terça-feira, 30 de abril de 2013

A Morte do III Reich...




Hoje, dia 30 de Abril de 2013, faz precisamente 68 anos que Adolf Hitler se suicidou no seu bunker em Berlim, perante a iminente chegada ao local do Exército Vermelho. Eva Braun termina também com a sua vida junto ao seu fuhrer.
Naquele dia 30 de Abril de 1945, os russos estavam a escassos 100 metros do bunker onde se escondia Hitler e alguns dos seus fiéis seguidores, todos eles "actores" de uma tragédia digna de uma ópera wagneriana.
Oficiais superiores da Wehrmacht comunicaram ao ditador germânico, então com 56 anos, que qualquer tentativa de evasão, estaria condenada ao fracasso.


Via Por Terras de Sefarad

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Os Cravos Morreram com Salgueiro Maia...




O despertador tocou, como habitualmente, às oito e meia da manhã de uma quinta-feira normal de uma semana qualquer. A D.Ilda entrou esbaforida no meu quarto a dizer que tinha havido uma revolução. Lavei-me à pressa, enfiei a roupa e fui, como habitualmente, a pé, do Alto do Pina até à rua Zaire, ali para o pé dos anjos, para a empresa onde trabalhava. Pelo caminho fui observando os rostos das pessoas e as suas reacções. Percebi um misto de esperança e receio. Na Paiva Couceiro alguns  grupos de homens mais velhos conversavam meio em surdina; adivinhei o tema das conversas e continuei a andar. Nunca antes tinha chegado tão rápido ao emprego. No escritório os meus colegas seguiam interessados a emissão da rádio. Ninguém estava a trabalhar. Fomos percebendo, pelas notícias, a realidade do que se estava a passar nas ruas de Lisboa e a intenção dos militares que se tinham sublevado.

Vivi o 25 de Abril de 1974 com muita intensidade. Tinha vinte anos acabados de fazer em Março. Apresentara-me  já  à   inspecção militar e sabia que, como qualquer jovem português de então, o meu destino seria cumprir cerca de quatro  anos de tropa obrigatória sendo dois deles  no então designado Ultramar. Quatro anos na vida de um jovem na casa dos vinte, a cumprir serviço militar obrigatório, eram sem dúvida um tempo de interregno que comprometia  aspirações e punha em causa a própria vida. Muitos fugiam para o estrangeiro para não obedecerem a esse chamamento do regime a uma guerra injusta  que não fazia qualquer sentido. França era o destino mais corrente dos mais politizados, dos que tinham família emigrada ou dos que possuiam suporte financeiro familiar para por lá ficarem o tempo necessário. Eu não me enquadrava em nenhum destes perfis pelo que,  era mais do que certo, iria para o ultramar. Sem dúvida um cenário que apavorava.

Trinta e nove anos depois, os portugueses já não exibem o sorriso daquele dia vinte e cinco de Abril de 1974. O que sobra é apreensão e tristeza. Interrogam-se como é que deixaram que lhes retirassem coisas importantes que Abril lhes deu, que os amesquinhassem, que voltassem a espezinhá-los como no tempo do Salazarismo o Marcelismo. Desconfiam de si próprios e da sua capacidade para se voltarem a erguer e a lutar por liberdade, direitos e dignidade. Desconfiam que não conseguirão readquirir  o sorriso e a alegria que lhes roubaram neste percurso de quase quatro décadas de liberdade . Sabem que Salgueiro Maia já partiu e que em Portugal existem cada vez menos homens e mulheres com coluna vertebral e verticalidade suficientes para se erguerem em prol do que deixámos que se esboroasse às mãos de inimigos e falsos amigos do povo português. Os cravos perderam a sua cor quando o capitão partiu.


Jacinto Lourenço

segunda-feira, 22 de abril de 2013

A Estupidez é Perigosa...



...Para estabelecer as leis fundamentais da estupidez, é preciso, primeiro, definir quem é o estúpido. Para isso, ajudará a comparação com outros tipos de gente. Diz o autor que, quando temos um indivíduo que faz algo que nos causa uma perda, mas lhe traz um ganho a ele, estamos a lidar com um bandido. Se alguém realiza uma acção que lhe causa uma perda a ele e um ganho a nós, temos um imbecil. Quando alguém age de tal maneira que todos os interessados são beneficiados, estamos em presença de uma pessoa inteligente. Ora, o nosso quotidiano está cheio de incidentes que nos fazem "perder dinheiro, e/ou tempo, e/ou energia, e/ou o nosso apetite, a nossa alegria e a nossa saúde", por causa de uma criatura ridícula que "nada tem a ganhar e que realmente nada ganha em causar-nos embaraços, dificuldades e mal". Ninguém percebe por que razão alguém procede assim. "Na verdade, não há explicação ou, melhor, há só uma explicação: o indivíduo em questão é estúpido." [...]
Os estúpidos estão em todos os grupos, pois "a probabilidade de tal indivíduo ser estúpido é independente de todas as outras características desse indivíduo": segunda lei.
A terceira lei corresponde à própria definição do estúpido: "É estúpido aquele que desencadeia uma perda para outro indivíduo ou para um grupo de outros indivíduos, embora não tire ele mesmo nenhum benefício e eventualmente até inflija perdas a si próprio." A maioria dos estúpidos persevera na sua vontade de causar males e perdas aos outros, sem tirar daí nenhum proveito. Mas há aqueles que não só não tiram ganho como, desse modo, se prejudicam a si próprios: são atingidos pela "super-estupidez".
É desastroso associar-se aos estúpidos. A quarta lei diz: "Os não estúpidos subestimam sempre o poder destruidor dos estúpidos. Em concreto, os não estúpidos esquecem incessantemente que em todos os tempos, em todos os lugares e em todas as circunstâncias tratar com e/ou associar-se com gente estúpida se revela inevitavelmente um erro custoso." A situação é perigosa e temível, porque quem é racional e razoável tem dificuldade em imaginar e compreender comportamentos irracionais como os do estúpido. Schiller escreveu: "Contra a estupidez mesmo os deuses lutam em vão."
Como consequência, temos a quinta lei: "O indivíduo estúpido é o tipo de indivíduo mais perigoso." O corolário desta lei é: "O indivíduo estúpido é mais perigoso do que o bandido." De facto, se a sociedade fosse constituída por bandidos, apenas estagnaria: a economia limitar-se--ia a enormes transferências de riquezas e de bem-estar a favor dos que assim agem, mas de tal modo que, se todos os membros da sociedade agissem dessa maneira, a sociedade no seu conjunto e os indivíduos encontrar-se-iam numa "situação perfeitamente estável, excluindo toda a mudança". Porém, quando entram em jogo os estúpidos, tudo muda: uma vez que causam perdas aos outros, sem ganhos pessoais, "a sociedade no seu conjunto empobrece".
A capacidade devastadora do estúpido está ligada, evidentemente, à posição de poder que ocupa. "Entre os burocratas, os generais, os políticos e os chefes de Estado, é fácil encontrar exemplos impressionantes de indivíduos fundamentalmente estúpidos, cuja capacidade de prejudicar é ou se tornou muito mais temível devido à posição de poder que ocupam ou ocupavam. E também se não deve esquecer os altos dignitários da Igreja."
É assim o mundo.

Anselmo Borges 

Ler texto integral AQUI no Diário de Notícias online

sábado, 13 de abril de 2013

A Vendetta em Portugal



É necessário que diga uma coisa antes de continuar: não sou, nunca fui e nunca serei uma pessoa que possa perfilhar valores sociais e económicos  de direita tal como eles se inscrevem desde há muitas décadas na europa, incluindo Portugal.  Fui sempre, desde que me lembro e tenho consciência política, uma pessoa com valores de esquerda, mas de uma esquerda não conotada partidariamente, uma esquerda humanista e com valores cristãos.

As minhas origens sociais, o meu passado, a minha formação humana e cultural, a minha família, a minha visão do mundo e da sociedade não se coadunam  nem quadram com cosmovisões de direita. Já o disse noutro fórum: vivi 20 anos da minha vida sob uma ditadura de direita nacionalista que muitos designavam fascista, mesmo se este epíteto era exagerado até do ponto de vista do próprio regime que nunca incorporou plenamente essa ideologia ainda que lhe tenha aproveitado algumas ideias peregrinas que colocou em prática. Parte da minha família também viveu e sofreu debaixo do poder descricionário e bestial que o regime delegava na  PIDE para combater os que se lhe opunham. Assisti, como observador de tenra idade, à luta dos trabalhadores do alentejo pela jornada diária de oito horas de trabalho, que é hoje uma coisa banal e um direito que muitos poucos contestam, ignorando, todavia, que custou aos assalariados do sul do país muito suor, sangue e lágrimas. A verdade, para os mais esquecidos, é que  até praticamente aos alvores da década de 70 do século XX, a jornada de trabalho diária era de sol a sol, isto é: começava-se a trabalhar quando o sol nascia e só se parava quando o sol se punha. Parafraseando um conhecido político, é só fazer as contas ao total de número de horas trabalhadas diariamente e somar-lhe  ainda as horas de caminho, normalmente a pé, ou de bicicleta a pedais para os mais afortunados,  de casa até às herdades onde se trabalhava, a quilómetros, mais as horas gastas no percurso inverso. Percebi como  o sistema de "bufos" implantado pela PIDE, e que visava a denúncia anónima de pretensas actividades  contra o regime, obrigava os portugueses a falarem em surdina mesmo quando estavam dentro de casa ou a olharem por cima do ombro quando circulavam na rua. Tenho perfeita consciência do mal  que a ditadura do Estado Novo fez a Portugal e dos atrasos de toda a ordem fomentados num  país  à margem de uma europa que fervilhava de desenvolvimento económico, social e cultural. Vi jovens partirem para uma guerra ultramarina estúpida, em territórios que nãos nos pertenciam, e observei como muitos regressavam estropiados, mas também quando não regressavam. Ouvia, de milhares de homens, mulheres e crianças, de todas as idades, de todas as regiões, de norte a sul, portugueses como eu, que eram obrigados a sair para o estrangeiro mais próximo ou mais longínquo, semeando lágrimas e dor pelo caminho, para escaparem da fome e da miséria que grassava nos anos 50 e 60 e outros ainda fugindo da guerra, da prisão, da tortura de um regime que nos impedia de viver. Olho hoje para a direita ultra-revanchista que ocupa o poder e vejo mais do que a ausência de qualquer sensibilidade social, vejo a falta de pudor, a ligeireza  e a falta de vergonha com que  indicam aos portugueses, a porta de saída, o mesmo caminho penoso e doloroso da emigração.

Rompeu o ano de 1971 e eu dei lugar a Cristo na minha vida passando a sentir e experienciar de outra maneira, inteiramente nova, a  minha espiritualidade, a minha fé que se tornou viva e plena de significado e que se afastou radicalmente da que tinha experimentado em criança  e na qual se plasmava essencialmente uma religiosidade desenhada à medida do Estado Novo e dos seus interesses políticos. Igreja e estado, estado e igreja católica romana, duas faces de uma mesma moeda que consignavam os interesses dos poderosos e rastreavam eficazmente comportamentos mais divergentes em matéria de fé no regime ou no catolicismo.
Constatei a forma como o estado, em conluio com o clero católico, tratava as religiões minoritárias e como perseguia, muitas vezes,  alguns dos  crentes protestantes. 

Enfim, muito havia para dizer do que foi Portugal antes de 25 de Abril de 1974, e de como o vivi. Quase tudo mau; quase nada de bom há para contar.                                                         

Em Abril soltámos o coração e desatámos a falar de nós, das nossas esperanças e dos nossos anseios, como cidadãos e como povo. Projectámos sonhos e desenhámos futuros. Demos asas à liberdade e metemos pernas ao caminho. Era preciso construir um país e todos tínhamos urgência nesse propósito. Mas cedo começaram as clivagens: esquerda, direita, centro, extrema-esquerda, extrema direita, reacção, reaccionário, fascismo, fascista, etc, foram palavras que enriqueceram o nosso léxico comum e que disparávamos, quais armas de arremesso, sem preocupação de acertar no tempo ou no modo. Começámos cedo a perceber quem era o quê e o que queria. 

Chegados aqui, a 2013, não temos dúvidas sobre quem é o quê e o que quer  alcançar com a sua militância ideológica  conquistado que foi o poder através de um sufrágio que de universal tem cada vez menos e de uma democracia cada vez mais formal. Anteriormente já sofrêramos  com um partido socialista que se especializou  no fabrico de  clientes do poder que depois irão viver dos seus favores. Social Democracia ou Democracia Cristã não passam de metáforas mal construídas que escondem pavorosas agendas ideológicas que nos atiram para o elenco de um filme de terror de terceira categoria. Arrostamos com partidos de direita que se transformaram na direita mais revanchista, perigosa  e malévola  desde que existe direita organizada de forma partidária após Abril e que, a cada passagem pelo poder, deixa o país infinitamente mais pobre e amargo do que o encontrou. De permeio coloca o estado ao serviço dos poderosos transformando-o numa mera agência de venda de títulos do tesouro que vencem sempre a taxas altíssimas a favor dos grandes grupos económicos que têm por detrás, sempre ou quase sempre, os bancos e os banqueiros cujas famílias e seus ascendentes se tornaram adictos em agir como as rémulas coladas aos tubarões ou como os carraceiros  à volta dos bois no campo, mas com uma diferença: ao contrário destes animais, não prestam nenhum serviço ao estado, só o aliviam do dinheiro dos contribuintes. Por outro lado, os partidos de matriz marxista que ocupam as cadeiras de São Bento ainda não perceberam realmente o seu lugar no país real, o do povo que dizem defender, e continuam a gravitar um umbigo maior do que  a sua própria dimensão ou das  suas  ideias para o país.

Estamos em Abril de 2013. 25 é a data que viveremos dentro de dias, uma data histórica em que, há 39 anos atrás, aprendemos a dizer Liberdade, Esperança, Futuro e a entender perfeitamente o significado dessas palavras. Perguntam-me se o 25 de Abril em Portugal valeu a pena ? Valeu, claro que valeu. O problema que hoje nos afecta não é culpa do 25 de Abril. O problema que nos afecta tem uma outra dimensão. Tem a dimensão daquilo a que prefiro chamar "Vendetta". Uma "Vendetta" levada a cabo contra Portugal e o seu povo pelas forças obscuras que sempre operaram a partir do  seu interior e  que foram carcomendo por dentro os seus recursos, a sua  vitalidade, a sua capacidade de reacção séria e objectiva contra a actual situação que afunda raízes nos últimos 39 anos da nossa vivência colectiva. Mas se antes operavam escondidos, usando processos aprendidos dos melhores scripts mafiosos, hoje operam às claras: ocupam o aparelho do estado, estão no governo, em Belém, em S. Bento, pavoneiam-se nos corredores das babéis europeias, sentam-se nas cadeiras da democracia mas congeminam contra ela, todos percebemos as suas manobras e vemos que objectivos querem atingir. Vendem os recursos do país e o seu povo nas bancas de todos os  mercados, não interessa o preço, o lucro é total para quem o embolsa. Hipotecam a nossa dignidade, a dignidade de um povo velho de novecentos anos, submetem-no a novos impérios. Semeiam a fome e a miséria. liquidam toda a esperança. E um povo sem esperança, que não tenha muito mais para perder, pode tornar-se uma arma de arremesso para novos actores no teatro da demagogia político-partidária.

Jacinto Lourenço


sexta-feira, 12 de abril de 2013

Gaspar, o Psicopata Social



Carlos Vargas, ex-assessor do ministro da Economia, Álvaro Santos Pereira, acusa o ministro das Finanças, Vítor Gaspar, de ser "um psicopata social e não um ministros das Finanças". Na sua conta no twitter, o ex-assessor do Governo afirma que "cada dia que passa mostra que Vítor Gaspar é o ministro das Finanças mais arrogante e mais incompetente desde o reinado de D.Maria II".[...]


in Diário de Notícias online

quinta-feira, 11 de abril de 2013

O governo da Asneira...



Fonte: HenriCartoon

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Um Presidente Benevolentemente Imbecil...



Um Grande Presidente de um pequeno país andava de cá para lá e da lá para cá, silencioso, taciturno, no seu palácio, tanto que não fazia mais do que gastar o erário público e o pavimento, à semelhança de D. Afonso VI. Até que um dia se lembrou de mandar chamar o seu Primeiro-Ministro para lhe dizer:
- O senhor não deve, não pode continuar a ignorar os clamores de reprovação que os meus súbditos... perdão, que os meus concidadãos soltam contra si. Consideram-no um grande e refinado patife.
- Creia, Excelência, que se trata de uma infame calúnia - respondeu o Primeiro-Ministro.
- Agrada-me muito ouvir essa afirmação - declarou o Grande Presidente.
Dito isto, levantou-se, para indicar que a audiência havia terminado. Mas vendo que o seu interlocutor se mantinha imóvel, como era seu costume, prosseguiu:
- Tem ainda alguma coisa a acrescentar?
- Sim, Excelência. Quero pedir a minha demissão; o clamor público é deveras falso, quando diz que sou um grande patife. Todavia, nada é grande ou pequeno senão através das comparações e conheço outros com quem eu e sua Excelência nos poderíamos comparar. Porém, deixemos isso. Mas o protesto não é injusto: eu na verdade e feitas as devidas comparações não passo de grande imbecil.
Aqui o Presidente consentiu em sorrir, para declarar, cheio de benevolência:
- Meu bom amigo, vá retomar as suas funções, nesse ponto, pareço-me muito consigo.

(Fábulas de Esopo emendadas)


Fonte: Pó dos Livros

segunda-feira, 1 de abril de 2013

10 Passos para se Tornar um Leitor




1.º – Escolha uma data para começar a ler e respeite-a.

2.º – Evite começar por livros considerados literatura light, pois embora o nome seja encorajador não reflecte de todo a realidade e pode destruir a melhor das intenções.

3.º – Livre-se de todos os telemóveis, ipad,  playstation, dvd e afins que tenha por perto.

4.º – Depois de começar a ler não pode parar sem, pelo menos, chegar ao fim do primeiro capítulo; deixá-lo a meio aumenta consideravelmente o risco de desistir antes mesmo de ter começado.

5.º – Para se auto-motivar, pense, muitas vezes, em todos os benefícios da leitura.

6.º – Evite a proximidade de pessoas que estão a bocejar e deitadas no sofá a ver os programas de televisão que passam em horário nobre.

7.º – Peça ajuda a um profissional - pode ser um livreiro, um editor, um professor, etc. – ou participe em fóruns e blogues da especialidade. Estas comunidades de leitores ajudá-lo-ão a integrar-se mais facilmente na sua nova realidade.

8.º – Mude de hábitos, a fim de evitar locais onde possa conviver com pessoas completamente desinteressantes.

9.º – Não faça pausas muito grandes e complemente-as com a leitura de um jornal, revista, de banda desenhada ou de uma história infantil.

10.º – Parabéns. Se chegou até aqui é porque já é quase um leitor. No entanto, evite os entusiasmos exagerados, como, por exemplo, passar a considerar-se um intelectual.

Boas leituras


Fonte: Pó dos Livros

sexta-feira, 29 de março de 2013

Tempo Pascal é Tempo de Vida e de Esperança


. .


Para onde quer que nos voltemos, vimos, ouvimos, lemos sempre sobre o tema genérico que domina os meios de comunicação. Já aprendemos que o que faz vender notícias não são as boas notícias, mas as más notícias. Temos esta tendência tétrica para nos concentrarmos nos factos e acontecimentos negros e trágicos, e quanto mais negros e trágicos melhor. Afundamo-nos nas letras garrafais dos jornais que empolam tudo o que lhes possa render tiragens ou nas imagens lúgubres que os telejornais nos fazem chegar à hora certa da família. Deixamo-nos enredar mais facilmente por um clima negativo do que pelas coisas positivas que estão todos os dias à nossa frente.
.
Não acho que devamos abstrair-nos do que se passa à nossa volta, mas também não acho que nos devamos, pura e simplesmente, render aos ciclos menos bons como se a vida fosse apenas uma tela borrada de  negro.
.
Os cristãos passam pelas mesmas dificuldades que todas as outras pessoas passam, mas há algo que deve estar permanentemente na sua cabeça e no seu coração: um cristão é alguém cuja visão é mais alta. Ser cristão significa estar pronto para encarar as situações com os olhos postos em Deus e nas certezas que Ele tem para nós. É ser um optimista no meio do pessimismo; afinal, aquilo que Jesus disse é que devíamos ser Luz no meio das trevas e Sal num mundo insosso. Neste período de Páscoa, onde a esperança renasce, onde novos horizontes estão à distância de um dedo; onde a morte é vencida pela vida. Onde Jesus já pagou todos os resgates, saibamos ser sorrisos e alegria contra todas as correntes de tristezas agónicas. E p isso significa  não nos  deixarmos levar nesta corrente geral de sentimentos negativos quanto ao presente e futuro. É isso que Jesus espera de nós, que no meio das crises saibamos reagir, saibamos pôr ao serviço dos homens aquilo que aprendemos de Jesus ressuscitado.                                                                     

Mostrar capacidade de reacção positiva no meio do sofrimento geral,  mesmo se também nós estivermos a ser atingidos, não é apenas estoicismo humano, é igualmente demonstração de plena fé nas capacidades eternas de Deus e na sua direcção divina para os homens e mulheres que mostram ser capazes de irem além de si próprios, sabendo que nunca estarão sózinhos nesse desígnio.
                                                      
Aquilo que Deus espera de nós, neste momento, é que a sociedade possa ver-nos como alguém que não perde a sua tranquilidade, a sua fé, o seu discernimento espiritual, a sua capacidade de um olhar com justiça e de manter uma opinião elevada sobre todos os contextos. É nestas ocasiões difíceis que se mostra a grandeza de espírito e a presença da fé que nos alimenta.                                                            

Aprendemos que nos ciclos negativos da vida a fé se prova de uma maneira muito mais extraordinária. A fornalha aquece, torna-se quase insuportável, mas Deus está no controlo e conhece os nossos limites. Saibamos, como filhos de Deus, nestes momentos de tormenta, obter de Jesus a paz que está a faltar a tantas vidas. Que cada filho de Deus seja um referencial de esperança, neste período pascal, de calma no meio da tempestade, de temperança e estabilidade emocional e que mostre isso no pequeno circulo em que se integra. Parece simples dito assim, não é ? Mas não vai ser nada fácil. Teremos que fazer uso daquele estoicismo que recebemos da nossa natureza espiritual. O apóstolo Paulo dizia quequando estava fraco então era forte, e vai ser assim connosco também. Mas isso só é possivel aos filhos de Deus, aos que têm uma fé viva, um compromisso com Cristo.
.
Hoje li Deuteronómio 28:13 - «E o Senhor te porá por cabeça e não por cauda» - num devocional de Spurgeon que me acompanha há muitos anos; a determinado passo diz o autor: "Não tem o Senhor Jesus feito sacerdotes do seu povo? Certamente estão os d'Ele chamados para ensinar e não para aprender filosofias dos incrédulos[...]. Há-de a nossa fé arrastar-se como uma cauda ? Não deveria antes mostrar o caminho e ser a força predominante em nós mesmos e nos outros ? "
.
Que esta filosofia dominante de derrota, que nos servem todos os dias a todas as horas, não nos atinja da mesma maneira que está a atingir as pessoas à nossa volta. É possível que fiquemos  sem alguns anéis, mas o importante é mantermos os dedos. O importante é a vida humana e aquilo que podemos construir com ela. É para isso que Deus olha. É essa a lição da Páscoa. É nisso que eu me quero fixar. Arregacemos pois as mangas e preparemo-nos para ser Luz , Sal, justiça  e direcção num mundo em aflição e sem nenhuma certeza no amanhã. E isto não é teoria, é prática; isto não se opera ao apenas ao domingo na igreja, é na vida diária em sociedade, onde partilhamos a existência, que devemos marcar a diferença com sensibilidade e atitudes. Aproveitemos pois este singular tempo de ressurreição e vida para o fazer efectivamente.
.
.Jacinto Lourenço

segunda-feira, 25 de março de 2013

Workshop de Alemão - Ignorância ou Convicção...?

(Foto jornal Público )
Há poucos dias, fui informada por professores de uma escola pública, em Portugal, de que no passado ano lectivo fora colocado um cartaz (ver abaixo) na entrada do edifício, nas paredes dos corredores e na sala de professores, apelando à inscrição dos alunos num “workshop de alemão”, como forma de “sobrevivência linguística”. Nada disto seria digno de nota se não fosse o facto de o apelo à inscrição invocar a submissão ao “Chefe”, neste caso o Führer em pessoa, retratado numa imagem a fazer a saudação nazi … O cartaz acabou por ser retirado, não por iniciativa da direcção da escola ou de um repúdio generalizado, mas pelo protesto de um único professor, que, para além de exprimir a sua indignação junto da docente que autorizou tal cartaz, exigiu da direcção da escola que o mesmo fosse retirado. O que veio efectivamente a acontecer, juntamente com um pedido de desculpas da professora em questão, afirmando que "não fazia ideia de que o mesmo iria provocar tanta susceptibilidade”.   Doce inocência, tranquila ignorância…Na verdade, não sabemos se é de ignorância que se trata ou de convicções ideológicas. Mas inclino-me mais para a primeira hipótese: no estado da educação em Portugal consequência das inúmeras e sempre mais “inovadoras” reformas do sistema educativo desde o 25 de Abril, do baixo nível de cultura geral de grande parte dos professores – com honrosas e importantes excepções –, da subalternização durante décadas das disciplinas de Ciências Humanas, em nome da “eficácia” e do “sucesso” das carreiras profissionais, a ignorância é certamente a hipótese mais plausível – mas totalmente inadmissível.                                       

É absolutamente inadmissível que alunos do 12.º ano, depois de terem estudado a Segunda Guerra Mundial nos currículos de História, elaborem um cartaz destes; é absolutamente inadmissível que professores de uma escola pública supostamente responsável por ensinar e educar permitam a colocação de um cartaz deste tipo; é absolutamente inadmissível que a direcção da escola não tenha, ela própria, tomado a iniciativa de o retirar imediatamente. Só que, na realidade, esta ignorância ou ainda mais provavelmente esta indiferença é apenas o reflexo de algo muito mais profundo, muito mais atávico em Portugal e que não data nem de hoje nem do 25 de Abril. É aquilo que nós gostamos de chamar “tolerância” e que mais não é, na maior parte das vezes, indiferença, falta de princípios, desprezo pelas ideias e pelas convicções.                                                                  

Em nome de uma liberdade de expressão, tão instrumentalizada quanto pervertida, não se entende que sem ética nem moral esta não passa de um relativismo esvaziado de sentido. Sob a cómoda e aparentemente tão tolerante expressão “cada qual é livre de dizer o que quiser” esconde-se na maior parte das vezes a indefinição ética, a recusa tacticista de tomar partido, a indiferença e a contemporização com o inadmissível. É este encolher de ombros que levou o historiador Ian Kershaw a escrever que “a estrada de Auschwitz foi construída pelo  ódio, mas o seu pavimento foi a indiferença”. [...]


 ESTHER MUCZNIK               LER TEXTO INTEGRAL AQUI NO JORNAL PÚBLICO

quinta-feira, 21 de março de 2013

Somos um Sopro...


...Somos uma folha de papel, somos um sopro.
Aquelas merdices que nos dão voltas na cabeça, que nos consomem, não têm qualquer valor.
Haveremos de  arrepender-nos de cada uma delas . A derrapagem de um pneu na estrada ou qualquer outro acaso banal irá abrir-nos os olhos para uma realidade maior. Então, iremos surpreender-nos com aquilo que, afinal, sempre soubemos que iria ser assim. Já lemos em livros, vimos em filmes, ouvimos em canções, fomos avisados mil vezes e, no entanto, precisamos que aconteça. Mesmo. Já vem na nossa direcção. Quando esse instante chegar, haverá verdades que se tornarão únicas e talvez nos admiremos por termos sido capazes de as ignorar com tanta força.

José Luis Peixoto in Visão - 14/03/2013




Estava a ler  um texto do José Luis Peixoto, consagrado escritor português, por sinal alentejano, e retirei o trecho que aqui publico. Ao mesmo tempo vieram  à minha memória  várias passagens bíblicas. De entre elas, seleccionei esta: Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã; porque o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal. ( Mateus 6:34). Depois pensei que este versículo não nos incita ao desleixo com a nossa vida ou à ausência de  planeamento, mas sim a não deixarmos que os problemas nos dominem de tal maneira que percamos a noção sobre quão valiosa é a  vida para a desperdiçarmos em coisas menores, mesquinhas, na maioria dos casos. Encarar os problemas e aborrecimentos  não significa que eles tenham que nos esmagar a tal ponto que deixemos de poder olhar para Aquele que é tudo em nós e que tem a solução do que nos parece insolúvel. Sim, somos um sopro, e nisto José Luis Peixoto concorda com o Salmista: O homem é semelhante a um sopro; os seus dias são como a sombra que passa. ( Salmos 144:4 ).                                                                        
O desafio, como conclui aliás José Luis Peixoto, é vivermos a nossa vida sem que ela se constitua, diariamente, num fardo de difícil transporte. Não foi esse o projecto divino para nós. Não é isso que Deus deseja.

Jacinto Lourenço

segunda-feira, 18 de março de 2013

Bater no Fundo...



Bater no fundo é uma expressão que ouvimos frequentemente quando se pretende concluir que já não existe mais espaço para se ir mais além, para que  alguma coisa ou acontecimento possa piorar ainda mais. Temos escutado isso mais vezes do que gostaríamos, em Portugal, quando alguém se quer referir ao estado do país e ao seu ambiente económico e social, mas a verdade é que descobrimos que, afinal, o fundo não passa de um fundo falso a que se seguem sucessivamente novos  fundos falsos. Ou seja: quando esperamos que, depois de bater no fundo, venha o tempo de começar de novo, eis que alguém nos vem dizer: "surpresa, afinal ainda há mais fundos falsos"...

Dia após dia, semana após semana, mês após mês e, já podemos dizer, ano após ano, tem sido assim em Portugal e na europa. Até há algum tempo atrás ainda estávamos (pouco) esperançados de que o país iria recuperar porque, afinal, estávamos integrados numa união europeia que não tinha qualquer interesse na nossa desgraça que, a acontecer,  só poderia traduzir-se num efeito de dominó para outros países da europa. Começámos cedo a descobrir que as coisas não funcionam bem assim. Percebemos, com a crise grega, que a europa não só não se interessa pelos problemas dos outros estados europeus, como, quando  esses problemas acontecem, só tem uma preocupação: libertar-se dos problemas, ou livrar-se dos estados com problemas. Arranjou a europa, e quando falo de europa estou a falar da "europa alemã", um processo eficaz para fazer isso: "esmagamento económico-social" dos estados que já estão esmagados pela crise económica. Foi assim com a Grécia, foi assim com a Irlanda, foi assim com Portugal,  tentam que seja assim com Espanha e Itália, mais logo será a França  e agora está a ser assim com Chipre.

A europa não tem nenhuma estratégia para a europa a não ser a da "europa alemã" e esta encontra, pelos vistos,  bons aliados políticos dispostos a aplicar as receitas merkelianas nos países com problemas ou já sob intervenção. E essa estratégia é a  da pilhagem e destruição levando à  exaustão económica e social dos povos dominados.

A história ensina-nos muita coisa. Estou a lembrar-me, por exemplo, de como as tribos germanas derrotaram por dentro o império romano sem necessitarem de fazer uma invasão militar avassaladora e clássica. Foram-se estabelecendo a pouco e pouco, com autorização até de alguns dos últimos imperadores, ocuparam territórios. Depois espalhavam o terror  desencadeando  operações e incursões  de pilhagem à volta dos seus assentamentos. Pelo meio aceitaram   a religião vigente no império e prestaram vassalagem ao imperador. Essa estratégia foi-se dilatando gradualmente. Os exércitos imperiais foram integrando germanos e, quando o imperador se deu conta, mais de cinquenta por cento dos seus legionários  já eram bárbaros, esmagadoramente germanos. Foi fácil, como vimos, para os povos germanos, minarem por dentro o Império Romano. Com a fragilização total do domínio imperial no ocidente, o caminho ficou aberto a posteriores invasões de mais larga escala, nomeadamente , ( além de outros ) por Visigodos, Hunos e Vândalos em todo o território a que chamamos hoje europa. 

Odoacro deu o golpe de misericórdia no Império Romano ocidental submetendo o último imperador, Rómulo Augusto, em 476 a.D.  Não se proclamou imperador mas apenas rei de Itália, submetendo-se ao imperador em Bisâncio que, a bem dizer, nunca se preocupou muito com o que se passava do lado de cá, mas esse momento passou a ser entendido como o que marcou, daí para a frente, o começo da idade média e, na idade média, como hoje, as estratégias políticas de domínio e expansão territorial na europa fizeram-se quase sempre à base da pilhagem esmagamento e destruição dos povos... 

Hoje, a Alemanha moderna também  não precisa de um exército para dominar a europa, como tentou fazer na primeira e segunda guerras mundiais ou como fizeram os seus ancestrais  no dealbar do Império Romano. Ela "instalou-se na europa", através de quase todos os governos da união europeia. As políticas destes governos e destes países, como se vê facilmente no exemplo de Portugal, ou são aquilo que a Alemanha impõe ou não são. E, não sendo isso, os alemães começam logo a dizer, como disseram aos gregos, e como é recorrente ouvir-se à boca pequena, que a "porta da rua é a serventia da casa". Mas o que mais impressiona, o que mais escandaliza, o que mais indigna, o que mais revolta, para poupar no verbo, é que se tenha instalado, como na idade média sob o domínio das tribos e dinastias germanas, uma política merkeliana, que recorre frequentemente ao esbulho, à pilhagem fiscal, como se verificou  agora, mais uma vez, o exemplo do Chipre com o roubo às contas bancárias dos Cipriotas, para impor a vontade germânica aos povos europeus,  exercida por governos fantoches debaixo de um poder mandatado a partir de Berlim, sabendo-se, como se sabe, que essa política se exerce gananciosamente em favor dos interesses imediatos alemães e do  bem estar do povo alemão e de alguns dos seus mais íntimos países satélites, enquanto os outros, os países que sofrem na carne e na alma esta miserável e maléfica política germânica de recorte tentacular, definham e morrem lentamente. O xerife de Nottingham, nos tempos de Robin Hood,  não seria capaz de idealizar melhor estratégia...

Levantam-se agora algumas vozes a dizer que a europa pisa terrenos perigosos, e até o nosso presidente-amorfo da república já tem umas tiradas provavelmente aconselhadas por algum assessor mais atento ao que se passa fora de Belém. Eu precisaria melhor: a Alemanha pisa terrenos Muito Perigosos e arrasta consigo a europa.

A Alemanha não deveria ter esquecido tão rapidamente a sua história, e de que massa é feita a  sua nação, e também não deveria ter esquecido tão rapidamente  que alguns dos  países que agora são alvo da sua rapina económica e social  fazem parte do número daqueles que perdoaram voluntariamente ou que foram obrigados e coagidos a perdoar os milhares de milhões de euros de indemnizações e reparações de guerra pelos prejuízos que os germânicos provocaram  na segunda guerra mundial. Entre esses países estão alguns dos chamados intervencionados economicamente pela "europa alemã".

Sim, Portugal não sabe ainda em que fundo bateu, ou quantos fundos falsos existem antes de que se bata no fundo verdadeiro, porém, a europa, essa, dominada pela "europa alemã", acredito, está já a roçar o seu verdadeiro fundo de degradação e decrepitude com todos os riscos e perigos que isso comporta e arrasta. Ingredientes para uma real implosão económico-social são-lhe todos os dias acrescentados por um bando de loucos que estão à frente dos seus destinos. Vista do ponto de observação de um simples cidadão europeu, como eu, a europa parece um enorme paiol de pólvora controlado por pirómanos doentios que gostam de atear fogos e provocar explosões para depois se deleitarem com a visão das  portas do inferno.  Com o mal que Alemanha tem feito à europa, confesso que às vezes me assalta o pensamento de que  a reunificação alemã possa ter sido um erro...  Mas a história é mesmo assim: tem o seu tempo e o seu caminho,  e essa coisa fantástica de ser feita por  homens e mulheres, nem todos bem intencionados e muitos pouco competentes ou capazes de pensarem ou verem algo além do seu próprio umbigo.


Jacinto Lourenço

domingo, 17 de março de 2013

O Jovem aluno e os 3 Percursores da Revolução Francesa...




Um ar gingão, alto, magro como só alguns adolescentes. Calças muito abaixo da linha da cintura. Olhos vivos pretos, pretos, da mesma cor do cabelo penteado de uma maneira que não sei descrever e que lhe dava um look alternativo, mas ao mesmo tempo seguro. Depois, dirigiu-se ao balcão parecendo ter a lição bem estudada:
- Eu desejava um livro que o meu professor de história me mandou comprar – nisto, encolhe os ombros, faz um esgar, como quem diz o meu professor é um chato, sorri e continua –, não é obrigatório, mas o meu professor diz que é absolutamente necessário – e repete o mesmo trejeito –.
O livreiro antevê que vem de lá disparate.
- Sim, por favor, qual é o título do livro?
- Pois, aí é que está o problema, esqueci-me do título. Todavia, lembro-me perfeitamente dos três autores.
- Isso é óptimo! – desabafa o livreiro mais sossegado –. E quais são os autores?
- São aqueles… tipo!... Os três principais percursores da Revolução Francesa o Jean, o Jacques e o Rousseau.

Jaime Bulhosa in Pó dos Livros

quinta-feira, 14 de março de 2013

O Olhar de António Aleixo...

















Acho uma moral ruim
trazer o vulgo enganado:
mandarem fazer assim
e eles fazerem assado.

Sou um dos membros malditos
dessa falsa sociedade
que, baseada nos mitos,
pode roubar à vontade.

Esses por quem não te interessas
produzem quanto consomes:
vivem das tuas promessas
ganhando o pão que tu comes.

Não me dêem mais desgostos
porque sei raciocinar...
Só os burros estão dispostos
a sofrer sem protestar!

Esta mascarada enorme
com que o mundo nos aldraba,
dura enquanto o povo dorme,
quando ele acordar, acaba.

António Aleixo

segunda-feira, 11 de março de 2013

A Vida Aprendida à Bruta




O sol acordou  preguiçoso, como em todos os invernos. Iluminou o dia e afugentou frios e medos  que as madrugadas acoitam. O rádio dá novas/velhas notícias  duma europa perdida , sufocada pelo garrote económico apertado sem dó nem piedade por quem manobra a economia a seu favor a milhares de quilómetros mais a norte. Houvem-se também coisas de um país que só encontra o caminho da ruína conduzido por mercadores de almas e vidas.                                                                                  

Por entre urbanos sons matinais, o pensamento voa-me para a minha infância,  na escola primária, com a mala às costas para aprender o futuro numa sala fria, hostil em todos os invernos; pensei na professora Helena, todos os dias má e todos os dias temível para alguns alunos. Havia os alunos de "primeira" e os de "segunda", mesmo se isso não tinha nada a ver com a classe frequentada. Os de "primeira", normalmente de famílias mais facilitadas de vida,  eram poupados à pancada e  elogiados; ocupavam as primeiras filas. Os outros, os de "segunda", nas últimas filas, eram sempre candidatos naturais à ponteirada e reguada; estavam, paradoxalmente, sempre na linha da frente, mas apenas para  o castigo, houvesse ou não motivo de maior. O recreio era a libertação, tal como as segundas-feiras, quando a camioneta das onze, que vinha de Montemor e que trazia a dona Helena, se atrasava e    nos dava mais uma hora de alegria. 

Hoje de manhã, quando Deus  nos visitou no sol,  lembrei-me que Ele nasceu para todos   mas lembrei-me também que a vida, no meio dos homens, e à revelia de Deus, é normalmente aprendida à bruta. A rudeza dos dias, mesmo os de sol, castiga sempre os mais frágeis, os que pouco ou nada têm, nem mesmo uma simples escapatória. Este (des)governo,    faz quase o papel da dona Helena: marginaliza, açoita, despreza, castiga e fere ostensivamente. Distribui reguadas e ponteiradas aos que põe nas últimas filas. Em Portugal, a não ser que tenhamos vontade e determinação para isso, as coisas dificilmente vão mudar para quem está nas últimas filas... Restam-nos os pequenos recreios da história, quando ela se lembra de nós, por entre dias e tempos  feitos de invernias duras para quem foi condenado às  zonas de sombra  em Portugal,  a quem  o sol, quando chega, já está no seu declinar.


Jacinto Lourenço  

quarta-feira, 6 de março de 2013

Pacíficos Indignados...




É um fenómeno curioso:

o país ergue-se indignado,
moureja o dia indignado,
come, bebe e diverte-se indignado,
mas não passa disto.
Falta-lhe o romantismo cívico da agressão.
Somos, socialmente,
uma sociedade pacífica de indignados.


Miguel Torga

Diário 17-09-1961


Via A Rês Pública












terça-feira, 5 de março de 2013

Frau Merkel segundo Maquiavel...


Muitos vêem em Angela Merkel a rainha não coroada da Europa. Se perguntarmos qual a origem exacta do poder da chanceler alemã, descobriremos uma marca característica da sua acção: a sua tendência para não agir, não agir ainda, agir  mais tarde, para hesitar. Merkel hesitou desde o início da crise da Europa e continua a hesitar até hoje. Ao início, nem sequer queria colocar a tragédia do endividamento grego na agenda política da Europa. Depois recusou-se, primeiro a salvar a Grécia, mais tarde  resistiu quando era necessário ajudar a Espanha e a Itália. O verdadeiro interesse de Angela Merkel não está em salvar em primeiro lugar os países devedores, mas sim em ganhar as eleições na Alemanha. E, para tal, como escreve a revista Der Spiegel, tem de "proteger o dinheiro alemão para preservar a competitividade da Alemanha nos mercados mundiais e, além disso, eventualmente, salvar a Europa". Ela faz uma política interna europeia que serve sobretudo à preservação do poder nacional.

Uma outra característica típica da chanceler alemã consiste na sua agilidade que se poderia considerar maquiavélica.  Segundo Maquiavel, o príncipe só deverá cumprir a palavra política da véspera se tal lhe trouxer vantagens no dia seguinte. Se aplicarmos esta regra à situação actual, o princípio é o seguinte: as pessoas podem fazer hoje precisamente o contrário daquilo que anunciaram ontem, se isso aumentar as suas hipóteses nas próximas eleições. [...]

Hesitação enquanto táctica de dominação - é este o método "Merkievel". O meio coercivo utilizado não é a entrada agressiva do dinheiro alemão, mas sim o contrário: a ameaça de saída, a protelação e a recusa de créditos. Se a Alemanha recusar a sua aprovação, a ruína dos países endividados é inevitável. Portanto, só existe uma coisa pior do que ser esmagado pelo dinheiro alemão: não ser esmagado pelo dinheiro alemão.

Entretanto, Angela Merkel aperfeiçoou esta forma de domínio relutante, legitimado como o cântico dos cânticos da poupança. Aquilo que parece algo absolutamente apolítico, nomeadamente não fazer algo, altera a estrutura de poder na Europa. A transformação da Alemanha na potência hegemónica na Europa é, assim, levada por diante e, simultaneamente, disfarçada. Este é o artifício que Merkel domina. Maquiavel podia, de facto, ser o autor do argumento.[...]

Ulrich Beck


Do livro "A Europa alemã"- de Maquiavel a "Merkievel" : estratégias de poder na crise do euro, Ulricch Beck, Edições 70, páginas 70 - 73

domingo, 3 de março de 2013

Marés...



Fonte: HenriCartoon

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Do Futebol e da Vida...


Primeiro íamos ( quem ia ) ao futebol em família, pais, mães, filhos, ou então em grupos de amigos, e era uma festa, um convívio. Não se escolhiam lugares em função das cores clubísticas, salvo nas bancadas dedicadas aos indefectíveis sócios, sentáva-nos onde nos parecia termos a melhor perspectiva do jogo ou então onde havia lugares disponíveis em dia de enchente. Ao nosso lado até podia estar um adepto da equipa adversária que isso não era problema nenhum; ele puxava pela equipa dele e entusiasmava-se com os jogadores dele e nós puxávamos pelos nossos. Acontecia  trocarem-se comentários  ou estabelecerem-se  mini-debates, mais ou menos acalorados, sobre o que se via no campo, de bom ou de mau, de uma e de outra cor.  Mas um jogo de futebol era sempre uma festa. Lá havia um ou outro mais exaltado e aguerrido que levava as coisas  a peito e isso dava às vezes lugar a pequenos "tsunamis" de agitação na bancada que tratavam de ser acalmados por quem estava perto ou, caso disso, o que era raro, pelos agentes da autoridade de serviço que  conduziam o exaltado adepto ao exterior para "apanhar um pouco de ar fresco" longe de quem gostava do futebol apenas porque era uma festa e não um ringue de box. Claro que o futebol movia ( e move ) paixões e, por isso, promovia  eventualmente comportamentos  mais desbragados de um ou outro espectador menos controlado emocionalmente. Mas, genericamente, quando se ia ao futebol, era ir a uma festa de gente de todas as idades, cheia de colorido, de alegria, de diversidade, de vozes soltas e vibrantes. Contudo, logo que o árbitro fazia soar o apito para começar o jogo todos os olhares  se concentravam no que acontecia dentro das quatro linhas,  e pouco mais, e era só isso que fazia sofrer, saltar, sorrir ou explodir de alegria pelo golo. Sim , era  assim o futebol, no seu estado mais puro e onde a vítima de quem perdia, regra geral, era   a mãe do árbitro, mesmo se ninguém conhecia a senhora. Claro, no fim queríamos sempre que a nossa equipa ganhasse, mas  não era um caso de vida ou de morte, e nem sequer chegava a tirar-nos o apetite do jantar se acontecesse o contrário. 

De há uns anos para cá apareceram no futebol uns senhores meio mal engravatados, lustrosos, com verbo tosco e gestos largos, desejosos de protagonismo que, não conseguindo alcançar nas suas comunidades, por manifesta incapacidade pessoal ou falta de mérito;  subitamente enriquecidos por negócios especulativos feitos, quase sempre, na área da construção civil; beneficiários da tal bolha imobiliária, de que tanto se falou já, ou portadores de uma pérfida  capacidade de ludibriar e manipular os clubes e os seus sócios, para se instalaram nas direcções com a promessa de  conseguirem os objectivos desportivos ansiados pelos sócios e adeptos. Esta estirpe de gente fomentou, dentro do campo, onde era suposto o futebol jogado com os pés ser a coisa estritamente exibida, e fora do campo, um ambiente que foi e é propício mais  a eles do que  ao clube que tinham tomado. Os sócios e adeptos, sedentos de títulos e cegados pela paixão clubística, deixaram-se invadir por esta praga de dirigentes.  A meio deste processo, os tais putativos dirigentes foram gerando condições objectivas ou subjectivas para o aparecimento das conhecidas claques que pululam por aí e onde, na generalidade, se arrebanharam um conjunto de arruaceiros que, para além de causarem distúrbios e trazerem o ódio para os campos de futebol, nada mais fazem do que dar trabalho à polícia e denegrirem e prejudicarem a imagem do desporto, afastando em definitivo  as famílias para longe dos estádios e outras pessoas que, de um jogo de futebol,  queriam colher um momento de pura descontração, ambiente festivo e convívio salutar.  A cultura das claques é a da violência pela violência. É o do quanto pior melhor. E se não puder ser dentro dos estádios há-de ser fora deles, independendo  se a sua equipa ganha, perde ou empata. Não é isso que os move.  Os dirigentes, esses, claro,    seguem em frente na sua acção devastadora do desporto dito rei, e das instituições, assobiando para o lado e fingindo ignorar a criatura e as malfeitorias  do pequeno monstro que incubaram dentro do futebol.      

A verdade é que é fácil ver  que, quando estas tais claques "organizadas", como lhe chamam, entram nos estádios onde se vai realizar um qualquer jogo, passam a maior parte do tempo viradas de costas para ele.  A sua  única preocupação é a desestabilização do ambiente desportivo e festivo que no estádio devia ser gerado pela festa do futebol jogado. O principal objectivo, a sua grande motivação nos noventa minutos ou mais que dure a peleja no relvado, é ofender, seja por palavras ou gestos, e arremessar objectos mais ou menos contundentes sobre  tudo o que mexe à  sua volta. É impossível que gente desta goste de futebol ou do desporto pelo desporto. Os seus valores são outros e não têm a ver com um jogo de bola, tal como os dos seus mentores. Mas será que tudo aquilo que de mau demanda o futebol através das claques preocupa seriamente os ditos dirigentes dos clubes e mentores das acirradas claques?  Claro que não. Se preocupasse já tinham acabado com elas. Parece óbvio ser do interesse dos dirigentes terem cães acirrados que façam algum trabalho sujo que eles não querem fazer; depois, bem, depois quando as coisas acontecem  podem sempre demarcar-se, hipocritamente, dos desmandos provocados por aqueles que açularam com as suas palavras de ódio e incitações maldosas dirigidas aos clubes rivais.

Estes dirigentes que tomaram o futebol como se fora um negócio seu, têm passado, nas últimas décadas, todo o tempo, a semear ódios e ventos. Ora, como bem sabemos,  ódio gera  ódio e quem semeia ventos só pode esperar colher tempestades.   Estas pessoas usam os clubes como instrumentos de ataques pessoais e institucionais e transformam os atletas que representam os clubes em joguetes das suas políticas, ditas "desportivas", aproveitando-se muitas vezes da instabilidade emocional destes, da avidez dos seus empresários, e do seu desejo por, ganhos, brilho e glória rápida, de uns e de outros, capazes de os guindarem a mais altos voos. Há um chicote psicológico nas mãos de cada dirigente de clube pronto a cair em cima de quem não apresente resultados imediatos que alimente a sua sede de protagonismo e lhes promova e afague o ego. Nessa demanda  promovem uma política de "eucalipto" secando tudo à sua volta e devastando clubes e instituições que expostos à mercê das suas megalomanias. Envolvem governos, bancos, cidadãos, empresários, câmaras municipais, juntas de freguesia e, se necessário, gente da mais baixa ralé nas suas "guerras" contra hipotéticos "sistemas".  Querem ser donos da cidade.  O seu ego é enorme e insaciável por cada vez mais protagonismo e exibição. As suas atoardas nos meios de comunicação são setas envenenadas, mas vistas como garantia de facturação pelas  empresas de media que, como bem sabemos, produzem uma informação que raia muitas vezes o asco. Poucos dirigentes, muito poucos, têm feito bem ao futebol e ao desporto em geral no país;  pelo contrário: os resultados da sua maléfica acção estão  à vista, todas as semanas, nas bancadas dos estádios, nos orgãos de comunicação,  nos tribunais.  

Tenho pena que o futebol se tenha deixado conquistar por esta gente, até porque  sou de uma geração que cresceu em Portugal tendo praticamente como únicas referências capazes de sustentar algum orgulho nacional  a nossa história passada e o futebol que,  lá fora,  e às vezes, se agigantava e ganhava, volta e meia, um jogo ou  um troféu que nos deixava a pensar que também  éramos gente e que nos chegava a dar a ideia de que, afinal, podíamos ombrear com os grandes da europa em alguma coisa, mesmo que isso não passasse de uma ilusão...

É assim, a nossa vida, em Portugal. Parece-me bem que um dos nossos principais defeitos, enquanto povo, é não estarmos dispostos a escrutinar, convenientemente,  as competências e interesses de quem se propõe dirigir-nos, seja na política, no desporto ou até noutros sectores da vida. Normalmente vamos na cantiga de embalo fácil de homens e mulheres, sacos de vento,  que não passam afinal de maus pagadores de promessas.  E,  promessas, como bem sabemos, leva-as o vento.

Não é muita a diferença entre a realidade do futebol e a realidade do país.
                                                                                                           
Talvez por isso mesmo, as consequências acabam sempre por vir bater à nossa porta, mais cedo que tarde, e são-nos servidas a frio, como se de uma vingança se tratasse. Uma vingança do tempo e do modo como fazemos as nossas escolhas, ou deixamos que outros as façam por nós.

Jacinto Lourenço