judia.
Apesar das suas intenções, Samuel não ligava puto às aulas.
mais caro da comunidade Judia.
Apesar das suas intenções, Samuel não ligava puto às aulas.
Notas do primeiro mês:
Matemática 2
História 1.7
Literatura 2
Comportamento 0
Matemática 2
História 1.7
Literatura 2
Comportamento 0
Estas espantosas classificações repetiam-se de mês a mês, até que o pai se cansou:
- Samuel ouve bem o que te vou dizer, se no próximo mês as tuas notas e o teu comportamento não melhorarem, vou-te mandar estudar para um colégio católico.
No mês seguinte as notas do Samuel foram uma tragédia, só comparável ao naufrágio do Titanic e o pai cumpriu com a sua palavra.
Através de um rabino próximo da sua família, contactou com um bispo que lhe recomendou um bom Colégio Franciscano para o qual Samuel foi enviado.
Notas do primeiro mês:
Matemática 18
Geografia 16
Historia 16
Literatura 20
Comportamento 20
Notas do segundo mês:
Matemática 20
Literatura 20
Comportamento 20
Notas do segundo mês:
Matemática 20
Geografia 18
Historia 18
Literatura 20
Comportamento 20.
Historia 18
Literatura 20
Comportamento 20.
O pai surpreendido perguntou-lhe:
- Samuel, o que é que te aconteceu para teres tão boas notas?
Como é que se deu este milagre?
- Não sei papá. Apresentaram-me a todos os colegas e a
todos os professores e logo de tarde fomos a uma igreja.
Quando entrei, vi um homem crucificado, com pregos
nas mãos e nos pés, com cara de ter sofrido muito e todo ensanguentado.
Perguntei, quem é Ele?
E respondeu-me um aluno dos cursos superiores:
'Ele era um judeu como tu'.
Então disse para mim: Fonix,... Aqui temos que estudar, que estes gajos não são para brincadeiras.
Fonte: Por Terras de Sefarad
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012
Motivos e Motivações...
... Será que o desempregado que partiu de manhã cedo do Porto para ir à capital gritar palavras de ordem e regressar, à noite, contente por ter cumprido o que acha ser um dever cívico tem a mesma história e a mesma motivação do que aquele grego que atirou um cocktail Molotov à loja Kosta Boda e agora se gaba de ter conseguido destruir todos os cristais de luxo que ofendiam o seu pessoal e real empobrecimento?
Será que a diferença entre Grécia e Portugal está no tempo, apenas alguns meses de diferença, da aplicação de medidas de austeridade? [...]
Pedro Tadeu in Diário de Notícias Online
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
"Nós não Somos a Grécia..."
... O cerco feito aos gregos, os vexames a que são submetidos em declarações proferidas por ignaros funcionários estrangeiros, provocam a mais funda indignação naqueles que ainda sentem o rebate da consciência. E a reacção daquele povo resulta da humilhação sistemática de que é alvo.
Sinto uma surda revolta quando ouço os medíocres políticos portugueses dizerem: "Mas nós não somos a Grécia!", sem a noção do peso das palavras e com a desfaçatez de quem nada conhece de história. Não; não somos a Grécia, mas pertencemos- -lhe, e a Grécia pertence-nos. Faz parte integrante da nossa condição relacional e da existência cultural e intelectual que nos define.[...]
Na sombra e no silêncio, a conspiração contra a Grécia é um capítulo da insídia que pretende liquidar o sonho europeu. Não o esqueçamos.
Baptista Bastos in Diário de Notícias Online
terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
"A Europa Move-se, mas para Trás."
... No domingo passado, foram as mãos de civis gregos a repetir o gesto dos soldados de Xerxes, incendiando alguns dos edifícios mais belos do centro de Atenas, no meio de uma verdadeira batalha urbana. No Parlamento, Evangelos Venizelos explicava a necessidade de aprovar mais um pacote de austeridade nos seguintes termos: "A questão não é a de saber se alguns salários e pensões vão ser reduzidos, mas sim a de saber se esses salários e pensões reduzidos poderão ser pagos..." Em Espanha foi aprovada uma nova lei laboral que propõe brutais reduções salariais, conferindo ao patronato um poder discricionário que só vai aumentar a belicosidade social. Em Portugal, mesmo com as promessas paternalistas de Schäuble, o sofrimento social aumenta todos os dias. A narrativa europeia foi, durante mais de meio século, a da paz sob o império da lei, do progresso social, da convergência económica. Como num filme de terror, a moeda comum tornou-se uma masmorra onde manda a força nua, perante o sono profundo das leis e instituições comunitárias. Cresce a desigualdade entre nações, e, dentro destas, entre as classes sociais. A Europa move-se, mas para trás. Parece que regressámos aos tempos de smog e pobreza dos personagens de Charles Dickens. Quem trouxer Oliver Twist para a Europa do século XXI levará consigo também Marx e Bakunine. Por este caminho, a Europa terá um trágico passado à sua frente.
Viriato Soromenho Marques in Diário de Notícias Online
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
Tudo para Serem Felizes...
(Janis Joplin )
Janis Joplin, Jimmy Hendrix, Amy Winhouse, Whitney Houston. Nomes mais recentes ou mais gastos pelo tempo, mas nomes que correspondem a pessoas, seres humanos de excepção no mundo da música ( e podíamos citar outros do designado show business ) que nos deixaram quase todos da mesma forma e pela mesma razão, levados pelos excessos, por consumos de drogas e alcool que os conduziram ao lugar de onde não tiveram forças para sair e onde se renderam à morte.
Aparentemente, na perspectiva da esmagadora maioria das pessoas, tinham tudo para serem felizes. A imprensa, as rádios, as televisões e o cinema, enfim a indústria ligada ao espectáculo trouxeram as suas vidas glamorosas para a ribalta. Mostraram o lado iluminado do seus dia a dia. Os seus nomes, as suas vidas, as suas casas e carros, os seus actos, as suas carreiras vendiam e davam lucro a uma corte que só pensava em promover ainda mais a sua aura de grandes artistas para obterem ainda mais lucro. Mesmo quando a vida das superstars globais está em baixa ou passa por "zonas negras", mesmo essas fases, por si só, continuam a dar lucros de milhões aos "vampiros" que circulam à sua volta. Pouco lhes importa o que se passa com a vida pessoal de cada cantor ou actor que atingiu o topo da fama. Para os "vampiros" as pessoas não contam, nem a sua individualidade. O que conta é que continuam a facturar até na sua desgraça e miséria humana, como se viu ultimamente com Amy Winehouse, que vendia provavelmente muito mais jornais e dava muito mais motivos de reportagem quando entrava embriagada ou drogada em palco.
As canções de Whitney Houston, traziam muitas vezes a mensagem do Amor de Deus. Deus que a amava e a quem, estamos certos, ela também amava. Infelizmente a cantora perdeu essa visão do Amor divino, deixou que Deus fosse substituido por adições que gradualmente a foram destruindo e à sua vontade de se manter perto de Jesus. Só aí estaria protegida das muitas armadilhas e ciladas que o mundo em que se inseria lança aos que o integram e frequentam esquecendo muitas vezes a equidistância que é necessário manter para lhe sobreviver.
Estou certo que muitos foram os cristãos que intercederam por ela, que a tentaram ajudar, apoiar, encaminhar; mostrar o Caminho. Estou certo que Deus a levantou muitas vezes e que esteve, até ao último momento, empenhado no seu resgate. Mas Whitney não terá porventura tido forças nem vontade própria para percorrer o Caminho de volta para a vida com determinação, como não tiveram outros que fizeram escolhas semelhantes. Do outro lado, do lado obscuro da vida, a morte insinuava-se há muito com futilidades e coisas simples. Tão simples que parece fácil. Fácil de mais. Tão fácil que é capaz de destruir a vontade e a dignidade de qualquer ser humano.
domingo, 12 de fevereiro de 2012
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
O Rei vai Nu...
Sobre a polémica instalada nos meios de comunicação, e meandros da política nacional, com as palavras do presidente do parlamento europeu, Martin Schulz, à volta da visita de Passos Coelho a Angola e do seu apelo ao investimento angolano em Portugal, foi curioso ver como as habituais vozes dos aparelhos partidários com representação parlamentar cairam em cima do sr. Schulz, "como gato a bofe", mesmo se uma boa parte das críticas ignoram o contexto das palavras do senhor. E foi curioso ouvir a "indignação" das prima-donas nacionais especialmente porque essas defensoras vozes do orgulho português não foram capazes de se levantar na verberação das palavras da sra. Merkel sobre a Madeira ( com uma ou outra excepção de deputados naturais da ilha ou representantes da região autónoma ), bem mais graves que as de Schulz porque tiveram como pano de fundo uma ingerência clara, abusiva e inaceitável por parte de um chefe de governo estrangeiro em assuntos internos portugueses. Não vem para o caso aqui saber ( e eu não sei ) se os dinheiros aplicados na construção de túneis e vias-rápidas madeirenses resultaram ou não em aplicação coerente e rigorosa de fundos europeus. O que é interessante é que toda a gente, especialmente na esfera do governo, fingiu não ter ouvido a ingerência política de Merkel nos assuntos internos portugueses. E isso é grave, porque configura uma subserviência total à Alemanha, que se acha à vontade para repreender países soberanos acerca do modo como fazem a aplicação dos dinheiros dos fundos de coesão. Esse é aliás um assunto que compete aos orgãos da UE e não a qualquer país membro fiscalizar.
Cabe perguntar onde ficou a indignação e reprovação pública do governo português face ao arrazoado de Merkel sobre a Madeira ? Será que o governo alemão se ficaria nas encolhas se algum membro do governo português fosse querer repreender a Alemanha pela forma como esta aplicou o dinheiro comunitário nas muitas obras de reabilitação realizadas na parte Leste do país desde a reunificação? Claro que não. Mas por cá, sobre as palavras da chanceler sobre a Madeira, Passos Coelho e a malta do seu governo assobiaram para o lado e seguiram em frente numa atitude de quem não quer contrariar a "chefe".
O problema de Schulz não está em não ter razão no que disse, ( mesmo se ignorarmos que se referiu vagamente à visita recente da sra. Merkel a Angola, que não foi apenas, com toda a certeza, para matar saudades de José Eduardo dos Santos...) está em ser apenas presidente do parlamento europeu e ser nessa medida igualmente um alvo muito mais fácil e cómodo para as ofendidas prima-donas da nossa política interna. O que Schulz viu, qualquer português vê, mesmo se o dinheiro, como disse Vespasiano, não tem cheiro, e nem cor, como afirmam tantos outros que dele preferem ter sempre uma visão inócua..., ainda que não desinteressada.
Tenho por Martin Schulz alguma simpatia e acho que ele deveria ter vincado melhor o que queria dizer com o exemplo que deu, até porque, como bem sabemos, os nossos políticos são quase todos falhos de entendimento das coisas básicas e óbvias; mas acho também que aquilo que sobrou de franqueza em Schulz faltou em coluna vertebral ao governo português e às prima-donas da nossa política para lembrar à senhora Merkel que ela não é, pelo menos ainda, a imperatriz europeia que governa a partir do seu trono de Berlim, ainda que para muitos governos europeus isso já seja uma realidade.
Jacinto Lourenço
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
Portugal, os Burros e Passos Coelho...
Há uns anos, o Ministério da Economia encomendou um inquérito para perceber como os outros Estados europeus olhavam para Portugal. Na altura, escrevi uma coluna sobre o assunto. À pergunta - a que animal associa o país? -, a maioria respondeu: o burro. Poderia ter sido a águia, que nos faria voar de alegria. Ou o touro, que nos faria inchar de orgulho. Infelizmente, calhou-nos o burro.
Não sei se era a isto que Pedro Passos Coelho se queria referir - à maneira como os outros países nos olham e avaliam - quando de repente se indispôs contra a lamechice nacional. Mas não percebendo o objetivo político de Passos nesta incursão, fiquei a remoer o assunto: será que somos realmente um povo pedestre, dócil e amanteigado, como tantas vezes se diz, e o primeiro-ministro pareceu confirmar?
Não tendo resposta objetiva para esta súbita inquietação metafísica do Governo (logo numa altura destas), saltei para outra dúvida: num país menos sentimental do que o nosso - menos piegas, portanto -, esta frase, dita por um primeiro-ministro, seria interpretada de que forma? Imaginei Merkel perorar contra a rigidez dos alemães. Ou Sarkozy lamentar a vaidade francesa. Ou ainda Monti atacar o excesso de boa disposição dos italianos. Na verdade, nunca os ouvi dedicar-se a temas tão... intestinos. Porque será?
Para responder, não tenho alternativa senão citar, não Camões, embora o caso pedisse, mas um político de olhos bem abertos: Winston Churchill. No meio da guerra com a Alemanha, com o Reino Unido a fazer um brutal esforço financeiro, um grupo de ministros quis cortar as despesas supérfluas, entre as quais as ligadas aos poucos eventos culturais que ainda havia. Confrontado com a ideia, Churchill respondeu: meus senhores, se cortarmos aí, esta guerra serve-nos para quê?!
O homem da frase "sangue, suor e lágrimas" (a tirada é de Garibaldi, foi usada por Roosevelt e depois celebrizada por Churchill) sabia do que estava a falar. As pessoas reconheciam nele a inteligência para, apesar de tudo, conseguir dosear as decisões. A legitimidade para exigir sacrifícios vinha do medo dos alemães, sim, mas também da confiança que soubera construir à sua volta.
Na fase em que Portugal se encontra, não precisamos de um Governo com medo de falar. Mas se é vital termos um primeiro-ministro, digamos, decidido, é importante que não confunda austeridade com uma (vaga) autoridade moral que não tem e que, na verdade, ninguém deseja. No meio de uma guerra há coisas que não se dizem. Nem sequer no Carnaval.
André Macedo in Diário de Notícias Online
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