quinta-feira, 21 de março de 2013

Somos um Sopro...


...Somos uma folha de papel, somos um sopro.
Aquelas merdices que nos dão voltas na cabeça, que nos consomem, não têm qualquer valor.
Haveremos de  arrepender-nos de cada uma delas . A derrapagem de um pneu na estrada ou qualquer outro acaso banal irá abrir-nos os olhos para uma realidade maior. Então, iremos surpreender-nos com aquilo que, afinal, sempre soubemos que iria ser assim. Já lemos em livros, vimos em filmes, ouvimos em canções, fomos avisados mil vezes e, no entanto, precisamos que aconteça. Mesmo. Já vem na nossa direcção. Quando esse instante chegar, haverá verdades que se tornarão únicas e talvez nos admiremos por termos sido capazes de as ignorar com tanta força.

José Luis Peixoto in Visão - 14/03/2013




Estava a ler  um texto do José Luis Peixoto, consagrado escritor português, por sinal alentejano, e retirei o trecho que aqui publico. Ao mesmo tempo vieram  à minha memória  várias passagens bíblicas. De entre elas, seleccionei esta: Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã; porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal. ( Mateus 6:34). Depois pensei que este versículo não nos incita ao desleixo com a nossa vida ou à ausência de  planeamento, mas sim a não deixarmos que os problemas nos dominem de tal maneira que percamos a noção sobre quão valiosa é a  vida para a desperdiçarmos em coisas menores, mesquinhas, na maioria dos casos. Encarar os problemas e aborrecimentos  não significa que eles tenham que nos esmagar a tal ponto que deixemos de poder olhar para Aquele que é tudo em nós e que tem a solução do que nos parece insolúvel. Sim, somos um sopro, e nisto José Luis Peixoto concorda com o Salmista: O homem é semelhante a um sopro; os seus dias são como a sombra que passa. ( Salmos 144:4 ).                                                                        
O desafio, como conclui aliás José Luis Peixoto, é vivermos a nossa vida sem que ela se constitua, diariamente, num fardo de difícil transporte. Não foi esse o projecto divino para nós. Não é isso que Deus deseja.

Jacinto Lourenço

segunda-feira, 18 de março de 2013

Bater no Fundo...



Bater no fundo é uma expressão que ouvimos frequentemente quando se pretende concluir que já não existe mais espaço para se ir mais além, para que  alguma coisa ou acontecimento possa piorar ainda mais. Temos escutado isso mais vezes do que gostaríamos, em Portugal, quando alguém se quer referir ao estado do país e ao seu ambiente económico e social, mas a verdade é que descobrimos que, afinal, o fundo não passa de um fundo falso a que se seguem sucessivamente novos  fundos falsos. Ou seja: quando esperamos que, depois de bater no fundo, venha o tempo de começar de novo, eis que alguém nos vem dizer: "surpresa, afinal ainda há mais fundos falsos"...

Dia após dia, semana após semana, mês após mês e, já podemos dizer, ano após ano, tem sido assim em Portugal e na europa. Até há algum tempo atrás ainda estávamos (pouco) esperançados de que o país iria recuperar porque, afinal, estávamos integrados numa união europeia que não tinha qualquer interesse na nossa desgraça que, a acontecer,  só poderia traduzir-se num efeito de dominó para outros países da europa. Começámos cedo a descobrir que as coisas não funcionam bem assim. Percebemos, com a crise grega, que a europa não só não se interessa pelos problemas dos outros estados europeus, como, quando  esses problemas acontecem, só tem uma preocupação: libertar-se dos problemas, ou livrar-se dos estados com problemas. Arranjou a europa, e quando falo de europa estou a falar da "europa alemã", um processo eficaz para fazer isso: "esmagamento económico-social" dos estados que já estão esmagados pela crise económica. Foi assim com a Grécia, foi assim com a Irlanda, foi assim com Portugal,  tentam que seja assim com Espanha e Itália, mais logo será a França  e agora está a ser assim com Chipre.

A europa não tem nenhuma estratégia para a europa a não ser a da "europa alemã" e esta encontra, pelos vistos,  bons aliados políticos dispostos a aplicar as receitas merkelianas nos países com problemas ou já sob intervenção. E essa estratégia é a  da pilhagem e destruição levando à  exaustão económica e social dos povos dominados.

A história ensina-nos muita coisa. Estou a lembrar-me, por exemplo, de como as tribos germanas derrotaram por dentro o império romano sem necessitarem de fazer uma invasão militar avassaladora e clássica. Foram-se estabelecendo a pouco e pouco, com autorização até de alguns dos últimos imperadores, ocuparam territórios. Depois espalhavam o terror  desencadeando  operações e incursões  de pilhagem à volta dos seus assentamentos. Pelo meio aceitaram   a religião vigente no império e prestaram vassalagem ao imperador. Essa estratégia foi-se dilatando gradualmente. Os exércitos imperiais foram integrando germanos e, quando o imperador se deu conta, mais de cinquenta por cento dos seus legionários  já eram bárbaros, esmagadoramente germanos. Foi fácil, como vimos, para os povos germanos, minarem por dentro o Império Romano. Com a fragilização total do domínio imperial no ocidente, o caminho ficou aberto a posteriores invasões de mais larga escala, nomeadamente , ( além de outros ) por Visigodos, Hunos e Vândalos em todo o território a que chamamos hoje europa. 

Odoacro deu o golpe de misericórdia no Império Romano ocidental submetendo o último imperador, Rómulo Augusto, em 476 a.D.  Não se proclamou imperador mas apenas rei de Itália, submetendo-se ao imperador em Bisâncio que, a bem dizer, nunca se preocupou muito com o que se passava do lado de cá, mas esse momento passou a ser entendido como o que marcou, daí para a frente, o começo da idade média e, na idade média, como hoje, as estratégias políticas de domínio e expansão territorial na europa fizeram-se quase sempre à base da pilhagem esmagamento e destruição dos povos... 

Hoje, a Alemanha moderna também  não precisa de um exército para dominar a europa, como tentou fazer na primeira e segunda guerras mundiais ou como fizeram os seus ancestrais  no dealbar do Império Romano. Ela "instalou-se na europa", através de quase todos os governos da união europeia. As políticas destes governos e destes países, como se vê facilmente no exemplo de Portugal, ou são aquilo que a Alemanha impõe ou não são. E, não sendo isso, os alemães começam logo a dizer, como disseram aos gregos, e como é recorrente ouvir-se à boca pequena, que a "porta da rua é a serventia da casa". Mas o que mais impressiona, o que mais escandaliza, o que mais indigna, o que mais revolta, para poupar no verbo, é que se tenha instalado, como na idade média sob o domínio das tribos e dinastias germanas, uma política merkeliana, que recorre frequentemente ao esbulho, à pilhagem fiscal, como se verificou  agora, mais uma vez, o exemplo do Chipre com o roubo às contas bancárias dos Cipriotas, para impor a vontade germânica aos povos europeus,  exercida por governos fantoches debaixo de um poder mandatado a partir de Berlim, sabendo-se, como se sabe, que essa política se exerce gananciosamente em favor dos interesses imediatos alemães e do  bem estar do povo alemão e de alguns dos seus mais íntimos países satélites, enquanto os outros, os países que sofrem na carne e na alma esta miserável e maléfica política germânica de recorte tentacular, definham e morrem lentamente. O xerife de Nottingham, nos tempos de Robin Hood,  não seria capaz de idealizar melhor estratégia...

Levantam-se agora algumas vozes a dizer que a europa pisa terrenos perigosos, e até o nosso presidente-amorfo da república já tem umas tiradas provavelmente aconselhadas por algum assessor mais atento ao que se passa fora de Belém. Eu precisaria melhor: a Alemanha pisa terrenos Muito Perigosos e arrasta consigo a europa.

A Alemanha não deveria ter esquecido tão rapidamente a sua história, e de que massa é feita a  sua nação, e também não deveria ter esquecido tão rapidamente  que alguns dos  países que agora são alvo da sua rapina económica e social  fazem parte do número daqueles que perdoaram voluntariamente ou que foram obrigados e coagidos a perdoar os milhares de milhões de euros de indemnizações e reparações de guerra pelos prejuízos que os germânicos provocaram  na segunda guerra mundial. Entre esses países estão alguns dos chamados intervencionados economicamente pela "europa alemã".

Sim, Portugal não sabe ainda em que fundo bateu, ou quantos fundos falsos existem antes de que se bata no fundo verdadeiro, porém, a europa, essa, dominada pela "europa alemã", acredito, está já a roçar o seu verdadeiro fundo de degradação e decrepitude com todos os riscos e perigos que isso comporta e arrasta. Ingredientes para uma real implosão económico-social são-lhe todos os dias acrescentados por um bando de loucos que estão à frente dos seus destinos. Vista do ponto de observação de um simples cidadão europeu, como eu, a europa parece um enorme paiol de pólvora controlado por pirómanos doentios que gostam de atear fogos e provocar explosões para depois se deleitarem com a visão das  portas do inferno.  Com o mal que Alemanha tem feito à europa, confesso que às vezes me assalta o pensamento de que  a reunificação alemã possa ter sido um erro...  Mas a história é mesmo assim: tem o seu tempo e o seu caminho,  e essa coisa fantástica de ser feita por  homens e mulheres, nem todos bem intencionados e muitos pouco competentes ou capazes de pensarem ou verem algo além do seu próprio umbigo.


Jacinto Lourenço

domingo, 17 de março de 2013

O Jovem aluno e os 3 Percursores da Revolução Francesa...




Um ar gingão, alto, magro como só alguns adolescentes. Calças muito abaixo da linha da cintura. Olhos vivos pretos, pretos, da mesma cor do cabelo penteado de uma maneira que não sei descrever e que lhe dava um look alternativo, mas ao mesmo tempo seguro. Depois, dirigiu-se ao balcão parecendo ter a lição bem estudada:
- Eu desejava um livro que o meu professor de história me mandou comprar – nisto, encolhe os ombros, faz um esgar, como quem diz o meu professor é um chato, sorri e continua –, não é obrigatório, mas o meu professor diz que é absolutamente necessário – e repete o mesmo trejeito –.
O livreiro antevê que vem de lá disparate.
- Sim, por favor, qual é o título do livro?
- Pois, aí é que está o problema, esqueci-me do título. Todavia, lembro-me perfeitamente dos três autores.
- Isso é óptimo! – desabafa o livreiro mais sossegado –. E quais são os autores?
- São aqueles… tipo!... Os três principais percursores da Revolução Francesa o Jean, o Jacques e o Rousseau.

Jaime Bulhosa in Pó dos Livros

quinta-feira, 14 de março de 2013

O Olhar de António Aleixo...

















Acho uma moral ruim
trazer o vulgo enganado:
mandarem fazer assim
e eles fazerem assado.

Sou um dos membros malditos
dessa falsa sociedade
que, baseada nos mitos,
pode roubar à vontade.

Esses por quem não te interessas
produzem quanto consomes:
vivem das tuas promessas
ganhando o pão que tu comes.

Não me dêem mais desgostos
porque sei raciocinar...
Só os burros estão dispostos
a sofrer sem protestar!

Esta mascarada enorme
com que o mundo nos aldraba,
dura enquanto o povo dorme,
quando ele acordar, acaba.

António Aleixo

segunda-feira, 11 de março de 2013

A Vida Aprendida à Bruta




O sol acordou  preguiçoso, como em todos os invernos. Iluminou o dia e afugentou frios e medos  que as madrugadas acoitam. O rádio dá novas/velhas notícias  duma europa perdida , sufocada pelo garrote económico apertado sem dó nem piedade por quem manobra a economia a seu favor a milhares de quilómetros mais a norte. Houvem-se também coisas de um país que só encontra o caminho da ruína conduzido por mercadores de almas e vidas.                                                                                  

Por entre urbanos sons matinais, o pensamento voa-me para a minha infância,  na escola primária, com a mala às costas para aprender o futuro numa sala fria, hostil em todos os invernos; pensei na professora Helena, todos os dias má e todos os dias temível para alguns alunos. Havia os alunos de "primeira" e os de "segunda", mesmo se isso não tinha nada a ver com a classe frequentada. Os de "primeira", normalmente de famílias mais facilitadas de vida,  eram poupados à pancada e  elogiados; ocupavam as primeiras filas. Os outros, os de "segunda", nas últimas filas, eram sempre candidatos naturais à ponteirada e reguada; estavam, paradoxalmente, sempre na linha da frente, mas apenas para  o castigo, houvesse ou não motivo de maior. O recreio era a libertação, tal como as segundas-feiras, quando a camioneta das onze, que vinha de Montemor e que trazia a dona Helena, se atrasava e    nos dava mais uma hora de alegria. 

Hoje de manhã, quando Deus  nos visitou no sol,  lembrei-me que Ele nasceu para todos   mas lembrei-me também que a vida, no meio dos homens, e à revelia de Deus, é normalmente aprendida à bruta. A rudeza dos dias, mesmo os de sol, castiga sempre os mais frágeis, os que pouco ou nada têm, nem mesmo uma simples escapatória. Este (des)governo,    faz quase o papel da dona Helena: marginaliza, açoita, despreza, castiga e fere ostensivamente. Distribui reguadas e ponteiradas aos que põe nas últimas filas. Em Portugal, a não ser que tenhamos vontade e determinação para isso, as coisas dificilmente vão mudar para quem está nas últimas filas... Restam-nos os pequenos recreios da história, quando ela se lembra de nós, por entre dias e tempos  feitos de invernias duras para quem foi condenado às  zonas de sombra  em Portugal,  a quem  o sol, quando chega, já está no seu declinar.


Jacinto Lourenço  

quarta-feira, 6 de março de 2013

Pacíficos Indignados...




É um fenómeno curioso:

o país ergue-se indignado,
moureja o dia indignado,
come, bebe e diverte-se indignado,
mas não passa disto.
Falta-lhe o romantismo cívico da agressão.
Somos, socialmente,
uma sociedade pacífica de indignados.


Miguel Torga

Diário 17-09-1961


Via A Rês Pública












terça-feira, 5 de março de 2013

Frau Merkel segundo Maquiavel...


Muitos vêem em Angela Merkel a rainha não coroada da Europa. Se perguntarmos qual a origem exacta do poder da chanceler alemã, descobriremos uma marca característica da sua acção: a sua tendência para não agir, não agir ainda, agir  mais tarde, para hesitar. Merkel hesitou desde o início da crise da Europa e continua a hesitar até hoje. Ao início, nem sequer queria colocar a tragédia do endividamento grego na agenda política da Europa. Depois recusou-se, primeiro a salvar a Grécia, mais tarde  resistiu quando era necessário ajudar a Espanha e a Itália. O verdadeiro interesse de Angela Merkel não está em salvar em primeiro lugar os países devedores, mas sim em ganhar as eleições na Alemanha. E, para tal, como escreve a revista Der Spiegel, tem de "proteger o dinheiro alemão para preservar a competitividade da Alemanha nos mercados mundiais e, além disso, eventualmente, salvar a Europa". Ela faz uma política interna europeia que serve sobretudo à preservação do poder nacional.

Uma outra característica típica da chanceler alemã consiste na sua agilidade que se poderia considerar maquiavélica.  Segundo Maquiavel, o príncipe só deverá cumprir a palavra política da véspera se tal lhe trouxer vantagens no dia seguinte. Se aplicarmos esta regra à situação actual, o princípio é o seguinte: as pessoas podem fazer hoje precisamente o contrário daquilo que anunciaram ontem, se isso aumentar as suas hipóteses nas próximas eleições. [...]

Hesitação enquanto táctica de dominação - é este o método "Merkievel". O meio coercivo utilizado não é a entrada agressiva do dinheiro alemão, mas sim o contrário: a ameaça de saída, a protelação e a recusa de créditos. Se a Alemanha recusar a sua aprovação, a ruína dos países endividados é inevitável. Portanto, só existe uma coisa pior do que ser esmagado pelo dinheiro alemão: não ser esmagado pelo dinheiro alemão.

Entretanto, Angela Merkel aperfeiçoou esta forma de domínio relutante, legitimado como o cântico dos cânticos da poupança. Aquilo que parece algo absolutamente apolítico, nomeadamente não fazer algo, altera a estrutura de poder na Europa. A transformação da Alemanha na potência hegemónica na Europa é, assim, levada por diante e, simultaneamente, disfarçada. Este é o artifício que Merkel domina. Maquiavel podia, de facto, ser o autor do argumento.[...]

Ulrich Beck


Do livro "A Europa alemã"- de Maquiavel a "Merkievel" : estratégias de poder na crise do euro, Ulricch Beck, Edições 70, páginas 70 - 73

domingo, 3 de março de 2013

Marés...



Fonte: HenriCartoon

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Do Futebol e da Vida...


Primeiro íamos ( quem ia ) ao futebol em família, pais, mães, filhos, ou então em grupos de amigos, e era uma festa, um convívio. Não se escolhiam lugares em função das cores clubísticas, salvo nas bancadas dedicadas aos indefectíveis sócios, sentáva-nos onde nos parecia termos a melhor perspectiva do jogo ou então onde havia lugares disponíveis em dia de enchente. Ao nosso lado até podia estar um adepto da equipa adversária que isso não era problema nenhum; ele puxava pela equipa dele e entusiasmava-se com os jogadores dele e nós puxávamos pelos nossos. Acontecia  trocarem-se comentários  ou estabelecerem-se  mini-debates, mais ou menos acalorados, sobre o que se via no campo, de bom ou de mau, de uma e de outra cor.  Mas um jogo de futebol era sempre uma festa. Lá havia um ou outro mais exaltado e aguerrido que levava as coisas  a peito e isso dava às vezes lugar a pequenos "tsunamis" de agitação na bancada que tratavam de ser acalmados por quem estava perto ou, caso disso, o que era raro, pelos agentes da autoridade de serviço que  conduziam o exaltado adepto ao exterior para "apanhar um pouco de ar fresco" longe de quem gostava do futebol apenas porque era uma festa e não um ringue de box. Claro que o futebol movia ( e move ) paixões e, por isso, promovia  eventualmente comportamentos  mais desbragados de um ou outro espectador menos controlado emocionalmente. Mas, genericamente, quando se ia ao futebol, era ir a uma festa de gente de todas as idades, cheia de colorido, de alegria, de diversidade, de vozes soltas e vibrantes. Contudo, logo que o árbitro fazia soar o apito para começar o jogo todos os olhares  se concentravam no que acontecia dentro das quatro linhas,  e pouco mais, e era só isso que fazia sofrer, saltar, sorrir ou explodir de alegria pelo golo. Sim , era  assim o futebol, no seu estado mais puro e onde a vítima de quem perdia, regra geral, era   a mãe do árbitro, mesmo se ninguém conhecia a senhora. Claro, no fim queríamos sempre que a nossa equipa ganhasse, mas  não era um caso de vida ou de morte, e nem sequer chegava a tirar-nos o apetite do jantar se acontecesse o contrário. 

De há uns anos para cá apareceram no futebol uns senhores meio mal engravatados, lustrosos, com verbo tosco e gestos largos, desejosos de protagonismo que, não conseguindo alcançar nas suas comunidades, por manifesta incapacidade pessoal ou falta de mérito;  subitamente enriquecidos por negócios especulativos feitos, quase sempre, na área da construção civil; beneficiários da tal bolha imobiliária, de que tanto se falou já, ou portadores de uma pérfida  capacidade de ludibriar e manipular os clubes e os seus sócios, para se instalaram nas direcções com a promessa de  conseguirem os objectivos desportivos ansiados pelos sócios e adeptos. Esta estirpe de gente fomentou, dentro do campo, onde era suposto o futebol jogado com os pés ser a coisa estritamente exibida, e fora do campo, um ambiente que foi e é propício mais  a eles do que  ao clube que tinham tomado. Os sócios e adeptos, sedentos de títulos e cegados pela paixão clubística, deixaram-se invadir por esta praga de dirigentes.  A meio deste processo, os tais putativos dirigentes foram gerando condições objectivas ou subjectivas para o aparecimento das conhecidas claques que pululam por aí e onde, na generalidade, se arrebanharam um conjunto de arruaceiros que, para além de causarem distúrbios e trazerem o ódio para os campos de futebol, nada mais fazem do que dar trabalho à polícia e denegrirem e prejudicarem a imagem do desporto, afastando em definitivo  as famílias para longe dos estádios e outras pessoas que, de um jogo de futebol,  queriam colher um momento de pura descontração, ambiente festivo e convívio salutar.  A cultura das claques é a da violência pela violência. É o do quanto pior melhor. E se não puder ser dentro dos estádios há-de ser fora deles, independendo  se a sua equipa ganha, perde ou empata. Não é isso que os move.  Os dirigentes, esses, claro,    seguem em frente na sua acção devastadora do desporto dito rei, e das instituições, assobiando para o lado e fingindo ignorar a criatura e as malfeitorias  do pequeno monstro que incubaram dentro do futebol.      

A verdade é que é fácil ver  que, quando estas tais claques "organizadas", como lhe chamam, entram nos estádios onde se vai realizar um qualquer jogo, passam a maior parte do tempo viradas de costas para ele.  A sua  única preocupação é a desestabilização do ambiente desportivo e festivo que no estádio devia ser gerado pela festa do futebol jogado. O principal objectivo, a sua grande motivação nos noventa minutos ou mais que dure a peleja no relvado, é ofender, seja por palavras ou gestos, e arremessar objectos mais ou menos contundentes sobre  tudo o que mexe à  sua volta. É impossível que gente desta goste de futebol ou do desporto pelo desporto. Os seus valores são outros e não têm a ver com um jogo de bola, tal como os dos seus mentores. Mas será que tudo aquilo que de mau demanda o futebol através das claques preocupa seriamente os ditos dirigentes dos clubes e mentores das acirradas claques?  Claro que não. Se preocupasse já tinham acabado com elas. Parece óbvio ser do interesse dos dirigentes terem cães acirrados que façam algum trabalho sujo que eles não querem fazer; depois, bem, depois quando as coisas acontecem  podem sempre demarcar-se, hipocritamente, dos desmandos provocados por aqueles que açularam com as suas palavras de ódio e incitações maldosas dirigidas aos clubes rivais.

Estes dirigentes que tomaram o futebol como se fora um negócio seu, têm passado, nas últimas décadas, todo o tempo, a semear ódios e ventos. Ora, como bem sabemos,  ódio gera  ódio e quem semeia ventos só pode esperar colher tempestades.   Estas pessoas usam os clubes como instrumentos de ataques pessoais e institucionais e transformam os atletas que representam os clubes em joguetes das suas políticas, ditas "desportivas", aproveitando-se muitas vezes da instabilidade emocional destes, da avidez dos seus empresários, e do seu desejo por, ganhos, brilho e glória rápida, de uns e de outros, capazes de os guindarem a mais altos voos. Há um chicote psicológico nas mãos de cada dirigente de clube pronto a cair em cima de quem não apresente resultados imediatos que alimente a sua sede de protagonismo e lhes promova e afague o ego. Nessa demanda  promovem uma política de "eucalipto" secando tudo à sua volta e devastando clubes e instituições que expostos à mercê das suas megalomanias. Envolvem governos, bancos, cidadãos, empresários, câmaras municipais, juntas de freguesia e, se necessário, gente da mais baixa ralé nas suas "guerras" contra hipotéticos "sistemas".  Querem ser donos da cidade.  O seu ego é enorme e insaciável por cada vez mais protagonismo e exibição. As suas atoardas nos meios de comunicação são setas envenenadas, mas vistas como garantia de facturação pelas  empresas de media que, como bem sabemos, produzem uma informação que raia muitas vezes o asco. Poucos dirigentes, muito poucos, têm feito bem ao futebol e ao desporto em geral no país;  pelo contrário: os resultados da sua maléfica acção estão  à vista, todas as semanas, nas bancadas dos estádios, nos orgãos de comunicação,  nos tribunais.  

Tenho pena que o futebol se tenha deixado conquistar por esta gente, até porque  sou de uma geração que cresceu em Portugal tendo praticamente como únicas referências capazes de sustentar algum orgulho nacional  a nossa história passada e o futebol que,  lá fora,  e às vezes, se agigantava e ganhava, volta e meia, um jogo ou  um troféu que nos deixava a pensar que também  éramos gente e que nos chegava a dar a ideia de que, afinal, podíamos ombrear com os grandes da europa em alguma coisa, mesmo que isso não passasse de uma ilusão...

É assim, a nossa vida, em Portugal. Parece-me bem que um dos nossos principais defeitos, enquanto povo, é não estarmos dispostos a escrutinar, convenientemente,  as competências e interesses de quem se propõe dirigir-nos, seja na política, no desporto ou até noutros sectores da vida. Normalmente vamos na cantiga de embalo fácil de homens e mulheres, sacos de vento,  que não passam afinal de maus pagadores de promessas.  E,  promessas, como bem sabemos, leva-as o vento.

Não é muita a diferença entre a realidade do futebol e a realidade do país.
                                                                                                           
Talvez por isso mesmo, as consequências acabam sempre por vir bater à nossa porta, mais cedo que tarde, e são-nos servidas a frio, como se de uma vingança se tratasse. Uma vingança do tempo e do modo como fazemos as nossas escolhas, ou deixamos que outros as façam por nós.

Jacinto Lourenço

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

As Lágrimas de Boabdil...





[ A rendição de  Granada ]

...O Al-Andalus desaparecia para sempre perante o olhar triste e inconformado do rei Abu Abd Allah Muhammad XII, conhecido por Boabdil (último rei de Granada), que ao tomar consciência de ter perdido a sua jóia, não se conteve, e terá derramado lágrimas na hora de sua partida para o exílio.
Três credos e um mesmo Deus coabitavam em Espanha desde há muitos séculos, cristãos, judeus e muçulmanos viviam nas mesmas povoações e cidades, fazendo o comércio, discutindo entre si textos clássicos sobre medicina, poesia ou literatura.
Porém, algo iria mudar radicalmente no quotidiano referente às duas minorias religiosas (principalmente em relação aos judeus), exemplo disso mesmo foram os massacres ocorridos contra muitas das comunas judaicas no verão de 1391, como Sevilha, Córdoba, Toledo, Valência, Palma de Maiorca ou em regiões de Aragão e Catalunha, onde centenas de milhares de pessoas foram assassinadas ou convertidas à força, consequência de uma crise política interna, ampliada pelos discursos inflamados de pregadores locais, entre eles o famoso dominicano Vicente Ferrer.[...]

( Matança de judeus em Barcelona - ano de 1391 )

Se porventura o ano de 1492 é considerado como um ano de "glória" da antiga Hispânia, já numa perspectiva mais critica podemos considerar que foi o ano em que a Espanha deu um passo atrás. Sefarad e todo o seu legado deixou de existir, envolvido incomensuravelmente pelas nuvens sombrias da intolerância, do medo, da repressão e do empobrecimento de toda uma nação (a nível cultural e económico), algo que se vai passar de forma semelhante no reino de Portugal quatro anos depois. [...]

Ler texto integral AQUI no blogue Por Terras de Sefarad

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Portugal a Papel Químico 39 Anos Depois...

Quase três décadas já passaram sobre o momento desta entrevista de Zeca Afonso. Diferenças em relação à sensibilidade de José Afonso quanto aos problemas do seu tempo versus o momento actual são poucas. Semelhanças são assustadoras. Não há mantos diáfonos que possam encobrir a brutal realidade.




domingo, 24 de fevereiro de 2013

Do Alentejo com Lembranças.



...Como qualquer alentejano da minha geração, cresci num tempo em que a confecção dos alimentos tinha por base o lume de lenha, no chão da lareira, ou o de carvão, na fornalha ali instalada. Sem o suporte conserveiro da arca congeladora, sabiamente substituída pela salgadeira, numa tradição milenar, e sem frigorífico, a mãe de família tinha de cozinhar todos os dias, duas vezes ao dia. Foi um tempo em que a cozinha, com a grande chaminé, era casa de entrada, de porta sempre aberta durante o dia, como única fonte de luz, e sala de todos os usos, em que a mesa de comer era a mesma em que eu e os meus irmãos fizemos os trabalhos de casa, a mando do professor.

Dessa cozinha, para além do mobiliário rudimentar, do poial dos cântaros, do poço com água fresca e um tanto salobra, ficaram-me na memória duas oleogravuras, uma do aeroplano Lusitânia, com o Gago Coutinho e o Sacadura Cabral, e outra alusiva à implantação da República. Desse tempo e dessa cozinha recordo os aromas e os sabores da culinária alentejana. A carne de porco, temperada de alho e pimentão, frita em banha, na sertã de barro, as sopas da panela de galinha com linguiça, toucinho e raminhos de hortelã, a açorda de poejos, as sopas de tomate com figos e as de cação envinagradas e a libertar o cheiro dos coentros, as sardinhas de barrica fritas no azeite e as torradas com toucinho cozido ou com azeite, açúcar e canela exalavam cheiros inconfundíveis e são lembranças de paladares inesquecíveis que não posso deixar de associar aos cantares dos homens que, muitas vezes, na taberna da vizinhança, aos fins de tarde de sábado, se abriam em coro polifónico e trocavam boa parte da magra féria por copos de vinho e petiscos para fazer boca, esquecendo aí e assim a “porca da vida”.
[...]

A. Galopim de Carvalho in De Rerum Natura

Ler texto integral AQUI

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Salomão e as Equações dos Dias




A vida é feita de intermitências, qual Código Morse não obedece a um projecto rígido ao contrário daquilo que tantas vezes se imagina. Não é uma coisa plana, a vida, e pode até ser feita de íngremes e complicadas subidas e, antes que cheguemos ao topo, descambar numa repentina, perigosa e acidentada descida. Por muito bem que a desenhemos e projectemos, tais projectos podem  acabar no cesto dos papéis, rasgados e amarfanhados. A melhor ciência que possamos escolher para delinear os dias da nossa vida, nada pode face à  imponderabilidade em que ela sempre se moverá. A vida é afinal uma equação com muitas incógnitas, e nem nós sabemos quantas pois uma sucede a outra e  ao valor do "x"  ou do "y"  acrescem potências, radicais e tudo o mais que desafia a nossa inteligência e capacidade de adaptação e superação. Talvez porque a vida é assim, e sempre foi assim em todos os séculos que já foram vividos por pessoas, como nós, mas  com outras visões, culturas e contextos históricos e sociológicos, é que o nosso pedido a Deus,  para podermos viver esta vida, a vida que nos foi oferecida, devia ser como o pedido que Salomão fez: sabedoria, Senhor, sabedoria é o que eu quero Senhor. Sabedoria para poder discernir o coração dos homens e de Deus, e as coisas complicadas que a equação dos dias nos põe à frente e perante as quais nos sentimos meninos incapazes de encontrar o valor das incógnitas que se ocultam de nós.

E de que serviria  saber  o resultado final da equação da vida se não tivéssemos  sabedoria para descobrir os caminhos  por onde se chegasse  lá ?  É por isso pertinente e relevante o pedido de Salomão: sabedoria para viver e descobrir os caminhos com que as equações  da vida o confrontavam.

Tanta coisa para pedir e o novo rei pediu apenas  sabedoria. E foi sábio, Salomão, enquanto viveu dessa sabedoria que lhe deu Deus. Resolveu equações de grau elevado de dificuldade a contento do seu reino e da sua vida. E nunca deixou de ter sabedoria, Salomão, enquanto teve a sabedoria que pedira a Deus.                                                                                                                                    

Um dia Salomão descobriu que tinha perdido a sabedoria e  não mais foi capaz de resolver equações. Já não tinha ciência para tanto. O seu reino, a sua vida, tornaram-se-lhe  um labirinto onde já não encontrava saída. A descida, no seu percurso pessoal, foi acidentada, vertiginosa, penosa e dolorosa. Sem a sabedoria que pedira a Deus, o projecto de vida de Salomão, foi parar ao cesto dos papéis amarfanhados e rasgados da história.

Jacinto Lourenço 

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Macacos sem Fé e sem Sonhos...


...Passos Coelho prossegue na tarefa de demolição a que se propôs. Ignora que não se altera um Estado e as suas estruturas sociais, culturais e morais com contas de subtrair. Galbraith, hoje esquecido, provou-o com os exemplos do nazismo e do fascismo. É impressionante a desfaçatez com que este homem nos mente, falando como quem se dirige a mentecaptos. 17 por cento de desempregados não o comovem nem demovem. Ameaça que a praga não vai parar. Estamos a morrer como pátria, como nação e como povo mas coisa alguma emociona estes macacos sem fé e sem sonhos. Ri, alarvemente, com o Vítor Gaspar ("um génio" na expressão dessoutro "génio", António Borges), e chega a ser comovente o preguiçoso desdém com que Paulo Portas é tratado pela parelha. Chegados a este ponto, é lícito perguntar: até onde a democracia pode admitir e sustentar estas indignidades?[...]

Baptista Bastos in Diário de Notícias