sábado, 13 de julho de 2013
quarta-feira, 10 de julho de 2013
Portugal - Um país Catatónico...
Portugal é, definitivamente, um país construído catatonicamente à volta dos mesmos residuais estados de alma. Nem mesmo uma quimérica "patuleia" nos livra disto....
Extrato de entrevista a um marinheiro da República em 1911:
" - A maior alegria que eu tive foi a da proclamação disso que p'ra aí está e que eu julguei, então, que seria a República. Mas c'os diabos!... Ainda espero ter outra alegria maior... a da proclamação da verdadeira República.
- Mas esta república, que lhe parece ?
- Qual república ? Nós não temos República...São os mesmos... Só mudaram a bandeira..."
Fonte: Entrevista a um marinheiro revolucionário ( Manuel Joaquim - o França ) em 1911 in Fermosa Estrevaria - 1912
segunda-feira, 8 de julho de 2013
quarta-feira, 3 de julho de 2013
Um presidente que é um Vácuo
Ando a dizer há muito tempo, anos, meses, semanas, dias, que Cavaco Silva é o pior presidente da república desde Abril de 1974, descontado, claro, o absurdo período do PREC, que não se dá a avaliações ou comparações deste género. Hoje, no momento em que escrevo, estou já convencido que não só é o pior presidente como também é o mais execrável na sua acção política que ele mistura com mesquinhez e indisfarçável abnegação partidária. Basta ver a forma como escorraçou o anterior governo - logo desde a noite do seu discurso de vitória pela conquista do segundo mandato, na varanda do Centro Cultural de Belém - e como leva este ao colo com carinhosos afagos e juras de fidelidade a Passos Coelho até à morte política deste. A tragicomédia em que contracenou com Passos Coelho na posse de Maria Luis Albuquerque, sabendo já, naquela hora, que Paulo Portas se havia demitido e que isso teria consequências avassaladoras para o governo e para Passos Coelho, para mais quando o mentor económico-financeiro do primeiro-ministro, Vitor Gaspar, tinha já saido, é realmente digna de um homem que já não sabe o que está a fazer em Belém. O colo que continua a dar a Passos Coelho é absurdo. Um Presidente da República que fosse minimamente inteligente teria cancelado a posse e chamado de imediato a Belém os protagonistas da tarde de ontem. Mas não, preferiu deixar acontecer o expectável mantendo-se como uma dos personagens que mais tem contribuído para aquilo que está acontecer ao país neste momento. Este presidente não é uma múmia. É um vácuo completo !
Jacinto Lourenço
quarta-feira, 26 de junho de 2013
Entre a Loucura e a Razão...
"As mais belas ficções são inspiradas pela loucura e escritas pela razão, ou não?"
( Anónimo )
Não é raro a realidade superar a ficção em bizarrias e situações grotescas. É verdade que a ficção está cheia de histórias de loucos, dementes, alucinados, mas não é menos verdade que a realidade está cheia de avariados, desvairados e brincalhões. A maior parte dos “loucos” não se encontra internada em casas de Orates, e eles circulam e interagem “connosco”, ou seja, com aqueles que, por estarem em maioria e se desviarem menos do padrão, se consideram sãos. Resta saber qual dos lados é mais doido, se o lado dos “normais” se o lado dos “dementes”, se na ficção se na realidade. A loucura sempre foi para nós objecto de fascínio e a literatura, cheia de exemplos pertinentes, não o desmente.
No conto O Diário de Um Louco, Fidèle, a personagem que Nikolai Gógol nos descreve como um simples e normal funcionário público, vai aos poucos ficando louco. O conto vai avançando à medida que os leitores se vão apercebendo dos pensamentos e visões da personagem, no mínimo estranhos, que, o vão levando, cada vez mais, à loucura. Claro que no final do conto, Fidèle, é internado, como doente mental, num hospital psiquiátrico. Convencido de que é Rei de Espanha, nunca se apercebe de que está louco (como todos os loucos) e julga encontrar-se na corte de um reino exótico com protocolos estranhos e costumes excêntricos, justificando assim todos os males que lhe vão acontecendo. Noutro conto, O Alienista, de Machado de Assis (na minha opinião, ainda mais extraordinário que o conto de Gógol, e que não podem deixar de ler), conta-se que, «numa remota vila do interior do Brasil chamada Itaguaí, vivera um certo médico, o Dr. Simão Bacamarte, filho da nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas». Ao abrigo da sua fama e sabedoria, consegue colocar, para além dos loucos, sob internamento, no seu próprio hospital psiquiátrico, a inteira comunidade de habitantes da vila, inclusive ele próprio.
Numa ocasião em que Filipe III de Espanha viu um jovem perdido de riso, comentou: «ou o rapaz perdeu o juízo ou está a ler o Dom Quixote.»
Dom Quixote é um dos livros mais divertidos de sempre, talvez o melhor livro de todos os tempos. A partir da obra de Cervantes, os leitores têm de estar conscientes de que, cada vez que iniciam a leitura de um romance, entram num mundo fictício, embora muitas vezes exista uma angustiante dúvida, entre os leitores, sobre a capacidade para fazer esta distinção entre realidade e ficção.
A fronteira que separa aquilo que é ficção e realidade, deixo para vocês julgarem. Porém, não posso deixar de contar uma história, passada na livraria, da esfera da realidade, parecendo ficção. Ou será o contrário?
Um cliente com um aspecto normal, faz uma pergunta natural:
- Tem livros sobre baratas?
O livreiro intrigado:
- Baratas!?...
- Deixe que lhe explique. Tenho uma barata em casa que fala comigo e queria saber mais sobre estes maravilhosos bichinhos. Eu sei que você não vai acreditar e é provável que me ache louco...
O livreiro sem deixar acabar o cliente, empolgado com a identificação, diz:
- Pelo contrário, acho até bastante interessante. E digo-lhe mais, ultimamente também eu tenho falado com uma, até lhe dei o nome de Metamorfose em homenagem a um amigo meu chamado Kafka…
Ainda o livreiro não tinha terminado a frase e já o cliente meio apavorado fugia porta fora.
Fonte: Pó dos Livros
segunda-feira, 24 de junho de 2013
Louis Armstrong - Uma história de Vida
A sua técnica, imaginação e génio musical, tanto na trompete como a cantar, fez de Armstrong o modelo para todos os músicos do seu tempo. Louis Armstrong tocava trompete como se estivesse a cantar e cantava como se tivesse a tocar. Foi o inventor do scat e da trompete no jazz. O seu génio foi mundialmente reconhecido, e como o próprio Armstrong disse: "Uma nota é uma nota em qualquer língua. E se tu lhe acertares - Lindo". Louis Armstrong acertou nessas notas.
Louis Armstrong não era um músico de jazz. Ele era o jazz.
Foi também o mais influente de todos os vocalistas ou cantores de jazz. A audição das suas primeiras faixas cantadas parece indicar uma "normalidade" e "facilidade" que não eram aparentes na época. Ele tinha a capacidade de "adiantar" ou "atrasar" notas, mudar a melodia, colocar a voz, fazer "efeitos" vocais, improvisar o scat, ou simular a improvisação.
Estudos recentes mostram que, de facto, a sensação de improvisação é uma criação artística provocada por treino intenso e por diversas técnicas. Na realidade, o que parece um improviso de Armstrong é por vezes um falso improviso, resultado de muito trabalho e invenção, da mesma forma que um Impromptu de Chopin parece um improviso.
Louis Armstrong nasceu a 4 de Agosto de 1901 em New Orleans. O seu pai abandonou a família pouco depois do nascimento de Armstrong e a sua mãe teve que se prostituir para sobreviver mudando-se para uma área reservada a prostitutas e deixando Armstrong ao cuidado da sua sogra. Armstrong voltou para a sua mãe, que, apesar de carinhosa para Louis e sua a pequena irmã, era uma mãe irresponsável, deixando por vezes os filhos ao cuidado de estranhos - durante dias.
Armstrong começou por cantar num quarteto de uma barbearia que durante anos se viria a tornar num excelente treino de ouvido musical. Na sua juventude acabou por passar dois anos num reformatório para crianças e adolescentes delinquentes. Acabou por se juntar à banda do reformatório e efectivamente foi-lhe dada uma corneta. Ao sair do reformatório, Louis Armstrong decidiu tornar-se
músico.
Começou a tocar (com instrumentos emprestados) em "honky-tonks" e "barrelhouses" na sua terra natal. E acabou por se juntar ao mais famoso grupo da zona, o de King Oliver, na altura considerado o melhor cornetista. Esta oportunidade ofereceu a Armstrong grande publicidade, expondo-o a um público, deixando de ser apenas um músico de fundo numa "honky-tonk". Oliver foi para Chicago em 1918 e Armstrong entrou para o seu lugar na banda de Kid Ory. Em 1919 começou a tocar nos barcos do Mississippi durante o Verão, o que lhe permitiu desenvolver-se como músico profissional que poderia ler e tocar qualquer música pedida ao momento.
Em 1922, King Oliver convidou Armstrong para ir a Chicago tocar segunda corneta no seu grupo. Esta Creole Jazz Band era no mínimo a banda mais influente de Chicago. Gravou os seus primeiros discos com este grupo e casou-se com a pianista do grupo Lil Hardin em 24 e, a pedido desta, foi para Nova York para a orquestra de Fletcher Henderson, uma das grandes bandas da "Grande Maçã".
Armstrong tinha já o seu próprio estilo e a sua influência noutros músicos era agora sentida. Em Novembro de 25 voltou para Chicago e gravou discos que vieram a revolucionar o que se entendia como jazz. Estas gravações são também as primeiras com Stachmo a cantar. Durante este período trocou a corneta pela trompete e tranformou a música ao criar o scat (melodia inventada/improvisada pelo cantor utilizando palavras sem sentido) na gravação "Heebies Jeebies" em 1926. É bastante claro que Armstrong canta como se estivesse a tocar trompete.
Em 1929 tomou um papel no espectáculo de Fats Waller e Andy Razaf - "Hot Chocolates"- e a sua versão de "Ain't Misbehavin'" foi uma sensação. Armstrong decidiu então tornar-se num entertainer popular. Foi o primeiro negro a ser realçado em filmes e a ter programas de rádio patrocinados. No final dos anos 30 era uma figura nacional. Formou a sua big band, a qual liderou até 1947.
Com o colapso da febre pelas big bands, voltou às raízes e formou um pequeno grupo, Louis Armstrong e os seus All-Stars. A banda, apesar de ter os melhores músicos, funcionava como suporte para Louis Armstrong cantar canções populares. Os maiores êxitos foram "Mack The Knife" em 56 e "Hello Dolly" em 64, ambos número um em vários países. Nos anos 50 era um dos mais famosos entertainers do mundo. Fez perto de 50 filmes, percorreu dezenas de países, participou em inúmeros espectáculos e tournées. Quando Armstrong morreu a 6 de Julho de 1971, foi notícia de primeira página em jornais por todo o mundo.
Fonte: Rádio Smooth
quinta-feira, 20 de junho de 2013
Há Gente Pior que Mosquitos...
Estive afastado daqui uns tempos. Casei a minha filha e fui dar uma volta por aí para não ter que perceber o vazio, assim, de repente, quando ficasse sem ela em casa. Andei pelo Alentejo, de alto a baixo, que é onde regresso sempre que preciso encher a alma e respirar o ar que me cura da nostalgia que hei-de carregar para sempre, enquanto conseguir conjugar o verbo "respirar". Parei e percorri cidades e vilas perseguido por uma vaga de mosquitos que teimavam em não respeitar repelentes, nem que fossem comprados na farmácia. Eram iguais no alto e no baixo alentejo. Picavam da mesma maneira e deixaram marcas que me estão a levar um ror de dias a passar. Dizem os mais velhos, os alentejanos que nunca deixaram de respirar o ar alentejano, que é sempre igual, todos os anos por esta altura lá voltam essas criaturas, escuras, pequeníssimas. A verdade é que nunca dei por eles. Ou então andámos sempre desencontrados nas últimas décadas. Também pode ocorrer eu já não me lembrar como é viver todos os dias no alentejo.
Aflito com os mosquitos que me deixaram, e à minha mulher, o corpo numa lástima, pensei que há pragas que não se afastam de nós com facilidade e nem tão pouco temem repelentes. Insistem em picar-nos constantemente deixando depois marcas que perduram no tempo.
Acho que certo tipo de gente, como a que ocupa hoje o aparelho de estado, são deste género. Do género dos mosquitos. Como os mosquitos que me picaram, são gente minúscula, sem dimensão humana, sem outras causas que não sejam as de picar e chatear os desprevenidos, sugar-lhes o sangue ou depositar um qualquer verme ou bactéria microscópicos de que só percebemos a existência quando já estamos infectados. Sim são gente infecta que se habituou aos repelentes e até aprendeu a contorná-los, a fintá-los. Enquanto não conseguirmos proteger-nos vão continuar a sua saga infecciosa. Na verdade, quando damos conta de que nos atingiram já não há muito a fazer. É esperar que passe ou então fazer uma desinfestação geral que os elimine de uma vez por todas dos locais e condições que lhes são propícios; e todos os locais onde há vida lhes são propícios...
Como os mosquitos, esta gente sem dimensão humana conta com a nossa passividade para fazer estragos, habituou-se a isso e irá voltar sempre: eles, os seus filhos, os seus netos, bisnetos, padrinhos, afilhados ou amigos, se os ventos não lhes forem contrários, irão voltar sempre, como uma praga, para picar muita gente e deixar o seu veneno a fazer ferida. Reproduzem-se aos milhares. Sendo gente sem dimensão, são especialistas a ocupar o espaço de actuação, formando nuvens de interesses e alvos que lhes são vitais à sobrevivência e propagação.
Desinfestação geral, sim, é o que precisamos.
Jacinto Lourenço
quarta-feira, 5 de junho de 2013
Sol, Mar, Café, Pastéis de Nata e pouco mais....
De segunda a sexta, na Antena 1, uma das minhas rádios de eleição excepto quando transmite os debates com o governo a partir de S.Bento, pela manhã, passa uma pequena rubrica designada "Portugueses no Mundo", conduzida pela jornalista Alice Vilaça, e que vai ao encontro de portugueses que estão espalhados pelas sete partidas do mundo, e que normalmente fazem parte da "nova emigração". Essa rubrica procura indagar, em jeito de conversa informal, o que levou esses portugueses a partirem em busca de uma vida diferente, de novos desafios pessoais ou profissionais, ou de melhores condições de vida. Não se trata de emigrantes formatados pela matriz dos anos sessenta do século passado. Trata-se de gente jovem, normalmente bastante qualificada em termos académicos, mas a quem Portugal não tinha nada para oferecer. Gente que partiu para fazer mestrados ou doutoramentos, que conseguiu no estrangeiro as bolsas que lhes foram negadas no seu país, gente que concluiu fora essas especializações académicas e que por lá ficou a trabalhar na investigação dentro das respectivas áreas; mas também gente que concluiu por cá essas qualificações e que, sem nenhuma saída credível, ou que pelo menos não fosse risível, partiu, deixando um rasto de investimento perdido pelo país que deveria ter como primeira pioridade das suas políticas, no mínimo, não malbaratar o seu capital humano.
Já ouvi dezenas de entrevistas destas feitas por Alice Vilaça. Cada entrevistado fala das suas particularidades pessoais, do seu caso, das suas esperanças, das suas desilusões, das suas expectativas para um futuro que se lhes afigura, lá longe, bem risonho. Diria que, em 99% dos casos, poucos são os que ponderam um dia voltar a Portugal para aqui continuarem as suas carreiras profissionais, os seus projectos pessoais, a sua vida. A visão deles é ficarem pelo estrangeiro, nos países que os acolheram e lhes deram uma oportunidade ou demandarem outros países, noutros lugares do mundo. O regresso a Portugal nunca está nas suas cogitações, pelas piores razões.
Quando a jornalista convoca essa palavra tão portuguesa chamada saudade, as respostas são quase sempre invariáveis: da família, da gastronomia, do bacalhau, das sardinhas, do mar, do sol, dos cheiros a Portugal, do café e do pastel de nata. Tirando isso, o país não lhes desperta outras saudades ou sentimentos positivos...
Miseravelmente, Portugal é hoje um país que não sabe cuidar nem de si próprio. Como é que um país assim poderá pois saber cuidar dos seus, do seu povo, dos seus jovens, das suas crianças, de todos os que podiam, e podem, ser uma reserva de esperança para um presente e um futuro melhores ?
Saudades ? Sim, claro, muitas. Mas não a saudade que os possa levar a cometer o erro do regresso. Isso sim, uma aventura que teria todas as condições para correr mal.
No seu imaginário mais profundo e básico do território onde nasceram e cresceram, restam a gastronomia, a família, a placidez da aldeia, a luz da cidade, os pastéis de nata, o cafézinho, o sol, os cheiros e o mar... É só isso que os liga a Portugal, quando daqui partem, os portugueses, na demanda de um futuro diferente, para melhor comparativamente ao que este país triste e sem rumo ou direcção tem para oferecer aos que aqui nascem e a ele se devotam .
Jacinto Lourenço
quarta-feira, 29 de maio de 2013
Estes Homens são o Povo...
Há no mundo uma raça de homens com instintos sagrados e luminosos, com divinas bondades do coração, com uma inteligência serena e lúcida, com dedicações profundas, cheias de amor pelo trabalho e de adoração pelo bem, que sofrem, que se lamentam em vão.
Estes homens são o povo.
Estes homens estão sob o peso do calor e do sol, transidos pelas chuvas, roídos do frio, descalços, mal nutridos; lavram a terra, revolvem-na, gastam a sua vida, a sua força, para criar o pão, o alimento de todos.
Estes são o povo, e são os que nos alimentam.
Estes homens vivem nas fábricas, pálidos, doentes, sem família, sem doces noites, sem um olhar amigo que os console, sem ter repouso do corpo e a expansão da alma, e fabricam o linho, o pano, a seda, os estofos.
Estes homens são o povo, e são os que nos vestem.
Estes homens vivem debaixo das minas, sem o sol e as doçuras consoladoras da natureza, respirando mal, comendo pouco, sempre na véspera da morte, rotos, sujos, curvados, e extraem o metal, o minério, o cobre, o ferro, e toda a matéria das indústrias.
Estes homens são o povo, e são os que nos enriquecem.
Estes homens, nos tempos de lutas e de crises, tomam as velhas armas da Pátria, e vão, dormindo mal, com marchas terríveis, à neve, à chuva, ao frio, nos calores pesados, combater e morrer longe dos filhos e das mães, sem ventura, esquecidos, para que nós conservemos o nosso descanso opulento.
Estes homens são o povo, e são os que nos defendem. Estes homens formam as equipagens dos navios, são lenhadores, guardadores de gado, servos mal retribuidos e desprezados.
Estes homens são os que nos servem.
E o mundo oficial, opulento, soberano, o que faz a estes que o vestem, que o alimentam, que o enriquecem, que o defendem, que o servem ?
Primeiro, despreza-os; não pensa neles, não vela por eles, trata-os como se tratam os bois; deixa-lhes apenas uma pequena porção dos seus trabalhos dolorosos; não lhes melhora a sorte, cerca-os de obstáculos e de dificuldades; forma-lhes em redor uma servidão que os prende e uma miséria que os esmaga; não lhes dá protecção; e, terrível coisa, não os instrui: deixa-lhes morrer a alma.
É por isso que os que têm coração e alma, e amam a justiça, devem lutar e combater pelo povo. E ainda que não sejam escutados, têm na amizade dele uma consolação suprema.
Eça de Queiroz, Textos do Distrito de Évora, 1876
sábado, 25 de maio de 2013
Na Rota da Felicidade
A Bíblia diz, no capítulo dois do livro de Eclesiastes, que "a sabedoria é mais excelente que a estultícia, quanto a luz é mais excelente que as trevas", diz também, no mesmo capítulo dois, que "ao homem que é bom diante dEle dá Deus sabedoria, conhecimento e alegria".
Mas afinal que homem é bom perante Deus, para que alcance a sabedoria e o conhecimento diante dEle ? Entende-se como "bom", na leitura de Eclesiastes, não apenas aquele que alcança muito conhecimento, muito sucesso profissional, muita capacidade humana neste ou naquele sector da vida apenas porque estudou muito. Aliás, homens sábios e bons existiram, e existem em todas as culturas e geografias, em todos os tempos, sem que para isso tenha sido necessário atingirem qualquer patamar de sucesso social. Um homem, ou uma mulher, "bons" e "sábios", são aqueles que se conhecem a si próprios, à sua natureza humana, aos seus anseios e limites e têm, dos seus semelhantes e do mundo dos homens e das coisas um conhecimento equivalente e proporcional ao que têm de si próprios sem que tenha sido necessário, porventura, aprender tudo isso numa qualquer universidade.
Eclesiastes diz também que a alegria do homem está relacionada com a sabedoria e o conhecimento.
Para sermos felizes temos que nos entender em todas as dimensões e, ao homem moderno, tem-lhe faltado olhar e perceber a sua dimensão e filiação divina; sem isso, por muito "bom" que se seja, nunca se está completo, nem nunca se pode perceber, por inteiro, o mundo dos homens e das coisas. Sem o espírito divino em nós nunca estaremos reconciliados com a autenticidade do projecto maior que nos está cometido, nem estaremos irmanados neste destino comum que nos juntou aqui à face da terra, homens de todas as cores, raças e culturas. Sabedoria e felicidade serão então, de acordo com a Palavra de Deus, um dom ao alcance apenas dos que realizam esta globalidade em si mesmos dentro de uma totalidade física e espiritual. Só isso nos pode trazer a felicidade, porque só isso nos voltará a integrar dentro dos planos de Deus e porque só assim poderemos perceber o mundo, os homens e as coisas que nos acontecem.
Jacinto Lourenço
quinta-feira, 23 de maio de 2013
O Boneco Gaspar...
O problema é antigo, está-nos no sangue, parece-me. Dizem-nos que o herdámos do tempo do "botas" , que nos obrigou ao servilismo. Não acredito. A coisa vem mais de trás, do princípio da nossa história enquanto nação, com Egas Moniz a confundir honra com servilismo ( numa "interpretação" muito minha, e livre, da história...) quando foi pedir perdão e oferecer a sua vida e da sua família em resgate a Afonso VII por D. Afonso Henriques se ter recusado a prestar vassalagem ao primo, conforme lhe prometera Egas Moniz, se este levantasse o cerco a Guimarães. Sempre tivemos esta tendência para o servilismo, para a obediência cega e parva, sem questionamentos. Somos assim; desenvolvemos, como nenhum outro povo da Ibéria, a arte de "engolir sapos", mesmo se eles são de difícil digestão, mostrando um sorriso, por mais amarelo que seja.
Se vamos ao senhor doutor para tratar das maleitas que nos afligem, lá vem a promessa de, pela páscoa, lhe fazermos chegar um borreguinho ou um cabritinho desmamado, tenrinho, ainda a saber a leite, sim, claro, porque o médico nos vai aliviar das dores que carregamos. Os mais pobres podem sempre ofertar um queijinho ou um chouriço lá da terrinha. O físico, impante na sua cátedra inquestionável e impenetrável, a olhar-nos por cima dos óculos, diz que sim, que gosta e, na volta de uns comprimidos milagrosos, ou de umas gotas, lá mais para a frente poderá seguir também, para o consultório, um perú pelo natal. Ainda hoje, mesmo acedendo a um Serviço Nacional de Saúde que pagamos com impostos, não ousamos deixar de olhar para o médico como alguém a venerar servilmente, em lugar de o vermos como profissional que é, pago para tratar da nossa saúde. A esta imagem, talvez mais diluída nos meios urbanos, juntam-se outras que têm a ver com o sacerdote católico, o pastor protestante, o advogado, com o cabo da guarda, com o presidente da câmara, etc, a quem dedicamos ridículos e servis encómios numa atitude borrega, sem paralelo conhecido a não ser o da nossa triste vocação para desistirmos com facilidade de exibir a dignidade que reside no simples facto de sermos seres humanos e cidadãos na plenitude da igualdade de direitos e deveres que independe da posição social que ocupamos . Somos, quiçá, dos únicos países do mundo chamado desenvolvido a achar que títulos académicos fazem parte, ou devem usar-se em lugar dos nomes de registo ou baptismo. Um país de doutores e engenheiros em que, mesmo aqueles que o não são exigem tratamento deferente como se o fossem. Doutor para aqui, doutor para ali, senhor engenheiro para isto senhor engenheiro para aquilo... É cultural, dizem-nos. Sim, até pode ser, mas não passa de uma cultura de penacho que assenta num servilismo a raiar a falta de coluna vertebral que se liga com a facilidade com que a vergamos por tudo e nada.
Clara Ferreira Alves constatava há tempos, numa das suas habituais crónicas no Expresso, que "outros países estão a conseguir atravessar a crise da dívida com a dignidade intacta" e só "Portugal resolveu transformar-se num país habitado por bonecos das Caldas". Dizia ainda que "o nosso desejo de agradar, de servir, perde-nos. Faz-nos perder o respeito por nós próprios". Também, num outro registo, a mesma Clara Ferreira Alves, em reportagem sobre os estragos provocados pelo furacão Sandy, nos Estados Unidos da América, e para o mesmo semanário, constatava que os milionários de Manhattan, a deslizarem nos seus carros de luxo como se fossem os donos do planeta, não fazem a menor ideia de como vivem os pobres. "Usam-nos como serviçais, e proporcionam-lhes empregos com estatuto de invisibilidade. Os portugueses, uma comunidade em Newark, são famosos pela sua honestidade e por serem criados, governantes e mulheres da limpeza de confiança. Gente que se pode meter dentro de casa. Simples, discretos, invisíveis. Sem nome nem história".
Também é certo, por aquilo que diz Clara Ferreira Alves, que pudemos, e devemos, interpretar essa atitude dos trabalhadores portugueses nos E.U. da América, por exemplo, como francamente profissional: fazem o seu trabalho com correcção, executam as suas tarefas com profissionalismo e não se metem, mais do que devem, na vida dos outros, especialmente dos seus patrões. Mas também pode igualmente ser que o servilismo cultural dos portugueses os ajude a isso tudo.
Quando Portugal esteve sob dominação espanhola, esta cultura de servilismo era levada ao extremo para com a corte Filipina: relata-nos a História de Portugal coordenada por José Mattoso, no volume 5.3, que "na corte de Filipe III [de Portugal], em Valladolid, os Castelhanos zombavam da soberba e vaidade dos portugueses: «não cuida um fidalgo português se não em que entrando na Corte, a hão-de assombrar, com os seus lacaios mais rica e custosamente vestidos do que nunca seus bisavós o fizeram nas suas vodas". Claro que o objectivo destes fidalgotes que se deslocavam a Valladolid, emproados, empoados e seguidos pelo seu séquito de serviçais, era essencialmente o de bajular o rei e assim conseguir prebendas e favores políticos. Verificamos que, afinal, o servilismo é transversal na sociedade portuguesa e já vem de antanho.
O que sabemos hoje é que dignidade não rima com servilismo e que este não deve ser confundido com capacidade de realização e disponibilidade para correcção no nosso relacionamento com tudo e com todos, bem como exigência em sermos tratados com a mesma correcção com que tratamos com que connosco trata. Ver o psicopata social Vitor Gaspar, a vergar-se até ao chão, à frente do seu "colega e amigo" alemão, Wolfgang Schäuble, em nome de Portugal, causou-me um frémito e um espasmo que me levaram ao vómito. Não teria nada contra se ele o tivesse feito em nome pessoal e no âmbito da "amizade" que o une a Schäuble, cada um lá sabe as linhas com que se cose. Agora fazê-lo em meu nome e em nome de todos os portugueses, não aceito nem admito. Se Gaspar quer ser um boneco das Caldas, como disse Clara Ferreira Alves, é problema dele e de todos os que são como ele, mas comigo não conta para o ser também. Nada justifica, sejam a crise ou as nossas presentes dificuldades, que um (des)governante português vá "lamber os sapatos" a um Schäuble qualquer em nome de um país que é tão ou mais digno quanto a Alemanha. Tenham dó, respeito por nós e pela nossa história de novecentos anos.
Jacinto Lourenço
sexta-feira, 17 de maio de 2013
Pousios da Vida
Às vezes precisamos de silêncio e de breves isolamentos para olharmos mais além, por cima do cercado dos problemas que se levantam à volta, para percebermos que tudo tem um propósito e de tudo se retiram lições de vida. Hoje lembrei-me de Elias e do quanto ele aprendeu em solidão e isolamento visitado apenas por umas aves, conotadas normalmente com imagens pouco positivas, longe de tudo e de todos, mas contando com o olhar de Deus a repousar sobre si e a conduzir a sua vida. Sim, o silêncio e o breve isolamento que nos afaste dos contextos habituais podem ser fundamentais para o nosso trajecto pessoal e cristão.
Jacinto Lourenço
segunda-feira, 13 de maio de 2013
Os Mártires da Ciência
( Imagem no jornal El Mundo )
Os movimentos e a natureza do cosmos eram um autêntico mistério para os primeiros pensadores da antiguidade, do mesmo modo que agora é um enigma para nós a forma como os sábios o apreendiam por forma a alcançarem, com os escassos meios que tinham, algumas conclusões que hoje nos surpreendem. Às vezes é difícil perceber se possuíam efectivamente conhecimentos sobre o assunto, ou se eram apenas os seus contemporâneos que faziam o favor de lhos atribuir mais como sinal de respeito e admiração.
É o caso de Tales de Mileto, considerado um dos primeiros pensadores que tentou explicações lógicas para a realidade que o cercava. Tales de Mileto viveu entre os séculos VII e VI a.C. e os filósofos posteriores recorda-lo-iam como o estereotipo do sábio distraido, desinteressado das riquezas materiais e capaz de cair num poço enquanto caminhava absorvido pelos seus pensamentos.[...]
Ler texto integral, em castelhano, AQUI, no jornal El Mundo
quarta-feira, 8 de maio de 2013
Madrid, 03 de Maio de 1808
A revolta da população de Madrid em 02 de Maio de 1808, contra os franceses, na sequência das invasões peninsulares, levou o marechal Murat a ordenar o fuzilamento de milhares de populares. O pintor Francisco Goya, imortalizou, em 1814, esse dramático acontecimento ocorrido no dia seguinte ao levantamento popular. Goya pretendeu que a barbárie não fosse esquecida. Já passaram 205 anos. Nós não esquecemos.
Jacinto Lourenço
sexta-feira, 3 de maio de 2013
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