sexta-feira, 5 de março de 2010

Um Bilião de Euros e 28 Milhões de Abortos

Há coisas que de tão estupidamente consideradas normais no mundo de hoje nos ofendem ética, moral, humana e espiritualmente. Falo-vos de duas notícias que o fim da tarde de ontem me trouxe, quando estava "preso no trânsito" de um só camião que decidiu avariar-se na única via de saída que me era possível tomar ao fim de um dia de trabalho para regressar a casa e encetar outras responsabilidades. Parado, ali, sem alternativa, para não me sentir prisioneiro das circunstâncias fechei-me no meu carro a escutar a rádio. A primeira "ofensa" ouvida veio na forma de apresentação dos resultados económicos da "Eléctrica portuguesa", dito assim na linguagem bolsista das notícias sobre os índices de transacções de capital na Bolsa de Acções, e que atribuiam à EDP um lucro de Mil Milhões de Euros, no exercício de 2009. Sim, não há engano, são mesmo Mil Milhões de Euros. Não discuto este valor absoluto nem o processo para o atingir. Claro que as empresas têm que gerar lucros e mau será se isso não acontecer, mas... A segunda "ofensa" chegou-me através do programa da Antena 1, "O Explendor de Portugal", onde foi atirado para cima da mesa dos comentadores residentes do programa um outro número esmagador : a cada 26 segundos, é feito, na União Europeia, um aborto. 3.300 abortos por dia, 1.2 milhões de abortos por ano e Vinte e Oito Milhões só no período entre 1994 e 2008. E tudo isto se refere apenas a I.V.Gs ( Interrupções Voluntárias da Gravidez ), não "terapêuticas", se bem entendi. Segundo Eduardo Hertfelder, presidente do IPF ( Instituto de Política Familiar ), os dados apurados são um reflexo de «milhares de tragédias pessoais, familiares e comunitárias». Estes são números que, segundo o Jornal de Notícias dá conta, serão oficialmente apresentados na próxima Terça-Feira no Parlamento Europeu. Uma ofensa pode levar a outra, mesmo sem fazermos qualquer outro tipo de extrapolações relativamente a uma e outra situações reportadas. A verdade é que se um regime político, ou um conjunto de regimes políticos, permitem uma tão grande desigualdade na acumulação e distribuição da riqueza produzida, quantas vezes com a exploração intensiva da força de trabalho de milhares de pessoas em completa precarização no que respeita à contratação e aos vínculos laborais, então está montada a trama tecida pelas grandes empresas que operam basicamente em monopólio com a cobertura do estado e em que a livre concorrência não passa de uma figura de estilo para servir apenas de um mascarado Back-Ground democrático. Não fico tranquilo, e muito menos indiferente, quando muitos milhares dos meus concidadãos não têm emprego para ganharem a sua vida, nem pão para colocar na mesa dos filhos. É de impotência o sentimento que me assalta quando olho para o meu país e o vejo cada vez mais injusto, mais desigual e mais capaz de promover esta injustiça em que à esmagadora maioria das pessoas se pedem sacrifícios e mais sacrifícios e, pior ainda, esse pedido se vai eternizando, ano após ano, sem um fim ou um intervalo temporal à vista e, depois, empresas público-privadas apresentam resultados económicos absolutamente descomunais e despropositados, e o pior é que nem sequer eram precisos um Bilião de Euros para resolver muitos dos eternos problemas com que o país se debate. Dir-me-ão: " É a economia estúpido ". Não, este tipo de economia não serve a um país que está na cauda da Europa, salvo se a riqueza produzida for, em absoluto, melhor distribuida. Admito que por detrás dessa outra hecatombe que se encerra em 28 milhões de abortos na Europa dos 24, ( quase 3 vezes a população de Portugal em vidas ceifadas ) no curto espaço de 14 anos, existam muitas tragédias pessoais, familiares e comunitárias, mas aquilo que sei, de certeza absoluta, é que o que a humanidade semeia irá sempre colher. Tenho aliás a firme convicção de que os números a serem apresentados na próxima Terça-Feira no Parlamento Europeu, se pecam, é por defeito. A relativização ética e moral, a negação de Deus enquanto Absoluto Supremo na direcção da vida e das vidas das pessoas nesta velha Europa, a juntar à pobreza, à miséria, à injustiça, à falta de emprego, ao acesso a cuidados básicos de saúde, à educação na escola e nos lares, à falta de ensino e formação, ao individualismo, ao hedonismo, entre outras questões, fazem dos europeus uma população em clara decadência e regressão do ponto de vista humano. Quando se perdem valores e padrões ao ritmo que a Europa insiste em perder, o resto do caminho faz-se a grande e miserável velocidade. A crise, seja lá isso o que for, mais do que económica é, pelo menos na Europa, Ética, Moral e Espiritual. A Europa, mais do que de pão, precisa ter fome de Deus. O resto virá por acréscimo.
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Jacinto Lourenço