domingo, 28 de fevereiro de 2010

"O diabo do Poder"

Quando se reflecte sobre o mal, o que mais impressiona é o mal moral: porque é que a liberdade não é sempre boa? Porque não fazemos sempre o bem? Estas perguntas são de tal modo dramáticas que, para explicar o bem e o mal no mundo, muitas vezes se recorreu a um duplo Princípio: um Princípio do Bem e um Princípio do mal. No contexto do cristianismo, que, por sua vez, bebeu noutras fontes religiosas mais antigas, o diabo apareceu como "solução" para o enigma. Ele seria o Tentador e o ser humano nem sempre resiste à tentação. Neste contexto, é preciso dizer, em primeiro lugar, que o Credo cristão não fala do diabo. O cristão não acredita no diabo, mas em Deus. Quanto ao diabo tentador, seria necessário perguntar quem tentou o diabo para, de anjo bom, se tornar anjo mau, precipitado no inferno e tentador dos homens. Lembro que já Kant fez notar que um catequizando iroquês perguntou ao missionário: porque é que Deus não acabou com o diabo? Quanto às tentações, não é preciso diabo nenhum. Bastamos nós. O Homem, entre a finitude e o Infinito, está inevitavelmente sujeito à falibilidade e à queda. Tentação vem do latim temptare, que, para lá de ensaiar, experimentar, tentar, também quer dizer atacar, procurar seduzir e corromper, pôr à prova. Neste quadro, a tentação maior é a do poder, não enquanto serviço, mas enquanto domínio, vanglória e exaltação do eu. Pela sua própria dinâmica, o poder tende a ser total. E porquê? Porque a ilusão da omnipotência dá a ilusão da imortalidade, de dominar, vencer e matar a morte. Omnipotentes, seríamos imortais. [...] Quem quiser uma prova de que a tentação maior é a do poder - financeiro, económico, político... - olhe para o palco da presente situação nacional. A tentação maior da Igreja é a do poder: poder social e político, controlo das consciências, imposição das suas normas aos não crentes, aceitação de uma religiosidade mágica e milagreira... "A última tentação de Cristo", na cruz, não foi, como sugeriu M. Scorsese, casar com Maria Madalena, mas descer da cruz. Não cedeu. Deus não livra da finitude nem, consequentemente, da morte.
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Por Anselmo Borges *** in Diário de Notícias Online

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Tempos de Instabilidade

"Pois assim diz o Senhor Deus, o Santo de Israel: Voltando e descansando, sereis salvos; no sossego e na confiança estará a vossa força" (Isaias 30:15)
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Vivemos em tempos de instabilidade. Para onde quer que olhemos, não há nada permanente na fixidez do seu lugar. O mundo, a nossa morada, nunca foi tão inóspito para os seus moradores. As relações humanas, nosso porto seguro, nunca foram tão liquidas e instáveis. As instituições, nossa base social, nunca estiveram tão fragilizadas. Vivemos desconfiados em relação a tudo e a todos. Somos obrigados a conviver com o terror de uma crise económica mundial, com ameaças de pandemia, com cataclismos naturais que abalam os fundamentos da terra, com desigualdades sociais obscenas, e ameaças de conflitos mundiais. No meio a tudo isto, lá está o homem, correndo atrás de interesses particulares, impedindo a confiança mútua e a fraternidade. Mundo, relação e instituição, em abalo, por vendavais de instabilidade. “Cada individuo é sempre filho da sua época” dizia Hegel, portanto, se vivemos um tempo de instabilidade, não é surpresa encontrar no homem desta época uma natureza instável. Tal natureza é geradora de uma séria de conflitos internos; veja-se o grande número de pessoas atormentadas por distúrbios psicológicos. No meio desses conflitos alguns procuram refugiar-se na aparente quietude do “eu interior”, outros depositam confiança no dinheiro, outros na falsa transcendência das drogas e outros no ópio das religiões. A despeito de todas as tentativas, a desconfiança permanece. Esta está fora e dentro de nós. É aqui que somos chamados a confiar em Deus, nossa Rocha de Refugio. Somos desafiados a descansar na sombra do Altíssimo ainda que a figueira não dê mais frutos. Isaías no trecho que abre este texto, exorta Israel para que confie em Deus no meio das instabilidades. O império Assírio havia destruído e dispersado o povo do norte e agora ameaçava o povo do sul. A tragédia de Israel foi refugiar-se à sombra de Faraó quando a instabilidade se tornou insuportável ao invés de confiar em Deus. O problema é que o Egitpo era frágil demais para abrigar em segurança o povo de Israel. Somos chamamos a desenvolver, no meio das instabilidade da vida, uma confiança cega em Deus. Devemos confiar que o Senhor é o Senhor da história e da nossa vida. Somente assim poderemos olhar para a realidade que nos cerca, e ao invés de ver um barco afundando, ver um Redentor redimindo toda a criação. Deus está trabalhando para redimir o mundo e não para destruí-lo. Esta é minha utopia cristã, esta é a agenda do Reino.
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Por Daniel Grubba *** Via Soli Deo Glória

Observar...

Gosto de observar a ordem em que os acontecimentos são relatados nos Evangelhos. Creio que desperdiçamos muitas mensagens quando nos atemos apenas aos acontecimentos em si, e não enxergamos suas entrelinhas. Deus Se revela nos flagrantes contrastes dessas passagens !

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Lucas nos descortina um episódio em que Jesus Se dirige à Jericó (Lc.18:35-43). Antes de entrar na cidade, Ele Se depara com um cego“assentado à beira do caminho, mendigando”,cujo nome é Bartimeu, de acordo com relato de outro Evangelista, Marcos. Depois de clamar insistentemente pela misericórdia do Filho de Davi, Jesus manda chamá-lo e restitui sua visão. Bartimeu, um marginal excluído da sociedade de Jericó , é a primeira pessoa a quem Jesus direciona Sua atenção.

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Mas ao atravessar os muros da cidade, Jesus Se depara com outro homem, pertencente à elite de Jericó. Enquanto Bartimeu vivia do lado de fora da cidade, Zaqueu, o chefe dos coletores de imposto, vivia luxuosamente na parte mais requintada de Jericó. Ambos eram cegos. Bartimeu sofria de cegueira física, enquanto Zaqueu de cegueira espiritual. Ambos deviam sua condição social à ganância. Um era vítima, o outro o algoz. Talvez jamais houvessem prestado atenção um ao outro, e sequer sabiam de sua existência. Porém ambos queriam muito ver Jesus. Lucas diz que Zaqueu “procurava ver quem era Jesus, mas não podia” (Lc.19:3). Não por causa de alguma deficiência visual, mas porque era nanico. A fim de avistá-lO no meio da multidão, Zaqueu tratou de escalar uma árvore, meter-se entre sua folhagem, e ali, discretamente, sem almejar qualquer atenção, esperou até que Jesus passasse. Veja a diferença gritante entre Bartimeu e Zaqueu. Não apenas diferença social, ou cultural, mas também comportamental. Bartimeu queria a atenção de Cristo, e por isso não poupou sua voz. Esguelou-se ao ponto dos discípulos rogarem que se calasse. Já Zaqueu preferia a discrição, a camuflagem de uma árvore, a preservação de sua imagem pública. De lá, ele podia ver sem ser notado, espiar sem se expor, numa espécie de vouyerismo desprovido de culpa. Afinal, um homem importante como ele não podia correr este risco. Jesus não hesita em mirar por entre as folhas da árvore e dizer: Desce depressa, Zaqueu! Hoje vou me hospedar em sua casa. [...]

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Por Hermes Fernandes *** Continuar a ler AQUI no Genizah

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

"Céu e Inferno"

“DEVIA EXISTIR UM DEUS que governa o mundo e as pessoas, um ser poderoso acima do qual nada existe. Mas ninguém sabe direito o que esse Deus pretende. Pelo menos ele, Pedro Terra, não sabia. O vigário fazia sermões e falava em céu e inferno, mas às vezes Pedro se convencia de que o céu e o inferno estão aqui em baixo mesmo, neste mundo velho e triste, que no fim das contas é mais inferno que céu.”

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Erico Verissimo em Um Certo Capitão Rodrigo

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Via Laion Monteiro

Todos Somos Responsáveis...

( Imagem D.N. )
Primeiros cinco anos de vida são decisivos para o desenvolvimento cerebral e a carência extrema produz sequelas irreversíveis

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A teoria política já o disse e a psicologia mostrou-o: a pobreza que afecta as crianças tem efeitos negativos e duradouros no seu de-senvolvimento. Mas agora um ambicioso estudo de cientistas norte-americanos conseguiu ir mais além, ao demonstrar que essa condição se repercute a nível neurobiológico e na saúde para o resto da vida. Os resultados foram apresentados na conferência da American Association for the Advacement of Science, na Califórnia, e os autores apontam a necessidade de novas estratégias sociais para prevenir o problema. "A pobreza pode modificar profundamente a neurobiologia da criança muito pequena, porque ela está em desenvolvimento", afectando todo o percurso da sua vida, afirmou o sociólogo Greg Duncan, da Universidade da Califórnia, um dos autores do estudo. O pediatra e investigador Thomas Boyce, da Universidade de British Columbia, no Canadá, e co-autor, explicita: "Descobrimos que as crianças que crescem em ambientes desfavorecidos reagem ao stress de forma desproporciada, e conseguimos medir isso através de avaliações hormonais e neurológicas, utilizando scaners cerebrais, e mais recentemente com análises genéticas." São múltiplos os níveis de complexidade e a dimensão que estes efeitos da pobreza podem atingir, segundo os autores. Eles podem repercutir-se nas principais funções biológicas, ou em circuitos específicos do cérebro e até no mecanismo molecular que activa e desactiva as funções dos genes, adiantam. Para medir o impacto sócio-económico daquelas sequelas biológicas - a "biologia da miséria", como lhe chamou Jack Shonkoff, especialista em desenvolvimento infantil da Universidade de Harvard - Greg Duncan analisou os rendimentos médios e a duração do emprego de 1589 adultos nascidos entre 1968 e 1975, nos EUA. E avaliou também os rendimentos das famílias de cada um deles durante os cinco primeiros da sua vida, um período decisivo para o desenvolvimento cerebral. Isso envolveu a observação de vários parâmetros, desde a educação escolar ao número de horas de trabalho, tipo de alimentação, apoios sociais, estado de saúde e história judicial. Segundo os autores, este foi o primeiro estudo com medições sistemáticas deste tipo nos EUA, o que permitiu quantificar conclusões. Exemplo: um aumento de três mil dólares anuais nos rendimentos de uma família pobre, através de um apoio social, quando há filhos com menos de cinco anos, traduz-se mais tarde num aumento de 17 por cento nos rendimentos destes filhos quando já são adultos trabalhadores. Estes tendem a uma maior estabilidade laboral também. Referindo-se à realidade dos EUA, os autores sublinham que as suas conclusões "mostram que as políticas de apoio social a famílias desfavorecidas com crianças pequenas produzem resultados tangíveis". Esta conclusão não será difícil de generalizar.
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Espanha Monumental - Segóvia

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" A civilização que Imaginou Auschwitz "

Estudar o nazismo não é a mesma coisa que estudar outro período histórico qualquer. Sem compreendermos este fenómeno nunca poderemos compreender o que foi o século XX. Mais: temos de saber que foi no mesmo país em que nasceu Bach que se imaginou Auschwitz, e que enquanto matavam judeus nos campos ouviam as suas composições para piano e faziam-no em nome da cultura alemã. [...]
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Via A Ovelha Perdida *** Continuar a ler AQUI no Rua da Judiaria

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

A Escatologia na História

[Título original do texto: Chega de escatologia de Jornal ]

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O reino de Deus é a chave para a compreensão da história do mundo. Por mais caótica que pareça, a história faz sentido. Todos os factos e eventos históricos são como peças de um quebra-cabeças, e convergem para a plenificação do Reino. Nesse sentido, não há qualquer contexto histórico que não seja radicalmente escatológico. Não acreditamos numa escatologia improvisada, mas numa Escatologia de Propósito. Afinal, Ele não é Deus de improviso, e sim, de provisão. Antes mesmo do início da saga humana, Ele já sabia de todas as coisas, inclusive da maneira como o homem se rebelaria contra o seu Criador. Por isso, Ele preparou de antemão um plano, cuja execução está em andamento. E não se trata de algum tipo de plano tapa buraco. Um dos princípios básicos da hermenêutica bíblica é que a Bíblia interpreta a Bíblia. Passagens obscuras do texto sagrado devem ser entendidas à luz de passagens mais claras. No dizer de Paulo, devemos comparar as coisas espirituais com as espirituais (1 Co.2: 13). Recusamo-nos acreditar em uma espécie de “Escatologia de jornal”. Uma Escatologia que busca nas manchetes dos jornais a confirmação das suas especulações está longe de ser bíblica. Não importa o que dizem as notícias de última hora, pois “andamos por fé, e não por vista” (2 Co.5:7). Ademais, segundo o salmista, o justo “não se atemoriza de más notícias; o seu coração é firme, confiante no Senhor” (Sl.112:7). [...]
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Por Hermes Fernandes *** Continuar a ler AQUI no Genizah

A Madeira que eu Conheço

Vejo as imagens na televisão e as fotos nos jornais e quase me recuso a acreditar no surrealismo que transmitem. É um cenário imenso de destruição. Nunca vi nada de comparável nos dias da minha vida e em escala tão intensa. Olho e quase me apetece não acreditar.
Estive por duas vezes na ilha da Madeira; a primeira aquando da minha lua de mel, em 1979. Cativou-me a ilha, nessa altura, pela sua luxuriante beleza verde emuldurada por um imenso azul marinho ao largo, fosse qual fosse a perspectiva do lugar elevado onde estivéssemos. Todos os lugares, aldeias e vilas que percorri então repassavam exotismo percepcionado sensorialmente a cada instante e recanto. Funchal era uma cidade lindíssima já nessa altura. No conjunto, a Madeira era quase um verdadeiro Éden que a mão humana não havia ainda comprometido. As pessoas, simples , muito afáveis, mas algo pobres e um pouco fechadas.
Voltei cerca de vinte e quatro anos depois. A Madeira tinha então perdido já o seu ar paradísiaco mas ganhara em desenvolvimento turístico e em infra-estruturas que a transformaram num dos principais destinos turísticos mundiais. Cruzar a ilha através das modernas estradas e vias rápidas que rasgaram até as entranhas da terra, tornara tudo muito mais rápido e menos cansativo, mas o encanto das viagens, por vezes algo temerárias, pelas estradas sinuosas, estreitas, bordejadas por um multicolorido jardim florido, perdera-se, e também o encanto da Camacha que eu conhecera em 79. A Madeira é, tal como a conheci há meia dúzia de anos atrás, uma região cosmopolita que se superou a si própria e superou a generalidade do país em qualidade e sustentabilidade de vida quer para quem lá está permanentemente ou de passagem. Ganhou outros motivos de interesse e atractivos que compensaram o que porventura tenha perdido, em termos paisagísticos, com o processo de desenvolvimento.
Entre a ilha que conheci em 1979 e a de data muito mais recente, fico indeciso no apontar da minha preferência. Mas há uma coisa que eu sei: quando a Madeira se reerguer desta tragédia que a devastou, vou gostar ainda mais de lá ir e ver, também, a par da sua beleza única e singular, a força e coragem com que os Madeirenses lutarão para ultrapassar o cataclismo que os atingiu em Fevereiro de 2010.
Vejo as imagens em toda a sua brutalidade e os olhos humedecem-se-me, por tudo o que foi destruido em termos de vidas humanas e de paisagem natural e a criada pelo labor esforçado de gerações e que fizeram a ilha merecedora do epíteto de Pérola do Atlântico.
Quando voltar à Madeira, irei seguramente encontrá-la muito mais bela, mesmo sabendo que essa beleza se construiu na dor do que esta catástrofe consumiu. Até lá, deixo o meu abraço solidário e a ajuda que me é possível, juntas com o desejo de que todos os Madeirenses e portugueses em geral, sem distinção política, social ou religiosa, saibam unir-se, de mãos dadas e lado a lado, na reconstrução necessária.
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Jacinto Lourenço

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Espanha Monumental - Escorial, Madrid

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“Ficamos insensíveis”

Autor de "Cristãos ricos em tempo de fome e de O escândalo do comportamento evangélico", Ronald Sider faz suas críticas com amor

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Ronald Sider não é um cristão comum. Não por ser PhD em história da Reforma por Yale, uma das mais prestigiadas universidades dos Estados Unidos, ou por ter escrito um livro que é considerado referência cristã no século 20, Cristãos ricos em tempo de fome, que já vendeu mais de 400 mil cópias. É que, aos setenta anos de idade, ele é testemunha de uma mudança de comportamento da Igreja Evangélica, que, no seu entender, fez dela uma instituição mais insensível em relação ao mundo que a cerca. “Ficamos maiores, mais ricos e mais famosos”, sintetiza. Tal conclusão é a base do inquietante trabalho de Sider. Teólogo, professor, palestrante, fundador e presidente do ESA (Evangelicals for Social Action – “Evangélicos por Ação Social”), ele é um ativista da igualdade. E o faz pelo viés do convencimento dos cristãos acerca da justiça social.

Nascido numa área rural de Ontário, no Canadá, Sider é filho de pastor, e hoje vive com a mulher numa casa de um bairro majoritariamente negro na Filadélfia. Membro de uma comunidade menonita, é um homem de sorriso aberto e voz suave, características que, no entanto, não amenizam seu duro discurso contra o materialismo que, na sua ótica, tomou conta de grande parte da Igreja Evangélica contemporânea, como diz em outra obra, O escândalo do comportamento evangélico (Editora Ultimato). Contudo, não é simplesmente um franco atirador e tempera suas críticas com palavras de misericórdia e esperança na Igreja e no futuro. [...]

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Continuar a Ler AQUI na Revista Cristianismo Hoje

A Ciência e o Conhecimento Histórico

[ Título original do texto : Tutankamon Siempre ]
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Recordarei para sempre a minha primeira visita ao Egipto. Ao visitarmos o Museu Egípcio, no Cairo, a primeira coisa que fizémos foi ir ver a sala onde se encontrava toda a parafernália que rodeava a mumia de Tutankamon. Saimos surpreendidos pela riqueza incomensurável do espólio arqueológico. Quando visitei de novo, nos anos 70, esta mostra arqueológica, ainda se desconheciam as técnicas genéticas que actualmente se aplicam tendo em vista averiguar as estruturas biológicas dos nossos antepassados. [...]
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Eudal Carbonell *** Continuar a ler AQUI em castelhano no jornal El Mundo Online

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Espanha Monumental - Mosteiro de Montserrat, Barcelona

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"A Parábola do bom Samaritano Contextualizada"

Este texto é baseado num caso real.
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Certa família humilde passava por graves privações. E a comunidade cristã tradicional, próxima, não se apercebeu.
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Então, um senhor espírita se aproximou; esforçou-se e arranjou um emprego para o pai daquela família. Com o passar do tempo as privações se foram, os filhos se graduaram tornaram-se prósperos e, naturalmente, espíritas.
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Quando o Senhor Jesus mostrou para o doutor da Lei quem era o "próximo" do homem ferido pelos ladrões, na parábola, referiu-se a um samaritano. Um homem de um povo estranho transportado de longe por Nabucodonosor, para as terras de Israel. Cristo confrontava uma religiosidade desprovida de compaixão. E compaixão significa estar atento às necessidades do próximo. Nossas mãos a serviço dos olhos do SENHOR.
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Eu fico meditando: O que estamos vendo no meio evangélico é bem parecido com o relato da parabóla. Muitas palavras e poucas atitudes. Muitos críticos e poucos "samaritanos". Muito individualismo e pouca solidariedade. Muitas palestras, escolas de liderança e poucos mestres em SERVIR.
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E diante de tudo isso, como falar do amor de Deus para quem só conheceu a generosidade de "Samaritanos"? É, você e eu temos mesmo muito a melhorar!
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Por João Cruzué
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"Fé e Economia"

Não é o sexo. Nem sequer a política. O verdadeiro tabu da teologia é a economia. «Gastamos o nosso dinheiro como se não conhecêssemos o Evangelho; e lemos o Evangelho como se não tivéssemos dinheiro», afirma o jesuíta John Haughey, sublinhando um sentimento difuso entre os teólogos e na Igreja dos Estados Unidos.

Contudo, hoje, nenhum outro aspecto influencia tanto a vida individual e colectiva como o económico, e poucos outros assuntos são rebuscados de forma tão incisiva nas Escrituras como os económicos.

O principal desafio que hoje a família humana tem de enfrentar é a iníqua distribuição de riqueza e poder. Um modelo económico que transfere a riqueza dos cada vez mais pobres para os cada vez mais ricos. As políticas neoliberais de reajustamento estrutural não só tornam mais dura esta polarização como cavam um fosso mais profundo de alienação física e social.

Quando vemos que o vendedor de fruta tem de fechar a loja, ou que empresas familiares não conseguem sobreviver, no Norte, também estamos a ser testemunhas daquela destruição que, como uma epidemia, tem vindo a devastar as culturas locais, as instituições e a natureza no Sul.

Qualquer teologia que se recuse a enfrentar esta realidade torna-se fútil. E cruel. Nós, cristãos, temos o dever de discutir economia, de falar dela confrontando-a com a economia do Evangelho. «As igrejas talvez se tenham tornado no último refúgio da nossa cultura onde se pode falar abertamente de valores sem ser de mercado», afirma Cornel Wesa, professor de estudos afro-americanos e de filosofia da religião na Universidade de Harvard. Aqueles que tentam desafiar o capitalismo pós-moderno e o seu mercado auto-refencial estão já a lutar por uma linguagem e uma prática alternativas. Num contexto de aparente descrédito do socialismo, este vazio ideológico proporciona à Igreja uma oportunidade única: redescobrir uma visão totalmente diferente da praxe social e económica. Esta visão funda-se no âmago mais profundo das Escrituras.

A Bíblia não aceita a injustiça como uma condição permanente. Pelo contrário, são dadas ao povo de Deus as instruções para desmantelar os principais códigos e estruturas de uma riqueza e de um poder estratificados, para que todos deles possam participar. Esta concepção da sociedade e da economia é expressa em diversas passagens: no Êxodo (cap. 16), nas leis do Levítico (25), nas exortações do Deuteronómio (15), nas profecias de Isaías (5), nas parábolas de Jesus (Mt 25), nos veementes apelos dos apóstolos (2 Cor. 8-9).

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Por Ched Myers

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Fonte: Amarelo Fosco *** Via PavaBlog

domingo, 21 de fevereiro de 2010

OS PÉS NA POÇA DO ANTI-SEMITISMO

(Esboço para um ensaio)

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Esta expressão, [ Os pés na poça do anti-semitismo ] usa-a Bernard-Henry Levy no seu livro essencial O Século de Sartre. Quis dizer-nos que a França foi essa poça, durante e após o Holocausto e Auschwitz, em relação aos seus judeus, e que o filósofo Jean-Paul Sartre meteu os pés nessa «poça» para a denunciar.

Ainda hoje é preciso confrontarmos a nossa consciência cristã perante o que se designa por anti-semitismo. É que a história não nos põe de lado no que concerne a essa interpelação. Não foi só depois de Auschwitz que a poesia se tornou impossível, no dizer de Adorno, a nossa posição de cristãos evangélicos também, diante do que se designou e continua a chamar-se, com menos estrondo, é certo, «o problema judaico».

Mas há uma «questão judaica»? No século XXI? Sartre definiu-a em 1944, ainda se silenciava os nomes dos Campos de Extermínio nazi, e depois perante a hipocrisia dos franceses e até de alguns autores católicos, existencialistas cristãos, como Gabriel Marcel.

A questão judaica, que integra o que desde remotas épocas se chamou anti-semitismo, está a julgamento na história entre dois lexemas: aquele anti- e o racismo.

Racismo é, parafraseando Freud, «o ódio ao outro»; mas é um ódio à diferença visível: é negro, é branco, é cigano, é pobre, etc. O anti-semitismo não deixa de ser neste sentido um ódio à diferença, o ódio pelo outro por causa da diferença invisível, imperceptível.

Os judeus eram essa diferença, tinham a marca no rosto invisível, dizia-se que podiam corromper o mundo, secretamente. E se alguma literatura reflectiu isso com frases como «Weiss era mesmo alguém que trazia o destino estampado no rosto»( in A Pena Suspensa), a religião sobretudo acrescentou o maior contributo.

O facto conceptual continuou pelos séculos fora, tal qual o escritor francês, falecido em 1980, o escreveu no diálogo entre dois personagens judeus, no romance citado: «Mas o que é um judeu? É um homem que os outros homens consideram judeu.»

Antes e depois de Lutero.

A verdade é que Martinho Lutero não está isento de culpas quanto a essa consideração, por razões conceptuais baseadas na religião, designadamente num catolicismo medieval, que combatia alegadamente a cabala judaica com outra cabala, considerando os judeus como uma raça oriunda do Averno.

A historiografia do anti-semitismo não favorece o Grande Reformador protestante. Infelizmente. As suas próprias declarações sobre o que entendia ser o judeu, o comprometeram para o futuro.

No Julgamento de Nuremberga, Julius Streicher, o director do perverso Der Sturmer, jornal nazi e anti-semita, afirmou «que se tinha que ser levado a tribunal para responder pelo seu contributo para o assassínio em massa dos judeus, então Lutero – o pai da tradição anti-semita luterana, cuja anti-semitismo derivava da tradição católica- deveria estar a seu lado.»

Cartazes anti-semitas da juventude hitleriana, já em 1936 expunham publicamente como o alemão via o judeu, visão estruturada numa imagem religiosa: «Nós jovens, avançamos alegremente virados para o Sol…Com a nossa fé expulsamos o Diabo da Terra…» O Diabo, em maiúsculas, era o Judeu.

Justificações ilógicas apontavam num só sentido: os judeus crucificaram Jesus Cristo. O ódio religioso, do domínio da historiografia religiosa, que se transformou depois em ódio científico e sistemático, nas estruturas nazis da Solução Final, dirigido contra os judeus, era a resposta ao ódio «assassino» dos mesmos contra Jesus.

Perante a História não podemos deixar de pensar, no século XXI, que houve ( ainda há?)um anti-semitismo cristão, e que o Cristianismo, no que respeita ao aniquilamento europeu dos judeus na década de 40, ignorou teológica, social e humanitariamente, a raiz do Amor divino, demonstrado nas próprias palavras sofredoras de Cristo, na cruz: «Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem.»

Se Adorno afirmou que depois de Auschwitz não podia escrever-se mais Poesia, para um Luteranismo puro tem que haver uma revisão aos comentários da História do anti-semitismo, com um pedido de perdão do Cristianismo, e também dos Evangélicos porque não basta aos mesmos fazerem apenas excursões a Israel, para visitar os lugares santos. O lugar santo deve começar no nosso interior, expurgando a nossa maneira de ver o outro, o Judeu.

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João Tomaz Parreira

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- Colaborador -

" Seduzidos pelo Futuro "

Somos resultado de tudo o que vivemos até hoje. Pelo menos, é nisso que muitos têm crido. Até a psicologia endossa tal teoria. Freud, o pai da psicanálise acreditava que o passado seria o factor determinante na formação da personalidade. Somos todos produtos dos nossos traumas e afectos. Alguns movimentos religiosos também subscrevem tal teoria. Alguns chegam a atribuir influência determinante às vidas passadas. Segundo esta doutrina, há um karma que nos acompanharia até o final de nossa caminhada existencial. Estaríamos fadados a pagar eventuais dívidas contraídas em vivências anteriores. Nem mesmo igrejas cristãs escapam desta visão. Algumas até promovem cultos no afã de quebrar eventuais maldições hereditárias, outras promovem cultos de cura interior, com direito a sessões de regressão. Teria o passado tanto peso assim? Será que Paulo errou ao declarar que aquele que está em Cristo é uma nova criatura, e que as coisas velhas se passaram, fazendo-se tudo novo? Ouso discordar com veemência de todos os que atribuem tal poder ao nosso passado, a ponto de interferir determinantemente em nosso presente. É claro que o passado exerce alguma influência, porém, não é determinante. Há algo que exerce influência muito maior, atraindo-nos para a frente.
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Projectados para o futuro
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Há algo lá na frente que nos atrai como um ímã. Se retrocedermos ao princípio de tudo, encontraremos Cristo, o Alfa, exercendo poder impulsionador, empurrando todas as coisas para frente. Se fôssemos remetidos para o futuro, lá encontraríamos Cristo, o Omega, exercendo Seu poder atractor. É por isso que o fluxo temporal segue a direção passado-futuro. Não se pode nadar contra a corrente. O ponto Alfa, início de tudo, impele, empurra para a frente. Enquanto o ponto Omega, que é o fim objectivo de tudo, atrai, puxa para a frente. [...]
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Por Hermes Fernandes *** Continuar a ler AQUI

sábado, 20 de fevereiro de 2010

" A Minha Leitura "

Fui director de programas da RTP e depois seu administrador. E garanto-vos que, se alguma vez algum apresentador ou jornalista desse uma entrevista a chamar-me “estúpido”, a primeira coisa que aconteceria seria o cancelamento imediato do seu programa, independentemente de haver ou não eleições em curso.

Por isso me parece incompreensível que, embora rios de tinta já se tenham escrito sobre o cancelamento do jornal nacional que Manuela Moura Guedes (MMG) apresentava na TVI, todos os analistas e comentadores tenham ignorado a explosiva e provocatória entrevista que MMG deu ao Diário de Notícias dias antes de a administração da TVI lhe ter acabado com o programa.

Em meu entender essa entrevista, realizada com antecedência para ser publicada no dia do regresso de MMG com o seu jornal nacional, foi a gota de água que precipitou a decisão da TVI. É que, o seu conteúdo, de tão explosivo e provocatório que era, começou a ser divulgado dias antes. E se chegou ao meu conhecimento, mais cedo terá chegado à administração da TVI.

Nessa entrevista MMG chama “estúpidos” aos seus superiores. Aliás, as palavras “estúpidos” e “estupidez” aparecem várias vezes sempre que MMG se refere à administração.

É um documento que merece ser analisado, não somente do ângulo jornalístico, mas sobretudo do ponto de vista comportamental. É uma entrevista de uma pessoa claramente perturbada, convicta de que é a maior (“Eu sou a Manuela Moura Guedes”!) e que se sente perseguida por toda a gente. (Em psiquiatria esse tipo de fenómenos são conhecidos por “ideias delirantes”, de grandeza ou de perseguição).

MMG diz-se perseguida pela administração da TVI; afirma que os accionistas da PRISA são “ignorantes”; considera-se “um alvo a abater”; acusa José Alberto de Carvalho, José Rodrigues dos Santos e Judite de Sousa de fazerem “fretes ao governo” e de serem “cobardes”; acusa o Sindicato dos Jornalistas de pessoas que “nunca fizeram a ponta de um corno na vida”; diz que o programa da RTP 2, Clube de Jornalistas, é uma “porcaria”; provoca a ERC (Entidade Reguladora da Comunicação Social); arrasa Miguel Sousa Tavares e Pacheco Pereira, etc.

E quando o entrevistador lhe pergunta se um pivô de telejornal não deve ser “imparcial”, “equidistante”, “ponderado”, ela responde: “Então metam lá uma boneca insuflável”!

Como é que a uma pessoa que assim “pensa” e assim se comporta, pode ser dado tempo de antena em qualquer televisão minimamente responsável?

Ao contrário do que alguns pretendem fazer crer – e como sublinhou Mário Soares – esta questão não tem nada a ver com liberdade de imprensa ou com a falta dela. Trata-se, simplesmente, de um acto e de uma imperativa decisão administrativa, e de bom senso democrático.

Como é que alguém, ou algum programa, a coberto da liberdade de imprensa, pode impunemente acusar, sem provas, pessoas inocentes? É que a liberdade de imprensa não é um valor absoluto, tem os seus limites, implica também responsabilidades. E quando se pisa esse risco, está tudo caldeirado. Há, no entanto, uma coisa que falta: uma explicação totalmente clara e convincente por parte da administração da TVI, que ainda não foi dada.

Vale também a pena considerar os posicionamentos político-partidários de MMG e do seu marido.

J. E. Moniz tem, desde Mário Soares, um ódio visceral ao PS. Sei do que falo. MMG foi deputada do CDS na AR.Até aqui, nada de especialmente especial.

O que já não está bem – e é criminoso – é que ambos se sirvam de um telejornal para impunemente acusarem pessoas inocentes, sem quaisquer provas, instilando insinuações e induzindo suspeições.

Ainda mais reles é o miserável aproveitamento partidário que, a começar no PSD e em M. F. Leite, e a acabar em Louçã e no BE, está a ser feito. Estes líderes políticos, tal como Paulo Portas e Jerónimo de Sousa, sabem muito bem, que nem Sócrates nem o governo tiveram qualquer influência no caso TVI. Eles sabem isto. Mas Salazar dizia: “O que parece, é”!

E eles aprenderam.

– 1984. Eu era, então, administrador da RTP. Um dia a minha secretária disse-me que uma das apresentadoras tinha urgência em falar comigo: – “Venho pedir-lhe se me deixa ir para a informação, quero ser jornalista”! Perguntei-lhe se tinha algum curso de jornalismo. Não tinha. Perguntei-lhe se, ao menos, tinha alguma experiência jornalística, num jornal, numa rádio… Não tinha. “O que eu quero é ser jornalista”! Percebi que estava perante uma pessoa tão determinada quanto ignorante. E disse-lhe: “Vá falar com o director de informação; se ele a aceitar, eu passo-lhe a guia de marcha e deixo-a ir”. A magricelas conseguiu. Dias depois, na primeira entrevista que fez – no caso, ao presidente do Sporting, João Rocha – a peixeirada foi tão grande que ficou de castigo e sem microfone uma data de tempo.

P.S.

A jovem apresentadora chamava-se Manuela Moura Guedes.

E se eu soubesse o que sei hoje…

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In O Ribatejo Online

" Haiti: Onde Estava Deus ? (2) "

Como se lê no documento da Associação de Teólogos João XXIII, aqui citado na semana passada, a pergunta religiosa "onde está Deus no Haiti?" "não é nem pode ser a primeira". Na tragédia do Haiti, converge um conjunto de dados: uma zona sísmica; a mão agressiva do Homem, que desflorestou o Haiti, explorou sem limites as suas reservas naturais e construiu sem o mínimo de segurança; as condições de extrema precariedade em que os colonizadores deixaram o país, a tradição esclavagista, a corrupção generalizada, a ditadura de Governos exploradores, a distribuição injusta dos recursos... O documento observa, criticamente: tudo se afundou, mas o moderno bairro rico de Pétionville, em Port-au-Prince, foi preservado.

A ordem internacional "está montada sobre a concentração da riqueza em 20% da Humanidade e o desamparo de boa parte dela". Governos corruptos, países ricos que os protegem por causa dos seus próprios interesses, tornam alguns povos e Estados incapazes de defender-se de catástrofes naturais. "Sem esta ordem de coisas, a catástrofe teria sido muito menor." Os haitianos são tão pobres que nem possibilidades tinham de receber e distribuir as ajudas que chegavam ao território. Assim, deve-se culpar "a actual ordem internacional que só pode sustentar-se na base do poder económico, político e militar dos países ricos e a persistente corrupção das elites dirigentes do país".

E Deus? Todos temos de mudar, para que não haja mais "Haitis assolados nem Palestinas massacradas nem Auschwitz nem Hiroshimas", e o Deus de Jesus deve ser "o grande acicate de justiça e solidariedade para todos os que se chamam cristãos".

Mas a pergunta atravessa a história do pensamento, e é particularmente dramática para quem acredita no Deus pessoal e criador, omnipotente e infinitamente bom. Deus quis evitar o mal, mas não pôde: então, não é omnipotente. Pôde, mas não quis: então, não é bom. Pôde e quis: então, donde vem o mal?

Aqui, também é necessário perguntar: donde vem o bem? De qualquer modo, as tentativas de resposta sucederam-se. Santo Agostinho e São Tomás de Aquino argumentaram que o mal não existe em si mesmo, pois é só uma privação no bem. Ou então que Deus não quer o mal, apenas o permite como provação e castigo. Pergunta-se: e as crianças inocentes? É por causa do sofrimento das crianças que Dostoievski, em Os Irmãos Karamazov, faz Ivan dizer que entrega o "bilhete de entrada" no mundo. Em A Peste, de A. Camus, o Dr. Rieux diz ao padre que, diante da criança que morre, não pode aceitar Deus.

À famosa Teodiceia (justificação de Deus), de Leibniz, onde se defende que este é o melhor dos mundos possíveis, Voltaire contrapôs ironicamente o seu Cândido e o "Poema sobre o desastre de Lisboa", por causa do terramoto. A. Schopenhauer escreverá que este é o pior dos mundos possíveis.

Hegel dialectizou o sofrimento em Deus: a negatividade é um momento da história de Deus. Um pouco na esteira hegeliana, alguns teólogos falaram de um "Deus sofredor" e, face ao horror do Holocausto, o filósofo judeu Hans Jonas defendeu a impotência de Deus: em Auschwitz, Deus calou-se, "não porque não quis, mas porque não pôde". Pergunta-se: é claro que o poder e a bondade de Deus não podem ser concebidos ao modo humano, mas que ajuda traz um Deus impotente? Deus solidariza-se com o ser humano na cruz de Cristo.

O teólogo A. Torres Queiruga pergunta se não é contraditório pretender pensar um mundo finito sem mal. Face ao mal, que atinge crentes e não crentes, todos têm de viver e justificar a sua fé. E Hans Küng, que reconhece que o mal parece ser "a rocha do ateísmo", pergunta, com razão, na sua última obra Was ich glaube (A minha fé): "O ateísmo explica melhor o mundo" do que a fé em Deus? "No sofrimento inocente, incompreensível, sem sentido, a descrença pode consolar? Como se a razão descrente não encontrasse também neste sofrimento o seu limite! Não, o antiteólogo não está aqui de modo nenhum melhor do que o teólogo."

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Prof. Anselmo Borges *** in Diário de Notícias Online

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Nefertiti não foi a mãe de Tutankamon

Os olhos da Arqueologia mundial estiveram ontem de manhã fixos sobre três cadáveres mumificados, no Museo do Cairo. Ali, perante o olhar de mais de uma centena de jornalistas e três vitrinas cobertas por lençóis, o dr. Zahi Hawass, Secretário do Conselho Superior de Antiguidades Egípcio, apresentou os resultados das análises de ADN do menino de ouro, o Faraó da XVIII dinastia, Tutankamon [...].
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Ler todo o artigo, em castelhano, AQUI, no jornal El País

"Haiti. Onde estava Deus ?"

Não há palavras suficientes e sobretudo suficientemente fortes para descrever a tragédia do Haiti: mais de duzentos mil mortos, mais de um milhão de desalojados, fome, pilhagens, órfãos sem conta, rapto de crianças, o desabar de um resto de Estado, o buraco negro e roto do futuro... O horror pura e simplesmente!

E muitos, alto ou lá no íntimo, gritaram: Onde estava Deus, onde está Deus no Haiti? A pergunta constantemente repetida ao longo da História: Onde estava Deus no Gólgota?, onde estava Deus no terramoto de Lisboa, no tsunami da Indonésia?, onde estava Deus em Auschwitz?...

Este clamor acompanha a história da filosofia, desde que Epicuro por volta do ano 300 a. C. e, depois, Pierre Bayle, no iluminismo, atenazaram o pensamento neste domínio. Deus deve ser omnipotente e infinitamente bom. Assim, como explicar o mal? Ou Deus pôde evitá-lo e não quis: então, não é infinitamente bom. Ou quis, mas não pôde: então, não é omnipotente. Ou não pôde nem quis: então, não é Deus. Ou pôde e quis: então, porquê o mal?

As tentativas de resposta sucederam-se. Leibniz inventou inclusivamente a palavra teodiceia, que significa precisamente "justificação de Deus", no Essai de théodicée (Ensaio de teodiceia). Aí, argumentava que este mundo não é óptimo nem perfeito, mas, sendo Deus infinitamente bom, omnipotente e omnisciente, é o melhor dos mundos possíveis. O ensaio foi publicado em 1710, tornando-se quase um manual da Europa culta. Mas bastaram 45 anos - o terramoto de Lisboa foi em 1755 - para que Voltaire ironizasse sobre ele no Cândido ou o Optimismo. E Kant, em 1791, escreveu um pequeno tratado com o título Über das Misslingen aller philosophischen Versuche in der Theodizee (Sobre o fracasso de todas as tentativas filosóficas na teodiceia).

Como pode, de facto, a razão humana finita justificar Deus perante o mal? Aliás, constituiria crueldade cínica avançar para junto de quem sofre os horrores do mal com explicações teóricas. De qualquer modo, frente ao mal, o crente percebe que Deus não é omnipotente nem infinitamente bom ao modo do pensar humano e que afinal a fé é mais um combate do que uma consolação e que esse combate tem a sua prova na praxis solidária com quem sofre.

Num documento sobre a tragédia do Haiti, a Associação de Teólogos João XXIII lamenta que se continue à procura do Deus-relojoeiro de Newton, ajustando a maquinaria do universo, e que não se acabe com o pedido de milagres naturais a Deus - que mande chuva, que evite os tsunamis, que faça prodígios -, um Deus-providência ao nosso serviço, um superpai que nos proteja da natureza e das suas leis, esquecendo que "Deus não interveio para evitar o Gólgota nem Auschwitz nem evitou pestes, fomes e outros desastres".

Em que Deus acreditam então? "Cremos que o mal é também um mistério que dificilmente encaixa na imagem de um Deus omnipotente e misericordioso, sobretudo quando se traduz em sofrimento dos pobres e inocentes." Crêem no Deus que não tem ciúmes do ser humano e lhe deu capacidade criadora - talvez a ciência possa vir a prever os terramotos - e responsabilidade no mundo. Deus defende os pobres e oprimidos e abençoa os que trabalham pela justiça e pela paz.

"Deus não é neutral, está no Haiti nas vítimas e em todas as pessoas que ali trabalham solidariamente", identifica-se com as vítimas, fazendo delas o critério do juízo divino: "Destes-me de comer, de beber, de vestir..." Ninguém tem o direito de falar em seu nome, "só elas e quem partilha os seus sofrimentos. Mas podemos e devemos todos tornar-nos presentes no Haiti, atender às necessidades urgentes dos haitianos e colaborar na sua reconstrução".

Mas não basta. "O Haiti personifica hoje os povos crucificados"; temos todos de mudar, e a referência ao Deus de Jesus há-de ser "o grande acicate de justiça e solidariedade" num mundo cuja ordem internacional "está montada sobre a concentração da riqueza em 20% da humanidade e o desamparo de boa parte dela".

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Prof. Anselmo Borges *** In Diário de Notícias de 13 de Fevereiro de 2010

TutanKamon Morreu de Malária

( Foto DN )
Estudo mostrou que o jovem faraó sofria de uma doença que lhe destruía os tecidos ósseos. Aos 19 anos, acabou por não resistir a um episódio de malária Tutankamon, o rapaz-faraó cuja causa de morte, aos 19 anos, estava envolta em mistério, terá afinal morrido de malária e de uma doença óssea, a doença de Köhler, que lhe provocou destruição dos tecidos. Este é o resultado de um estudo genético realizado em 16 múmias daquela época, entre as quais a do próprio Tutankamon, e que será publicado hoje na revista científica JAMA. O jovem faraó culminou uma das mais poderosas dinastias do Antigo Egipto, a do Império Novo (a décima oitava), que reinou na região há mais de três mil anos, entre 1550 e 1295 a.C. Tutankamon foi rei durante nove anos e morreu em 1324 a.C. "Sabia-se muito pouco sobre Tutankamon e os seus antepassados antes de Howard Carter ter descoberto o seu túmulo intacto, em 1922, no Vale dos Reis. Foi a descoberta da sua múmia e dos preciosos tesouros sepultados com ela, em conjunto com outras descobertas arqueológicas ao longo do século XX [sobre o Antigo Egipto] que forneceram informação importante sobre a vida do rapaz-faraó e da sua família", escrevem os autores, um grupo internacional de investigadores, liderado por Zahi Hawass, do Conselho de Antiguidades do Egipto, no Cairo. Para determinar a causa de morte de Tutankamon e investigar a possibilidade de doenças hereditárias na família real, os investigadores usaram a radiologia e a análise genética, que aplicaram num total de 16 múmias, das quais 11 (incluindo a de Tutankamon) pertenciam à mesma família. As outras cinco eram de reis do início do Novo Império, entre 1550 e 1479 a.C., e não pertenciam à linhagem de Tutankamon. Os trabalhos decorreram entre Setembro de 2007 e Outubro de 2009 e, além de terem determinado que Tutankamon sofria de malária e de malformações ósseas graves, permitiram identificar também uma das múmias como Akenaton, o pai do jovem faraó, e marido da lendária Nefertiti. As duas múmias de Akenaton e Tutankamon partilham inúmeras características morfológicas únicas, bem como o mesmo grupo sanguíneo. Outra das múmias estudadas foi identificada como Tye, a mãe de Akenaton e avó de Tutankamon. "Os resultados levaram-nos a concluir que uma circulação sanguínea insuficiente nos tecidos ósseos, que fragilizou ou destruiu uma parte deles, combinada com a malária, foi a causa mais provável da morte de Tutankamon", explicou Zahi Hawass. O estudo mostrou também que o jovem faraó havia sofrido uma fractura pouco antes da sua morte. A mesma fragilidade óssea foi identificada noutros membros da família que apresentavam malformações idênticas.
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