Depois das suas observações minuciosas, Galileu Galilei publicou, em 1610, um livro que se tornou un ícone da ciência. Chamou-lhe"Sidereus Nuncius" (Mensageiro dos Céus), e nele publicou pela primeira vez, o resultado do seu trabalho. O livro está a ser traduzido pelo físico e historiador de ciência Henrique Leitão, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, e será pela primeira vez publicado em português depois do verão.É uma iniciativa no âmbito do Ano Internacional da Astronomia.
“A ideia é, além da tradução da obra propriamente dita, incluir também anotações sobre o impacto das descobertas de Galileu no Portugal da época e contar a história de como essas novidades chegaram até nós”, adiantou ao DN Henrique Leitão.
“Essa é uma história fantástica”, diz o investigador, sublinhando que aquele “foi um dos poucos momentos em que Portugalacompanhou, a par e passo, o que se estava a fazer na Europa”. Nomeadamente na ciência da construção de lunetas.
Depois da publicação desse livro, Galileu ficou famoso. A primeira edição, de 500 exemplares, esgotou rapidamente, foi preciso imprimir mais.O astrónomo florentino vai então a Roma, onde é recebido pelos estudiosos jesuítas que querem debater as novidades. Um deles é Paolo Lembo, que aprende com ele a fabricar lunetas. É este Lembo que, entre 1615 e 1617 está em Lisboa, no colégio dos jesuítas de Sto. Antão como professor de Matemática. Aqui ensina aos seus alunos as novidades e a ciência de construir lunetas.Nas décadas que se seguem, Portugal estará, portanto, na crista da onda neste ponto.
Galileu nasceu em Pisa, Itália, a 15 de Fevereiro de 1564,e vem a morrerem 08 de Janeiro de 1642. O seu túmulo encontra-se na Igreja da Santa Croce na cidade de Florença em Itália, e eu próprio já tive a oportunidade de o visitar.
De entre a sua obra, salientamos aqui os primeiros estudos do “movimento uniformemente acelerado” e do “movimento pendular”. Descobriu o príncipio da Inércia e outros conceitos associados a este, que haveriam de vir a estar na base de algumas ideias de Newton.Mesmo não tendo sido o inventor do telescópio, melhorou-o substancialmente e foi pioneiro na sua utilização para estudos astronómicos.Foi desta maneira que descobriu as manchas do Sol e as montanhas na Lua. As fases de Vénus, alguns satélites de Júpiter bem como alguns anéis de Saturno. Pode dizer-se, com toda a verdade, que os seus estudos e descobertas foram precursores da moderna ciência e do método científico que, naquele tempo, ainda “bebia” muito da fonte Aristotélica.
Pode igualmente, e muito justamente, considerar-se Galileu como o “Pai da ciência moderna” sem que isso retire ou acrescente algo aos que o precederam ou sucederam na defesa e desenvolvimento em todos os campos do saber.
Curioso, sem dúvida, é o facto de Galileu nunca ter sentido necessidade de abdicar da sua fé cristã para poder ser cientista.Outros importantes cientistas, de todos os séculos, o têm feito, de igual maneira, encontrando no seu trabalho de investigação mais motivos, e mais fortes, para consolidação da sua fé.
Pessoalmente, a verdade é que quanto mais me interesso por ciência, mais me aproximo de Deus e dos seus insondáveis mistérios criativos.
J.L.
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Sobre Galileu Galilei - texto 2
“A Herança de Galileu”
“Quando em 1609 Galileu apontou o seu telescópio para o céu mudou a face da astronomia, mas também o mundo: da ciência à religião. Agora, 400 anos depois, o Ano Internacional da Astronomia (IYA2009) comemora essa data, e sobretudo, a influência desta ciência na sociedade e cultura. É esse o tema do simpósio internacional que ontem começou em Paris.
"Galileu revolucionou a nossa percepção do universo e isso teve impacto na ciência, mas também na filosofia, na literatura, até na religião", lembra Pedro Russo, o português responsável pelo IYA2009.
Os céus estrelados dos quadros de Van Gogh, a música electrónica de Jean Michel Jarre, grande parte da ficção científica no cinema e na literatura, com todo um imaginário ligado ao espaço, são alguns dos exemplos da influência da astronomia citados por Pedro Russo. "Desde sempre as pessoas olharam para o céu à procura de respostas e isso reflecte-se em tudo", explica o astrofísico.
Também João Fernandes, presidente da Comissão Nacional do Ano Internacional, considera que a astronomia teve "um papel fundamental na estruturação do pensamento científico". "Copérnico, Galileu, Newton mudaram a ciência", diz.
Mas o impacto sente-se ainda em aspectos práticos, lembra João Fernandes, especialmente na área da fotografia e medicina. A listas de tecnologia desenvolvida na exploração do espaço transferida para o dia-a-dia "é infindável": é utilizada nas máquinas fotográficas digitais, para detectar lesões oculares, para construir próteses mais fortes e mais leves ou nas telecomunicações. "A exploração espacial empurra a tecnologia para novas fronteiras", diz Pedro Russo.
Na conferência, organizada pela União Astronómica Internacional e pela Unesco (e que decorre desde ontem e até sexta-feira), astrofísicos juntam-se a arqueólogos, biológos e gente das artes para discutir o tema - as comunicações podem ser vistas no site do simpósio (http/iaus260. obspm.fr).”
Urbano VIII [ Papa ], que chegou a afirmar que "a Igreja não tinha condenado e não condenaria a doutrina de Copérnico como herética, mas apenas como temerária" e tinha sido testemunha de defesa no processo de 1616, recebe Galileu no Vaticano, em seis audiências, e oferece-lhe honrarias, dinheiro (pensões, promoção académica, apoio científico)e recomendações.No entanto o Papa não aceita o pedido de Galileu para revogar o decreto de 1616 contra o heliocentrismo. Pelo contrário, encoraja Galileu a continuar os seus estudos sobre o mesmo, mas sempre como sendo ainda uma hipótese matemática útil porque simplificava os cálculos das órbitas dos astros e significava um avanço científico que contudo não estaria ainda suficientemente maduro para a época.
É neste contexto que Galileu escreve “Dialogo di Galileo Galilei sopra i due Massimi Sistemi del Mondo Tolemaico e Copernicano”, por vezes abreviado para “Dialogo sopra i due massimi sistemi del mondo”(Diálogo sobre os dois grandes sistemas do mundo) completado em 1630 e publicado em 1632, onde voltou a defender o sistema heliocêntrico e a utilizar como prova a sua teoria, incorrecta, das marés. É um diálogo entre três personagens, Salviati (que defende o heliocentrismo), Simplício (que defende o geocentrismo e é um pouco tonto) e Sagredo (um personagem neutro, mas que acaba por concordar com Salviati). Esta obra serviria de base ao processo da Inquisição contra Galileu.
O Papa tinha sugerido a Galileu que escrevesse um livro em que os dois pontos de vista, o heliocentrismo e o geocentrismo, fossem defendidos em igualdade de circunstâncias, bem como poderia ainda expôr as suas opiniões pessoais, aceitando em troca disso conceder-lhe, o “Imprimatur” [Imprimatur, no Latim, significa qualquer coisa como”publique-se” e era uma autorização valiosa para a época ] . Estariam assim abertas as possibilidades de levar o heliocentrismo por diante, eliminando as rivalidades académicas e disputas universitárias.Ao mesmo tempo isso permitiria outras abordagens teológicas mais compatíveis… Em 1630, terminada a obra, Galileu viaja até Roma para a apresentar pessoalmente ao Papa.Estando muito ocupado, este faz apenas uma leitura brevíssima e entrega-a aos censores do Vaticano para avaliação e verificação face ao decreto de 1616. Mas várias vicissitudes e, em particular, a ignorância dos censores em astronomia, levaram a um grande atraso nesta avaliação.O livro, tal como as ideias de Galileu, encalhariam em aspectos levantados pela facção dosdefensores do geocentrismo.
Por sua vez, o Papa também suspeitava que o "tolo" personagem da obra de Galileu era uma caricatura dele próprio, não seria essa certamente a intenção de Galileu, mas mesmo assim, Urbano VIII sentiu-se traído na confiança que tinha depositado no sábio . Galileu perde então o mais poderoso dos seus aliados. Contudo,estas conclusões são apenas especulações, porque não há registos nem provas científicas que levem a afirmações peremptórias.
Galileu era um cristão fervoroso, mas tinha um temperamento conflituoso. Tendo vivido numa época atribulada, na qual a Igreja Católica endurecia a sua vigilância sobre a doutrina para fazer frente às derrotas que sofria às mãos da Reforma Protestante, o Papa sentiu que a aceitação do modelo heliocêntrico era uma “ferramenta” da Reforma e chamou Galileu a Roma para ser julgado, apesar de este se encontrar bastante doente na altura. Após um julgamento longo e atribulado foi esteobrigado a abjurar publicamente o seu pensamento e condenado a prisão por tempo indefinido.Os livros de Galileu foram incluídos no Index, censurados e proibidos, porém publicados nos Países Baixos, onde o protestantismo tinha já substituído o catolicismo e consequentemente libertado essa região da censura do Santo Ofício.Conta a lenda que, ao sair do tribunal, após a sua condenação, fez uma afirmação que se transformaria numa frase célebre: "Eppur si muove!", ou seja, "contudo, ela move-se", referindo-se à Terra.
Mais tarde, Galileu Galileiconseguiu que a sua pena fosse comutada de prisão efectiva para domiciliária, cumprida esta, primeiro no Palácio do Embaixador do Grão-duque da Toscana em Roma, depois na casa do arcebispo Piccolomini em Siena e mais tarde ainda na sua própria casa de campo em Arcetri.
Em 1638, quando já estava completamente cego, publicou “Discorsi e Dimostrazioni Matematiche Intorno a Due Nuove Scienze” em Leiden, na Holanda, a sua obra mais importante.Nela discute as leis do movimento e a estrutura da matéria.
Sobre a forma como Galileu morreugerou-se muita confusão, contudo não foi ele, ao contrário do que muitos afirmam, a ser queimado vivo pelasua concepção heliocêntrica, mas sim Giordano Bruno (1548-1600), condenado à morte, por heresia, às mãosdo tribunaldo Santo Ofício,por defender idéias semelhantes a Galileu. Este viria a morrer, sim, em Arcetri, rodeado pela sua filha e pelos seus discípulos. O seu túmulo encontra-se na Basílica de Santa Croce em Florença, onde também estão os de Machiavelli e Michelangelo ".
Com o decorrer dos séculos, a igreja católica viria a rever as suas posições em relação a Galileu.Em 1846 são retiradas do Index todas as obras que se inspiravam no modelo de Copérnico. Em 1992, mais de três séculos passados após a sua condenação, é iniciada a revisão do seu processo e, finalmente, decidida a sua absolvição.Convém realçar que a revisão da sentença a que Galileu havia sido condenado,não teve nada a ver com o sistema heliocêntrico, porque esse nunca foi objecto dos processos.”
Artigo in wikipédia. Adaptado e revisto por Jacinto Lourenço