quinta-feira, 14 de abril de 2011

New York Times: "Portugal não precisava de ajuda"


Difícil é entendê-los...


Afinal, ao que parece Portugal não precisava assim tanto de ajuda. Pelo menos, no «mar da inevitabilidade» da ajuda externa, defendido por um sem número de especialistas, surge uma «ilha» vinda dos EUA. O artigo do New York Times recupera a tese de que Portugal foi vítima dos mercados, lembra que há quem esteja bem pior que nós e ainda tem o «desplante» de afirmar que nos anos 90, Portugal teve uma «performance económica forte».

Robert M. Fishman, professor de sociologia na Universidade de Notre Dame, nos EUA, escreveu aquilo que Mário Soares já tinha dito. A pressão dos mercados deve ser um aviso às democracias. O professor afirma que a crise que começou com os pedidos de ajudada da Grécia e da Irlanda e seguiu um «caminho feio».

O pedido de ajuda de Portugal nada tem a ver com o seu défice. «Portugal teve uma performance económica forte nos anos 90 e estava a gerir a recuperação da recessão global melhor do que muitos países da Europa», escreveu.

Como foi dito há alguns meses, e silenciado cada vez mais com o aperto crescente dos mercados, Portugal ficou «sob pressão injusta e arbitrária de negociantes de obrigações, especuladores e analistas de crédito que, por miopia ou razões ideológicas, já conseguiram expulsar um governo democraticamente eleito e, potencialmente, amarrar as mãos do próximo».

Mercados que são um perigo, uma vez que deixados sem regulamentação estas «forças» ameaçam eclipsar a capacidade democrática dos governos (quem sabe mesmo dos EUA) de tomar as suas próprias decisões sobre os impostos.

Para Fishman, a crise em Portugal é completamente diferente da instalada na Grécia e na Irlanda. «Não há uma crise subjacente», defende, salientando que as instituições económicas e políticas não falharam e conseguiram importantes vitórias, antes de sermos submetidos às ondas de ataques dos especuladores.

O resgate que aí vem não irá resgatar Portugal, mas sim empurrá-lo para uma política de austeridade impopular que atinge quem mais precisa. São as bolsas estudantis, as reformas, o combate à pobreza e os salários de funcionários públicos que vão sentir na pele o «resgate».

Para o professor, não é Portugal que está a fazer a crise, até porque a dívida portuguesa está bem abaixo de países como a Itália e o défice tem diminuído «rapidamente» com os esforços do Governo. Fishman aponta ainda que no primeiro trimestre de 2010, Portugal teve uma das melhores taxas de recuperação económica, acompanhando ou mesmo ultrapassando os vizinhos do Sul e até mesmo a Europa Ocidental.

Aliás, se há alguém que não deve ser culpado do estado do país é o primeiro-ministro e os políticos portugueses. A recente crise política nada tem a ver com incompetência portuguesa, mas decorre da normal actividade política democrática, já que a oposição considerou que podia fazer melhor levando o país a eleições.

As razões do ataque a Portugal são então duas. Por um lado, um cepticismo no modelo de economia mista de Portugal. «Os fundamentalistas do mercado detestam as intervenções keynesianas, nas áreas da política de habitação em Portugal - o que evitou uma bolha imobiliária e preservou a disponibilidade de baixo custo de rendas urbanas - a assistência de renda para os pobres. Por outro lado, a falta de perspectiva histórica é outra explicação. O crescimento do país nos anos 90 levou a uma melhoria nos padrões de vida e a uma taxa de desemprego das mais baixas da Europa.

Para Fishman, os ataques dos mercados condicionam não só a recuperação económica de Portugal, mas também a sua liberdade política. Se o 25 de Abril foi um ponto de partida para uma «onda democratização que varreu o mundo», para o autor, a entrada do FMI em Portugal, em 2011, pode ser o início de uma onda de invasão da democracia, sendo que as próximas vítimas poderão ser a Espanha, a Itália, ou a Bélgica.








quarta-feira, 13 de abril de 2011

A Parousia e a Ficção Europeia

  (O Juízo Final - Jean Cousin )

Vivem-se tempos conturbados nesta europa a 27  a que alguns  continuam a   chamar União.

Era uma ideia engraçada, a de que a europa pudesse um dia vir a ser um território no qual conviveriam milhões de pessoas de nacionalidades que tinham até há poucos anos servido para dividir e afastar; com diferentes níveis de desenvolvimento, diferentes línguas, sensibilidades diversas e um caldo de  culturas sublinhadas por histórias bem marcadas, na maior parte das vezes antagónicas, e que raramente convergiram sem ser pela força do domínio baseado nas armas.

Lembro-me que, enquanto cristão, e na juventude, o tema Mercado Comum suscitava grandes discussões sobre como iria desenvolver-se esse novo "império romano" que estava supostamente a emergir, na opinião de alguns, formatado por esse conjunto de  países da europa, e de que maneira poderia isso quadrar-se com os temas escatológicos que  tantas atenções suscitavam  em debates e estudos bíblicos. Cada um tinha a sua ideia e procurava que a bíblia a validasse, facto que, está bem de ver, era tarefa dificilmente alcançável. A partir do momento em que o número de adesões ao Mercado Comum ultrapassou o número  de países que se ajustava, de acordo com muitos presumidos candidatos a  exegetas bíblicos,  ao tamanho de um novo e moderno  "império romano", o tema esmoreceu um pouco e perdeu balanço  ficando no entanto no ar a hipótese da saída de algumas nações do Mercado Comum por forma a restabelecer a pretendida contabilidade profética, mesmo se esta não indiciava especificamente um "império" baseado na união de países exclusivamente da região europeia. Bom, confesso que à medida que os anos foram passando também eu fui secundarizando este tipo de debates, o que de resto aconteceu com uma esmagadora percentagem de cristãos que, à semelhança dos primevos irmãos na fé,  desejavam que a 2ª vinda de Cristo ocorresse ainda na nossa geração. Aprendemos todos que os tempos de Deus raramente concordam com o calendário humano,  e  mesmo  sendo  a escatologia  matéria  bíblica relevante, não será ela que determinará a nossa salvação e redenção.

O porquê de me ter ocorrido este tema prende-se com declarações recentes, produzidas por um ministro italiano acerca do problema dos refugiados na ilha de Lampedusa. A Itália pediu o apoio e a solidariedade dos seus comparsas da União Europeia no sentido de que estes se dispusessem a ajudar na situação dos refugiados da Tunísia. E o que é que ouviu como resposta ? Que não, que se resolvesse sózinha que isso era um problema italiano. Perante esta resposta, o ministro do interior questionou se ainda faria sentido continuar na União Europeia, porque sendo assim, "mais vale só que mal acompanhado".

Já o disse aqui e reafirmo: não vislumbro qualquer futuro nesta dita União Europeia e não me admiraria que ela, qual castelo de cartas, se começasse a desmoronar com mais ou menos estrondo. Itália não é um país propriamente despiciendo no seio da União Europeia e, à semelhança de outros países, começa a dar mostras do desgaste que este bloco amorfo de nações, com objectivos e interesses cada vez mais notoriamente irreconciliáveis entre si, começa a provocar na paciência de quem está a ficar farto de viver em ditadura comandada por uma troika de países mais poderosos, com a Alemanha à cabeça, que se instituiram donos e senhores de um grupo heterogéneo de nações que, do meu ponto de vista, jamais poderão ser uma união e, menos ainda, uma federação. Mantenho também possuir  fundadas suspeitas de que esta ficção europeia não vai acabar bem; é que ninguém se sente confortável quando tem  uma bota cardada a esmagar-lhe o pescoço e a impedi-lo de respirar. Pois é justamente esta a forma como alguns países europeus se sentem na arena do circo europeu. Entretanto, os bobos vão animando a corte dos notáveis da europa...

Provavelmente vou ter que regressar mais amiúde ao estudo e análise da escatologia bíblica, porque afinal, a ideia da União Europeia emagrecer as suas fronteiras a curto/médio prazo não me parece nada delirante nem atrevida, bem pelo contrário.  Tenho uma certeza: esta europa será seguramente um ponto cardeal para a compreensão do rumo dos acontecimentos que estão balizados pela Parousia, aconteçam eles quando acontecerem e sejam quais forem os seus protagonistas.


Jacinto Lourenço  

terça-feira, 12 de abril de 2011

Evangelho e Contextualização




1. A Palavra é supracultural e a-temporal, portanto viável e comunicável para todos os homens, em todas as culturas, em todas as gerações. Cremos, assim, que a Palavra define o homem e não o contrário.

2. Contextualizar o Evangelho não é reescrevê-lo ou moldá-lo à luz da Antropologia, mas sim traduzi-lo linguística e culturalmente para um cenário distinto afim de que todo o homem compreenda o Cristo histórico e bíblico.

3. Apresentar Cristo é a finalidade maior da contextualização. A Igreja deve evitar que Jesus Cristo seja apresentado apenas como uma resposta para as perguntas que os missionários fazem – uma solução apenas para um segmento, ou uma mensagem alienígena para o povo alvo.


Ronaldo Lidório via  Frases Protestantes

Hipocrisia e Cristianismo...



A marca registada de um hipócrita é ser cristão em todo o lugar, menos em casa.




( Robert Murray M'Cheyne )
 
 
 

segunda-feira, 11 de abril de 2011

O Respeito Conquista-se


O respeito não se pede  nem se exige, conquista-se.
Portugal era até há pouco tempo um país relativamente respeitado no concerto das nações, mas isso acabou este fim de semana.

Longe de mim, substituir-me aos comentadores políticos, que os há de sobra neste nosso  rectângulo europeu, mas não posso deixar de observar e acompanhar de perto os acontecimentos e desenvolvimentos da actual situação do país, especialmente quando constato que o desvario dos seus ditos representantes não tem limites. As declarações dos ( i )responsáveis políticos portugueses, na sequência do pedido de ajuda financeira à união europeia, se podem servir para consumo interno, no sentido de manterem as suas  próprias hostes partidárias animadas, não servem para a generalidade dos portugueses nem  para os responsáveis da união europeia, e estes últimos  fizeram questão de frisar precisamente isso no decorrer do Conselho da Europa realizado este fim de semana.

 Foi ver à vez responsáveis suecos, finlandeses, franceses e até espanhóis a pronunciarem-se agastadamente sobre Portugal depois de se terem apercebido das declarações de alguns políticos portugueses sobre a vontade que tinham ou não tinham de participar na negociação do pacote de resgate da economia. Ora a união europeia já esclareceu, e muito bem esclarecido, que todos tem que se envolver sendo que o contrário equivale a não haver negociação nenhuma. O presidente Cavaco foi  repreendido, e com propriedade, diga-se em abono da verdade, pelo comissário Olli Rehn,  por ter pedido imaginação à UE nas negociações que agora se iniciam com Portugal. Para além de ser um pedido despudorado e descontextualizado, especialmente vindo de quem já disse que não queria ter qualquer intervenção nas negociações no pacote de ajuda, revela que o presidente Cavaco Silva pede aos outros o que não quiz aplicar a si próprio  quando era necessária criatividade e imaginação para chamar à razão os partidos políticos afim de resolverem os problemas nacionais  "in house" antes de deixarem cair o país no buraco negro onde se encontra neste momento.  Olli Rehn disse-lhe, e eu estou com o comissário nessa matéria, que não falava com os políticos portugueses na praça pública.  Ou seja, mandou dizer que não calça o "chinelo" da baixa política à portuguesa nem mesmo que ela venha da parte da presidência.

Nesta fase da vida de Portugal, esperava-se que, pelo menos, o presidente da república se mostrasse como um esteio de maturidade política e de unidade nacional. Mas se é   alarmante e muito preocupante que Cavaco Silva tenha tido um início de mandato desastroso, prenunciado, alás, pelo seu discurso de vitória nas eleições, torna-se dramático que, para além de não se mostrar como uma referência de bom senso político e institucional, esteja a contribuir para o seu oposto. Pelos vistos, o verdadeiro Cavaco só agora se está a revelar, embora nós sempre desconfiássemos que debaixo daquele manto diáfono havia mais para recear do que para tranquilizar a nação.  É notório  que ele faz parte do problema e não da solução para Portugal.

Por mim, enquanto português, sinto-me naturalmente enxovalhado pelas declarações dos dirigentes  europeus dirigidas  a Portugal e aos portugueses  através das duras repreensões públicas aos políticos nacionais, mas sinto-me muito mais enxovalhado pela actuação desses mesmos  políticos  que se mostram  pouco dignos de Portugal e da história secular de um país que sempre soube fazer-se respeitar no mundo mais pela sua criatividade, imaginação, engenho e arte do que por outros poderes que nunca teve.


Jacinto Lourenço

domingo, 10 de abril de 2011

Os Valores Essenciais da Dignidade


Embora o teólogo Hans Küng seja conhecido pelos media e pelo grande público, em primeiro lugar, por causa dos diferendos com o Vaticano, julgo que o seu nome ficará sobretudo ligado ao diálogo inter-religioso, ao Parlamento das Religiões Mundiais, à "Declaração para uma Ética Mundial", à Fundação Weltethos, a que preside.
Foi precisamente por iniciativa da Fundação Welthos e em ligação com a "Declaração para uma Ética Mundial", do Parlamento das Religiões Mundiais, em Chicago, em 1993, que, no quadro de uma economia ecológico-social de mercado, surgiu o Manifesto "Global Economic Ethic", assinado por figuras relevantes da Política, das Igrejas, das Universidades, da Banca, e tornado público em 2009, em Nova Iorque e em Basileia.
Há dois princípios que servem de base: o princípio de humanidade - "todo o ser humano, independentemente da idade, sexo, raça, cor da pele, capacidades físicas ou espirituais, língua, religião, concepção política, origem nacional ou social, tem dignidade inviolável e inalienável", de tal modo que "também na economia, na política, nos media, nas instituições de investigação e industriais, deve ser sempre sujeito de direitos e fim, sempre fim, nunca simples meio, nunca objecto de comercialização ou industrialização" - e o princípio da reciprocidade: "não faças aos outros o que não queres que te façam a ti"; esta regra de ouro "promove a responsabilidade mútua, a solidariedade, a justiça, a tolerância e o respeito por todas as pessoas envolvidas. Estas atitudes ou virtudes são os pilares fundamentais de um ethos global económico, uma visão fundamental comum do que é legítimo, justo e equitativo".
Os dois princípios expandem-se em valores fundamentais: 1. não violência e respeito pela vida; 2. justiça e solidariedade; 3. honestidade e tolerância; 4. respeito mútuo e companheirismo. Estes valores têm consequências para a economia e os negócios, segundo os 13 artigos do Manifesto, que pode ler-se na recente obra de Küng, Anstäntig wirtschaften. Warum Ökonomie Moral braucht (Economia com decência. Porque é que a economia precisa de moral) e de que se apresenta uma breve síntese.
1. Para respeitar os valores da não violência e do respeito pela vida, devem ser abolidos o trabalho escravo, o trabalho forçado, o trabalho infantil, os castigos corporais e outras violações de normas do direito laboral internacionalmente reconhecidas. Deve-se acabar com as condições laborais e os produtos que danificam a saúde. A relação sustentável com o ambiente é um valor-norma fundamental da actividade económica.
2. Respeitando os valores da justiça e  da solidariedade, devem ser abolidas todas as práticas corruptas e desonestas. Finalidade maior de todo o sistema social e económico, que pretende igualdade de oportunidades, justiça distributiva e solidariedade, é pôr termo à fome e ignorância, à pobreza e desigualdade de oportunidades em todo o mundo. A subsidiariedade e a solidariedade, o empenho privado e público são as duas faces da medalha e concretizam-se, antes de mais, em investimentos privados e públicos no sector económico, mas também em iniciativas para a criação de instituições que sirvam a formação de todos os segmentos da população e a edificação de um sistema de segurança social, para que todos possam desenvolver-se humanamente e ter uma vida digna.
3. A verdade, a sinceridade e a honestidade são valores essenciais para as relações económicas e a promoção do bem-estar humano geral e pressupostos para criar confiança nas relações humanas e na concorrência económica. A cooperação mutuamente vantajosa pressupõe a aceitação de valores e normas comuns e a capacidade de aprender uns com os outros, acolhendo os outros na sua alteridade. São inadmissíveis aquelas acções que não respeitam ou violam os direitos humanos.
4. A estima mútua e o companheirismo entre todos os envolvidos, particularmente entre homens e mulheres, são pressuposto e resultado da cooperação económica. Baseiam-se no respeito, justiça e sinceridade com todos os parceiros: empresários, trabalhadores, consumidores ou outros interessados.


Prof. Anselmo Borges in Diário de Notícias Online

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Abutres e Profetas da Desgraça...


Pairam nuvens ameaçadoras sobre os portugueses. Os arautos da desgraça, quais abutres que observam em ciculares voos, imaginam que a vítima irá sucumbir rapidamente e preparam a descida vertiginosa e picada; a condenação vai ser brevemente proclamada. Prenúncios de tragédias entram todos os dias no recato da nossa  privacidade, à hora do jantar, e fico sem saber se essa já é uma medida de austeridade obrigatória; é que,  se acedermos a ficar mal dispostos  é certo que vamos poupar uma refeição...

Profetas da desgraça sempre os teremos connosco. Dizem-nos sempre mais do que aquilo que sabem e é por isso que desenham cenários que, na maior parte dos casos, podem até  não se concretizar como eles os proclamam. Entretanto os jornais já foram vendidos e os shares conseguidos. Pois preparem-se porque é assim que vamos andar nos próximos tempos, pelo menos até que os holofotes se desloquem para a temática eleitoral. 

Pena é termos profetas da desgraça a mais e Josés do Egipto a menos, em Portugal.  O contrário, e as vacas famélicas não chegariam para entreter  os abutres de dentro e de fora.

Enquanto português e  cristão, tenho procurado filtrar a realidade da ficção. Focar-me nos factos positivos. Não penso que isso vá acontecer mas, se alguma vez  acontecesse não ter pão na minha mesa, não deixaria de agradecer a Deus por ter uma família maravilhosa, uma casa onde me recolher, amigos dedicados e, fundamentalmente, o Pão da Vida à minha disposição em cada momento. 

Gosto de pensar na resiliência espiritual e física de Job, nas certezas de fé  de um renovado Elias a fixar, olhos nos olhos, os profetas de baal enquanto mandava derramar mais e mais água sobre o altar do sacrifício; nos absolutos teológicos de Paulo baseados na sua vivência íntima com Jesus, na sua experiência apostólica e no seu caminhar constante no risco do fio da navalha para anunciar o Evangelho. Gosto dos olhares que David lançou em direcção ao seu Senhor,  quando as dúvidas assaltavam o seu coração, e das respostas certeiras que d'Ele recebia. Gosto de Samuel que não se deixou enganar no momento de ungir um novo rei para Israel.

E gosto do profeta Habacuque que, cheio da Graça de Deus, disse: Ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto nas vides; ainda que falhe o produto da oliveira, e os campos não produzam mantimento; ainda que o rebanho seja exterminado da malhada e nos currais não haja gado.  todavia eu me alegrarei no Senhor, exultarei no Deus da minha salvação. O Senhor Deus é minha força, ele fará os meus pés como os da corça, e me fará andar sobre os meus lugares altos.

Que a Graça de Deus e a certeza de que Ele zela por nós não nos abandone em nenhum momento. Quando perdermos isto, teremos perdido tudo e só nos restará  rendermo-nos aos profetas da desgraça que nos darão como pasto aos abutres.




Jacinto Lourenço

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Venham Mais Cinco...


Por muitas voltas que dê à cabeça não me ocorrem outros rostos a quem possam ser assacadas responsabilidades pela crise político-económica e social  em que Portugal caiu. Os  senhores abaixo são os rostos de partidos políticos que estão instaladados nos centros decisores da  política portuguesa desde o 25 de Abril de 1974. Certo que uns são mais responsáveis do que outros, mas nem por isso deixam de ser menos responsáveis pelo buraco negro em que Portugal entrou.

No próximo dia 25 de Abril, terão decorrido 37 anos sobre 1974 e o fim da ditadura do estado novo que se prolongou durante quarenta e oito anos e que transformou Portugal num país muito atrasado no contexto europeu. É certo que a democracia trouxe imensas vantagens e um novo desenvolvimento nunca experimentado; não o reconhecer seria, no mínimo, estupidez ou ingratidão para com quem se ergueu na madrugada de 1974, arriscando tudo, no intuito de transformar  a tristeza nacional numa imensa alegria. No entanto, o que se seguiu após o poder ser entregue aos partidos políticos não foi muito edificante. Do ponto de vista económico e social Portugal só respirou melhor enquanto entraram milhões da União Europeia em catadupa. Isso enriqueceu muita gente ilicitamente com a utilização de estratagemas para para poderem deitar a mão aos milhões e, a maior parte dessa gente gravitava em torno dos aparelhos partidários. Foi um costume que se instalou até aos dias correntes. Se olharmos para os "barões" dos partidos políticos que durante estes anos partilharam o poder, verificamos facilmente que quase todos estão muito bem na vida e não necessariamente à custa do seu trabalho honesto, embora eles procurem fazer passar essa mensagem. É por tudo isto que hoje é tão difícil aos portugueses olharem para os partidos políticos e reconhecerem nestes algum censo de responsabilidade e decência, por uma razão ou por outra, estejam ou não no governo. É que dificilmente se pode esquecer que, no próximo dia 25 de Abril de 2011, quando terão passado 37 anos sobre a data da Revolução dos Cravos que tanta esperança trouxe a este povo sofrido e enxovalhado pela classe política, estaremos a braços com a 3ª intervenção do FMI em Portugal, e já não à pachorra para isto e para a incompetência, incapacidade e irresponsabilidade destes políticos que só pensam em "governar-se" a si próprios. Ou seja, feita uma conta simples, em média, esta classe política só precisa de 148 meses para afundar de novo o país após o início da última intervenção do FMI. Começou nova contagem.

Seguem os rostos e de certeza que faz aqui sentido a canção de José Afonso, noutro contexto é certo: "venham mais cinco" pois com os actuais não vamos lá.

Jacinto Lourenço



O Triunfo dos Cães Bravos...



O que São Basílio Magno (séc. IV) escreveu sobre a usura é temível: "Os cães, quando recebem algo, ficam mansos; mas o usurário, quando embolsa o seu dinheiro, irrita-se tremendamente. Não cessa de ladrar, pedindo sempre mais... Mal recebeu o dinheiro e já está a pedir o dinheiro do mês em curso. E este dinheiro emprestado gera mal atrás de mal, e assim até ao infinito." Por isso, o Concílio de Latrão, em 1179, proibiu aceitar esmolas dos usurários, admiti-los à comunhão e dar--lhes sepultura cristã.

Hoje a isto chama-se os mercados financeiros, com a sua lógica devoradoramente insaciável. Portugal sabe-o por experiência. Quem não viu veja e quem viu reveja Inside Job.

De qualquer modo, estamos na União Europeia e temos de honrar compromissos quanto ao défice e à dívida. O que aí vem é arrasador. Como foi possível ter-se chegado à beira deste abismo? Como escreveu Daniel Bessa, "o Estado português está há muito em processo de falência. A culpa é de todos nós, a começar por mim, que nunca o disse de forma audível, com esta clareza".

Em Portugal, deu-se o triunfo da irrazão. Ele foi a sementeira acéfala de instituições de ensino superior, com consequências desastrosas por décadas. Ele foi, sem respeito pela famosa "navalha de Ockam", a multiplicação dos entes sem necessidade: na Administração central, nas câmaras, nas juntas de freguesia, nos institutos públicos. Ele foi o encosto geral aos dinheiros públicos, que todos se habituaram a reclamar em todas as circunstâncias. Não se fez a transformação do aparelho produtivo para a competitividade. Destruiu-se a agricultura e as pescas. Numa euforia tola, foi o consumo esbanjador, que os bancos estimularam. Parte dos portugueses pensou que já não era preciso trabalhar. A corrupção banalizou-se. A Justiça quase faliu. Não há confiança nem horizonte de futuro.

Vêm aí eleições. Mais uma vez, o País encontra-se numa crise mortal. Esperar-se-ia, pois, o fim do reino da irrazão. Esperar-se-ia que as forças políticas pensassem, finalmente, mais no bem nacional do que nos interesses partidários e nas clientelas. Depois de tanta aldrabice, que dissessem a verdade, dura, crua, aos portugueses, para eles poderem saber onde realmente se encontram. Que às arruadas da campanha antepusessem a argumentação racional, serenamente e sem insultos. Que, no quadro da razão comunicativa, se entendessem para um consenso mínimo em temas fundamentais: Justiça, Educação, relançamento da Economia, Estado Social mínimo, reformas político-administrativas.

Há anos que se pede sacrifícios aos portugueses. Que se esclareça por uma vez a situação e que sacrifícios mais são necessários e até quando e para quê. Os portugueses ainda encontrarão forças para avançar, se houver argumentação racional e os sacrifícios forem equitativamente distribuídos. De contrário, se cairmos na bancarrota, se houver tumultos sociais em cadeia, se se começar a gritar que a democracia é pura demagogia, quem assume a responsabilidade histórica pela catástrofe?

Entretanto, em tempos de enormes dificuldades, será preciso continuar a contar com a justiça social e a generosidade solidária. Como escreveu o famoso dramaturgo Berthold Brecht, marxista e profundo conhecedor da Bíblia: "Contaram-me que em Nova Iorque,/na esquina da rua vinte e seis com a Broadway,/nos meses de inverno, há um homem todas as noites/que, suplicando aos transeuntes,/ procura um refúgio para os desamparados que ali se reúnem.// Não é assim que se muda o mundo,/as relações entre os seres humanos não se tornam melhores./Não é este o modo de encurtar a era da exploração./No entanto, alguns seres humanos têm cama por uma noite./ Durante toda uma noite estão resguardados do vento/e a neve que lhes estava destinada cai na rua.//Não abandones o livro que to diz, homem./Alguns seres humanos têm cama por uma noite,/durante toda uma noite estão resguardados do vento/e a neve que lhes estava destinada cai na rua./Mas não é assim que se muda o mundo,/as relações entre os seres humanos não se tornam melhores./Não é este o modo de encurtar a era da exploração."



Prof. Anselmo Borges***in Diário de Notícias Online

terça-feira, 5 de abril de 2011

O Hiato Negro de Portugal...



Há um país com as mais antigas fronteiras da europa sobre o qual hoje todos os olhares se colocam. Este país nunca foi rico, nunca foi grande, do ponto de vista geográfico, militar ou populacional. Este país é Portugal. Ainda hoje, quem olha, do ponto de vista histórico  para Portugal se interroga como é que lhe foi possível erguer a gesta dos descobrimentos em contra-corrente com o que eram as realidades  europeias no tráfego marítimo e comercial de então e, num outro plano mais crítico ainda, como é que este país periférico, apagado e afastado das principais linhas de força que marcavam o pensamento e as políticas europeias  teve arte e engenho para  construir o seu próprio renascimento científico e cultural num tempo em que na europa central se desenterrava o classicismo  para, nas letras e nas artes  se encetar uma reorientação europeia que rompesse com a idade das trevas. Teve êxito relativo, a europa, nesse domínio; porém, e pese embora o renascimento clássico, as fogueiras da inquisição não deixaram de ser alimentadas pelos corpos daqueles que lhe eram destinados pelos inquisidores católicos,  tal como as perseguições e mortes provocadas pelo  fundamentalismo protestante, no centro europeu,  que fizeram o possível por concorrer com elas, senão nos métodos, pelo menos nos objectivos de aniquilarem os opositores.

É verdade que o melhor do renascimento europeu pouco se sentiu na periferia, nomeadamente neste recanto português, e por isso mais intrigante nos surge o sucesso do país nos séculos XV e XVI,  mas também é verdade que, do seu isolamento  e marginalidade geográficos  souberam os portugueses tirar partido e criar o seu próprio renascimento, não apenas no capítulo do  desenvolvimento da ciência náutica, completamente inovadora, mas também no vasto conhecimento geográfico do mundo desconhecido até então e trazido por uma cartografia exemplar e rigorosa desse mundo novo para os europeus   cujas fronteiras mentais  estavam ainda cercadas pelo conhecimento disforme de um mundo aristotélico e ptolomaico. Os portugueses souberam elevar o comércio, a cartografia, as letras e a ciência natural  a um patamar a que provavelmente os restantes europeus não chegariam nem em três séculos de trabalho consecutivo. E podemos afirmar que o fizeram sózinhos, sem a ajuda de nenhum outro estado, mesmo sendo vigiados e espiados  de perto pelos vizinhos castelhanos. É verdade que se socorreram inicialmente de conhecimentos árabes, genoveses e outros. Mas não pode ser posto em causa que souberam incrementar e descobrir novos  caminhos e outras fórmulas a que esses não chegaram antes.

Quando, em qualquer parte do mundo, se  falar de gesta marítima, ciência  náutica, cartografia, ciência natural ou letras relacionadas com estas matérias, para se ser rigoroso,  é preciso que se diga que os portugueses,  durante dois séculos,  não tiveram concorrentes à altura. O mundo só é o que é,  hoje, porque os portugueses o estudaram exaustivamente e o deram a conhecer tal qual ele era. Claro que, e embora sem menosprezar o contributo de outros povos, é preciso que se diga que todos esses povos vieram a reboque de Portugal para o conhecimento científico e natural do mundo dos séculos XV e XVI. Colon, como lhe chamam os espanhóis, ou Colombo para os portugueses, está hoje comprovado, era português, marrano, talvez, mas português. Os relatos de Américo Vespúcio sobre o mundo então descoberto só foram possíveis porque este viajou em naus e caravelas portuguesas que lhe deram a possibilidade de observar, in loco, a "matéria prima" para as suas publicações. Fernão de Magalhães, o da viagem de circum-navegação ao serviço de Castela, era português, serviu na armada da Índia.

Portugal foi na verdade o único país europeu que manteve e desenvolveu originalmente um projecto náutico, descobridor e científico mas também comercial. Castela e mais tarde ingleses e holandeses  correram sempre atrás de nós. É certo que tiveram êxito os castelhanos na descoberta da América, com o Português Colombo, mas quando este procurava chegar às índias, desiderato de todos os navegadores de então, e ali aportou por engano... O que faltou a Castela foi ciência e conhecimento. Só Portugal os tinha tão desenvolvidos e guardou-os ciosamente pois essa era a sua maior fortuna: a inteligência e a ciência. Ingleses e Holandeses acabariam por nos alcançar e ultrapassar no comércio internacional somente ao fim de cerca de 200 anos. Tinham mais força, mais canhões. Ao mesmo tempo, Portugal ia sendo minado pela corrupção e ganância de donatários, capitães, funcionários coloniais e outros que, em posições de relevo e acesso às riquezas não queriam deixar passar a sua oportunidade de enriquecimento súbito, sendo que esse é um "tumor" que não conseguimos estirpar até hoje da nossa idiossincrasia colectiva: a corrupção e a ganância pessoal e despudorada de quem ocupa cargos ou lugares na esfera do poder.

D. João II e D. Manuel I passaram à história. D. João III, que teve acção bastante meritória no início do seu reinado, nomeadamente no domínio do desenvolvimento das colónias e na área das letras no território continental bem como no seu desenvolvimento em linha com a europa do renascimento clássico e com os novos ares que por lá sopravam, acabaria por se deixar subjugar  nesse campo  pelos Jesuítas,  em submissão aos ventos dominantes de Trento e da contra-reforma. Foi ele que em 1536 permitiu a entrada da inquisição em Portugal, facto que deu origem à fuga massiva de mercadores judeus e cristãos-novos do país; com eles ia uma parte significativa e relevante da massa crítica e da riqueza de Portugal. Este acontecimento, aliado a outros de abrangência nacional e de alcance ultramarino, tiveram como resultado a obrigação de Portugal ter que recorrer a empréstimos estrangeiros para sobreviver.

Devido à morte dos  dez filhos de D. João III, suceder-lhe-ia o neto D.Sebastião. Portugal passaria ainda por um período de regência que abriu caminho à  consolidação do domínio da igreja e ao incremento da inquisição que estenderia  os seus tentáculos até às Índias. Era o princípio do fim para Portugal, que se iria afundar em Alcácer-Quibir o  que  nos  conduziria à crise dinástica que escancarou portas ao domínio Castelhano durante sessenta anos.

Pessoalmente, vejo neste período dramático da nossa história um hiato negro que dura até hoje. Em qualquer dos casos, a perda de independência e autonomia nacional, nunca nos trouxe nada de bom e também não será agora que o vai trazer, com a Alemanha a mandar nos nossos destinos.  Talvez seja importante olharmos para a história para percebermos melhor quais são os caminhos que temos que percorrer enquanto povo, mesmo que o façamos sózinhos, até porque aqueles que hoje se dizem nossos amigos provam todos os dias o contrário disso. O melhor mesmo é limparmos a nossa casa do que não presta, organizá-la e olharmos para o caminho que existe para fazer percorrendo-o com a mesma determinação, coragem e ambição dos portugueses de quatrocentos e quinhentos. Só isso nos fará ganhar o respeito de quem nos olha hoje como os pobres desgraçados da Europa que só poderão obedecer aos seus ditames para sobreviver.

Não tenho praticamente nenhuma dúvida de que esta europa de hoje, e o projecto europeu iniciado com o tratado de Roma, não tem qualquer possibilidade política, social ou económica de sobrevivência comum. Não sendo economista, acredito que no dia em que o primeiro país tiver que sair da zona euro ( e acho que esse dia não virá longe ), a moeda única cairá com estrondo, agarrada a ela irá esta europa que neste momento se limita a servir os interesses de alemães e franceses. Ou seja: um projecto de União Europeia a vinte e sete que só serve os interesses de dois,  não interessa a ninguém, nem aos europeus nem a Portugal. É por isso que  está na hora de começarmos a olhar para o futuro com uma visão diferente esclarecida e inovadora, mesmo que o façamos em contra-corrente ou até sózinhos. Já estamos há muito habituados a contar só connosco. É preciso voltar a encontrar dentro da alma portuguesa os valores que nunca a  abandonaram.   


Jacinto Lourenço     

Explicação do Estado...



O Estado não sabe ao certo quantas viaturas tem (quer dizer, o número varia entre 28 e 30 mil, conforme o contador). Nem quantos organismos públicos existem.

Fonte não oficial estima haver 13740 entidades, incluindo administrações central, regional e local, empresas, institutos e fundações (639) - os ingleses chamam-lhes Quangos (quasi-independent non government organisations) - sob a sua jurisdição. Metade deles deve entregar anualmente no TC documentos sobre contratos e contas de gestão: em 2009, 1724 organismos enviaram a sua contabilidade e, destes, o TC fiscalizou 418. Ah, uma das empresas públicas chama-se Verdegolf e trata dos greens do arquipélago dos Açores.

A despesa pública aumenta 152207€ por minuto.

De acordo com o FMI, Portugal foi o penúltimo (à frente da Itália), em 179 países, no crescimento económico entre 2000 e 2010: subiu 6,47%, enquanto os outros 2 aflitos da Europa, Grécia e Irlanda, cresceram 28,09% e 28,96%. O PIB per capita, em paridade do poder de compra, fixou-se nos 16.903€, uma queda de 26% desde 2000.

A dívida pública directa deverá ser em 2011 de 92% do PIB, mas a dívida indirecta (de empresas públicas) é cerca de 22%. É fazer as contas.

Gastos caricatos: 600.000€ em concertos do Tony Carreira, 63.000€ de flores para o palácio de S. Bento (em 2010, no ano anterior foram só 19.020€), 117.085€ em brinquedos do Toy’r’us pelas câmaras de Lisboa, Amadora e M. Canavezes, 6960€ em rebuçados para o Carnaval de 2009 pela câmara de Loulé.

O PSD obrigou à criação dum Conselho das Contas Públicas e da Política Orçamental, quando viabilizou o OE de 2011. Foi escolhido para presidente António Pinto Barbosa, o que certificou durante 10 anos as contas do BPP, “intervencionado pelo BP para evitar a sua insolvência imediata, e cuja gestão está a ser investigada”…

OE 2011: aumento de 26% em despesas de combustíveis e 31,4% em seminários; aumento de despesas em publicidade, deslocações, comunicações e higiene/limpeza (de arquivos?); excepção para a Cultura, que vai gastar na rubrica quase menos 40%), atingindo recordes absolutos em vários ministérios; aumento de 23% em despesas com horas extraordinárias no ministério da Justiça.

A Presidência do Conselho de Ministros (vá, também tem a tutela do INE, e estamos em ano de censos) tem um saco com 238 milhões de euros, o Ministério da Cultura 154 milhões, o da Economia 152 e o das Obras Públicas 146 milhões. Prioridades. E como Portugal gosta de brinquedos caros, como disse o embaixador americano, o Ministério da Defesa tem ao seu dispor 2068 milhões.



O Estado gastou, em 7 anos, 507 milhões em estudos e pareceres, cinco vezes mais que os 104,5 milhões gastos nos 10 estádios do Euro 2004; gastou no mesmo período 700 milhões em internet, telefone e telemóveis, mais que os 664 milhões da Ponte Vasco da Gama.




Fonte: O estado a que o Estado chegou, DN, edições Gradiva***Via Rês Pública



segunda-feira, 4 de abril de 2011

Valores Materiais: A Referência Comum da Sociedade


Os políticos são os principais culpados da actual crise económica internacional, porque criaram as condições para ela se instalar, disse o economista e conselheiro de Estado, Vítor Bento, em entrevista à Lusa.



Vítor Bento, que apresentou recentemente o livro "Economia, Moral e Política", publicado pela Fundação Francisco Soares dos Santos, considerou que a crise resultou de uma crise de valores morais, mas que os políticos falharam nas escolhas que fizeram.

"No livro olhei para a crise internacional não apenas do ponto de vista estritamente económico, mas enquanto erupção de uma crise de valores da própria sociedade. Há muitos fatores que contribuíram, mas uma delas é o facto de hoje vivermos numa sociedade onde os valores materiais são a referência comum, que quase toda a gente subscreve", afirmou.

O economista considerou que, no caminho para a crise, uns têm mais culpa do que outros, destacando neste grupo de maiores culpados, "políticos, banqueiros, gestores em geral", que tinham a obrigação de saber que as escolhas que faziam "conduziriam a caminhos errados", além da obrigação de limitar a possibilidade dos indivíduos fazerem escolhas erradas.


"A Cultura Deve Ser Uma Descoberta Individual " - Marguerite Duras


Não se deve intervir, não nos devemos meter nos problemas que cada um tem com a leitura. Não devemos sofrer por causa das crianças que não lêem, perder a paciência. Trata-se da descoberta do continente da leitura. Ninguém deve encorajar nem incitar outra pessoa a ir ver como ele é. Já existe excessiva informação no mundo acerca da cultura. Devemos partir sós para esse continente. Descobri-lo sozinhos. Operarmos sozinhos esse nascimento.

Por exemplo, em relação a Baudelaire, devemos ser os primeiros a descobrir o seu esplendor. E somos os primeiros. E, se não formos os primeiros, nunca seremos leitores de Baudelaire. Todas as obras-primas do mundo deveriam ser encontradas pelas crianças nos despejos públicos, e lidas às escondidas dos pais e dos mestres.

Por vezes, o facto de se ver alguém a ler um livro no metro, com grande atenção, pode provocar a compra desse livro. Mas não quanto aos romances populares. Aí, ninguém se engana quanto à natureza do livro. Os dois géneros nunca estão juntos nas mesmas mãos. Os romances populares são impressos em milhões de exemplares. Com a mesma grelha aplicada, em princípio, há uns cinquenta anos, os romances populares desempenham a sua função de identificação sentimental ou erótica. Depois de os terem lido, as pessoas abandonam-nos nos bancos públicos, no metro, e serão apanhados por outras pessoas e novamente lidos. Isso será ler? Sim, penso que sim, é ler como se toma um remédio, mas é ler, é ir buscar a leitura ao exterior de si próprio e ingeri-la e fazê-la sua e dormir e cair no sono para, no dia seguinte, ir trabalhar, juntar-se a milhões de outras pessoas, a solidão matricular, o esmagamento.



Fonte: Marguerite Duras, in "Mundo Exterior "***via Citador 



sexta-feira, 1 de abril de 2011

Dor de cabeça...





No consultório  o médico pergunta ao doente:


" O senhor é que é o dador de sangue ?"


O doente responde: "Não, não, eu sou o da dor de cabeça !"

Um "Oscar" para a Actual classe política Portuguesa...


António Barreto, sociólogo e socialista, antigo ministro nos anos 80 e porventura aquele de quem comunistas e socialistas mais à esquerda têm mais razões de queixa, disse, há duas semanas atrás, numa entrevista a Ana Lourenço da SIC Notícias, que os socialistas o que gostam mesmo muito  é de "de bater nos fracos. Nos frágeis. É porque é fácil e é rápido". Claro, mas já era assim quando ele foi ministro daí que eu ache que o senhor já está com aquela doença que tem nome de alemão e que é por isso que não se lembra do que fazia.  Ontem António Barreto voltou à carga na Figueira da Foz: manifestou o eventual desejo de, se pudesse ser, deveria  encomendar-se uma nova classe política em cerâmica das Caldas da Rainha. Eu não sei o que é que o homem estava a imaginar quando lhe veio à mente este desejo, mas  provavelmente concordo; é que desta classe política para  a outra feita em louça das Caldas não há grande a diferença  sendo que a feita em cerâmica Caldense só teria vantagens; sempre nos faria sorrir e teria mais utilidade. Se eu pudesse escolher uma peça, seria a galinha que dá para guardar ovos e serve de centro de mesa; é que  dá uma ideia de rigor na forma como guarda os seus ovos, coisa que, pelos vistos, não foi preocupação deste governo desde que governa. Para além de ter mal baratado todos os ovos que a galinha portuguesa pôs, fez com que a bicha não tivesse alternativa senão ir parar, mais do que provavelmente,  ao galinheiro do FMI a pôr ovos por conta de outros.
A ideia do sociólogo Barreto, talvez não seja má de todo, mas já que não é possível realizá-la, podemos pelo menos instituir prémios, tipo "Oscares " Caldenses, para a actual classe política portuguesa. Ao governo eu atribuia um  "zé povinho" naquele gesto característico e acintoso com que Bordalo Pinheiro honrou os políticos do seu tempo. Afinal, esta classe política, e em especial a que ocupa o governo, não merece mais.


Jacinto Lourenço