segunda-feira, 31 de agosto de 2009

O Verdadeiro Ensaio sobre a Lucidez Cristã Evangélica

“O elemento curador (na igreja primitiva) foi a compreensão de que aproximar-se de Cristo reduzia a importância das diferenças humanas e aproximava também as pessoas umas das outras.”
(Jimmy Carter, Os Valores em Perigo – a crise moral americana, Quidnovi, 2006)
Vivi grande parte da minha vida numa denominação evangélica em Portugal, desde a mais tenra infância. Primeiro como crente comum, depois como membro activo da igreja que sempre fui, e finalmente como ministro do Evangelho, durante vários anos, tendo desempenhado cargos de elevada responsabilidade nas suas estruturas. Conheço, portanto, os aspectos mais constrangedores e controversos do denominacionalismo evangélico português.Acresce que a minha experiência em lidar com outras denominações, no âmbito de responsabilidades que fui assumindo no meio cristão, ao longo dos anos, permite-me ter hoje uma perspectiva geral das coisas.A presente reflexão evidencia sobretudo alguns equívocos, erros ou fraquezas, consoante o ponto de vista, do percurso histórico das denominações, e que, nalguns casos, se prolongaram até à actualidade.
Eis alguns deles:
1. Confusão entre ortodoxia e rigidez doutrinária. Ao contrário do que se pensa, quanto mais inseguro o ser humano é, quanto às suas convicções religiosas, mais se agarra a um sistema rígido de doutrina e prática. Circunstância essa que, levada ao extremo, desemboca num fanatismo militante, em nome da “sã doutrina”. Pelo contrário, quanto mais seguros estamos do que somos e daquilo em que cremos, mais liberdade pessoal desfrutamos para reflectir, indagar, questionar, pôr em causa e lidar com as dúvidas, que não só são legítimas como normais e naturais. [...]
Importante reflexão do meu amigo pr. Brissos Lino. Não Deixar de continuar a Ler Aqui

Alguém como Nós...

"E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade." ( Job 1:14 )
Hoje nas igrejas, nas TVs, nas rádios, no nosso meio cristão, tem-nos sido apresentado um modelo de espiritualidade, que não tem nada a ver com o propósito original: a revelação de um homem, segundo a imagem e a semelhança do Altíssimo.Vai dai que temos assistido uma coisa terrível e antagônica: quanto mais os caras querem se parecer com anjos, seres angelicais, levitar, negar a dor e o sofrimento próprios de ser-se gente, Deus ainda insiste num modelo mais perto de nós: um homem, só um homem, como vimos em Cristo:
Alguém que comia quando tinha fome, bebia quando tinha sede (principalmente de relacionamento, de amigos, quando bebia vinho e partia o pão com eles!);
Alguém que não se importava com o perigo, pois até houve quem se preocupasse por ele, como os dois no caminho de Emaús, insistindo para que entrasse com eles a ter de enfrentar a escuridão da noite. Hoje, não faltam "líderes cristãos" andando com guarda costas e até armas na cintura...
Alguém que sentia a dor da solidão e pedia aos amigos que estivessem com ele nas horas mais diversas e não teve vergonha de confessar, na cruz, o quanto doi a separação;
Alguém que, ferido, magoado, traído, não saia a destilar veneno contra os ofensores e traíras, nem tampouco evitava o contacto com gente, como fazemos hoje;
Alguém que não ficou vermelho em cair no choro diante de muita gente - pessoas que o ouviam e a ele seguiam como líder - confessando e sentindo solidariamente a dor diante da perda de quem amamos, diante do túmulo de Lázaro (mesmo sabendo o que aconteceria dois minutos depois de chamá-lo para fora da tumba!);
Alguém que se misturava com qualquer um - de publicanos, odiados pelo povão, à prostitutas, beberrões e pecadores. Só não tolerava religiosos que não viviam os valores do reino de Deus nem deixavam os outros o fazerem, cobrando regras e mais regras que "tinham ar de religiosidade mas que não tinham valor algum contra o mal que vem de dentro". É preciso ressaltar também que, nem de longe fez conluios, conchavos ou barganhas com os caras do poder, da religião, nem usou a massa como moeda de troca política como vemos hoje...
Alguém que era tão normal e simples que até o seu traidor precisou de um código - um beijo no rosto - para identificá-lo diante dos que o iriam prender. Não havia sobre ele, nenhum luminoso em "neon", banner, placa, cartaz,... ou adereço que o identificasse;
Alguém que não precisava de andar de carro importado, ternos de grife, jóias ou outra porcaria para parecer importante ou valorizar quem era, e porque era quem era, quando falava ou fazia qualquer coisa, quem ele era ficava manifesto, distinguindo-o dos pilantras e espertalhões que exploravam a fé das pessoas da época;
Alguém que diante do sofrimento do preço do ministério, confessou o seu medo, a vontade de "beber outro cálice" mas nunca lastimou ou queixou-se da escolha que fez em seguir em frente até a morte e morte de cruz;
Alguém que, sendo quem era, não temia confessar as suas necessidades, como fez com a mulher samaritana e diante daqueles que dele zombavam na cruz, pedindo-lhes água;
Alguém que humilhado, desprezado, não abriu a sua boca (como ovelha para o matadouro), nem ousou lançar no rosto de todos à volta, responsabilidade nenhuma aos quais que, cheios de culpa, deixaram o inocente que era, pagar toda a fatura;
Alguém que fazendo caridade, milagres, curas e todo tipo de benefício aos pobres, desenganados, sofredores, desesperados, enfermos e marginalizados da sociedade, não os usava como fazemos hoje, para promover-se - nem a causa que defendia - pedindo que a ninguém, os beneficiados por ele, dissessem coisa alguma, mostrando que a sua preocupação era com eles e ninguém mais que eles;
Alguém que nunca, em tempo algum, chamou para si privilégios, títulos, reconhecimento por feitos e conquistas, como fazemos hoje, ostentando cartões de visit
com quilos de peso com tantos adjetivos colados ao nosso nome. Não se auto-denominava coisa alguma, nem ousou por usurpação, ser igual a Deus, mas revelou-se (e apresentava-se) como o "filho do homem" e dirigia todas as glórias a Deus!
Alguém que, buscava a Deus e a Ele se submetia integralmente, contra todos os apetites e conveniências próprias de ser homem. Não negou sua condição humana, mas mostrou como é que alguém, sendo homem, podia agradar ao Senhor.
Alguém que, podendo viver à parte da "normalidade", ou levitar, viver nas alturas, desceu. Desceu até às partes mais baixas da terra. para revelar simplesmente o que era: um homem. De carne e osso e coração!Um homem, afinal, como Deus sempre desejou criar. Um homem segundo a imagem e semelhança do Pai. E ai? Quem é o seu modelo?

domingo, 30 de agosto de 2009

A Esperança, o Sono e o Riso

“Apenas três coisas podem realmente fortalecer o homem contra as tribulações da vida:a esperança, o sono e o riso.”
Emmanuel Kant

O humor tem sido utilizado atualmente nos cuidados com pessoas idosas e doentes incuráveis. Em um trabalho publicado em 2008, que traz a visão geral de 88 estudos sobre o uso do humor em enfermarias nos últimos 30 anos, as pesquisadoras escocesas May McCreaddie e Sally Wiggins citam ao mesmo tempo a falta de “estudos baseados em evidências” e a constatação de que o antigo ceticismo em relação a abordagens com base no humor parece ter cedido lugar a um forte interesse. Sem dúvida o trabalho do psiquiatra Patch Adams, que influenciou a criação de grupos como os Doutores da Alegria, no Brasil, ajudou nesse percurso – e fez muitos doentes sorrirem.Mas nem só os doentes se beneficiam de uma postura mais leve e alegre. As pessoas saudáveis, com senso de humor, costumam ser mais flexíveis, menos dogmáticas e conseguem tolerar melhor contrariedades – uma capacidade extremamente útil em um mundo cada vez mais complicado. Michael Titze, fundador do Humor Care – outra instituição de apoio ao humor terapêutico – considera que essa visão diferente do humor ajuda a criar um distanciamento cognitivo de si mesmo e da situação.Voltar-se para o lado cômico quebra padrões fixos, relativiza a própria visão e elimina o caráter ameaçador de várias situações.Em resumo: aquilo de que rimos não nos causa nó no estômago. Sigmund Freud escreveu em um ensaio de 1928:” Sem dúvida a essência do humor consiste em que alguém se livre dos efeitos que a situação teria provocado normalmente, considerando por meio de um chiste a possibilidade de semelhante desenlace emocional.” O criador na psicanálise via o humor como uma válvula de escape da psique, um recurso que, de certa forma, se aproximava do delírio.Ele demonstra sua tese recorrendo ao exemplo de um condenado à morte que é levado para o cadafalso em um segunda-feira e, a caminho, comenta: “Esta semana está começando bem!” Para Freud, quem consegue fazer piadas sobre a própria sorte “está acima do seu destino.”
HBP, inverno de 2009

Ver Deus

Um menino ouviu alguns homens falando acerca de Deus. Quando chegou em casa perguntou ao pai se alguém podia ver a Deus. O pai respondeu rudemente: – Não! Isto entristeceu o menino. Ele saiu para um passeio na mata. Assentou-se junto a um córrego e meditou. Viu os passarinhos fazendo seus ninhos. Ergueu os olhos para o céu, através dos ramos das árvores, ansioso de ver a Deus. Um dia o pastor da igreja jantou em sua casa e ele teve ocasião de perguntar-lhe se alguém podia ver a Deus. O pastor lhe disse que ninguém pode ver a Deus e viver! Esta foi para o menino uma revelação esmagadora. Ele saiu para o celeiro e chorou. Logo depois disto encontrou-se com um velho pescador, do qual se tomou grande amigo. O pai soube do novo amigo e perguntou ao menino a seu respeito:– É ele um bom homem?– Eu gosto dele – disse o menino. – Ele não fala muito mas vou lhe dizer como ele procede. Na noite passada, quando estávamos navegando rio abaixo e o sol se punha através das árvores, entre lindas nuvens, eu vi lágrimas em seus olhos, e...– Está bem, está bem! Creio que você está em boas mãos. Logo na noite seguinte, terminada a pescaria, o menino notou que de novo o velho pescador tinha os olhos húmidos ao observar o pôr-do-sol. O pequeno tocou timidamente o braço do velho. Este nem volveu a cabeça.– Eu nunca faria a qualquer outra pessoa a pergunta que vou fazer ao senhor – disse o menino com os lábios trémulos. Ainda o velho não se moveu; tinha os olhos fitos no sol poente.– O senhor pode ver a Deus? – aventurou o menino. Ainda não houve resposta. O menino então puxou o velho pela manga. – Por favor, diga-me! Pode-se ver a Deus? O menino esperou, sem respirar. Afinal o velho volveu um amável rosto manchado de lágrimas para o rapaz e disse:– Filho, não vejo coisa alguma senão Ele! Todo aquele que abrir os olhos verá que os céus ainda declaram a glória de Deus. Entretanto, o pior cego é aquele que não quer ver! Mas quando vemos os explendores do universo de Deus não podemos deixar de louvá-Lo.

Ao Deus da Minha Vida

Acolheste-me em tua hospedaria. Porque fui alvo de tua deferência, cuidam do meu corpo moído. Ressoam as canduras que me segredaste enquanto caminhamos. Não preciso mortificar a minha mente exausta. Não tenho que quitar dívida. Cego para a minha vilania, és magnânimo. Delicado com o meu passado, mostras o tamanho de tua discrição. Sem relutar, achega-te. Mesmo com muitas alternativas, decides ajudar-me a florescer. Não medes esforços para te revelares. Nunca te esquivas de meu olhar suplicante. Continuas a falar-me através dos violinos, das flautas, dos realejos. Percebo a tua simpatia no sorriso das crianças. Moras no absoluto silêncio, mas nunca me deixas sem intuir a tua presença. Sinto o teu fôlego na brisa. Noto o teu luto no sol que se desmancha em trevas todas as tardes. Percebo tua companhia em meus desassossegos insones. Escutei-te na derradeira e trágica hora em que me despedi de minha mãe. Não, não reclamo que te mantenhas abscondito. Porque és manso e humilde, encontro descanso para a minha alma. Caminhas comigo uma segunda milha. Perco a conta dos teus perdões. Aceitas meu perfume sobre a tua cabeça. Sem rotas, te elejo o caminho. Sem certezas, faço de nosso relacionamento a verdade. Sem neurose ou fantasia, considero-te o meu modelo de vida. Transformas meu resguardo em audácia; meu arrojo, em cautela; meu atrevimento, em circunspeção; minha timidez, em fibra. Animaste o meu cotidiano. Estimulas o meu enfado. Pacificas a minha afoiteza. Eu, fujão, aprendo resiliência contigo. Trêmulo, encaro os dias maus porque me vestes com a tua armadura. Apesar de petrificado com temores infantis, tua compaixão me constrange a continuar. Em ti cabem todos os elogios: esplêndido, nobre, sublime, majestático. Abano palmas, grito aleluias, quero que o mundo saiba que és notável. Auréolas, halos, fumos, vivas, tornam o entorno de teu trono o espaço mais sagrado do universo. Tu não constas em hierarquias; não cabes em definições; transbordas os limites. Meu ser se agita e minha língua trepida, só de pensar que sou alvo de teu interesse. Despertas o meu fervor. Aqueces a minha pele. Condimentas a minha alegria. Plácido, lembro que és amor. Seguro, busco refazer-me. Já não temo rancores teus. Mesmo inadequado, recebi o anel da tua fidalguia. Ilustro o meu brasão com a tua boa vontade. Todas as medalhas que carrego no peito provam a tua concórdia. Tabernaculaste em mim. Meu coração é a tua tenda, meus pés, as tuas passadas e as minhas mãos, o teu toque. Resta-me sussurrar: Muito obrigado!
Soli Deo Gloria

sábado, 29 de agosto de 2009

A Sedução do Cristianismo

Deus em Cristo "ocupa-se de cada um em pessoa e pessoalmente" e dá-lhe a vida eterna, na ressurreição (...)
Na França, talvez o país europeu mais laico, não há receio de debater, ao mais alto nível e publicamente, com a participação de alguns dos filósofos hoje mais influentes, a questão da religião e, concretamente, do cristianismo. Assim, realizou-se na Sorbonne, em 2008, um debate sobre o tema em epígrafe, de que resultou um livro, acabado de editar, com o mesmo título: La tentation du christianisme. É que - lê-se na introdução - não se pode esquecer que "a religião foi durante muito tempo a nossa cultura e continua a sê-lo, mesmo sem darmos por isso. Sem uma reapropriação lúcida e esclarecida dessa herança, é grande o risco de ver ressurgir os demónios do passado": os fundamentalismos e "um materialismo hiperbólico". A filosofia leva consigo três perguntas fundamentais, como disse Kant: Que posso saber?, que devo fazer?, que me é permitido esperar? No fundo, o que as atravessa é a questão do Homem e do sentido da existência. Há uma teoria, que responde à pergunta pela realidade global enquanto lugar onde se joga a existência humana. Há uma ética, que pergunta pelas regras do jogo. A terceira pergunta tem a ver com a finalidade do jogo e a salvação: o quê ou quem nos salva da finitude e do temor da morte? Segundo Luc Ferry, antigo ministro da Educação da França, para perceber como é que o cristianismo se tornou chave da cultura ocidental, não há como compará-lo com a filosofia grega e, nomeadamente, o estoicismo, no quadro das três interrogações apontadas. De facto, o cristianismo operou uma revolução nos três aspectos: teórico, ético e soteriológico. Em primeiro lugar, uma revolução no plano da teoria. Na perspectiva grega, o cosmos é theion, isto é, divino, e também Lógos, "lógico", racional, derivando daí a ética: o bem, para os estóicos, era a justeza, isto é, estar ajustado à ordem do cosmos. Na perspectiva cristã, o Lógos divino encarna numa figura humana, Jesus, como diz o Evangelho segundo São João: "No princípio era o Lógos, o Lógos era Deus e o Lógos fez-se carne (Homem)". Deparamo-nos então com uma dupla revolução, ontológica e epistemológica: "O ser supremo, o divino, deixa de ser uma estrutura anónima e cega para tornar-se uma pessoa; o modo de apreensão ou de conhecimento do divino já não é essencialmente a razão, mas a fé." É fundamentalmente com a fé-confiança que se vai ao encontro das pessoas. Daqui, deriva uma revolução ética. A cosmologia grega implicava um mundo hierarquizado e aristocrático, confundindo-se a dignidade moral com os talentos naturais. O cristianismo apresenta o escândalo de um Deus encarnado numa figura humana frágil e, agora, o valor moral já não provém dos dons naturais, mas da liberdade: pense-se na famosa parábola dos talentos - afinal, o decisivo não são os talentos recebidos, mas o que deles se faz. Assim, a infinita dignidade da pessoa humana e a igualdade radical de todos vieram ao mundo pelo cristianismo e "todas as morais democráticas, sem excepção, são directamente suas herdeiras". Finalmente, uma revolução soteriológica. Se o divino já se não confunde com a estrutura cega e anónima do mundo, mas encarnou, identificando-se com uma pessoa concreta, a salvação muda de sentido, tornando-se uma promessa e um compromisso de Cristo, de uma pessoa com outras pessoas, portanto, "um assunto de intersubjectividade, não de mundanidade". Deus em Cristo "ocupa-se de cada um em pessoa e pessoalmente" e dá-lhe a vida eterna, na ressurreição: "Poder reviver e reencontrar depois da morte os que amamos - vamos reencontrar a pessoa amada com o rosto do amor. A promessa é, evidentemente, grandiosa. É aqui que se encontra o coração do coração da tentação cristã, da sedução que o cristianismo exercerá sobre os homens." Luc Ferrry não crê, porque "é demasiado belo para ser verdade". Outros, porém, acreditaram e acreditam, precisamente porque o cristianismo mostra a sua verdade na sua correspondência com o dinamismo mais fundo do ser humano. Cabe a cada um decidir.
Anselmo Borges
In Diário de Notícias de 29 de Agosto de 2009

Compreender as Dependências

Um cientista português da Fundação Champalimaud recebeu a maior bolsa de investigação da Europa, no valor de 1,6 milhões de euros, para estudar a função do cérebro nas rotinas humanas. Ao DN, Rui Costa explica que pretende compreender o que nos leva a ter dependências. Este pode ser um primeiro passo na luta contra alguns dos principais vícios.

O português Rui Costa tornou-se notícia esta semana, depois de ter recebido a maior bolsa de investigação da Europa, no valor de 1,6 milhões de euros, dada pelo European Research Council (ERC), o mais importante organismo europeu de apoio à investigação. A bolsa tem a duração de cinco anos e destina-se ao estudo das diferenças a nível cerebral entre as acções intencionais feitas para atingir um objectivo e aquelas realizadas por hábitos adquiridos. A investigação poderá trazer soluções para o tratamento de dependências, como a das drogas ou jogo. "Foi com grande alegria que recebi esta bolsa. É sinal que o meu trabalho foi reconhecido", contou ao DN o investigador que trabalha para a Fundação Champalimaud. "No nosso quotidiano tomamos imensas decisões que pressupõem a escolha da acção certa para a obtenção do resultado pretendido. Essas acções podem ser tomadas com base nas consequências futuras da decisão que tomamos", explica Rui Costa, enquanto aproveita para dar um exemplo: "Conduzir do trabalho para casa é um comportamento por objectivos que exige uma permanente monitorização desses objectivos da acção, das consequências e requer atenção. Se repetirmos o mesmo comportamento muitas vezes começamos a poder realizá-lo de uma forma automática, usando processos habituais." Mas "os hábitos não implicam um esforço para avaliar as consequências, e muitas vezes usamo-los tão automaticamente que mesmo quando queremos fazer algo novo ou diferente, como ir a outro local ao sair do trabalho, podemos acabar em casa", diz o investigador português. É aqui que entra o trabalho do investigador: é a diferença entre processos que vai ser alvo de estudo, quer a nível molecular quer a nível dos circuitos do cérebro, usando as mais recentes técnicas de biologia molecular e de electrofisiologia. "Há cada vez mais indícios científicos de que os circuitos cerebrais envolvidos numa situação e na outra - quando se tomam decisões por intenção e objectivo, ou quando há apenas o hábito - são diferentes", revela. Saber exactamente como as acções intencionais e os hábitos se formam e se usam irá permitir-nos compreender melhor os processo de decisão e os comportamentos compulsivos. Porque é que optamos por comportamentos novos ou, pelo contrário, caímos na rotina quando fazemos certo tipo de investimentos ou consumimos algo? Esta é a pergunta que Rui Costa quer ver respondida pelo seu trabalho, para depois poder aplicar a sua investigação: "Pode ser importante para se compreender várias doenças do foro psiquiátrico, tais como aquelas relacionadas com comportamentos compulsivos ou viciantes, como a toxicodependência, vício do jogo, do álcool, cleptomania...", explica. Agora, resta consolidar a equipa de investigadores. Entre os membros encontram-se desde físicos a biólogos, farmacêuticos de várias nacionalidades, como portugueses, norte-americanos ou mexicanos. No concurso de 2009 concorreram 2503 investigadores, provenientes de 34 países da União Europeia, Suíça, Noruega, Israel e Turquia, com 42 propostas provenientes de cientistas a trabalhar em Portugal. Três das bolsa vieram para Portugal.
In Diário de Notícias de 29 de Agosto de 2009

"Caim" : A Secreta Esperança de Saramago

..."Este livro agarra-nos, digo-o porque o li, sacode-nos, faz-nos pensar: aposto que quando o terminardes, quando fizerdes o gesto de o fechar sobre os joelhos, olhareis o infinito, ou cada qual o seu próprio interior, soltareis um uff que vos sairá da alma, e então uma boa reflexão pessoal começará, a que mais tarde se seguirão conversas, discussões, posicionamentos", escreve ainda a presidente da Fundação Saramago no texto. Quase a concluir, Pilar del Río classifica o romance de José Saramago, 86 anos, como "literatura em estado puro". [...]
Ler Versão Integral do texto Aqui, no jornal Público
* * *
Antes de comentar seja o que for sobre esta nova edição de Saramago, devo informar que nutro por ele a mesma admiração que sinto por tantos outros escritores que já li e que me entusiasmaram, não necessariamente por terem ganho um prémio Nobel, mas porque gostei do que escreveram. A questão é que leio Saramago e nem por isso me consigo entusiasmar. E acreditem, até faço um esforço. Resumindo: sinto em Saramago admiração pela obra realizada, mas não sinto grande entusiasmo quando leio, o que, vindo de mim, por razões óbvias, deve ser desculpado.
Agora, o que eu gostava era que Pilar del Rio nos explicasse a razão pela qual acha que devemos fazer uma reflexão, uma boa reflexão. Até admito soltar um "uff" por eventualmente ler este ou qualquer outro livro do escritor, mas não pelas razões invocadas pela sua esposa. Alerto ainda que já li vários livros do nobel da literatura e lembro, mais uma vez, que me rendo à sua vasta obra e me reclino respeitosamente aos seus muitos anos e ao vigor que estes ainda lhe vão emprestando para escrever.
Mas o que eu gostava mesmo era que Saramago me explicasse a razão para a necessidade por si sentida de negar algo que não existe, segundo ele. E é aqui que não acho normal a fixação do escritor. É que eu, que me considero uma pessoa não muito lerda, não sinto qualquer necessidade de passar toda a minha vida a negar qualquer coisa que não existe. Não existe, eu "provo" que não existe, passo à frente e acabou-se !
Aqui para nós que ninguém nos ouve, mantenho a convicção de que Saramago tem uma fé em Cristo ainda não resolvida. E falo sério. É que ninguém, no seu perfeito juízo, como digo, perderá tempo, e menos ainda um escritor, a tentar combater Deus, ou a ideia da sua existência.
Com Saramago não. Grande parte da sua vida foi ocupada a negar a existência de um "Deus" que ele "sabe" não existir. Pura perda de tempo, digo eu. Poderia ocupar-se a escrever sobre coisas bem mais interessantes e edificantes. Mas cada um é como cada qual. E se o escritor sente essa necessidade, não sou eu que lhe vou dizer que não o faça por ser uma atitude pouco inteligente, coisa que eu até acho que o nobel não é.
Eu , por exemplo ( que espero nunca vir a ganhar um nobel da literatura, não porque o valor do prémio não me desse um certo jeito, mas por achar que não tenho a mesma disponibilidade ou, quiçá, vontade de escrever em profusão como ele o faz, ou ainda, e esta é seguramente a razão mais forte, capacidade para tal ), que sou cristão e que acredito em Deus, no seu Poder e no seu Amor, bem como na sua Paixão por todos os seres humanos, inclusive por Saramago e Pilar del Rio, não tenho necessidade de andar permanententemente a tentar provar aos outros a existência de Deus. É um facto que Deus existe e pronto! Ele está em mim, está à minha volta e reina sobre mim. E essa é uma verdade sobre a qual eu não tenho necessidade de fazer uma reflexão diária para me tentar convencer a mim, ou a quem está à minha volta, de que Deus existe.
Fiz um percurso diferente de Saramago: cheguei à Fé pelo caminho da razão. Depois foi aceitar o que Deus me propunha, na sua grande misericórdia.
Acho que o escritor tem, desde cedo, um problema com a Fé e um problema com a razão. Terá que resolver um e outro, para depois resolver, finalmente, a questão do seu relacionamento com Deus. E eu acho que essa é a luta interna e pessoal da sua velhice.
Mas Saramago tem ainda outro grave problema chamado Pilar del Rio. Ela que se ergueu como a ultima fronteira que o nobel terá que ultrapassar para resolver a sua fé. Segundo Pilar, devemos fazer uma reflexão depois de ler "Caim" . Claro que suspeito que ela fique na expectativa de que todos aqueles que lerem "Caim", após terem feito a tal reflexãozinha, se tornem "ateus", como Saramago ou que, pelo menos, regridam no seu caminho com Cristo. Depois é só passar o resto da nossa vida, como Saramago, a tentar convencer toda a gente de que Deus não existe tendo assim o escritor o back-ground que Pilar acha que deve ter para que não pareça que uma pessoa, com a idade e a relevância social de Saramago, ficou de repente fragilizado a ponto de precisar de resolver a questão da sua fé em Deus . O grande problema, minha cara Pilar , é que o seu Saramago combate Deus. E não haveria necessidade de o fazer se não aceitasse a sua existência, não é ? Claro que se poderá sempre conceptualizar uma soluçãozita para dar a volta ao assunto. Mas depois lá vem outro problema: é que todo o oposto tem sempre o seu contrário e etc, etc, por aí fora...
Estamos entendidos Pilar del Rio !? Então vá; vá lá continuar a descobrir mais "pérolas", mas deixe que o nosso nobel descubra sózinho o seu percurso de fé . Nós por aqui , aqueles que acreditamos que Deus existe, não porque o conceptualizamos teoricamente, mas porque o temos dentro de nós, na nossa alma, na nossa vida, que Ele transformou, continuamos, neste caminho de o apresentar a todos os homens para que o conheçam, afim de que eles experimentem, por si próprios, o que este Deus pode fazer nas suas vidas. Experiência, experimentação, o princípio de toda a ciência. É isso minha amiga. Vê que afinal é simples!! E é aqui, que o seu ateísmo perde, minha cara Pilar: é que o cristianismo, o verdadeiro, e Cristo, têm uma história de transformação positiva do ser humano, pela vivência, pela experiência real, enquanto que o seu "ateísmo" desconstrói o ser humano mas não consegue construir nada, para além de conceptualizações que podem sempre ser desmontadas. No mais , se quiser vir para este campo, o da "experimentação de Fés", comece desde já a olhar à sua volta, e veja as diferenças entre o que o meu Deus faz e o que o seu "deus" tem feito, Pilar. Repare que falo de Deus, não de religiões. Essas sim, verdadeiro "ópio do povo" e destruidoras da Fé. Uma coisa assim a modos que parecida com o seu ateísmo.
Podíamos ter complicado, e enveredado por uma linguagem argumentativa muito mais elevada do ponto de vista filosófico, mas assim toda a gente percebe o que queremos dizer, da mesma maneira que a mensagem salvífica de Cristo foi entendida por ser simples, objectiva e reconstrutiva do ser humano individual, coisa que era contrária ao "arrebanhamento" colectivo e massificado do Fariseísmo vigente quando Jesus pisou as terras da Judeia e arredores. Passados vinte séculos, ainda continua a ser assim com outros fariseísmos travestidos de cristianismo.
Ora passe muito bem, e recomendações ao nosso nobel. Por quem não posso deixar de nutrir respeito e admiração, q.b., e esperar que ele, finalmente se liberte dos "fantasmas" que o impedem de se resolver em matéria de fé, de preferência sem ninguém a fazer reinterpretações dos seus escritos, como me parece ser o que a Pilar procura fazer.
Jacinto Lourenço

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Crónica de Férias - 9 : De como o Alentejo me faz bem à Alma

Em poucas zonas do país me sinto tão em casa como no Alentejo. E eu que até nem sou alentejano, pelo menos, não, por cá ter nascido. Mas haverá alguém mais alentejano do que quem tenha as suas raízes maternas em Montemor-o-Novo e paternas em Safara ?
Nasce-se em Lisboa como se poderia nascer numa outra qualquer terra deste pequeno país. Foi isso que me aconteceu nos idos de 50/60.
Hoje dei comigo a pensar na minha infância e pré-adolescência e em todos os vínculos que me viriam a sublinhar a personalidade e o carácter e que foram adquiridos nesse período da minha vida, na vila de Lavre, em pleno Alto-Alentejo
Por ser filho de mãe solteira, acolheu-me, a partir dos dois anos de idade a única e verdadeira mãe que tive: a mãe de minha mãe. E foi aí, numa terra de histórias sem história que se forjou o meu futuro.
Território de gente esculpida pelo sol inclemente de verão e pelos invernos rigorosos, que faziam parecer o trabalho nos campos castigo nunca suficientemente cumprido de penas impostas de geração para geração. Lavre foi terra dos meus encantos. Lá experimentei todos os jogos que a imaginação, e só a imaginação de crianças poderia esboçar. Fui herói, xerife, polícia, ladrão, cavaleiro, guerreiro e toda a sorte de outras personagens que nessa altura pensava viverem à distância da subida pela íngreme escada do velho depósito de água, que uma vez conquistado nos concedia a visão da florescência nocturna da grande cidade-capital e de todos os sonhos que se mediam à mesma distância da ambição de se poder vir a ser alguém na vida, ou ficar para sempre ligado ao fado de tantas gerações de homens e mulheres escravos de uma terra dura que sempre lhes minguou o pão. Felizmente que o meu fado nunca foi esse, sendo, talvez por isso, por não alimentar ressentimentos, que me interno frequentemente nos lugares da minha infância para beber odores, sentir fragrâncias e estender olhares pelos campos que encheram os meus verdes olhos de menino ladino e salta-pocinhas debicando em quintais e hortados o fruto proibido mas sempre apetecido. Talvez também por isso, ainda hoje me incluo, seguramente, no número de cidadãos que mais fruta consomem, hábito ganho em furtivas investidas que só a inocência de uma criança dispensa autorização ou posterior pedido de desculpas. Claro que agora compro-a, de banca em banca e normalmente com sabores internacionais, calibrados por um qualquer burocrata de Bruxelas e colhidos em distantes latitudes da Lavre da minha infância.
Como foi feliz, a minha infância. Mesmo se para a gente grande que a povoou , e que não gostava das minhas brincadeiras travessas, felicidade não era uma palavra conjugável com qualquer outra conhecida então, na vila de Lavre.
O trabalho rude de quem tinha que o fazer de sol a sol nem sempre garantia todo o pão que fazia falta sobre a mesa. Hortas e capoeiras preveniam as falhas.
A mim, nada me faltava, tirando um pormenor ou outro. Mas quem se lembrava disso naquela altura de permanentes brincadeiras ? A idade de jovem adulto sim, revelar-me-ia a violência psicológica do que me tinha faltado em criança. Mas nada que, tarde ou cedo, a vida não nos ensine a superar.
Aos trabalhadores rurais, por outro lado, só sobrava o cassetete da pancada brutal e animalesca de quem fazia profissão de cortejar e adular quem sempre estava do lado bom da vida.
Parte da minha família materna deu corpo ao nobel de Saramago ao servir de "inspiração" ( Dito assim não melindra ninguém embora Saramago não deixasse de ser Saramago se o disséssemos de outra forma ) a "Levantado do Chão" , o seu primeiro livro a sério.
Sou parte integrante dessa história mesmo se o meu nome não está lá, e nem mesmo sequer consta nas memórias do meu tio-avô João Serra. Homem de fés e de príncipios mais do que de ideologias. Como tantos outros da sua geração, cedeu o corpo à perseguição da PIDE, a polícia política do Estado Novo em Portugal, e à GNR, a força militarizada que imitava o papel de Robin Wood, mas ao contrário; qualquer das duas não se fizeram rogadas a malhar o corpo pequeno e franzino do meu tio-avô, ou de outros que, como ele, levantavam a voz acima da sua própria estatura física. O que contava era a sua estatura moral.
Aprendi a contar estrelas, e a deixar-me encantar por elas, com o meu avô José, que também me deliciava com as suas histórias de touros e campinos do seu Ribatejo natal, mas também com eternas lendas tantas vezes repetidas até que as soubesse de cor. De cada vez contadas , era sempre como se fosse a primeira.
Tomei contacto com o Evangelho, em Lavre, pelos meus seis para sete anos de idade. Nessa altura era difícil ser cristão-evangélico em Portugal, especialmente no interior alentejano, onde ser protestante ou comunista não equivalia a qualquer distinção da brutalidade aplicada pelas chamadas "forças da ordem". A porrada não distingue credos. Mas foi aí, nesse ambiente de perseguição maldosa, que ficou plantada a semente que viria a romper a terra dura do meu racionalismo quando a adolescência se prometia aos alvores da juventude, aos 16 anos.
É por isto tudo, que Lavre e o Alentejo, todos os alentejos, me introduzem sempre às gratas memórias dos campos abertos por onde me perdia em mil epopeias ao ritmo dos heróis dos meus livros de banda desenhada, de páginas abertas ao fio da navalha, Mundo de Aventuras, Ciclone, Condor, Falcão, etc.
É por muito do que deixo dito, que o alentejo fará sempre parte das minhas referências de vida, dos códigos fundadores de quem sou hoje.
É também por isso que acho que quem tenta impor estigmas aos alentejanos devia antes fazer vénias à sua coragem, ao seu espírito de sacrifício, ao seu apego ao trabalho e à dignidade no exercício do mesmo bem como ao seu ecletismo e tolerância política e religiosa, descontando eventualmente da história recente se a sua vontade foi ( ou não ) instrumentalizada por pessoas que do alentejo e dos alentejanos só queriam a coragem de lutar por melhores condições de vida.
Uma nota final: Quando se sentar à mesa de um restaurante para se saborear um qualquer prato tradicional alentejano, pare por um momento e pense: "porque será que quase todos os pratos alentejanos têm no pão, e nas ervas aromáticas colhidas no campo os seus principais atributos ? Ou "porque será que tantas sopas alentejanas são confeccionadas com ervas que crescem livremente na natureza sem que mão humana as tenha semeado ou plantado" ?
Parecem questões irrelevantes, se acharmos que isso não tem nada a ver com fome ou falta de pão sobre a mesa da família. Talvez um dia a verdadeira história do Alentejo e dos alentejanos venha a ser contada, despida de paixões ideológicas e vestida do rigor com que a luta pela sobrevivência de um povo deve ser narrada, e aí percebamos muito mais do que a estigmatização continuada por décadas nos permite entender.
Dou graças a Deus, por ser descendente de alentejanos e filho de Deus. Em qualquer das condições me sinto um homem dignificado e honrado, mesmo que muitas vezes imerecidamente.
Jacinto Lourenço

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

A Ética da Vida e o Consenso Impossível

Ética é uma palavra forte. Trata-se da ciência que estuda a conduta humana em termos morais. Ela se funda na busca de entendimento sobre o que seja certo e errado, distinguindo-se bem e mal. É terreno subjectivo, e por isso mesmo fascinante: os grandes filósofos, teólogos e pensadores do mundo se debruçam sobre questões éticas desde tempos imemoriais. Apesar de parecer um campo meramente abstrato, as consequências e os desdobramentos da ética dominante recaem, porém, sobre cada um dos indivíduos. Cada época tem seu conflito ético, o tema que domina os debates – e hoje, a noção de bioética começa a se popularizar. Nas fronteiras da vida estão os maiores dilemas. Diante do avanço da biogenética, da bioengenharia, das pesquisas sobre células embrionárias, da tecnologia relacionada aos transplantes de órgãos e da capacidade da medicina moderna de estender até os limites mais largos a luta contra a morte, é preciso ter uma bioética abrangente, compatível com o desenvolvimento científico.[...]
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Saudade do Tempo

Saudade é uma das palavras mais presentes na poesia de amor da lingua portuguesa e também na música popular. "Saudade", só conhecida no galaico-português, descreve a mistura dos sentimentos de perda, distância e amor. A palavra vem do latim"solitas, solitatis", na forma arcaica de "soedade, soidade e suidade" e sob influência de "saúde" e "saudar". Pois é, em Agosto comemorarei vinte e três anos que fui salvo por Cristo Jesus. Lembro com saudade, aqueles dias, isto porque o evangelho pregado era muito diferente do que se prega hoje. Naqueles dias não havia apóstolos, não tínhamos ano apostólico, ninguém decretava nada, o louvor não era extravagante, não existiam bispas peruas, muito menos carnet Gideão. Naquele tempo as canções não eram repetitivas, ninguém cantava para o diabo, nem tampouco era levita do Senhor. Os territórios não eram demarcados com urina, não existia a unção do leão, e ninguém trocava o anjo da guarda. Naqueles dias o Evangelho não era judaizante, não se tocava shofar no culto, nem tampouco existiam réplicas da arca e do tabernáculo nas Igrejas de Cristo. Naquele tempo ninguém andava com cajado na mão, não existia a unção do riso, muito menos galo que profetiza, nem tampouco sapatinho de fogo. Não se faziam mapas espirituais, não existia culto do descarrego, terapia do amor e cartomantes espirituais. Naquele tempo não se usava sal grosso para espantar mau olhado, não se ungiam objectos inanimados, nem tampouco se sincretizava o evangelho do meu Salvador. Naqueles dias não se manipulavam anjos, não se comercializava a fé, não se vendiam indulgências. Naquele tempo não se vendiam utensílios milagrosos de Israel, não se subia a montes milagrosos, não se comercializava espadas matadoras de gigantes, nem tampouco os milagres eram trocados por sete reais. Naqueles dias o evangelho não era chamado de gospel, os cantores eram adoradores e não artistas de Deus, não existiam fãs, clubes, boites gospel ou festas dos sinais. Caro leitor, confesso que nunca poderia imaginar que um dia iria sentir saudades da época que me converti.
Renato Vargens

O Amor Lança Fora o Medo

Não temos medo de (re) pensar conceitos sobre Deus. Temos medo de não (re) amar como Cristo, quem na realidade não amamos: os mendigos, os pobres, os excluídos, os marginalizados, as crianças africanas, os homens e mulheres de Darfur. Não temos medo de incertezas. Temos medo que nosso Amor deixe de ser nossa bandeira do Reino de Deus. Não temos medo de não saber. Temos medo das certezas que prendem Deus a um esquema. Não temos medo de questionar dogmas. Temos medo de que os dogmas impeçam a transformação de vidas. Não temos medo do inferno. Temos medo de que nossas mãos se fechem, e não possam ajudar o nosso próximo a sair de sua existência-inferno. Ou pior, que as nossas próprias mãos sejam as quais o empurra para esta existência-inferno. Não temos medo de devanear teorias loucas. Temos medo que a loucura deste mundo violento cegue os nossos olhos a ponto de sempre que pararmos num farol, nesta cidade-sombria, fechemos nossos vidros para a sinceridade dos filhos da injustiça. Não entendemos como problema sair do molde da teologia sistemática. Temos medo de sistematizar Deus e modela-Lo a algum padrão. Nós não temos medo de chorar por nós mesmos. Nós temos medo de que não mais choremos o choro dos outros. Não sentimos culpas pelas nossas dúvidas. Mas pedimos que nos lembremos sempre de amar como Cristo. Não temos medo ter uma fé cheia de espelhos em enigmas e despedaçada, que não tem a precisão de uma fé “face a face”. Temos medo de perder o que existe de mais precioso: Amar. Não temos medo de balançar alicerces religiosos construídos por pensamentos humanos. Temos medo de perder a doçura e a simplicidade de Jesus. Não temos medo de sermos rejeitados pela instituição. Temos medo da hipocrisia religiosa. Não temos medo de sermos chamados de hereges. Temos medo de compactuar com o sistema religioso e os seus interesses, e esquecermos amar pessoas. Não temos a pretensão que os nossos argumentos tenham todos os versículos a favor, e assim entrarmos numa guerra de versículos. Temos medo que nós não cumpramos aquilo que Cristo chamou de o resumo da lei e dos profetas: Amar a Deus e ao próximo. Não temos medo de nos manifestar a favor de alguém. Desde que esse alguém não se esqueça que o conceito central do cristianismo é o amor. Aprendemos que não podemos ficar presos às amarras da religião e da instituição. Aprendemos que Deus está acima da religião. Aprendemos que no Reino não importa o que se pensa, importa o que se ama. Aprendemos a olhar pessoas como “filhos de Deus”, e amá-las incondicionalmente. Aprendemos que qualquer um que tenta abrir os olhos de pessoas encabrestadas pela religião, acaba sendo queimado na fogueira da instituição. Estamos seguros que o Verdadeiro Amor lança fora todo medo, e por isso não temos medo de caminhar com alguém que nos ensina a lidar responsavelmente com a liberdade do amor.

Lucas Lujan e Suênio Alves

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Galileu : Um Preso de Cons(ciência) - 400 Anos de Telescópio

( Foto D.N. )

Passam hoje 400 anos sobre o dia em que Galileu Galilei apresentou o seu telescópio às autoridades venezianas. O instrumento por si desenvolvido revelar-se-ia peça fundamental para avanços na astronomia, entre os quais a descoberta de quatro luas de Júpiter e a confirmação das ideias de Copérnico sobre o sistema solar Foi a 25 de Agosto de 1609. Há precisamente 400 anos Galileu Galilei apresentava o seu telescópio ao dodge e aos outros elementos das esferas mais poderosas da cidade de Veneza. O momento em si revestiu-se de significados essencialmente oficiais e até mesmo profissionais, uma vez que em sinal de agradecimento por mais uma conquista que engrandecia a ciência (e a cidade), o senado veneziano ofereceu a Galileu um novo estatuto e salário. Foi contudo a contínua exploração e melhoramento do instrumento e a sua utilização na observação dos céus que, nos anos seguintes, fez do telescópio uma peça fundamental para o repensar da própria relação entre a Terra e o universo ao nosso redor. Galileu, que na época vivia em Pádua, tinha ouvido falar de uma invenção de um holandês (Hans Lippershey, fabricante de lentes) que permitia ampliar os objectos que observava à distância. Decidido a aperfeiçoar a ideia, reflectiu, acabando por construir o seu primeiro telescópio que, na verdade, mais não era que um tubo de chumbo, a cujas extremidades adaptou lentes. Côncava junto ao olho que observa, convexa no topo oposto... Começou por conseguir uma ampliação de três vezes, atingindo algum tempo depois as trinta vezes... É com esta ampliação que faz observações mais detalhadas que nunca da superfície lunar. E, mais tarde, de Júpiter, acabando inclusivamente por descobrir os seus primeiros quatro satélites (Europa, Ganimedes, Calisto e Io), que ainda hoje são conhecidos em conjunto como as luas galileanas. Apontando em observações diárias os quatro pontos que originalmente identificara junto a Júpiter, inferiu que seriam satélites naturais do planeta e que deveriam desenvolver órbitas em seu redor. Entre as grandes descobertas que o telescópio lhe permitiu observar contam-se ainda as manchas solares e as fases do planeta Vénus. Muitas destas descobertas foram publicadas pelo próprio Galileu em Sidereus Nuncius, em 1610. Mas nem todos acolheram as novidades com igual entusiasmo. Houve até quem se recusasse a espreitar por um telescópio. Em defesa de Galileu o astrónomo holandês, confirmou as suas observações sobre os satélites de Júpiter em 1611. As observações e reflexões de Galileu fizeram dele um defensor da visão, igualmente aceite por Copérnico, de um modelo para o sistema solar que, contra o que durante séculos fora defendido, colocava o Sol e não a Terra no centro de tudo. Polémica na época, esta visão contrariava a tese geocêntrica, dita ptolomaica, e apoiada por Aristóteles e, mais tarde, a Igreja Católica. A defesa da visão heliocêntrica, originalmente levantada por Aristarco de Samos mas cientificamente sustentada mais tarde por Nicolau Copérnico, valeu a Galileu uma primeira denúncia à Inquisição. Galileu tinha passado por Roma em 1611, dando a observar os satélites de Júpiter e as demais observações que sustentavam a sua visão. Mas, acusado de ideias "perigosas", voltou à cidade para se defender, acabando então por aceitar o silêncio. Obrigando-se igualmente a não divulgar as visões de Copérnico. O silêncio não seria longo. E em 1633 um novo texto gerava novo julgamento, que culminaria com a sua prisão domiciliária até ao fim da vida. Corre a lenda que, apesar de obrigado a negar as suas convicções, terá dito, referindo-se à Terra, "e no entanto ela move-se..."
In Diário de Notícias de 25 de Agosto de 2009

A "Comovente" Cena do Terrorista que Regressa a Casa e é Recebido como Herói após ter morto 270 Pessoas...

( Foto JN )
É sempre comovente ver um terrorista regressar a casa. Uns dias atrás, pela BBC, assisti ao espetáculo: Abdel Basset Ali Al-Megrahi foi saudado como um herói pela população enlouquecida de Trípoli, capital da Líbia. Entendo o entusiasmo. Al-Megrahi foi condenado a prisão perpétua pelo envolvimento no atentado terrorista de Lockerbie (um avião, 270 vítimas). Julgamento internacionalmente reconhecido como justo e conclusivo. Al-Megrahi cumpriu oito anos de pena. Agora, por motivos "compassivos", o governo escocês, que é soberano em matéria judicial, resolveu libertá-lo. O terrorista está doente, com câncer terminal, disse o ministro da Justiça. Na melhor das hipóteses, tem três meses de vida. Sejamos humanos. Eu sou humano. Mas minha humanidade, normalmente, está com as vítimas, não com os carrascos. Deformação de caráter, admito, que me transforma num verdadeiro Torquemada: ao ver Al-Megrahi recebido como um herói na Líbia, imaginei de imediato o que estariam a sentir as 270 famílias que viram os seus familiares pulverizados no ar, em dezembro de 1988. Sim, sou um monstro. Verdade que não estou sozinho. O governo de Gordon Brown condenou a libertação. Santo Obama também, e com linguagem particularmente dura. E começaram as especulações sobre os verdadeiros motivos do gesto. Terá sido por razões "compassivas", como disse o ministro Kenny MacAskill? Ou, horror dos horrores, a libertação de Al-Megrahi faz parte de um negócio vantajoso para a Líbia e para o Reino Unido? O próprio Gadaffi (filho) confirmou a suspeita, ao afirmar expressamente que a libertação de Al-Megrahi libertava também o petróleo e o gás líbios para empresas ocidentais, a começar pelas britânicas, que já esfregam as mãos de contentamento. Verdade? Mentira? E isso interessa? Obviamente, não interessa: criada a suspeita, reforçada pela implacável imprensa britânica que tem revelado os encontros "comerciais" de Blair com Gadaffi (pai) na última década, a libertação de al-Megrahi tem importância simbólica. Os soldados britânicos podem lutar e morrer nas areias do Oriente Médio. Mas a libertação de um só criminoso será vista pelos inimigos do Ocidente, não como um gesto "humano" e "compassivo"; mas como uma manifestação de cobiça, um ato de traição às vítimas e uma postura de rendição perante os agressores. Eis a imagem do nosso epitáfio.
João Pereira Courinho
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Mosaico Romano posto a Descoberto em Alter do Chão

Mais um pouquinho sobre Alter do Chão...
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Um mosaico Romano, de grandes dimensões e “único” na Península Ibérica, foi descoberto durante os trabalhos de arqueologia que decorrem na cidade romana de Abelterium, em Alter do Chão (Portalegre), revelou o arqueólogo responsável.

Jorge António, arqueólogo na Câmara Municipal de Alter do Chão, considerou o mosaico “único na Península Ibérica” e garantiu que a descoberta tem “extraordinária importância”.

Esta peça arqueológica, que remonta ao século IV, foi encontrada há cerca de um ano, mas só agora foi divulgada, mantendo-se durante todos este tempo no “segredo dos deuses”(…). As ruínas da antiga cidade romana, onde vão continuar a ser realizadas escavações arqueológicas, “porque muito há ainda por descobrir”, segundo o arqueólogo Jorge António, vão ser abertas ao público a partir de 21 de Maio, dia do Município de Alter do Chão.

Publicado no jornal Diário de Notícias em 02 de Fevereiro de 2009

Ler aqui versão integral do texto

Crónica de Férias-8 : Alter do Chão / Abelterium

O céu de Agosto, no lugar onde me encontro, recusa-se ceder estrelas para satisfazer o meu desejo, afinal simples, de algumas, poucas, para lhes seguir o rasto. À falta de um céu azul-negro ponteado por milhões de focos de luz, uns mais brilhantes do que outros, decido não me fazer rogado quanto ao cumprimento do que tinha aqui prometido anteriormente e trazer alguns dados históricos sobre o interessante concelho de Alter do Chão e, de forma mais dilatada, sobre a região onde este se insere. Sorte minha, porque de repente lembrei que este ano já tinha publicado dois Posts acerca desta temática e, como pouco ou nada terei a acrescentar ao que então ficou dito, pelo menos em tão curtas linhas, reedito os ditos Posts. Sabendo que o céu de Agosto, no dealbar do mês, não será o mais propício a observações de rotinas estelares, fico na expectativa de que as nuvens, que hoje chegaram pela calada da noite sem vénia nem pedido de desculpa, se afastem do meu horizonte, libertando o cativo firmamento e, já agora, levando consigo este súbito friozinho que nos aborda e incomoda, especialmente se nos apanha em traje de espantar os mais do que previsíveis calores desta época do ano. Descobrimos, e percebemos, nestas noites de Agosto, que previsões continuam a não passar disso mesmo: previsões ! E então sentimo-nos aptos a ser muito mais tolerantes com as pessoas da meteorologia. Quem é que podia prever que, depois de uma semana no extremo sul do país, com temperaturas a rondar os 40 graus centígrados, iriamos encontrar, numa região habituada a muito maiores estios, nuvens negras, humidade nocturna e frio a pedir vestuário de transição outonal ? Assim não há previsão meteorológica que aguente um desejo de céu brilhante. Fiquem-se então por Alter e boa visita por estes campos sóbrios de natureza bruta que braços humanos tiveram que cambiar para lhes retirar o suado pão ao mesmo tempo que lhes alindavam a irregular planície semeada de incrustações graníticas como se ali tivessem sido propositadamente colocadas, tal o seu aspecto de obra de arte paleolítica. Já agora não percam a observação do eterno namoro que o Nordeste Alentejano mantém com a Beira Baixa . O amor destas terras vizinhas tornou-as quase iguais, senão no modo de exploração da terra e das vivências sociais, pelo menos no relevo geográfico e nos sulcos abertos pela violência do trabalho rural de antanho nos rostos crestados de Norte-Alentejanos e Beirões de baixo. Terras de transição, onde até o acentuar de cerrados sotaques linguísticos nos introduzem a interessantes questões antropológicas. Aqui, no Nordeste-Alentejano, é onde a língua portuguesa deixa de ser "cantada" e se despe da musicalidade tão peculiar que se lhe reconhece em todos os alentejos para se vestir com roupagens mais arrojadas em estilos que a Beira lhe empresta. Numa fronteira marcada pelo Tejo, mas ainda a sul deste, e sublimada por uma paisagem irregular que a salto se escapa para território beirão, a já nuas de dotes cantatórios. Mais rudeza e menos cântico, mas nem por isso menos doçura nas novas sonoridades descobertas em cada diálogo a pedirem atenção ao ouvinte. É afinal por aqui, neste alentejo em estilo agri-doce, que igualmente podemos olhar a Mão de Deus, esculpindo, como só Ele sabe fazer, paisagens geográficas e humanas, que nos cortam a respiração quando observadas de perto ou de longe. ** Jacinto Lourenço
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A Vila-Concelho de Alter do Chão, situa-se no Nordeste Alentejano de Portugal, fazendo Fronteira com outros Municípios pertencentes a pelo menos três distritos que dividem geograficamente o território . Integra, Alter do Chão, quanto a nós, uma região das mais marcantes na história portuguesa. Lembremos, por exemplo, algumas figuras a ela ligadas: D.António Prior do Crato ( “Prior do Crato” era o título dado ao superior da Ordem dos Hospitalários por possuir esta grandes domínios territoriais na zona do Crato, concelho que dista de Alter do Chão cerca de 13 Kilómetros ). D.João I, que antes de ser proclamado rei nas cortes de Coimbra, em Abril de 1385, na sequência da crise dinástica de 1383/1385, era Grão-Mestre da Ordem de Avis, ordem cuja sede se situou também na vila-concelho com o mesmo nome e que dista 18 Kilómetros de Alter. D. Nuno Álvares Pereira, Condestável de Portugal no reinado de D. João I, nascido em Flor da Rosa ( pequena e interessante povoação encostada ao Crato e dona de uma excelente pousada inserida num antigo mosteiro, muito bem conservado ) e figura das mais relevantes da nossa história. José Régio, que em período muito mais recente elegeu a cidade de Portalegre como sua terra de adopção e onde lhe dedicaram uma casa-museu.

Pontuam igualmente esta região do Nordeste Alentejano, outras terras de igual importância, especialmente a nível turístico e económico, pautadas pelas belezas naturais, pelo património edificado e mesmo humano, bem como ainda pela produção de artigos tradicionais manufacturados no âmbito das diferentes actividades locais. Castelo de Vide e Marvão, Monforte, Fronteira, são povoações que, por uma ou outra razão, não podem deixar de ser visitadas, para além de outras, claro.

Voltando um pouco atrás, a Alter do Chão, destacamos o seu património edificado, como o Castelo de Alter, no centro da Vila, dono de uma arquitectura curiosa e de fácil alcance, mesmo para pessoas com dificuldades motoras. Em termos de acessibilidades para uma visita é notório o esforço feito pelos seus proprietários para que ninguém fique impossibilitado de a efectuar. Merece igualmente realce a Coudelaria de Alter, fundada em 1748 e onde são “produzidos” os famosos cavalos raça Alter. Roteiro obrigatório de qualquer viagem de lazer.

Particular destaque para uma das mais bem conservadas pontes romanas ( a ponte de Vila Formosa ) que conheço no nosso país. Situada na estrada que liga Alter do Chão a Ponte de Sôr, perto da vila de Seda. Esta ponte servia, até há bem pouco tempo, todo o tipo de trânsito, mesmo o pesado, que foi entretanto proibido, mantendo-se no entanto aberta para o restante tráfego rodoviário actual que a procura, até porque a alternativa seria de muitos Kilómetros para quem pretendesse fazer o trajecto actualmente ligado por esta infra-estrutura. Ponte de seis arcos e que resiste , intacta, na sua estrutura e arquitectura desde finais do século I, princípios do século II, A.D.

Enfim, como verificamos, toda uma região a merecer uma visita com algum “vagar”, como dirão os nossos “compadres alentejanos” que por lá habitam. Gente afável, acolhedora e trabalhadora. Infelizmente, o que lhes falta é trabalho, não a vontade de trabalhar.

Jacinto Lourenço

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Crónica de Férias - 7 : Acerca de Estrelas Adormecidas

São assim, as coisas, e não há golpe de asa tecnológico ou realidade virtual que as modifique, por enquanto.
Imaginava que tudo se iria passar, mais ou menos como eu previa, quando aqui chegasse, e foi sobre isso que escrevi ontem no Ab-Integro.
Era forçoso ter que abandonar, de modo próprio, terras do algarve. Animavam-me expectativas de céus e das noites do Nordeste Alentejano, do sereno tardio, do estio sufocado por algumas brisas sopradas, como que por esmola, sobre quem se expõe à torridez alentejana que sem dó nem piedade fustiga noites como se os dias lhe tivessem sido curtos para a função.
À medida que subia e vencia, quilómetro a quilómetro, a centena e meia que me separam do local de destino, adensavam-se nuvens negras no horizonte, negando, meio comprometidas, aquilo que o sol do sul do fim do mapa me tinha jurado. Descobri, quando cheguei ao meu destino alentejano, que o sol também não é de fiar, pelo menos em certos dias e, nesses dias, envergonhado, esconde-se atrás das nuvens; essas, já sabíamos, são defensoras do astro-rei nos seus "dias-não" e cumprem escrupulosamente o seu papel na tarefa de nos ocultar a estrela envergonhada por não brilhar pontualmente para nós. As nuvens, essas, continuam fiéis ao compromisso assumido e esperam, qual esposa fiel, que a solar estrela desperte da soneca a que se dispôs após cruzar hemisférios. Por este andar, suspeito que amanhã ainda não terei de volta o meu céu luxuriantemente estrelado, uma de entre muitas outras razões para que eu seja apaixonado, desde que me conheço, por todos os alentejos. Mais do que o dia, é a noite alentejana, qual moura encantada, que me traz perdido de amores de muitos verões, dependurado em estrelas, cometas, constelações e planetas.
Hoje não ouço rebanhos em nocturnas pastagens. Não há cigarras a cantar e os ralos, esses artistas canoros de terceira categoria, por respeito à arte do canto que costuma prencher as noites , julgo, decidiram calar-se. Só um humilde grilo, a que os qmores não correspondem, ameaçou romper este soturno silêncio em noite fugida do verão nas terras de Alter. Hoje, o silêncio na rua deixa perceber nuvens baixas carregadas de humidade que erguer riquissímo odor de terra húmida, a antecipar outros tempos de mais para diante. Estranho é que Agosto ainda só há pouco atingiu a idade adulta.
Amanhã, se não puder encantar-me com o céu estrelado por cima de mim, prometo ser breve anfitrião pela história de terras prenhes de história, e lembrar, por exemplo, de como desta região saiu um Grão Mestre da Ordem de Avis para ser Rei em Portugal , um caso raro "sufragado", contra a vontade de muitos, pelo povo levantado na rua. Posso contar-vos também um pouco da vida de ilustres vizinhos nestas terras de Alter do Chão e que muito honram um país sem grandes motivos agregadores de orgulho nacional. Isto, claro, se não me puder voltar a perder de amores pelo brilho das estrelas no céu sobre a minha cabeça e de novo repetir as palavras de Kant :
" Duas coisas enchem a alma de admiração e respeito sempre novos e crescentes(...): o céu estrelado por cima de mim e a lei moral dentro de mim".
Êxtase puro, é o que sinto meu amigo Kant, com esse céu estrelado. É que, a sua produção tem o mesmo ponto de origem da minha alma vivente: Aquele que me outorgou a tal lei moral de que falas e fez de mim, e de ti, homens com esta capacidade de se perderem na admiração constante da notável vida que nos congemina, nos cerca e nos enlaça .
Jacinto Lourenço