quarta-feira, 26 de junho de 2013

Entre a Loucura e a Razão...




"As mais belas ficções são inspiradas pela loucura e escritas pela razão, ou não?"
Anónimo )



Não é raro a realidade superar a ficção em bizarrias e situações grotescas. É verdade que a ficção está cheia de histórias de loucos, dementes, alucinados, mas não é menos verdade que a realidade está cheia de avariados, desvairados e brincalhões. A maior parte dos “loucos” não se encontra internada em casas de Orates, e eles circulam e interagem “connosco”, ou seja, com aqueles que, por estarem em maioria e se desviarem menos do padrão, se consideram sãos. Resta saber qual dos lados é mais doido, se o lado dos “normais” se o lado dos “dementes”, se na ficção se na realidade. A loucura sempre foi para nós objecto de fascínio e a literatura, cheia de exemplos pertinentes, não o desmente.
No conto O Diário de Um Louco, Fidèle, a personagem que Nikolai Gógol nos descreve como um simples e normal funcionário público, vai aos poucos ficando louco. O conto vai avançando à medida que os leitores se vão apercebendo dos pensamentos e visões da personagem, no mínimo estranhos, que, o vão levando, cada vez mais, à loucura. Claro que no final do conto, Fidèle, é internado, como doente mental, num hospital psiquiátrico. Convencido de que é Rei de Espanha, nunca se apercebe de que está louco (como todos os loucos) e julga encontrar-se na corte de um reino exótico com protocolos estranhos e costumes excêntricos, justificando assim todos os males que lhe vão acontecendo. Noutro conto, O Alienista, de Machado de Assis (na minha opinião, ainda mais extraordinário que o conto de Gógol, e que não podem deixar de ler), conta-se que, «numa remota vila do interior do Brasil chamada Itaguaí, vivera um certo médico, o Dr. Simão Bacamarte, filho da nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas». Ao abrigo da sua fama e sabedoria, consegue colocar, para além dos loucos, sob internamento, no seu próprio hospital psiquiátrico, a inteira comunidade de habitantes da vila, inclusive ele próprio.

Numa ocasião em que Filipe III de Espanha viu um jovem perdido de riso, comentou: «ou o rapaz perdeu o juízo ou está a ler o Dom Quixote.»
Dom Quixote é um dos livros mais divertidos de sempre, talvez o melhor livro de todos os tempos. A partir da obra de Cervantes, os leitores têm de estar conscientes de que, cada vez que iniciam a leitura de um romance, entram num mundo fictício, embora muitas vezes exista uma angustiante dúvida, entre os leitores, sobre a capacidade para fazer esta distinção entre realidade e ficção.
A fronteira que separa aquilo que é ficção e realidade, deixo para vocês julgarem. Porém, não posso deixar de contar uma história, passada na livraria, da esfera da realidade, parecendo ficção. Ou será o contrário?


Um cliente com um aspecto normal, faz uma pergunta natural:
- Tem livros sobre baratas?
O livreiro intrigado:
- Baratas!?...
- Deixe que lhe explique. Tenho uma barata em casa que fala comigo e queria saber mais sobre estes maravilhosos bichinhos. Eu sei que você não vai acreditar e é provável que me ache louco...
O livreiro sem deixar acabar o cliente, empolgado com a identificação, diz:
- Pelo contrário, acho até bastante interessante. E digo-lhe mais, ultimamente também eu tenho falado com uma, até lhe dei o nome de Metamorfose em homenagem a um amigo meu chamado Kafka…
Ainda o livreiro não tinha terminado a frase e já o cliente meio apavorado fugia porta fora.


Fonte: Pó dos Livros

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Louis Armstrong - Uma história de Vida


A sua técnica, imaginação e génio musical, tanto na trompete como a cantar, fez de Armstrong o modelo para todos os músicos do seu tempo. Louis Armstrong tocava trompete como se estivesse a cantar e cantava como se tivesse a tocar. Foi o inventor do scat e da trompete no jazz. O seu génio foi mundialmente reconhecido, e como o próprio Armstrong disse: "Uma nota é uma nota em qualquer língua. E se tu lhe acertares - Lindo". Louis Armstrong acertou nessas notas.
Louis Armstrong não era um músico de jazz. Ele era o jazz.
Foi também o mais influente de todos os vocalistas ou cantores de jazz. A audição das suas primeiras faixas cantadas parece indicar uma "normalidade" e "facilidade" que não eram aparentes na época. Ele tinha a capacidade de "adiantar" ou "atrasar" notas, mudar a melodia, colocar a voz, fazer "efeitos" vocais, improvisar o scat, ou simular a improvisação.

Estudos recentes mostram que, de facto, a sensação de improvisação é uma criação artística provocada por treino intenso e por diversas técnicas. Na realidade, o que parece um improviso de Armstrong é por vezes um falso improviso, resultado de muito trabalho e invenção, da mesma forma que um Impromptu de Chopin parece um improviso.
Louis Armstrong nasceu a 4 de Agosto de 1901 em New Orleans. O seu pai abandonou a família pouco depois do nascimento de Armstrong e a sua mãe teve que se prostituir para sobreviver mudando-se para uma área reservada a prostitutas e deixando Armstrong ao cuidado da sua sogra. Armstrong voltou para a sua mãe, que, apesar de carinhosa para Louis e sua a pequena irmã, era uma mãe irresponsável, deixando por vezes os filhos ao cuidado de estranhos - durante dias. 
Armstrong começou por cantar num quarteto de uma barbearia que durante anos se viria a tornar num excelente treino de ouvido musical. Na sua juventude acabou por passar dois anos num reformatório para crianças e adolescentes delinquentes. Acabou por se juntar à banda do reformatório e efectivamente foi-lhe dada uma corneta. Ao sair do reformatório, Louis Armstrong decidiu tornar-se 
músico. 
Começou a tocar (com instrumentos emprestados) em "honky-tonks" e "barrelhouses" na sua terra natal. E acabou por se juntar ao mais famoso grupo da zona, o de King Oliver, na altura considerado o melhor cornetista. Esta oportunidade ofereceu a Armstrong grande publicidade, expondo-o a um público, deixando de ser apenas um músico de fundo numa "honky-tonk". Oliver foi para Chicago em 1918 e Armstrong entrou para o seu lugar na banda de Kid Ory. Em 1919 começou a tocar nos barcos do Mississippi durante o Verão, o que lhe permitiu desenvolver-se como músico profissional que poderia ler e tocar qualquer música pedida ao momento.
Em 1922, King Oliver convidou Armstrong para ir a Chicago tocar segunda corneta no seu grupo. Esta Creole Jazz Band era no mínimo a banda mais influente de Chicago. Gravou os seus primeiros discos com este grupo e casou-se com a pianista do grupo Lil Hardin em 24 e, a pedido desta, foi para Nova York para a orquestra de Fletcher Henderson, uma das grandes bandas da "Grande Maçã". 
Armstrong tinha já o seu próprio estilo e a sua influência noutros músicos era agora sentida. Em Novembro de 25 voltou para Chicago e gravou discos que vieram a revolucionar o que se entendia como jazz. Estas gravações são também as primeiras com Stachmo a cantar. Durante este período trocou a corneta pela trompete e tranformou a música ao criar o scat (melodia inventada/improvisada pelo cantor utilizando palavras sem sentido) na gravação "Heebies Jeebies" em 1926. É bastante claro que Armstrong canta como se estivesse a tocar trompete. 

Em 1929 tomou um papel no espectáculo de Fats Waller e Andy Razaf - "Hot Chocolates"- e a sua versão de "Ain't Misbehavin'" foi uma sensação. Armstrong decidiu então tornar-se num entertainer popular. Foi o primeiro negro a ser realçado em filmes e a ter programas de rádio patrocinados. No final dos anos 30 era uma figura nacional. Formou a sua big band, a qual liderou até 1947. 

Com o colapso da febre pelas big bands, voltou às raízes e formou um pequeno grupo, Louis Armstrong e os seus All-Stars. A banda, apesar de ter os melhores músicos, funcionava como suporte para Louis Armstrong cantar canções populares. Os maiores êxitos foram "Mack The Knife" em 56 e "Hello Dolly" em 64, ambos número um em vários países. Nos anos 50 era um dos mais famosos entertainers do mundo. Fez perto de 50 filmes, percorreu dezenas de países, participou em inúmeros espectáculos e tournées. Quando Armstrong morreu a 6 de Julho de 1971, foi notícia de primeira página em jornais por todo o mundo.

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Há Gente Pior que Mosquitos...


Estive afastado daqui uns tempos. Casei a minha filha e fui dar uma volta por aí para não ter que perceber o vazio, assim, de repente, quando ficasse sem ela em casa. Andei pelo Alentejo, de alto a baixo, que é onde regresso sempre que preciso encher a alma e respirar o ar que me cura da nostalgia que hei-de carregar para sempre,  enquanto conseguir conjugar o verbo "respirar". Parei e percorri cidades e vilas perseguido por uma vaga de mosquitos que teimavam em não respeitar repelentes, nem que fossem comprados na farmácia. Eram iguais no alto e no baixo alentejo. Picavam da mesma maneira e deixaram marcas  que me estão a levar um ror de dias a passar. Dizem os mais velhos, os alentejanos que nunca deixaram de respirar o ar alentejano, que é sempre igual, todos os anos por esta altura lá voltam essas criaturas, escuras, pequeníssimas. A verdade é que nunca dei por eles. Ou então andámos sempre desencontrados nas últimas décadas. Também pode ocorrer eu  já não me lembrar como é viver todos os dias no alentejo.

Aflito com os mosquitos que me deixaram, e à minha mulher, o corpo numa lástima, pensei que há pragas que não se afastam de nós com facilidade e nem tão pouco  temem repelentes. Insistem em picar-nos constantemente deixando depois marcas que perduram no tempo.

Acho que certo tipo de gente, como a que ocupa hoje o aparelho de estado, são deste género. Do género  dos mosquitos. Como os mosquitos que me picaram, são gente minúscula, sem dimensão humana,  sem outras causas que não sejam as de picar e chatear  os desprevenidos, sugar-lhes o sangue ou depositar um qualquer verme ou bactéria microscópicos de que só percebemos a existência quando já estamos infectados. Sim são gente infecta que se habituou aos repelentes e até aprendeu a contorná-los, a fintá-los. Enquanto não  conseguirmos proteger-nos vão continuar a sua saga infecciosa. Na verdade, quando damos conta de que nos atingiram já não há muito a fazer. É esperar que passe ou então fazer uma desinfestação geral que os elimine de uma vez por todas dos locais e condições que lhes são propícios; e todos os locais onde há vida lhes são propícios...                                                                                

Como os mosquitos, esta gente sem dimensão humana conta com a nossa passividade para fazer estragos, habituou-se a isso e  irá  voltar sempre: eles, os seus filhos, os seus netos, bisnetos, padrinhos, afilhados ou amigos, se os ventos não lhes forem contrários, irão voltar sempre, como uma praga,  para picar muita gente e deixar o seu veneno a fazer ferida. Reproduzem-se aos milhares. Sendo gente sem dimensão, são especialistas a ocupar o espaço de actuação, formando nuvens de interesses e alvos que lhes são vitais à sobrevivência e propagação.

Desinfestação geral, sim, é o que precisamos.


Jacinto Lourenço

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Sol, Mar, Café, Pastéis de Nata e pouco mais....


De segunda a sexta, na Antena 1, uma das minhas rádios de eleição excepto quando transmite os debates com o governo a partir de S.Bento, pela manhã, passa uma pequena rubrica designada  "Portugueses no Mundo", conduzida pela jornalista Alice Vilaça, e que vai ao encontro de portugueses que estão espalhados pelas sete partidas do mundo, e que normalmente fazem  parte da "nova emigração". Essa rubrica procura indagar, em jeito de conversa informal, o que levou esses portugueses a partirem em busca de uma vida diferente, de novos desafios pessoais ou profissionais, ou de melhores condições de vida. Não se trata de emigrantes formatados pela matriz dos anos sessenta do século passado. Trata-se de gente jovem, normalmente bastante qualificada em termos académicos, mas a quem Portugal não tinha nada para oferecer. Gente que partiu para fazer mestrados ou doutoramentos, que conseguiu no estrangeiro as bolsas que lhes foram negadas no seu país, gente que concluiu fora essas especializações académicas e que por lá ficou a trabalhar na investigação dentro das  respectivas áreas; mas também gente que concluiu por cá essas qualificações e que, sem nenhuma saída credível, ou que pelo menos não fosse risível, partiu, deixando um rasto de investimento perdido pelo país que deveria ter como primeira pioridade das suas políticas, no mínimo, não malbaratar o seu capital humano.

Já ouvi dezenas de entrevistas destas feitas por Alice Vilaça. Cada entrevistado fala das suas particularidades pessoais, do seu caso, das suas esperanças, das suas desilusões, das suas expectativas para um futuro que se lhes afigura, lá longe, bem risonho. Diria que, em 99% dos casos, poucos são os que ponderam um dia voltar a Portugal para aqui continuarem as suas carreiras profissionais, os seus projectos pessoais, a sua vida. A visão deles é ficarem pelo estrangeiro, nos países que os acolheram e lhes deram uma oportunidade ou demandarem outros países, noutros lugares do mundo. O regresso a Portugal nunca está nas suas cogitações, pelas piores razões.

Quando a jornalista convoca essa palavra tão portuguesa chamada saudade, as respostas são quase sempre invariáveis: da família, da gastronomia, do bacalhau, das sardinhas, do mar, do sol, dos cheiros a Portugal, do café e do pastel de nata. Tirando isso, o país não lhes desperta outras saudades ou sentimentos positivos...

Miseravelmente, Portugal é hoje um país que não sabe cuidar nem de si próprio. Como é que um país assim poderá pois saber cuidar dos seus, do seu povo, dos seus jovens, das suas crianças, de todos os que podiam, e podem, ser uma reserva de esperança para  um presente e um futuro melhores ?

Saudades ? Sim, claro, muitas. Mas não a saudade que os possa levar a cometer o erro do regresso. Isso sim, uma aventura que teria todas as condições para correr mal. 

No seu imaginário mais profundo e básico do território onde nasceram e cresceram, restam a gastronomia, a família, a placidez da aldeia, a luz da cidade, os pastéis de nata, o cafézinho, o sol, os cheiros e o mar... É  só isso que os liga a Portugal, quando daqui partem, os portugueses, na demanda de um futuro diferente, para melhor comparativamente ao que  este país triste e sem rumo ou direcção tem para oferecer aos que aqui nascem e  a ele se devotam .

Jacinto Lourenço

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Estes Homens são o Povo...




Há no mundo uma raça de homens com instintos sagrados e luminosos, com divinas bondades do coração, com uma inteligência serena e lúcida, com dedicações profundas, cheias de amor pelo trabalho e de adoração pelo bem, que sofrem, que se lamentam em vão.
Estes homens são o povo.

Estes homens estão sob o peso do calor e do sol, transidos pelas chuvas, roídos do frio, descalços, mal nutridos; lavram a terra, revolvem-na, gastam a sua vida, a sua força, para criar o pão, o alimento de todos.
Estes são o povo, e são os que nos alimentam.
Estes homens vivem nas fábricas, pálidos, doentes, sem família, sem doces noites, sem um olhar amigo que os console, sem ter repouso do corpo e a expansão da alma, e fabricam o linho, o pano, a seda, os estofos.
Estes homens são o povo, e são os que nos vestem.

Estes homens vivem debaixo das minas, sem o sol e as doçuras consoladoras da natureza, respirando mal, comendo pouco, sempre na véspera da morte, rotos, sujos, curvados, e extraem o metal, o minério, o cobre, o ferro, e toda a matéria das indústrias.
Estes homens são o povo, e são os que nos enriquecem.

Estes homens, nos tempos de lutas e de crises, tomam as velhas armas da Pátria, e vão, dormindo mal, com marchas terríveis, à neve, à chuva, ao frio, nos calores pesados, combater e morrer longe dos filhos e das mães, sem ventura, esquecidos, para que nós conservemos o nosso descanso opulento.
Estes homens são o povo, e são os que nos defendem. Estes homens formam as equipagens dos navios, são lenhadores, guardadores de gado, servos mal retribuidos e desprezados.
Estes homens são os que nos servem.

E o mundo oficial, opulento, soberano, o que faz a estes que o vestem, que o alimentam, que o enriquecem, que o defendem, que o servem ?
Primeiro, despreza-os; não pensa neles, não vela por eles, trata-os como se tratam os bois; deixa-lhes apenas uma pequena porção dos seus trabalhos dolorosos; não lhes melhora a sorte, cerca-os de obstáculos e de dificuldades; forma-lhes em redor uma servidão que os prende e uma miséria que os esmaga; não lhes dá protecção; e, terrível coisa, não os instrui: deixa-lhes morrer a alma.
É por isso que os que têm coração e alma, e amam a justiça, devem lutar e combater pelo povo. E ainda que não sejam escutados, têm na amizade dele uma consolação suprema.


Eça de QueirozTextos do Distrito de Évora, 1876

sábado, 25 de maio de 2013

Na Rota da Felicidade




A Bíblia diz, no capítulo dois do  livro de Eclesiastes, que "a sabedoria é mais excelente que a estultícia, quanto a luz é mais excelente que as trevas", diz também, no mesmo capítulo dois,  que "ao homem que é bom diante dEle dá Deus sabedoria, conhecimento e alegria".
 Mas afinal que homem é bom perante Deus, para que alcance a sabedoria e o conhecimento diante dEle ? Entende-se  como "bom", na leitura de Eclesiastes, não apenas aquele que alcança muito conhecimento, muito sucesso profissional, muita capacidade humana neste ou naquele sector da vida apenas porque estudou muito. Aliás, homens sábios e bons existiram, e existem em todas as culturas e geografias, em todos os tempos, sem que para isso tenha sido necessário atingirem qualquer patamar de sucesso social. Um homem, ou uma mulher, "bons" e "sábios", são aqueles que se conhecem a si próprios, à sua  natureza humana, aos seus anseios e  limites  e têm, dos seus semelhantes e do mundo dos homens e das coisas um conhecimento equivalente e proporcional ao que têm de si próprios sem que tenha sido necessário,  porventura,  aprender tudo isso numa qualquer universidade. 
Eclesiastes diz também que a alegria do homem está relacionada com a sabedoria e o conhecimento.
 Para sermos felizes temos que nos entender em todas as dimensões e, ao homem moderno, tem-lhe faltado olhar e perceber a sua dimensão e filiação divina; sem isso, por muito "bom" que se seja, nunca se está completo, nem nunca se pode perceber, por inteiro, o mundo dos homens e das coisas. Sem o espírito divino em nós nunca estaremos reconciliados com a autenticidade do projecto maior que nos está cometido, nem estaremos irmanados neste destino comum que nos juntou aqui à face da terra, homens de todas as cores, raças e culturas. Sabedoria e felicidade serão então, de acordo com a Palavra de Deus, um dom ao alcance apenas dos que realizam esta globalidade em si mesmos dentro de uma totalidade física e espiritual. Só isso nos pode trazer a felicidade, porque só isso nos voltará a integrar dentro dos planos de Deus e  porque só assim poderemos  perceber o mundo, os homens e as coisas que nos acontecem. 


Jacinto Lourenço

quinta-feira, 23 de maio de 2013

O Boneco Gaspar...



problema é antigo, está-nos no sangue, parece-me. Dizem-nos que o herdámos do tempo do "botas" , que nos obrigou ao servilismo. Não acredito. A coisa vem mais de trás, do princípio da nossa história enquanto nação, com Egas Moniz a confundir honra com servilismo ( numa "interpretação" muito minha, e livre, da história...) quando foi pedir perdão e oferecer a sua vida e da sua família em resgate  a Afonso VII por D. Afonso Henriques se ter recusado a prestar vassalagem ao primo, conforme lhe prometera Egas Moniz, se este levantasse o cerco a Guimarães.  Sempre tivemos esta tendência para o servilismo, para a obediência cega e parva, sem questionamentos. Somos assim; desenvolvemos, como nenhum outro povo da Ibéria,  a arte de "engolir sapos", mesmo se eles são de difícil digestão, mostrando um sorriso,  por mais amarelo que seja.

Se vamos ao senhor doutor para tratar das maleitas que nos afligem, lá vem a promessa de, pela páscoa, lhe fazermos chegar um borreguinho ou um cabritinho desmamado, tenrinho, ainda a saber a leite, sim,  claro, porque  o médico nos vai aliviar das dores que carregamos. Os mais pobres podem sempre ofertar um queijinho ou um chouriço lá da terrinha. O físico, impante na sua cátedra inquestionável e impenetrável, a olhar-nos por cima dos óculos, diz que sim, que gosta e, na volta de uns comprimidos milagrosos, ou de umas gotas,  lá mais para a frente poderá seguir também, para o consultório,  um perú pelo natal. Ainda hoje, mesmo acedendo a um Serviço Nacional de Saúde que pagamos com impostos, não ousamos deixar de olhar para o médico como alguém a venerar servilmente, em lugar de o vermos como profissional que é, pago para tratar da nossa saúde. A esta imagem, talvez mais diluída nos meios urbanos, juntam-se outras que têm a ver com o sacerdote católico, o pastor protestante,  o advogado, com o cabo da guarda, com o presidente da câmara, etc, a quem dedicamos ridículos e servis  encómios numa atitude borrega, sem paralelo conhecido a não ser o da  nossa triste vocação para desistirmos com facilidade de exibir a dignidade que reside no simples facto de sermos seres humanos e cidadãos na  plenitude da igualdade de direitos e deveres que independe da posição social que ocupamos . Somos, quiçá, dos únicos países do mundo chamado desenvolvido a achar que títulos académicos fazem parte, ou devem  usar-se em lugar dos nomes de registo ou baptismo. Um país de doutores e engenheiros em que, mesmo aqueles que o não são exigem tratamento deferente como se o fossem. Doutor para aqui, doutor para ali, senhor engenheiro para isto senhor engenheiro para aquilo... É cultural, dizem-nos. Sim, até pode ser, mas não passa de uma cultura de penacho que assenta num servilismo a raiar a falta de coluna vertebral que se liga com a facilidade com que a vergamos por tudo e nada.

Clara Ferreira Alves constatava há tempos, numa das suas habituais  crónicas no Expresso, que "outros países estão a conseguir atravessar a crise da dívida com a dignidade intacta" e só "Portugal resolveu transformar-se num país habitado por bonecos das Caldas". Dizia ainda  que "o nosso desejo de agradar, de servir, perde-nos. Faz-nos perder o respeito por nós próprios". Também, num outro registo, a mesma Clara Ferreira Alves, em reportagem sobre os estragos provocados pelo furacão Sandy, nos Estados Unidos da América, e para o mesmo semanário, constatava que os milionários de Manhattan, a deslizarem nos seus carros de luxo como se fossem os donos do planeta, não fazem a menor ideia de como vivem os pobres. "Usam-nos como serviçais, e proporcionam-lhes empregos com estatuto de invisibilidade. Os portugueses, uma comunidade em Newark, são famosos pela sua honestidade e por serem criados, governantes  e mulheres da limpeza de confiança. Gente que se pode meter dentro de casa. Simples, discretos, invisíveis. Sem nome nem história".

Também é certo, por aquilo que diz Clara Ferreira Alves, que pudemos, e devemos,  interpretar essa atitude dos trabalhadores portugueses nos E.U. da América, por exemplo, como francamente profissional: fazem o seu trabalho com correcção, executam as suas tarefas com profissionalismo e não se metem, mais do que devem, na vida dos outros, especialmente dos seus patrões. Mas também pode igualmente ser que o servilismo cultural dos portugueses os ajude a isso tudo.

Quando Portugal esteve sob dominação espanhola, esta cultura de servilismo era levada ao extremo para com a corte Filipina: relata-nos a História de Portugal coordenada por José Mattoso, no volume 5.3,  que "na corte de Filipe III [de Portugal], em Valladolid, os Castelhanos zombavam da soberba e vaidade dos portugueses: «não cuida um fidalgo português se não em que entrando na Corte, a hão-de assombrar, com os seus lacaios mais rica e custosamente vestidos do que nunca seus bisavós o fizeram nas suas vodas". Claro que o objectivo destes fidalgotes que se deslocavam a Valladolid,  emproados, empoados e seguidos pelo seu séquito de serviçais, era essencialmente  o de bajular o rei  e assim conseguir prebendas e favores políticos. Verificamos que, afinal, o servilismo é transversal na sociedade portuguesa e já vem de antanho.

O que sabemos hoje é que dignidade não rima com servilismo e que este não deve ser confundido com capacidade de realização e disponibilidade para correcção no nosso relacionamento com tudo e com todos, bem como exigência em sermos tratados com a mesma correcção com que tratamos com que connosco trata. Ver o psicopata social Vitor Gaspar, a vergar-se até ao chão, à frente do seu "colega e amigo" alemão, Wolfgang Schäuble, em nome  de Portugal, causou-me um frémito e um espasmo que me levaram ao vómito. Não teria nada contra se ele o tivesse feito em nome pessoal e no âmbito da "amizade" que o une a  Schäuble, cada um lá sabe as linhas com que se cose. Agora fazê-lo em meu nome e em nome de todos os portugueses, não aceito nem admito.  Se Gaspar quer ser um boneco das Caldas, como disse  Clara Ferreira Alves, é problema dele e de todos os que são como ele, mas comigo não conta para o ser também. Nada justifica, sejam  a crise ou as nossas presentes dificuldades, que um (des)governante português vá "lamber os sapatos" a um Schäuble qualquer em nome de um país que é tão ou mais digno quanto a Alemanha. Tenham dó, respeito por nós e pela nossa história de novecentos anos.

Jacinto Lourenço

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Pousios da Vida




Às vezes precisamos de silêncio e de breves  isolamentos  para olharmos mais além, por cima do cercado dos problemas que se levantam à volta, para percebermos que tudo tem um propósito e de tudo se retiram lições de vida.  Hoje lembrei-me de Elias e do quanto ele aprendeu em solidão e isolamento visitado apenas por umas aves, conotadas normalmente com imagens pouco positivas, longe de tudo e de todos, mas contando com o olhar de Deus a repousar sobre si e a conduzir a sua vida. Sim, o silêncio e o breve isolamento que nos afaste dos contextos habituais  podem ser fundamentais para o nosso trajecto pessoal e cristão.

Jacinto Lourenço

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Os Mártires da Ciência



( Imagem no  jornal El Mundo )

Os movimentos e a natureza do cosmos eram um autêntico mistério para os primeiros pensadores da antiguidade, do mesmo modo que agora  é um enigma para nós a forma como os sábios o apreendiam por forma a alcançarem, com os escassos meios que tinham, algumas conclusões que hoje nos surpreendem. Às vezes é difícil perceber se possuíam efectivamente conhecimentos sobre o assunto, ou se eram apenas os seus contemporâneos que faziam o favor de  lhos atribuir mais como sinal de respeito e admiração.
É o caso de Tales de Mileto, considerado um dos primeiros pensadores que tentou explicações lógicas para a realidade que o cercava. Tales de Mileto viveu entre os séculos VII e VI  a.C. e os filósofos posteriores recorda-lo-iam como o estereotipo do sábio distraido, desinteressado das riquezas materiais e capaz de cair num poço enquanto caminhava  absorvido pelos seus pensamentos.[...]
Ler texto integral, em castelhano, AQUI, no jornal El Mundo 

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Madrid, 03 de Maio de 1808



A revolta da população de Madrid em 02 de Maio de 1808, contra os franceses, na sequência das invasões peninsulares, levou o marechal Murat a ordenar o fuzilamento de milhares de populares. O pintor Francisco Goya, imortalizou, em 1814, esse dramático acontecimento ocorrido no dia seguinte ao levantamento popular. Goya pretendeu que a barbárie não fosse esquecida. Já passaram 205 anos. Nós não esquecemos.

Jacinto Lourenço




sexta-feira, 3 de maio de 2013

terça-feira, 30 de abril de 2013

A Morte do III Reich...




Hoje, dia 30 de Abril de 2013, faz precisamente 68 anos que Adolf Hitler se suicidou no seu bunker em Berlim, perante a iminente chegada ao local do Exército Vermelho. Eva Braun termina também com a sua vida junto ao seu fuhrer.
Naquele dia 30 de Abril de 1945, os russos estavam a escassos 100 metros do bunker onde se escondia Hitler e alguns dos seus fiéis seguidores, todos eles "actores" de uma tragédia digna de uma ópera wagneriana.
Oficiais superiores da Wehrmacht comunicaram ao ditador germânico, então com 56 anos, que qualquer tentativa de evasão, estaria condenada ao fracasso.


Via Por Terras de Sefarad

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Os Cravos Morreram com Salgueiro Maia...




O despertador tocou, como habitualmente, às oito e meia da manhã de uma quinta-feira normal de uma semana qualquer. A D.Ilda entrou esbaforida no meu quarto a dizer que tinha havido uma revolução. Lavei-me à pressa, enfiei a roupa e fui, como habitualmente, a pé, do Alto do Pina até à rua Zaire, ali para o pé dos anjos, para a empresa onde trabalhava. Pelo caminho fui observando os rostos das pessoas e as suas reacções. Percebi um misto de esperança e receio. Na Paiva Couceiro alguns  grupos de homens mais velhos conversavam meio em surdina; adivinhei o tema das conversas e continuei a andar. Nunca antes tinha chegado tão rápido ao emprego. No escritório os meus colegas seguiam interessados a emissão da rádio. Ninguém estava a trabalhar. Fomos percebendo, pelas notícias, a realidade do que se estava a passar nas ruas de Lisboa e a intenção dos militares que se tinham sublevado.

Vivi o 25 de Abril de 1974 com muita intensidade. Tinha vinte anos acabados de fazer em Março. Apresentara-me  já  à   inspecção militar e sabia que, como qualquer jovem português de então, o meu destino seria cumprir cerca de quatro  anos de tropa obrigatória sendo dois deles  no então designado Ultramar. Quatro anos na vida de um jovem na casa dos vinte, a cumprir serviço militar obrigatório, eram sem dúvida um tempo de interregno que comprometia  aspirações e punha em causa a própria vida. Muitos fugiam para o estrangeiro para não obedecerem a esse chamamento do regime a uma guerra injusta  que não fazia qualquer sentido. França era o destino mais corrente dos mais politizados, dos que tinham família emigrada ou dos que possuiam suporte financeiro familiar para por lá ficarem o tempo necessário. Eu não me enquadrava em nenhum destes perfis pelo que,  era mais do que certo, iria para o ultramar. Sem dúvida um cenário que apavorava.

Trinta e nove anos depois, os portugueses já não exibem o sorriso daquele dia vinte e cinco de Abril de 1974. O que sobra é apreensão e tristeza. Interrogam-se como é que deixaram que lhes retirassem coisas importantes que Abril lhes deu, que os amesquinhassem, que voltassem a espezinhá-los como no tempo do Salazarismo o Marcelismo. Desconfiam de si próprios e da sua capacidade para se voltarem a erguer e a lutar por liberdade, direitos e dignidade. Desconfiam que não conseguirão readquirir  o sorriso e a alegria que lhes roubaram neste percurso de quase quatro décadas de liberdade . Sabem que Salgueiro Maia já partiu e que em Portugal existem cada vez menos homens e mulheres com coluna vertebral e verticalidade suficientes para se erguerem em prol do que deixámos que se esboroasse às mãos de inimigos e falsos amigos do povo português. Os cravos perderam a sua cor quando o capitão partiu.


Jacinto Lourenço

segunda-feira, 22 de abril de 2013

A Estupidez é Perigosa...



...Para estabelecer as leis fundamentais da estupidez, é preciso, primeiro, definir quem é o estúpido. Para isso, ajudará a comparação com outros tipos de gente. Diz o autor que, quando temos um indivíduo que faz algo que nos causa uma perda, mas lhe traz um ganho a ele, estamos a lidar com um bandido. Se alguém realiza uma acção que lhe causa uma perda a ele e um ganho a nós, temos um imbecil. Quando alguém age de tal maneira que todos os interessados são beneficiados, estamos em presença de uma pessoa inteligente. Ora, o nosso quotidiano está cheio de incidentes que nos fazem "perder dinheiro, e/ou tempo, e/ou energia, e/ou o nosso apetite, a nossa alegria e a nossa saúde", por causa de uma criatura ridícula que "nada tem a ganhar e que realmente nada ganha em causar-nos embaraços, dificuldades e mal". Ninguém percebe por que razão alguém procede assim. "Na verdade, não há explicação ou, melhor, há só uma explicação: o indivíduo em questão é estúpido." [...]
Os estúpidos estão em todos os grupos, pois "a probabilidade de tal indivíduo ser estúpido é independente de todas as outras características desse indivíduo": segunda lei.
A terceira lei corresponde à própria definição do estúpido: "É estúpido aquele que desencadeia uma perda para outro indivíduo ou para um grupo de outros indivíduos, embora não tire ele mesmo nenhum benefício e eventualmente até inflija perdas a si próprio." A maioria dos estúpidos persevera na sua vontade de causar males e perdas aos outros, sem tirar daí nenhum proveito. Mas há aqueles que não só não tiram ganho como, desse modo, se prejudicam a si próprios: são atingidos pela "super-estupidez".
É desastroso associar-se aos estúpidos. A quarta lei diz: "Os não estúpidos subestimam sempre o poder destruidor dos estúpidos. Em concreto, os não estúpidos esquecem incessantemente que em todos os tempos, em todos os lugares e em todas as circunstâncias tratar com e/ou associar-se com gente estúpida se revela inevitavelmente um erro custoso." A situação é perigosa e temível, porque quem é racional e razoável tem dificuldade em imaginar e compreender comportamentos irracionais como os do estúpido. Schiller escreveu: "Contra a estupidez mesmo os deuses lutam em vão."
Como consequência, temos a quinta lei: "O indivíduo estúpido é o tipo de indivíduo mais perigoso." O corolário desta lei é: "O indivíduo estúpido é mais perigoso do que o bandido." De facto, se a sociedade fosse constituída por bandidos, apenas estagnaria: a economia limitar-se--ia a enormes transferências de riquezas e de bem-estar a favor dos que assim agem, mas de tal modo que, se todos os membros da sociedade agissem dessa maneira, a sociedade no seu conjunto e os indivíduos encontrar-se-iam numa "situação perfeitamente estável, excluindo toda a mudança". Porém, quando entram em jogo os estúpidos, tudo muda: uma vez que causam perdas aos outros, sem ganhos pessoais, "a sociedade no seu conjunto empobrece".
A capacidade devastadora do estúpido está ligada, evidentemente, à posição de poder que ocupa. "Entre os burocratas, os generais, os políticos e os chefes de Estado, é fácil encontrar exemplos impressionantes de indivíduos fundamentalmente estúpidos, cuja capacidade de prejudicar é ou se tornou muito mais temível devido à posição de poder que ocupam ou ocupavam. E também se não deve esquecer os altos dignitários da Igreja."
É assim o mundo.

Anselmo Borges 

Ler texto integral AQUI no Diário de Notícias online

sábado, 13 de abril de 2013

A Vendetta em Portugal



É necessário que diga uma coisa antes de continuar: não sou, nunca fui e nunca serei uma pessoa que possa perfilhar valores sociais e económicos  de direita tal como eles se inscrevem desde há muitas décadas na europa, incluindo Portugal.  Fui sempre, desde que me lembro e tenho consciência política, uma pessoa com valores de esquerda, mas de uma esquerda não conotada partidariamente, uma esquerda humanista e com valores cristãos.

As minhas origens sociais, o meu passado, a minha formação humana e cultural, a minha família, a minha visão do mundo e da sociedade não se coadunam  nem quadram com cosmovisões de direita. Já o disse noutro fórum: vivi 20 anos da minha vida sob uma ditadura de direita nacionalista que muitos designavam fascista, mesmo se este epíteto era exagerado até do ponto de vista do próprio regime que nunca incorporou plenamente essa ideologia ainda que lhe tenha aproveitado algumas ideias peregrinas que colocou em prática. Parte da minha família também viveu e sofreu debaixo do poder descricionário e bestial que o regime delegava na  PIDE para combater os que se lhe opunham. Assisti, como observador de tenra idade, à luta dos trabalhadores do alentejo pela jornada diária de oito horas de trabalho, que é hoje uma coisa banal e um direito que muitos poucos contestam, ignorando, todavia, que custou aos assalariados do sul do país muito suor, sangue e lágrimas. A verdade, para os mais esquecidos, é que  até praticamente aos alvores da década de 70 do século XX, a jornada de trabalho diária era de sol a sol, isto é: começava-se a trabalhar quando o sol nascia e só se parava quando o sol se punha. Parafraseando um conhecido político, é só fazer as contas ao total de número de horas trabalhadas diariamente e somar-lhe  ainda as horas de caminho, normalmente a pé, ou de bicicleta a pedais para os mais afortunados,  de casa até às herdades onde se trabalhava, a quilómetros, mais as horas gastas no percurso inverso. Percebi como  o sistema de "bufos" implantado pela PIDE, e que visava a denúncia anónima de pretensas actividades  contra o regime, obrigava os portugueses a falarem em surdina mesmo quando estavam dentro de casa ou a olharem por cima do ombro quando circulavam na rua. Tenho perfeita consciência do mal  que a ditadura do Estado Novo fez a Portugal e dos atrasos de toda a ordem fomentados num  país  à margem de uma europa que fervilhava de desenvolvimento económico, social e cultural. Vi jovens partirem para uma guerra ultramarina estúpida, em territórios que nãos nos pertenciam, e observei como muitos regressavam estropiados, mas também quando não regressavam. Ouvia, de milhares de homens, mulheres e crianças, de todas as idades, de todas as regiões, de norte a sul, portugueses como eu, que eram obrigados a sair para o estrangeiro mais próximo ou mais longínquo, semeando lágrimas e dor pelo caminho, para escaparem da fome e da miséria que grassava nos anos 50 e 60 e outros ainda fugindo da guerra, da prisão, da tortura de um regime que nos impedia de viver. Olho hoje para a direita ultra-revanchista que ocupa o poder e vejo mais do que a ausência de qualquer sensibilidade social, vejo a falta de pudor, a ligeireza  e a falta de vergonha com que  indicam aos portugueses, a porta de saída, o mesmo caminho penoso e doloroso da emigração.

Rompeu o ano de 1971 e eu dei lugar a Cristo na minha vida passando a sentir e experienciar de outra maneira, inteiramente nova, a  minha espiritualidade, a minha fé que se tornou viva e plena de significado e que se afastou radicalmente da que tinha experimentado em criança  e na qual se plasmava essencialmente uma religiosidade desenhada à medida do Estado Novo e dos seus interesses políticos. Igreja e estado, estado e igreja católica romana, duas faces de uma mesma moeda que consignavam os interesses dos poderosos e rastreavam eficazmente comportamentos mais divergentes em matéria de fé no regime ou no catolicismo.
Constatei a forma como o estado, em conluio com o clero católico, tratava as religiões minoritárias e como perseguia, muitas vezes,  alguns dos  crentes protestantes. 

Enfim, muito havia para dizer do que foi Portugal antes de 25 de Abril de 1974, e de como o vivi. Quase tudo mau; quase nada de bom há para contar.                                                         

Em Abril soltámos o coração e desatámos a falar de nós, das nossas esperanças e dos nossos anseios, como cidadãos e como povo. Projectámos sonhos e desenhámos futuros. Demos asas à liberdade e metemos pernas ao caminho. Era preciso construir um país e todos tínhamos urgência nesse propósito. Mas cedo começaram as clivagens: esquerda, direita, centro, extrema-esquerda, extrema direita, reacção, reaccionário, fascismo, fascista, etc, foram palavras que enriqueceram o nosso léxico comum e que disparávamos, quais armas de arremesso, sem preocupação de acertar no tempo ou no modo. Começámos cedo a perceber quem era o quê e o que queria. 

Chegados aqui, a 2013, não temos dúvidas sobre quem é o quê e o que quer  alcançar com a sua militância ideológica  conquistado que foi o poder através de um sufrágio que de universal tem cada vez menos e de uma democracia cada vez mais formal. Anteriormente já sofrêramos  com um partido socialista que se especializou  no fabrico de  clientes do poder que depois irão viver dos seus favores. Social Democracia ou Democracia Cristã não passam de metáforas mal construídas que escondem pavorosas agendas ideológicas que nos atiram para o elenco de um filme de terror de terceira categoria. Arrostamos com partidos de direita que se transformaram na direita mais revanchista, perigosa  e malévola  desde que existe direita organizada de forma partidária após Abril e que, a cada passagem pelo poder, deixa o país infinitamente mais pobre e amargo do que o encontrou. De permeio coloca o estado ao serviço dos poderosos transformando-o numa mera agência de venda de títulos do tesouro que vencem sempre a taxas altíssimas a favor dos grandes grupos económicos que têm por detrás, sempre ou quase sempre, os bancos e os banqueiros cujas famílias e seus ascendentes se tornaram adictos em agir como as rémulas coladas aos tubarões ou como os carraceiros  à volta dos bois no campo, mas com uma diferença: ao contrário destes animais, não prestam nenhum serviço ao estado, só o aliviam do dinheiro dos contribuintes. Por outro lado, os partidos de matriz marxista que ocupam as cadeiras de São Bento ainda não perceberam realmente o seu lugar no país real, o do povo que dizem defender, e continuam a gravitar um umbigo maior do que  a sua própria dimensão ou das  suas  ideias para o país.

Estamos em Abril de 2013. 25 é a data que viveremos dentro de dias, uma data histórica em que, há 39 anos atrás, aprendemos a dizer Liberdade, Esperança, Futuro e a entender perfeitamente o significado dessas palavras. Perguntam-me se o 25 de Abril em Portugal valeu a pena ? Valeu, claro que valeu. O problema que hoje nos afecta não é culpa do 25 de Abril. O problema que nos afecta tem uma outra dimensão. Tem a dimensão daquilo a que prefiro chamar "Vendetta". Uma "Vendetta" levada a cabo contra Portugal e o seu povo pelas forças obscuras que sempre operaram a partir do  seu interior e  que foram carcomendo por dentro os seus recursos, a sua  vitalidade, a sua capacidade de reacção séria e objectiva contra a actual situação que afunda raízes nos últimos 39 anos da nossa vivência colectiva. Mas se antes operavam escondidos, usando processos aprendidos dos melhores scripts mafiosos, hoje operam às claras: ocupam o aparelho do estado, estão no governo, em Belém, em S. Bento, pavoneiam-se nos corredores das babéis europeias, sentam-se nas cadeiras da democracia mas congeminam contra ela, todos percebemos as suas manobras e vemos que objectivos querem atingir. Vendem os recursos do país e o seu povo nas bancas de todos os  mercados, não interessa o preço, o lucro é total para quem o embolsa. Hipotecam a nossa dignidade, a dignidade de um povo velho de novecentos anos, submetem-no a novos impérios. Semeiam a fome e a miséria. liquidam toda a esperança. E um povo sem esperança, que não tenha muito mais para perder, pode tornar-se uma arma de arremesso para novos actores no teatro da demagogia político-partidária.

Jacinto Lourenço