segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Será Culpa dos Árabes ?

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Amin Malouf é Libanês. Nasceu no Líbano em 1949 mas vive em Paris, França, desde 1976. Jornalista e repórter, já esteve em trabalho em dezenas de países. É autor de diversos livros, entre eles, o que tenho em mãos e que estou a ler, "Um mundo sem Regras", e outros onde ressaltam as temáticas relacionadas com a realidade do Islão como "As Cruzadas vistas pelos Árabes". É por tudo isto que Amin Malouf sabe do que fala quando fala destes temas e da sua correlação com o Mundo Ocidental.
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Na Europa tendemos a diabolizar tudo o que se passa para lá do mediterrâneo, mesmo se não compreendemos muito bem o que se passa e porquê se passa. Consumimos assim toda a informação sem possibilidade de efectuar qualquer triagem que a possa coar e descodificar. É por isso que, depois, ficamos muito admirados com os recentes acontecimentos no mundo árabe. As ditaduras, os tiranos e os escroques que se instalaram no poder nos países do Islão e utilizam a exploração vil e a repressão criminosa como modo de domínio, não explicam tudo o que observamos. Talvez devamos, se não compreendemos tudo, pedir que nos expliquem, e de preferência a quem não fale de cátedra ou com a ligeireza do "directo" em cima do acontecimento, ao nível do chão, mas a quem tenha uma visão detalhada e um conhecimento, de facto, do que está a suceder nos países árabes na actualidade e que tem mais a ver connosco do que imaginamos.
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O livro de Amin Malouf, que estou a ler, foi editado em Português, em 2009, pela Difel, logo com uma distância de mais ou menos dois anos das actuais revoltas populares em diversos países do médio oriente, e é por isso que se torna mais interessante olhar o que já mesmo antes de 2009 tinha dito o escritor na edição em inglês.
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"O passado, e muitas vezes também a religião. O Islão é um santuário para a identidade como para a dignidade. A convicção de possuir a verdadeira fé, de estar prometido a um mundo melhor, enquanto os ocidentais estariam no desvario, atenua a vergonha e a dor de ser um pária na terra, um perdedor, um eterno vencido. Hoje, este é precisamente um dos raros domínios, talvez o único, onde a população ainda guarda o sentimento de ser abençoada entre todas as nações, de ser "eleita" pelo Criador, e não maldita e rejeitada.
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À medida que a situação dos árabes se deteriora no terreno, à medida que os seus exércitos se deixam derrotar, que os seus territórios se deixam ocupar, que as suas populações se deixam perseguir e humilhar, que os seu adversários se mostram todo-poderosos e arrogantes, a religião que deram ao mundo torna-se o último território onde a sua auto-estima sobrevive. Abandoná-la é renunciar à sua principal contribuição para a História universal, de certa forma é renunciar à sua razão de ser. Por isso, a questão que se coloca às sociedades muçulmanas nesta idade da dor não é tanto a da relação entre religião e política, mas da relação entre religião e história, entre religião e identidade, entre religião e dignidade. O modo como a religião é vivida nos países do Islão reflecte o impasse histórico em que os povos se encontram; se sairem dele poderão encontrar os versículos que convêm à democracia, à modernidade, ao laicismo, à coexistência; ao primado do saber, à glorificação da vida; a sua relação com a letra dos textos tornar-se-á menos exigente, menos fria, menos rígida. Mas seria ilusório esperar uma mudança apenas pela virtude de uma releitura. Perdoem-me se o repito mais uma vez: o problema não reside nos textos sagrados e a solução também não.
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Não há qualquer dúvida de que este impasse histórico do mundo muçulmano é um dos sintomas mais manifestos desta regressão para a qual toda a humanidade se dirige de olhos vendados. Será culpa dos árabes, dos muçulmanos, e da maneira como eles vivem a religião ? Em parte, sim. Não será também culpa dos ocidentais e da maneira como eles geriram ao longo dos séculos as suas relações com os outros povos ? Sim, em parte.[...] Será já demasiado tarde para se estabelecer um compromisso histórico que tenha em conta simultaneamente a tragédia do povo judeu, a tragédia do povo palestino, a tragédia do mundo muçulmano, a tragédia dos cristãos do Oriente e também o impasse para onde o Ocidente se esgueirou ? [...]
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Como vimos, Malouf, põe o dedo na ferida e anticipa muito daquilo que hoje nos chega. Infelizmente, creio que, de um lado e de outro do mediterrâneo, os povos irão continuar de costas voltadas enquanto o ódio cresce; e a planta do ódio, como vimos, alimenta-se da sua própria semente. Cristãos perseguidos e mortos no Oriente, muçulmanos marginalizados e hostilizados no Ocidente. Democracias formais de um lado e ditaduras de outro mostram-se incapazes de construir pontes credíveis que se espraiem para além do petróleo e do armamento.
+ Enquanto isso, a figueira continua a brotar... + + + + + + + + + + + + + + + + Jacinto Lourenço

Lisboa à Noite vista a 360 Km de Altitude

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Astronauta da ESA Paolo Nespoli é fotógrafo nas poucas horas vagas que tem a bordo da estação espacial e captou as imagens.
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+ Nos intervalos das experiências científicas e das tarefas de manutenção que sempre há a bordo da estação espacial internacional (ISS, na sigla inglesa), o astronauta Paolo Nespoli, há dois meses ali em missão, dá largas à sua paixão pela fotografia. Instala-se no módulo europeu Cupola, que tem uma vista soberba sobre a Terra, e vai fotografando o que vê lá de cima. Aqui está Lisboa à noite, captada pela sua objectiva. A ponte Vasco da Gama é uma linha de luz, o rio um túnel escuro e Lisboa uma bossa cheia de pontos luminosos. Portugal e Espanha, no interior do recorte preciso da Península Ibérica, competem nos focos de luz que deles emanam.
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Na sua viagem orbital em torno da Terra, a uma altitude de 360 quilómetros, ISS é o ponto ideal para captar esta visão do planeta. Com a nave de carga europeia desde há dois dias acoplada à estação e prestes a receber a visita do vaivém da NASA Discovery, ontem lançado, está prestes a tornar-se, ainda que temporariamente, a maior instalação espacial de sempre.
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sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Arquivo Pessoal do Imperador D. Pedro II, do Brasil, Candidato a Património Mundial da Humanidade

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... A notícia de tal projecto foi divulgada na versão on-line do jornal Globo, transcrita abaixo com algumas supressões.
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«A visão do mundo por meio de relatos de um célebre viajante, Dom Pedro II, compõe um conjunto com 871 documentos da Casa Imperial do Brasil, que recebeu no início do mês o Registro Nacional do Comitê do Programa Memória do Mundo, concedido pela Unesco. A nomeação é o primeiro passo para que uma obra possa se tornar Patrimônio Histórico da Humanidade. Para isso, pesquisadores trabalham no Museu Imperial, em Petrópolis, na análise de outros 50 mil documentos deixados pelo monarca, à procura de mais relatos referentes às suas jornadas.
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— Para se tornar Patrimônio Histórico da Humanidade, a obra deve ter um tema que seja relevante para diferentes partes do mundo. Dom Pedro viajou pelos quatro continentes, em dezenas de países. De cada lugar ele fez um relato minucioso. Por isso, esperamos ser contemplados em 2012 com o título — diz a historiadora Neibe Machado da Costa, responsável pelo arquivo da Casa Imperial do Brasil. [...]. Depois de concluída a leitura do restante dos documentos, a Casa Imperial do Brasil planeja lançar publicações digitais e convencionais e catálogos educativos. Também está prevista uma grande exposição para 2014. [...].
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Um dos muitos diários do Imperador D. Pedro II (1825-1891)
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Viajar era, sem dúvida, uma paixão para Dom Pedro II. Num de seus diários, ele afirma que preferia não ter sido imperador para poder se dedicar mais ao turismo. O trecho diz: “Nasci para consagrar-me às letras e às ciências, e, ocupar posição política, preferiria a de presente da República ou ministro à de imperador. Se ao menos meu pai imperasse ainda estaria eu há 11 anos com assento no Senado e teria viajado pelo mundo.”
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Por meio dos 871 documentos já analisados pelas pesquisadoras da Casa Imperial do Brasil, sabe-se que ele passou por países de culturas completamente distintas, como o Canadá, a Rússia, a Turquia, a Alemanha e a Itália.
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— Temos documentos de pessoas que influenciaram Dom Pedro a conhecer determinado país. Ele tinha grandes amigos nos EUA, por exemplo. O que queremos é demonstrar as interligações pessoais e diplomáticas do imperador — explica a historiadora Neibe Machado da Costa, responsável pelo arquivo da casa.
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Uma de suas viagens mais marcantes ocorreu em 1876, justamente para os EUA, para onde ele foi como convidado de honra para a Exposição Universal, na Filadélfia, Pensilvânia. Foi lá que o imperador conheceu o telefone e se encantou, trazendo-o para o Brasil, que foi o segundo país a ter a invenção. Como presente aos anfitriões, ele levou um hino feito pelo maestro Carlos Gomes especialmente para os americanos. Em outra correspondência, com Guilherme Capanema, o Barão de Capanema, o imperador pede que ele compre três casas em Viena, na Áustria, onde pretendia montar o Museu da Cultura Brasileira. O projeto acabou não se concretizando.
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O Brasil não ficou de fora do roteiro de Dom Pedro II. Ele passou por diversas cidades do país e fez relatos detalhados de como era a vida nesses lugares. Um costume que tinha era o de, em cada município, visitar a Câmara, a cadeia e a escola. Em uma de suas viagens ao Espírito Santo, ele teve contato com os índios puris. Na ocasião, fez um pequeno glossário traduzindo termos do seu dialeto para o português. [...].
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— Os documentos são referentes a 50 anos da vida do imperador. Ainda estamos começando, mas a expectativa é que até 2012 o trabalho esteja concluído para que possamos divulgar essas passagens da vida dessa personalidade da História brasileira — conclui a pesquisadora.[...]»
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Navegação...

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Não se pode navegar ancorado. Se o barco for à vela, temos que puxar a âncora, içar as velas, e deixar que o vento impulsione nossa navegação. +
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... A ordem é avançar, cumprir a nossa vocação. Porém, para isso, é preciso esquecer, desvencilhar-se do que passou, e prosseguir para o alvo, “pelo prémio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus” (Fp.3:14).
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Repare nisto: a vocação é soberana. Já nascemos com ela, e ela nos acompanhará até ao último minuto. Em Romanos 11:29, Paulo diz que os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis.
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Lutar contra isso é perda de tempo. Não se trata de algo que recebemos ao nos converter. É como aquele item que já vem de fábrica. O conselho de Paulo é que “cada um fique na vocação em que foi chamado” (1 Co.7:20). Ninguém terá sua vocação alterada ao se converter a Cristo.
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Mas não basta insistir em nossa vocação, é necessário que andemos de maneira digna da vocação com que fomos chamados (Ef.4:1). Temos que honrar nossa chamada, e buscar corresponder às expectativas de quem nos vocacionou.
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E finalmente, temos que procurar “fazer cada vez mais firme” a nossa vocação e eleição, para que nunca tropecemos (2 Pe.1:10).
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O que faz muita gente titubear e tropeçar é a falta de certeza daquilo que quer.
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A vocação não é fruto de nossas escolhas. É aquilo para o qual Deus nos escolheu. Portanto, trata-se de eleição divina e soberana. E enquanto não a cumprirmos, não nos sentiremos satisfeitos.
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A única maneira de nos sentirmos satisfeitos é actuando naquilo para o qual Deus nos chamou.
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Não existem vocações sagradas e outras seculares ou profanas. Todas as vocações são divinas. Se Deus te chamou para o ministério, Ele mesmo lhe habilitará para exercê-lo. Mas se Ele te chamou para actuar em outro campo, seja qual for, Ele também te capacitará. Porém, para tornar mais firme nossa vocação, devemos buscar aprimorar-nos naquilo que fazemos, aplicando-nos, estudando, esmerando-nos no afã de alcançarmos a excelência.
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Deixe-se atrair para o futuro. Abrace o desafio que lhe está proposto, e siga o seu destino, sem se distrair com nada, sem olhar para direita ou para esquerda.
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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Jerusalém of Gold

Espiritualidade e Ética

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A espiritualidade cristã não é mecânica, do tipo faça isso que acontece aquilo. A espiritualidade cristã não é mágica, do tipo manipulação de poderes espirituais. A espiritualidade cristã é ética: amar o próximo com/no amor de Cristo.
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Ed René Kivitz
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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

O Real Hospital de Todos os Santos: do Terramoto à Demolição (1755 - 1775)

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O Hospital Real de Todos os Santos (HRTS) cuja edificação se iniciou em 1492, sofreu, tal como outros edifícios de Lisboa, graves danos causados pelo terramoto de 1755 e subsequente incêndio, tão ou mais destrutivo que o próprio terramoto. Ocupava toda a actual área da praça D. João I (Praça da Figueira), tendo por limites o Convento de S. Domingos a norte, a rua da Betesga a sul, rua do Borratém a nascente e a praça do Rossio a poente. Possivelmente no dia 1 de Novembro de 1755 não estaria a funcionar em pleno, em virtude de um outro grande incêndio ocorrido em Agosto de 1750, que lhe destruiu 11 enfermarias e quase todas as áreas adjacentes [1]. O terramoto e o incêndio foram arrasadores para a maioria dos edifícios de Lisboa, deixando-os numa espécie de “grau zero”. Os poucos testemunhos existentes sobre o HRTS sugerem que ficou bastante danificado. Ainda assim não se justifica falar em destruição total, porque através das escavações arqueológicas dirigidas pela Dr.ª Irisalva Moita em 1960 é perceptível a sobrevivência de algumas secções do hospital anteriores ao terramoto de 1755. Os trabalhos arqueológicos, na zona noroeste da praça do Rossio, identificaram parte da famosa arcaria da fachada principal. Puseram igualmente a descoberto o claustro noroeste e toda a área do piso térreo sob a enfermaria de Santa Clara, bem como a Ermida de Nossa Senhora do Amparo, a enfermaria dos entrevados e incuráveis e mais alguns compartimentos não identificados [2].
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terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

A Situação actual no Médio Oriente...

+ + Recebido de Jorge Rosa

A Escola de Outros Tempos - 1

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Por mim, prefiro a Arte Original de Miguel Ângelo...

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Uma pintura com o rosto de George Clooney sobre o corpo de Adão, na célebre obra de Miguel Ângelo estampada no tecto da Capela Sistina, está a centrar todas as atenções nas ruas de Cincinnati, em Ohio, Estados Unidos. A montagem está exposta num estúdio de arte da cidade americana com o nome de God's Gift To Women[...]
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In Diário de Notícias de 21 de Fevereiro de 2011

A Rã e o Escorpião

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No meio do lago, o escorpião ferrou o seu veneno mortal na rã, que lhe dava boleia. O batráquio, em agonia, ainda disse: "Mas não vês que, assim, afogas-te e morres comigo?" E o escorpião replicou. "Que queres? É da minha natureza..." Na Europa, o gordo escorpião alemão vai picando rãs indefesas.[...] + O nosso escorpião, que tanto critica o consumismo dos outros, esquece-se de que, entre eles, se contam importantes clientes dos seus produtos. Por exemplo, o défice português foi agravado pela compra de submarinos... alemães! Ou seja, a Alemanha é o principal beneficiário da "maldita moeda única"! Afinal, como terminará a fábula? ... + + +
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+ Ler Texto integral AQUI na Revista Visão Online

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Uma Fogueira de Vaidades para queimar Maria Rattazzi

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De todos os livros e relatos que se escreveram sobre o nosso país, o texto de Maria Rattazzi - Portugal de Relance -é o principal candidato ao estatuto de mais polémico. "Prémio" a que não será alheio o tom, a displicência, o à-vontade e a irreverência com que a princesa tratou um tema tão caro aos portugueses, a sua própria pátria. Não é que o volume fosse apenas pródigo em falsidades - como o próprio título original parecia indiciar, um vol d'oiseau sobre Portugal - mas o que lá estava impresso provocou uma verdadeira fogueira de vaidades, com repercussão raramente vista no nosso meio cultural.
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A reacção negativa com que foi recebida a prosa da visitante ultrapassou em muito a habitual hospitalidade que é costume verificar-se no confronto com os regulares contributos dos estrangeiros que nos visitam. Neste caso, não existiram opiniões favoráveis, nem defensores para uma dama cujo comportamento era tido como bem leviano. Se a senhora não foi vítima de uma cena de pancadaria só se deve a um mínimo de pudor por parte dos homens (e até mulheres!) de oitocentos que tiveram vontade de exercer uma reparação pouco intelectual .
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Contra a autora levantaram-se tantos protestos e antipatias que ela nem teve coragem de dedicar o trabalho a alguém. "A quem hei-de dedicá-lo?", perguntava no prefácio... E, respondia "Oferecê-lo, como homenagem afectuosa, a qualquer dos meus amigos, seria falta de generosidade, equivaleria a condenar um inocente aos transes afrontosos de uma vendetta implacável". Por isso, decide oferecer "aos meus inimigos" a "humilde dedicatória". Inimigos não lhe faltariam após a primeira impressão em português - e uma segunda foi exigida pouco tempo depois. Edições que se sucederam à original publicada em francês, da casa editora de A. Degorcet-Cadeau sob o título atrás referido e com um subtítulo Portugais et Portugaises, numa capa onde se lia como autora duas palavras Princesa Rattazzi.
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As suas visitas a Portugal iniciaram-se em 1876. Três anos depois regressou, tendo continuado a "ver" e a "tomar notas" sobre o nosso país, convivido com muitas pessoas da alta sociedade, trocado opiniões com alguns representantes do panorama intelectual português e redigindo um volume em cujas observações nada receava comentar e, em algum momento, poupava os sentimentos dos visados.
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Essa coragem opinativa torna-se mesmo o aspecto mais interesante deste livro. Rattazzi tinha um espírito arguto, observador e crítico e, ao serem-lhe abertas todas as portas dos salões lusos, possuía um abundante manancial de informações para perorar e a exigir respostas inflamadas. No correr do seu texto não faltavam alfinetadas a uma sociedade parola e própria de uma periferia da Europa - que já nem podia viver das glórias das descobertas de 1500. Não era mentira quando afirmava que "o êxito do meu livro estava dependente da fidelidade do desenho típico do país que me propus descrever, sem o que não chegaria a pintar senão um quadro de um azul monótono e deslavado, com um céu irisado, recamado de lantejoulas", nem era falso que o resultado da sua "reportagem" fora antecedido de muitos comportamentos de portugueses cordatos que trocaram a sua pele de cordeiro pela de lobo ao ler tal Vol d'Oiseau, como o irado Ramalho Ortigão, que deixara na princesa "recordação agradável sugerida pela encantadora carta, deliciosamente escrita, que me endereçou na minha primeira visita".
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Retrato curioso e actual, de onde nem as folhas deste Diário de Notícias de então saem perfumadas...
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João Céu e Silva in Diário de Notícias de 05 de Fevereiro de 2005

Visite a Capela Sistina

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Viaje numa visita virtual de 360º à Capela Sistina clicando AQUI e utilizando o rato do computador para se movimentar.
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sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Portugal, Século XIX, pelo Olhar de Maria Rattazzi

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"O povo português, além da bondade de coração, da brandura de costumes, da alegria, da lealdade e do bom humor, possui ainda duas outras qualidades: a docilidade e a paciência. Não é possível que exista gente mais tranquila, mais dócil, mais resignada. Medidas arbitrárias, actos violentos, deixam-no frio, não perturbando de maneira alguma a sua inalterável placidez. É o estoicismo e o fanatismo combinados e elevados ao mais subido grau." +
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"Creio que não existe nenhum país no mundo onde haja mais cavaleiros sem cavalos, barões sem baronias, condes sem condados, marqueses e duques sem marquesados e sem ducados, do que em Portugal."
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Maria Rattazzi, in "Portugal de Relance" - (1879)

Tesouro em Vasos de Barro

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Um cristão não tem que andar sempre a sorrir. Numa leitura, ainda que breve, da biografia do Apóstolo Paulo descrita na segunda carta aos Coríntios (1:8-9; 4:7-10; 6:4-10; 12:7-10), percebe-se facilmente que o grande mensageiro da graça de Deus era um homem comum. Um homem cheio de tribulações, tristezas, angústias, lutas, oposições e mesmo contradições. Na sua carta à Igreja em Roma, ele partilha que tinha "grande tristeza e contínua dor no meu coração." (Romanos 9:2)
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Paulo era um homem que vivia aquilo que Watchman Nee designou por "paradoxo inerente": «ser um cristão é ser uma pessoa em quem há uma inconsistência fundamental. O cristão é aquele quem existe um paradoxo inerente. Esse paradoxo vem de Deus. Algumas pessoas pensam que no viver cristão só existe o tesouro e não o vaso de barro.» O Apóstolo Paulo tinha consciência clara da sua própria fragilidade e fraqueza e que o poder e a excelência eram de Deus. E os cristãos de hoje? Que dizer daqueles que enganam o povo dizendo que a vida cristã é um contínuo mar de facilidades, um jorrar ininterrupto de conquistas, vitórias, saúde e de prosperidade financeira?
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A verdade é que um cristão, como qualquer outra pessoa, também atravessa na sua vida aflições, tristezas, angústias inconsistências e mesmo dúvidas. Ele sabe que não está sozinho. Deus está no seu caminho. Mas estas coisas sucedem, para que se lembre que precisa confiar mais no Tesouro-Deus, e menos em si próprio (2ªCoríntios 1:9).
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O poder, a força e a glória pertencem somente a Deus. O único tesouro é Ele. Nós, somos apenas barro. Somos pó, que se pode tornar valioso na suas divinas mãos. Pela excelência do seu grande poder e misericórdia.
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“Temos, porém, esse tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós.” (2ª Coríntios 4:7-10).
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quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

No Oceano Todo, por Todo o Mundo...

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Poucas vezes se lê que os gregos nem latinos navegassem fora do seu mar mediterrâneo, de que somente eram capazes os seus navios: os nossos agora são capazes também do oceano todo por todo o mundo, ou a maior parte dele. O qual os nossos marinheiros em nossos dias descobriram, e os seus nunca conheceram. Maior louvor se deve nisto aos nossos, que aos gregos e aos latinos: porque mais têm feito pelas navegações em oitenta anos, do que eles fizeram em dois mil que reinaram. E mais perfeições têm acrescentado a esta arte, do que nunca eles fizeram.
+ + + + + + ( Mendonça, Livro da Fábrica das Naus, pg. 154, 1898_ citado em História de Portugal , edição Circulo Leitores,Vol. III, pg.399, de José Mattoso )

O Amor de Deus

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Deus ama-nos não por aquilo que somos ou que fizemos, mas por aquilo que Deus é. A graça flui para todos aqueles que a aceitam. Jesus perdoou uma adúltera, um ladrão na cruz, um discípulo que o negou, mesmo conhecendo-o. A graça é absoluta e abrange todas as coisas. Ela estende-se inclusive para as pessoas que pregaram Jesus na cruz: "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem" está entre as últimas palavras que Ele disse aqui na terra (Lucas 23:34).
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(Philip Yancey, Alma sobrevivente, Mundo Cristão, Pg. 152)

O que não é o Cristianismo

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"O cristianismo não é primariamente um sistema ético, um sistema de ritual, um sistema social, ou um sistema eclesiástico - ele é uma pessoa, ele é Jesus Cristo, e ser um cristão é conhecer a Jesus, é segui-Lo e acreditar nEle." + + +
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John Stott

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Os custos da História...

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"Por um preço terrível, Portugal abriu as portas para um mundo mais vasto, que não podia dominar, nem controlar; com a habitual malícia da história, foi ultrapassado e deixaram-no moribundo, como um reformado excluído das paradas do mundo, possuindo o suficiente para sobreviver, mas demasiado pouco para atingir a glória. (...) Ainda assim, o seu nome está indelevelmente escrito na história mundial: um feito extraordinário para um país tão pequeno e tão pobre."
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( J. H. Plumb, na introdução de "O império marítimo português (1415-1825)", de C. R. Boxer )

A Sobrevivência de Portugal...

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"A epopeia planetária deste pequeno povo instalado na orla marítima ocidental da Península Ibérica não pára de nos espantar. A própria sobrevivência desta nação e deste Estado, que resistiram à unidade da "Hispânia", marcada por uma forte individualidade geográfica e levada a bom termo pelos castelhanos, não é menos surpreendente."
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( Jean François Labourdette, in "História de Portugal" )

Não Esquecer o Mais Importante...

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Conta a lenda, que certa vez uma mulher pobre com uma criança ao colo, ao passar diante de uma caverna, escutou uma voz misteriosa que lá de dentro dizia: "Entre e apanhe tudo o que você desejar, mas não esqueça o principal. Lembre-se porém de uma coisa: depois de você sair, a porta se fechará para sempre! Portanto, aproveite a oportunidade, mas não esqueça o principal..." A mulher entrou na caverna, e lá encontrou muitas riquezas. Fascinada pelo ouro e pelas jóias, pôs a criança no chão e começou a juntar ansiosamente tudo o que podia no seu avental. A voz misteriosa então, falou novamente: "Você só tem oito minutos." Esgotados os oito minutos, a mulher carregada de ouro e pedras preciosas, correu para fora da caverna e a porta se fechou... Lembrou-se então, que a criança ficara lá dentro e que a porta estava fechada para sempre! A riqueza durou pouco, e o desespero durou para toda a vida. Pois é, o mesmo acontece às vezes connosco. Temos muitos anos para vivermos neste mundo e uma voz sempre nos adverte: "Não esqueça o principal!" E o principal são os valores espirituais, a oração,a vigilância, a família, os amigos, a vida! Mas a ganância, a riqueza, os prazeres materiais nos fascinam tanto, que o principal vai ficando sempre de lado... Assim, esgotamos o nosso tempo aqui e deixamos de lado o essencial: “Os tesouros da alma”. [...] +
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terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Pessoas Perfeitas não São Confiáveis

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Sem transparência, sem confissão, não é possível experimentar a plenitude da comunhão, porque comunhão implica aceitação e quando eu não sou verdadeiro, inteiro diante do outro, o outro não me aceitará, porque nesse caso, a aceitação se torna uma impossibilidade; o máximo que o outro poderá fazer, enquanto me esforço para parecer ser o que de facto não sou, é aceitar aquilo que eu quero parecer ser.
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Só quem se expõe sabe o que é ser amado. Apenas quem se expressa com autenticidade pode conhecer a genuína experiência de ser aceite. Se eu me escondo, me disfarço, dissimulo, me protejo, no fundo sempre saberei que o amor que porventura alguém me dedique é, na verdade, dirigido a uma outra pessoa, virtual, ilusória, falsa, inexistente.
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Outra consequência da nossa resistência a sermos verdadeiros e transparentes, mesmo que isto implique expor facetas do nosso carácter, do nosso temperamento e da nossa história, das quais não nos orgulhamos, é que adoecemos. Adoecemos na alma, ficamos cansados, esgotados mesmo, perdemos a alegria, o prazer de viver, de conviver, tamanha a energia dispensada para parecer o que não somos, tamanho o esforço mental exigido para forjarmos uma atitude, um tom de voz, uma expressão, um sorriso, tamanha a fortaleza que precisamos erguer e defender para manter fora do alcance e da vista dos outros e, portanto, nas trevas, aquilo que, julgamos, seria motivo de nos rejeitarem, desprezarem e deixarem de confiar em nós.
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Esquecemos que pessoas perfeitas não são confiáveis; não são confiáveis simplesmente porque não existem. Verdadeiramente atraentes são as pessoas perdoadas. Tornam-se atraentes por terem a leveza de quem se libertou da “opressão da opinião humana”, como diz Dallas Willard, atraentes por estarem livres do pecado do orgulho, atraentes por causa da alegria de simplesmente ser, atraentes porque livres do medo que acua, intimida e gera agressividade, atraentes pois, na medida em que simplesmente são, permitem que os outros simplesmente sejam.
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Fonte: Claudio Manhães***Via Laion Monteiro

A Doçura...

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Existem pessoas como a cana: mesmo postas na moenda, reduzidas ao bagaço, só sabem dar doçura.
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( Dom Hélder Câmara )
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segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Uma Questão Esclarecedora...

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Quem é que já ouviu falar de um marxista que no leito de morte tenha pedido que lhe fosse lido O Capital?
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( Stephen Travis )
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" A Importância da Oração"

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"Teu desejo é a tua oração; se o desejo é contínuo, também a oração é contínua. Não foi em vão que o Apóstolo disse: Orai sem cessar (I Ts. 5.17). Ainda que faças qualquer coisa, se desejas aquele repouso do Sábado eterno, não cesses de orar. Se não queres cessar de orar, não cesses de desejar."
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Agostinho de Hipona (354-430 d.C)
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sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Good Bye Mubarak !!

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Fonte: Pavablog

Flávio Josefo : Colaboracionista de Roma ou Patriota Judeu ?

...Observando a vida de Josefo, podemos perceber facilmente o seu comprometimento, não apenas com a cultura greco-romana que enquadrava o Mediterrâneo Oriental no séc. I da era cristã, mas também com o próprio establishment político, tanto em Roma como na Judeia. A sua acção limitada, apesar de consequente, durante a grande revolta dos Judeus, iniciada em 66 d.C., mostra-nos isso mesmo, como veremos adiante. Com efeito, a acção e o trabalho historiográfico de Josefo desenrola-se em duas frentes. Se, por um lado, procura comunicar com o mundo greco-romano e helenístico oriental em que se integrou, e que dominava a civilização do Mediterrâneo Oriental no seu tempo, por outro lado, contudo, não deixava de procurar também preservar a sua ligação com o mundo judaico que o viu nascer. Como diz G. Mader: «...the historian “between Jerusalem and Rome” engages his Greco-Roman readers in their own terms, gives plausibility to an interpretation designed to deflect animus and criticism from the Jews as nation, while at the same time explaining the Romans to the Jews» (Mader, 2000: 147).
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Dois anos antes do eclodir da insurreição judaica do ano 66, Josefo fizera parte de uma embaixada enviada a Roma com o intuito de libertar alguns sacerdotes judeus cativos na urbs. Auxiliado por um actor aí residente, chamado Alituro e, ao que consta, pela própria esposa de Nero, Popeia Sabina, consegue levar a cabo a sua missão com bastante sucesso, tendo mesmo recebido presentes de Popeia como sinal de reconhecimento (Vida, 3.16). A sua ligação a Roma inicia-se, com toda a probabilidade, a partir dessa altura, revelando-se ainda mais estreita no decurso da rebelião que se avizinhava. Chegou-se até mesmo a afirmar, se de facto não se iniciou aí, na viagem que fez a Roma, uma ligação política que influenciaria o comportamento de Josefo durante a rebelião [...]. Existindo ou não, a partir desse momento, uma militância de Josefo em colaborar numa integração pacata da Judeia no mundo romano, a verdade é que a sua observação da realidade política e social de Roma tenha talvez favorecido a sua ligação, não apenas cultural, mas também política, com o Império; ou, pelo menos, a boa vontade que demonstrou em integrar-se no mundo romano e helenístico.
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O colaboracionismo velado de Josefo e a sua duplicidade, antes e durante a guerra é, de resto, assumido pelo próprio na sua autobiografia; ainda antes do eclodir do conflito, face à turbulência dos mais radicais, afirma que, reunido com a elite sacerdotal e os Fariseus, decidiu-se simular o apoio aos insurrectos, de forma a preservar no imediato as suas posições internas: «dado o claro e actual perigo para nós próprios, dissemos que concordávamos com as suas opiniões» (Vida, 5.22). Tratar-se-ia claramente de uma manobra em que as elites moderadas acediam à pressão dos insurrectos para os melhor poder controlar. Uma elite que, atemorizada com os levantamentos de forte base popular, procurava sustentar a sua própria posição, fazendo um jogo duplo enquanto esperava pela salvação vinda de Roma, possuidora da força militar necessária para estabilizar a situação: «Fizemos estas coisas antes de Cestius8 chegar com uma grande força para acabar com a rebelião» (Vida, 5.23).
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Com efeito, Josefo acabou por ser designado para liderar a defesa da Galileia, assim que as coisas tomaram irremediavelmente o rumo da violência. O cerco movido pelos Romanos a Jotápata, lugar em que se entrincheirara com as tropas a si consignadas, teve o desfecho que se esperava no ano de 67: a cidade é tomada e os seus defensores renderam-se aos Romanos. O que surpreende neste episódio é a argumentação utilizada por Josefo, que lhe permitiu não apenas salvar a vida, mas também sair beneficiado da aventura. Perante Vespasiano, que assumia ainda a posição de general ao comando dos sitiantes, Josefo afirmou que Deus lhe teria confidenciado em sonhos que a Fortuna estava ao lado de Roma e que esta traria a vitória às legiões. Mas ainda vai mais longe: afirma mesmo que o conquistador de Jotápata se tornaria, um dia, imperador: «Pensas que Nero e aqueles que lhe sucederem, antes da tua acessão, irão continuar? Tu serás César, Vespasiano, tu e o teu filho aqui presente» (GJ, III, 401). [...]
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Ler Texto integral AQUI
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Fonte: Marcel Paiva Montes, Revista Sapiens, Os Essénios na Obra de Flávio Josefo - Algumas Considerações, sob a perspectiva da Utopia

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

"Dor de Cabeça"...

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Akhenaton - o Faraó Herege

A figura de Akhenaton abriu um verdadeiro conflito de opiniões entre os egiptólogos. Alguns historiadores consideram-no como um homem submergido por uma espiritualidade desconhecida até então na antiguidade. Mostrou-se incapaz de resolver os complicados assuntos do estado, mas foi criador de um culto monoteista completamente inovador. Outros são de opinião que Akhenaton foi uma personagem dominada por uma ambição pessoal que quase arrastou o Egipto para o abismo. Este texto faz uma aproximação à figura do "Faraó herege" através da bibliografia existente tendo em conta o conjunto de todas as opiniões. [...]
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Continuar a ler AQUI, em Castelhano.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

O Que Não Mostra o Egipto

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Uns podem dizer que é o poder da comunicação; o Facebook, o Messenger, o Myspace, o Youtube, etc. Outros que não, que isso tem pouco a ver, que o problema é a democracia, ou a falta dela. Outros dirão que é a ausência de liberdade; a repressão, a ditadura, enfim; cada um terá a sua visão. Mas, na minha perspectiva, a questão fundamental da revolta de cariz popular, aparentemente sem liderança conhecida, que está em marcha no Egipto, resulta de tudo isso, da facilidade de comunicação, do anseio popular por democracia e liberdade e, acima de tudo, resulta de algo muito mais prosaico e básico: fome, carência das coisas mais elementares a que nós, na europa, já não damos muito valor a não ser quando uma qualquer pequena crise, como a do açúcar recentemente, nos faz olhar para a falta que nos fazem as coisas que não valorizamos face à facilidade com que nos chegam.
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Mesmo que o quisesse não conseguiria deixar de olhar para o Egipto sem simpatia e carinho. Não, já não falo do Egipto de Ramsés II, dos territórios de Gosen, da escravatura do povo Hebreu, das pragas. Não falo desse Egipto, falo do Egipto de sempre, de ontem, de hoje, de uma civilização multisecular que me prendeu quando tive que a estudar.
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Depois de Israel, o Egipto é, naquela região do mundo, a nação que mais estudei e que mais prendeu a minha atenção desde sempre. Por razões óbvias primeiro, e pelo facto de ser cristão, mas por necessidade e gosto pessoal depois. É por isso que olho para aquela gente que está todos os dias na praça Tahrir, no Cairo, a clamar contra um governante que quer longe dali, com compreensão e simpatia. Vejo crianças, homens, mulheres, jovens, velhos, pessoas de todas as idades a gritar por liberdade e justiça social. Compreendo a sua revolta: eles clamam por tudo, mas fundamentalmente por pão e direitos que lhes foram retirados por um país dirigido por cleptocratas. E estão ali, todos os dias, como se fora uma festa, a festa da liberdade de poderem gritar que têm fome mas também sede de justiça. Ver muçulmanos e cristãos juntos a manifestarem-se pacificamente, dá-me a noção da justeza do seu grito. Não vejo queimarem bandeiras de Israel ou americanas, na praça Tahrir. Mas isso acontece nos grupos de apoiantes do actual presidente egípcio que culpam até os jornalistas por tudo o que está a acontecer.
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Dizem-me os meios de comunicação que Mubarak possui uma fortuna pessoal avaliada em 70.000 milhões de dólares. Pergunto-me como é que foi possível a um militar de carreira acumular tamanha fortuna ocupando apenas o lugar de presidente e mesmo assim insistir que é a solução para a crise ? E o seu povo a passar necessidades debaixo da sobranceria do seu olhar e a sobreviver com uma média de um dólar diário .
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Compreendo a luta dos povos árabes, mas não posso deixar de temer o radicalismo de algumas correntes islâmicas que procurarão aproveitar a onda de revolta social. Não sei se os povos alcançarão apenas aquilo porque clamam ou se terão que sofrer, outra vez, porventura com configuração diferente, aquilo de que se querem agora libertar.
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No meio de toda a agitação, particularmente no Egipto, e marginalmente a ela, emerge sempre o nome de Israel. Atento, seguramente. Esta revolta pode caber-lhe por tabela conforme aquilo que sair do Egipto quando assentar o pó da revolta popular.
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Enquanto isso, a figueira continua a brotar...
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+ + Jacinto Lourenço

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

O Rapaz do Pijama às Riscas

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Não vejo na televisão aquilo que os canais de televisão querem que eu veja. Vejo na televisão aquilo que desejo ver, e que não é muita coisa, diga-se.
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A televisão por cabo, com as designadas box's, trouxe para muitos esta liberdade de só vermos aquilo que efectivamente desejamos, programando previamente coisas que serão vistas mais tarde. Foi assim que me aconteceu ontem à noite, após ter regressado a casa, com o filme "O rapaz do pijama às riscas". Não é um filme recente. Nem sequer um daqueles ícones das películas cinematográficas de que se fica a falar para o resto da vida. Embora estivesse por mim referenciado, ainda não tinha acontecido ver.
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Já o disse aqui: acho que a minha geração, tendo nascido uns anos largos após o fim da segunda guerra mundial, foi a última tocada por esse horror. Não faltavam livros e filmes que retratavam o que tinha acontecido. Chegaram-nos heróis de cuja existência duvidamos muito, produzidos, quiçá, por uma indústria que queria apenas facturar à custa de histórias de guerra e que sempre tiveram um público próprio. Mas mais importante do que isso, ou apesar disso, o que elas contavam, mesmo trazendo à mistura exageros e estilos romanceados, levavam-nos a perceber claramente o que se tinha passado na europa e no pacífico, e o que estava por detrás da urdidura da guerra . No anos em que vivi a minha adolescência, os traumas e lembranças amargas estavam à distância de duas décadas, muito ainda à flor da pele, o suficiente para que se ouvisse ainda o eco dos canhões e se sentisse o odor libertado dos fornos crematórios para os céus europeus.
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O "Rapaz do pijama às riscas" é um filme diferente. Deixa em relevo que, mesmo nos piores cenários de choque, demência e horror, a ternura é possível. A guerra está ali confinada à vida dos protagonistas. Desiludam-se os que esperam canhões, disparos, granadas, cenas de mortes fantasmagóricas. Não é disparado um tiro durante o filme, tanto quanto me lembro. Mas a densidade psicológica deste atinge-nos através do écran. Impossível ficar indiferente à história. A ficção, neste filme, mistura-se com a realidade, que podia ter acontecido assim, daquela maneira, na vida dos principais protagonistas: dois rapazinhos de oito anos de idade, Bruno e Shmuel; um, alemão, filho do militar responsável de um campo de concentração na Alemanha, o outro, judeu, prisioneiro nesse campo. O que vimos no filme é a luta entre a verdade e a mentira, a inocência e a maldade. A estupidez e a honra. A degradação do ser humano pela manipulação dos sentimentos, que é sempre possível em tempos de fragilidade psicológica e social dos povos e das pessoas.
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O "Rapaz do pijama às riscas" lembrou-me que ainda vivo nesta mesma Europa, que deu por encerrado o triste capítulo da segunda guerra mundial há apenas 66 anos. Para as novas gerações, que acham dilatado este intervalo de tempo, talvez fosse bom lembrar que apenas na década de sessenta do século vinte se terá concluido a reconstrução económica e social provocada pela destruição.
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É por isso tudo que sou tão desconfiado relativamente aos novos "eixos" políticos que estão a surgir nos tempos que correm, integrando países que querem dominar e esmagar outros, pela economia e poder do dinheiro, facto que não conseguiram pela força das armas nesta europa que ainda não lambeu todas as feridas da segunda guerra mundial. Os silêncios e compromissos envergonhados podem ser hoje tão perigosos para a europa como o foram antes de 1939. Infelizmente, a memória é curta. A história, essa, não perdoa visões estreitas.
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Como cristão, todos os dias oro ao meu Deus para que os homens entendam o seu destino espiritual e deixem de promover políticas que sejam geradoras de miséria e desigualdade humana sempre susceptíveis de, mais tarde ou mais cedo, nos conduzirem a becos sem saída.
+ + + + + + Jacinto Lourenço

domingo, 6 de fevereiro de 2011

O Tempo de Deus

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Deus não tem pressa. Aliás, desconfio que ele não tenha relógio. Mas, ao contrário do que possa parecer, a frase "Deus tarda, mas não falha" também não lhe diz respeito.
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Acompanhe o que talvez seja a segunda proposta de trabalho de Deus ao homem. É bom lembrar que a primeira — feita a Noé —, da ideia à realização, levou não menos do que cem anos. Agora, trata-se de um projeto novo. Uma espécie de PAC (Plano Ancestral de Crescimento) da humanidade: "Quando Abrão estava com noventa e nove anos de idade o Senhor lhe apareceu e disse: ‘Eu sou o Deus todo-poderoso; ande segundo a minha vontade e seja íntegro. Estabelecerei a minha aliança entre mim e você e multiplicarei muitíssimo a sua descendência’" (Gn 17.1-2).
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O leitor sabe do que Deus está falando. E não é a primeira vez que o Todo-Poderoso toca no assunto. Cinquenta anos antes, Deus havia sugerido uma mudança radical na vida do velho e manso Abraão. E, até agora, nada. Mas Deus repete as suas intenções.
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Aqui, volto ao argumento inicial. Nós temos pressa — necessidade intensa de alcançar um objetivo. Não nos contentamos com o “enquanto”. A travessia não nos interessa, queremos chegar “lá”. No entanto, Deus não é assim. Ou você faria um contrato de longo prazo com alguém de 99 anos de idade? Mas, ao conversar com Abraão, como se fosse necessário, Deus relembra também quem ele [Deus] é. Depois, como se falasse a um bando de adolescentes com hormônios à flor da pele, reclama obediência e integridade. E, por último, com fina ironia, fala dos seus planos, claro, para o futuro...
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Deus não tem pressa. Melhor, Deus tem tempo. E, graças a ele, mesmo sem saber exatamente que horas são, nós cabemos nos seus planos. Nesses dias corridos e em meio aos imprevistos, não há melhor consolo do que escutar: “Ainda dá tempo”... (Sl 90). Nas palavras de C. S. Lewis, "a Deus pertence o nosso futuro, não importa se o deixamos em suas mãos ou não".
+ + + + + In Revista Ultimato ( Título original: Deus não tem pressa )

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Aprender com os Descobrimentos Marítimos Portugueses

+ + Sábio conselho de D. Francisco de Almeida, primeiro vice-rei da Índia, a El Rei D. Manuel I sobre qual devia ser a orientação da política régia no respeitante ao comércio com o Índico. +
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Se D. Francisco fosse vivo, acredito, daria, adaptado aos dias de hoje, o mesmo conselho.
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Portugal precisa de homens desta dimensão, sabedoria e visão global.
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" Quanto mais fortalezas tiverdes mais falho será o vosso poder; toda a nossa força seja no mar, porque se nele não formos poderosos tudo logo será contra nós... Enquanto no mar fordes poderoso tereis a Índia por vossa e se isto não tiverdes no mar pouco vos prestará fortaleza na terra "
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( Fonte: O Império Português no Oriente - Jaime Cortesão )

Kepler Descobre Seis Planetas fora do Sistema Solar

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O telescópio espacial Kepler detectou seis planetas que orbitam em redor de uma estrela similar ao sol. Além disso, descobriu mais de mil possíveis novos planetas fora do sistema solar.
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O anúncio foi feito [...] quarta-feira, numa conferência de imprensa, onde os cientistas se referiram a esta como a mais importante descoberta na busca por exoplanetas (aqueles que orbitam à volta de estrelas que não o Sol) nos últimos 15 anos.
+ O novo sistema planetário foi encontrado pelo satélite Kepler, da Nasa, ao redor de uma estrela batizada de Kepler-11, situada a 18,92 quatrilhões de km (2 mil anos-luz) da Terra.
+ Cinco dos planetas agora descobertos estão muito próximos da sua estrela e percorrem a sua órbita completa em 10 a 47 dias. Muito quentes, estão longe de oferecer condições propícias à vida. O sexto planeta, mais longe da estrela, percorre a sua órbita em 118 dias.
+ Na conferência de imprensa, a Nasa anunciou ainda que o telescópio Kepler registou mais de mil possíveis planetas fora do nosso sistema solar. Quer isto dizer que o número de exoplanetas pode duplicar: até hoje sabe-se da existência de 500. A existência desses exoplanetas ainda não foi confirmada, mas a expectativa é que 90 por cento sejam confirmados.
+ Lançado em 2009 pela Nasa, o telescópio espacial Kepler tinha como missão procurar planetas irmãos da Terra susceptíveis de sustentar vida, ao observar mais de 100 mil estrelas parecidas com o Sol.
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In Diário de Notícias de 02 de Fevereiro de 2011

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Camus e a Felicidade - Uma Monografia Fotográfica publicada pela filha do Pensador

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No seu ensaio filosófico, "O mito de Sísifo", Albert Camus descreveu o sentimento do absurdo, o reconhecimento profundo do vazio e da intranscendência do homem face aos cosmos, ao seu destino, e à história de que só se sente resgatado quando age como se pudesse mudar o universo. +
Depois de um parágrafo como esse, é difícil não imaginar o filósofo como uma personalidade alheia à alegria de viver e enredado na espiral sem fundo do existencialismo. Nada mais ilusório.[...]
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Continuar a ler AQUI, em castelhano, no jornal El Mundo

"Ali Bábá e os Quarenta Ladrões"/ou a História de um País Europeu que mais parece das Arábias,para alguns.Os Contribuintes,esses, fazem de "Camelos"..

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Um dos motivos porque o Governo se tornou fiador de 20 mil milhões de euros de transacções intra-bancárias, é porque os que nos governam hoje vão estar como gestores da banca amanhã, pois os de ontem, já estão por lá hoje.[...]
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Ler AQUI no blogue A Ovelha Perdida

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

"Google permite "Viajar" por 17 Museus do Mundo"

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A Google revelou hoje mais uma novidade. A partir de agora é possível, através do Art Project (http://www.googleartproject.com/) visualizar 17 dos museus de arte mais importantes do mundo sem sair de casa ou mesmo da cadeira.

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A nova ferramenta da Google permite a qualquer utilizador descobrir e visualizar virtualmente mais de mil obras de arte em alta resolução e 17 delas com super resolução.
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A visita aos 17 museus de 11 cidades espalhadas por 9 países permite ainda conhecer a história de cada autor, obra ou museu, "passear" pelas galerias e seleccionar as obras de arte que mais lhe interessam.
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O painel de informação permite aos utilizadores acederem ainda a mais detalhes sobre a obra de arte, encontrarem outros trabalhos do mesmo artista ou visualizarem vídeos relacionados no YouTube.
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In Diário de Notícias de 02 de Fevereiro de 2011

Azeite, Vinho e Fermento

...Encontramos o azeite no Velho Testamento na botija da viúva endividada; no reservatório do candeeiro da Casa do Senhor. Na unção de David, ainda adolescente, no quinto verso do Salmo 23, e, entre tantos outros, na visão do profeta Zacarias. Azeite fala de sabedoria; azeita pode ser um rosto brilhando pelo perdão de Deus; azeite é uma bênção surpresa quando tudo o mais se acabou. Azeite é o gosto da vitória; azeite é a unção da promessa de Deus.
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Na parábola do samaritano o vinho foi usado para limpar as feridas.
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Azeite e vinho falam de solidariedade, de compaixão, de cuidados. Azeite e vinho são as atitudes do cristão verdadeiro que vai além das palavras; além da teologia. A sequência de uso é azeite e vinho. Primeiro a unção do Espírito, de seguida a alegria do Espírito. O azeite amacia e refresca um coração ferido e o vinho lava as impurezas e a maldade do pecado. Para adquirir deste azeite e deste vinho é preciso ir à fonte da misericórdia e da compaixão. É preciso depender de Jesus.
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Quem ama vai atrás, busca e procura até achar. Quem tem azeite e vinho anda na presença de Deus e navega como um barco cuja vela se faz cheia sob o vento da vontade do Espírito Santo. Isto não se aprende com a leitura de compêndios e comentários. Não vem anexo a um canudo de teologia, mas em andar com o Senhor.
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O fermento é a substância que incha, estufa, azeda, que enche de vento uma massa. O fermento, para fazer efeito, precisa ser misturado. Espiritualmente falando o fermento é o mundo misturado com o coração do cristão. O fermento é a hipocrisia. É uma santidade de aparências. É uma vida cristã falsificada, mascarada.
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O sacerdote e o levita viram o ferido, mas a sua religião estava acima de qualquer coisa. Sabiam o sagrado, mas não tinham mais o Espírito de Deus. Eram vazios de sentimentos, de compaixão. O sacerdote e o levita eram como barcos cujas velas já tinham apodrecido pela falta de uso.
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Coisa interessante. Esta parábola é muito actual. Está surpreendentemente contextualizada no nosso tempo e país. Uma geração de sacerdotes e levitas têm trabalhado nas nossas Igrejas. Eles estão muito ocupados com o que acontece no mundo. Estão encantados com o poder, com a política, com o dinheiro. O fermento já arruinou a sua vida espiritual. Não têm mais tempo para a compaixão. Não se preocupam mais com os feridos nem com os perdidos, pois já não há mais sinal de azeite e vinho nos seus corações. O Espírito Santo já foi apagado das suas vidas, com tantas atitudes mesquinhas, avarentas, falsas aparências. O óleo da unção já não brilha nas suas faces. É muito provável que também estejam perguntando: E quem é meu próximo? Já se esqueceram.
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E se eu não tomar cuidado, posso tornar-me hipócrita da mesma forma. Por isso o exercício da compaixão deve ser sempre lembrado, praticado. Não basta ter uma biblioteca cristã na cabeça, é preciso muito mais que isso para ser um bom samaritano: manter a alegria de servir, de visitar, de sorrir e chorar junto, de ajudar, de amar, de perdoar pela presença do Espírito Santo.
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terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Memórias são Âncoras que nos Agarram em Terra

Lavre não me viu nascer, mas "pariu-me" a infância e a adolescência. E isso deixou-me marcas indisfarçáveis que tempo nenhum pode apagar. Aí volto, com pouca frequência, a espraiar o olhar pelos campos onde os meus verdes anos saltitaram e a pisar o chão dos lugares que me viram crescer, muito mais apertados hoje do que na minha infância, talvez porque o meu ponto de observação se deslocou. Só aí sinto o cheiro da terra-madre. É aí que estão as minhas raízes. Foi em Lavre, numa velha "carrinha" da Gulbenkian, que despertei para os livros, sendo por eles levado em aventuras e viagens inenarráveis a que só a imaginação para onde a leitura me conduzia, permitia. De quinze em quinze dias lá estava eu no largo do coreto à espera do serviço itinerante; era o primeiro a chegar, para ser o primeiro, da diminuta "clientela", a entrar e escolher à vontade os seis livros que me autorizavam. Quando viajo para Lavre, hoje, faço-o quase incógnito. Não porque seja escolha pessoal, mas porque as memórias visuais das pessoas contemporâneas da minha vivência na vila ficaram descoloridas, gastas, ou simplesmente apagadas pelo tempo que, indubitavelmente, se encarrega de não esperar por nós na voragem a que correm dias, semanas, meses, anos. +
Quem revisita as memórias de infância, "espreita pelo buraco da fechadura” os verdes anos e a nostalgia que carregam consigo. Quase conseguimos “cheirar” os odores desses momentos mais recuados em que desfilávamos livremente pelos campos, colhendo aqui e ali uma ou outra peça de fruta em pequenos mas tentadores pomares que nos desafiavam à aventura do gesto fugaz e comprometido.
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São curiosas, as nossas memórias; mais parecem âncoras que nos agarram em terra . Como navio encalhado, insistimos em ficar mentalmente no mesmo lugar onde fomos felizes, mesmo se a corrente da vida foi forte. Voltamos atrás no tempo e visitamos, violados, na estética sonhada, os lugares de uma pequena vila que regurgitava de gente ao sábado no final de tarde, e à noite. A camioneta das seis e as novidades que trazia de Coruche ou de Montemor. As encomendas, que ávidos disputávamos na expectativa de que entregues aos lojistas estes soltassem cinco ou dez tostões. O sr. João Peça, sim, era pródigo, chegando por vezes aos quinze tostões… Os "bébés" recém-nascidos da sra. Cacilhas, que me rendiam um cruzado por lhes proporcionar triste destino aliviando a dona da insensatez da sua gata, vadia sempre que lhe apetecia. Sim, pois, e o Augusto Roque com os sorteios da roda para as quartas de amêndoas ( saía muitas vezes ) por altura da páscoa, mais os casamentos em que nos agatanhávamos, no chão, em luta por algumas amêndoas que os padrinhos de casamento atiravam, para o chão poeirento, do alto das escadas da matriz, ou não atiravam, arriscando, caso disso, vaias de “casamento chocho que o padrinho é mocho”.
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A escola primária, o professor Raul, que casou com a "menina do correio", e que fez de mim benfiquista. Sempre que havia eliminatórias europeias lá íamos nós na forma, muito bem comportados, a caminho da "televisão do padre", verdadeiro serviço público de entretenimento, nesta Lavre, em dia de encantos e desencantos conforme o resultado. A professora Helena, de triste memória para mim, pela brutalidade das suas reguadas e ponteiradas por coisas de somenos e a que eu me "candidatava" com regularidade. Os amigos e amigas de infância, a quem perdi o rasto e de que hoje só reconheço o nome : Zé Broa, Manuel Tielas, Palminhas, o Joaquim Lascas, em cuja casa, no armazém da farinha, nos enfarinhámos tantas vezes em loucos jogos e brincadeiras, para não falar do seu enorme quintal ( pelo menos era o que me parecia na altura ) ou dos jogos de bola que aí fazíamos com as bexigas dos porcos que o seu pai matava e que entretanto marchavam em chouriços para o talho. A Badina e a sua irmã Filomena; Manuel José e tantos outros cujos nomes agora não me ocorrem. O forno "semi-comunitário" onde a minha avó Gertrudes cozia alguidares de pão que haviam de durar duas semanas para toda a família, e que era sempre fresco, e eu a brincar com bonecos de massa. Mas igualmente o cheiro a pão cozido da “padaria dos Galegos"…
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Vivências que não esqueço, que me marcaram para sempre, indelevelmente.
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Lavre dos meus encantos de infância feliz.
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Saramago, que uniu e dividiu , havia de por lá aparecer anos mais tarde, no refluxo do PREC, no pós-revolução de Abril. Lavre, onde se "refugiou" em reclusão política e recolecção de vidas, não terá feito dele escritor , mas deu-lhe um passaporte para a fama . Deve-o, em grande parte, ao meu tio-avô João Serra, dito João Mau-Tempo em "Levantado do Chão". Pena que não lhe tivesse feito essa justiça em vida; não foi por lhe faltarem oportunidades...
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Jacinto Lourenço